Páginas

sábado, 3 de janeiro de 2009

UMA VIAGEM AO FUTURO...




São Paulo, 31 de dezembro de 2014.
#
Já era quase meia noite. Faltavam apenas cinco minutos para a virada de ano, e Edivaldo como sempre, havia saído tarde de seu trabalho. Dia após dia ele trabalhava duro como garçom no restaurante de um conceituado Hotel da capital paulista, isto, desde que chegou a São Paulo. Vindo do nordeste brasileiro para tentar uma vida melhor na maior metrópole do país, ele se esforçava o máximo que podia para progredir às custas de seu trabalho. Era comum ele passar as viradas de ano na rua, dentro do metro ou de algum ônibus voltando para casa, pois seu trabalho exigia muito dele, ainda mais nas épocas de festas. Ele ainda tinha uma vantagem sobre seus outros colegas de profissão. Sempre foi liberado para sair mais cedo do trabalho, afinal ele era muito esforçado. Entrava muito cedo e saia tarde todos os dias, mas mesmo saindo mais cedo que os outros, nunca conseguia chegar em casa a tempo para festejar com a família o Natal ou o Ano Novo. O gerente do restaurante, desde o inicio, gostou do jeito simples e bem educado de Edivaldo. Ao contrario dos demais, ele era sensível, tinha muito bom gosto e sabia como se portar em qualquer lugar. Uma pessoa que veio de família humilde, sem condições de lhe proporcionar bons estudos. Contudo, ele era diferente.
#
Desde muito novo, quando aprendeu a ler, começou a estudar com afinco. Ele se tornou um autodidata. Sabia de tudo um pouco e em alguns assuntos, ele se aprofundava mais. Com 28 anos de idade, ele já havia aprendido a falar três idiomas que dominava com fluência. No ramo em que ele trabalhava, ainda mais na área dos jardins, ser poliglota era indispensável, principalmente em épocas especiais, onde os turistas invadiam a cidade. Um rapaz como ele, com boa aparência, educado, inteligente e ainda por cima poliglota, foi um verdadeiro achado para a empresa em que ele trabalhava. Ele sempre foi um homem que nunca reclamou de salários ou horários. Trabalhava constantemente e com afinco. Às vezes até sete dias por semana. Nunca desanimou nem por um instante. Tudo que ele queria, era poder garantir o sustento e algum conforto para sua jovem esposa e seu pequeno filho. Além de fazer de tudo para dar o melhor que podia para eles, ainda mandava algum dinheiro para seus velhos pais no nordeste. Naquela noite em especial, ele estava muito cansado. Com o passar dos anos, com sua inteligência aguçada e sensibilidade intensa, ele prestava muita atenção no comportamento das outras pessoas. A psicologia era uma das coisas que mais o atraia. Em determinados momentos, quando chegavam as festividades de Natal e Ano Novo, o que mais lhe chamava a atenção, era a maneira como as pessoas encaravam estas épocas.
#
Cada qual agia de uma forma. Uns poucos eram pessoas de fé e acreditavam num mundo melhor, com mais amor, mais respeito, mais solidariedade para todos sem exceção. Estes se cumprimentavam ardorosamente e se abraçavam trocando votos de prosperidade, saúde, amor e fé no coração. O que mais lhe chamava a atenção era que a maioria, nem sequer se cumprimentavam. Elas evitavam demonstrações de carinho através de contato físico. Demonstrar amor para eles, nem pensar! Ano após ano, aquilo preocupava seu coração sensível e ele ficava imaginando, aonde a raça humana iria parar agindo daquela forma. Como de costume, ele entrou na estação Paraíso do metro. Ele sentia como sempre uma tristeza enorme por não poder estar com sua família, fosse no Natal ou Ano Novo, e uma angustia apertava seu peito naquela noite, de uma forma que ele nunca havia sentido antes em sua vida. A Avenida Paulista estava prestes a comemorar mais uma virada e ano sensacional com muitos shows e a grande queima de fogos à meia noite. Havia muita gente na plataforma e tudo que ele queria, era poder se sentar quando entrasse no metro. Trabalhando em pé o dia todo, indo e lá para cá, atendendo a todo tipo de pessoas e mesmo sendo por vezes humilhado por alguns, ele sempre procurava manter seu controle. Ele acreditava piamente que era seu dever de pessoa educada e crente em Deus, que fizessem o que fizessem para tira-lo do sério, ele tinha que se manter inalterado. Em sua mente, um homem inteligente não se deixa abalar pelo mau comportamento alheio.
#
Violência para ele era sinal de espírito fraco. Não representava de forma alguma, demonstração de força, ou poder. Após esperar poucos minutos, a composição chegou. Havia uma multidão na estação Paraíso que se dirigia à Avenida Paulista para as comemorações da virada de ano. De alguma forma, quando as portas do metro se abriram, ninguém entrou no último vagão. Ele estava completamente vazio, mas todos se dirigiram para os outros vagões. Edivaldo meio atordoado de cansaço, não pensou duas vezes. Mesmo sem compreender o motivo pelo qual aquela multidão não quis embarcar naquele vagão, ele entrou e se sentou. Seus pés doíam. Seu corpo todo estava sentindo o peso do cansaço. Seu destino era a estação Vila Madalena, e de lá, teria que pegar um ônibus que o levaria até seu bairro, que ficava a quase uma hora de distancia. Pensando em sua família, no carinho e amor que eles compartilhavam juntos, ele pedia a Deus que um dia ele pudesse passar uma noite de Ano Novo com eles. Sonhava em abraça-los com todo amor quando chegasse a meia noite. Do fundo de seu coração, ele desejava que o Ano Novo fosse melhor para todos, que a vida lhes trouxesse paz, amor, saúde e prosperidade. Não só para ele e sua família, mas para a humanidade em geral. Em seu coração bondoso, ele gostaria que as pessoas ficassem mais próximas umas das outras. Que se doassem um pouco mais. Que elas compreendessem o valor de um abraço, de um beijo, de um carinho. Que seus corações se abrissem para a fé. Que elas acreditassem mais na existência de Deus e que se deixassem inundar pela crença de que ele existe e esta presente em todo lugar.
#
Lá, sentado naquele vagão, sozinho, sem absolutamente ninguém além dele, Edivaldo se encostou ao banco e relaxou as pernas esticando-as para frente. Normalmente, ele não conseguiria nem mesmo se movimentar direito devido ao volume de passageiros, mas naquela noite, misteriosamente, o vagão havia de alguma forma sido reservado especialmente para ele. Naquele trajeto diário, ele conhecia todos os detalhes dos túneis do metro. Muitas vezes ele observou as luzes de sinalização de distância entre uma estação e outra que havia dentro deles. Ele gostava de olhar pela janela grande e retangular, as luzes em tons esverdeados, os monitores que lá havia. Suas telas em verdes, colocadas distantes umas das outras em espaços alternados e calculados, por vezes lhe pareciam estar correndo para trás, conforme o movimento do trem. Sem pensar no que estava prestes acontecer na majestosa avenida que estava bem em cima de sua cabeça, ele encostou a cabeça no vidro e enquanto o metro seguia em frente numa velocidade crescente, ele passou a observar atentamente os monitores verdes nas paredes do túnel. Seus os olhos estavam pesados de sono. Ele mal conseguia mantê-los abertos. As luzes deles agora passavam por ele numa velocidade que ele começava a achar que estava além do normal. Parecia que aquela visão o estava hipnotizando. Elas foram passando cada vez mais rápido, até que em um momento, suas luzes se fundiram, transformando-se em um único fio de luz esverdeada, que não parecia ter fim. Edivaldo foi sentindo que seu corpo já não mais respondia à sua mente, e mesmo sem querer, ele adormeceu.
#
Algum tempo depois ele acordou. Ainda meio zonzo, sem distinguir exatamente onde estava. De repente, ele mal pode acreditar no que estava vendo. O vagão em que ele estava não parecia mais o mesmo. No lugar dos bancos duros fixados no chão, havia almofadas transparentes e flutuantes, e ele estava sentado em uma delas. No lugar das janelas grandes e retangulares, havia painéis digitais. Em toda a parede do vagão havia um imenso monitor digital de altíssima qualidade que mostrava imagens que ele nunca havia visto em sua vida. Como nos pequenos monitores digitais espalhados nos vagões do metro de que pegava todos os dias, aquele imenso painel digital mostrava todos os tipos de informação. Pasmo e maravilhado com o que via, ele se pôs a assistir o que estava passando e aos poucos, ele foi acreditando que estavam passando algum filme de ficção. Nas imagens que ele via, as pessoas que eram mostradas usavam roupas estranhas. Elas mais pareciam seres de outro planeta, do que humanos. Enormes letreiros de publicidade faziam propaganda de um lugar que se chamava Unidade de Reprodução Humana do Paraíso. Sem ao menos piscar, ele lia as palavras e digeria as informações de uma forma tão rápida, que ele achou que estava sonhando. Um ser estranho que ele não soube dizer se era homem, ou mulher, dizia com uma face sem expressão, que naquele dia, a aquisição de um novo filho estava sendo facilitada em suaves prestações.
#
Que o parcelamento poderia ser feito, através dos chips de crédito, implantados sobre a pele daqueles seres, que ele quase não conseguia reconhecer como sendo humanos como ele. A figura que fazia a propaganda falava com sua voz metálica e sem expressão, que agora era possível se personalizar o filho que fosse adquirido sem nenhum acréscimo. Que era possível escolher qualquer modelo de acessório e montar um filho, do jeito que quisesse. Imagens de vários modelos de filhos eram mostradas. Umas após as outras elas desfilavam diante de seus olhos e ele estava horrorizado com as aparências daqueles pequenos seres. Havia cabelos, orelhas, narizes, bocas, ou olhos de todos os formatos. De todas as cores. A maioria e ao que parecia, as que mais faziam sucesso, eram aquelas cuja pele, era prateada e que usavam roupas transparentes, o bastante para ser ver que não havia órgãos sexuais em seus corpos. Todos mais pareciam com manequins de loja, do que seres humanos. O coração de Edivaldo batia cada vez mais rápido. Sua mente brilhante aos poucos foi se ajustando à realidade em que ele estava vivendo. Ele, de alguma forma compreendeu que por causa de algum distúrbio temporal ele havia se movido entre aquilo que chamamos de espaço-tempo e foi transportado a outra época no futuro. Seus pensamentos se desencadeavam em uma sequência precisa. Era como a queda de uma infinidade de peças de dominós, uma empurrando a outra, na mesma direção.
#
Na tela agora ele via as imagens de outra Unidade de Reprodução Humana, mas desta vez, com o nome de Trianon. Estava sendo anunciava uma grande liquidação de peças e sobressalentes, para as unidades humanas dentro do prazo de validade, valendo até o ultimo minuto do ano. Edivaldo ao ouvir a expressão prazo de validade, concentrou sua atenção no que dizia a propaganda. Aquele era o dia da grande venda de lançamento das novas unidades Alpha PII. Elas vinham com garantia estendida da fábrica que ficava na base marciana de Taurus IV. Seu prazo de validade poderia ser escolhido pelo comprador, podendo variar entre 15 e 30 anos, ao contrário das ultrapassadas unidades humanas chamadas Luna X, que tinham um prazo único de validade de 50 anos.
#
O ser estranho que falava sobre a nova unidade, argumentava que agora, em menos tempo, era possível trocar a unidade velha, por uma novíssima e repleta de novos recursos. Estava claro para ele, seja qual fosse o ano em que ele se encontrava, o ser humano era descartável. Não havia mais amor, não havia mais apego sentimental. As pessoas eram feitas em linha de produção e saiam de fábrica, com um prazo de validade. Elas não mais podiam envelhecer e aprender vivendo. Quando eram montadas nas Unidades de Reprodução Humana, já saiam de lá com uma memória pré-instalada. Eram entregues aos felizes compradores com o conteúdo e a capacidade intelectual que escolhessem. O pânico foi tomando conta de Edivaldo.
#
Então era naquilo que o ser humano havia se tornado?
#
As pessoas agora, simplesmente chamadas de unidades, adquiriam outras unidades com as características e prazos de validade que escolhessem. Se não estivessem contentes com o produto, bastava trocar por um novo, enviando o indesejável para lugares chamados de Unidades de Desativação, que coincidentemente estavam sendo mostradas naquele instante nas imagens da tela na parede, daquele vagão do futuro. Enquanto ele pensava no quanto a humanidade havia perdido ao longo dos séculos, numa das imagens mostradas das unidades em oferta, ele pode ver com extrema precisão através do vídeo digital de alta resolução, ano, data de fabricação e data de validade, gravada em baixo relevo, na nuca de um deles, e lá estava escrito:
#
Data de fabricação: 31/12/3008
#
Data de validade: 31/12/3038
#
Edivaldo suava gelado e um arrepio subiu pela sua nunca o fazendo estremecer.
#
Sua respiração estava cada vez mais difícil. Era terrível tudo aquilo que ele estava vendo, e pior era imaginar como um homem inteligente o faria, as terríveis as consequências de tudo aquilo que ele estava presenciando.
#
As pessoas, as unidades, não nasciam, elas eram fabricadas, montadas de acordo com o desejo de outras unidades. Elas não morriam, eram desativadas. Tudo ficou pior quando ele viu outro ser estranho, desta vez de pele de cor dourada, anunciado a grande cerimônia de desativação que iria acontecer naquela noite. Exatamente às 00h00as do dia 01 de janeiro de 3009, quando as obsoletas unidades fabricadas há 50 anos seriam desativadas, tendo vencido naquele dia seu prazo de validade, dando lugar a outras mais modernas e mais funcionais.
#
Na tela, ele pode ver as imagens da grande desativação que ocorreu na virada do ano anterior. Edivaldo, boquiaberto agora sabia que ser desativado, significava literalmente, ser desintegrado por raios laser e ele se lembrou das imagens aterrorizantes do Holocausto, um dos maiores crimes da humanidade. A que ponto chegou a raça humana! Ele pensou. Não havia mais contato físico. Ninguém mais se apegava a ninguém. Não havia mais amor, os sentimentos desapareceram da face da terra. A frieza e insensibilidade gradativamente se instalaram nas mentes e nos corações dos homens, desde a época de onde ele havia vindo, até chegar àquelas aberrações, imitações de seres humanos. Chamadas de unidades, como se fossem simples objetos, sem alma e sem coração. Em determinado momento ele sentiu que o que quer que fosse aquilo em que ele estava viajando estava parando. O vagão do futuro parou como uma pluma. Aquilo em que ele estava sentado, simplesmente se deslocou em direção a um dos cantos que se abriu de uma forma espetacular para Edivaldo. A parede desapareceu em frente aos seus olhos e o assento flutuante o levou para fora, rumo a uma plataforma toda feita de vidros espelhados. Ele não conseguia enxergar nada do outro lado deles, muito menos, uma saída daquele lugar. O assento onde ele estava, ao chegar em frente a uma coluna arredondada, apenas estacionou ao lado dela e começou a subir, levando-o numa velocidade alucinante rumo ao alto.
#
Quando ele pensou que ia ser esmagado contra o teto de vidro que ele via lá em cima, ele abriu-se como uma escotilha, e Edivaldo, se viu em meio a uma imensa avenida. Um cartaz digital dizia "Estação Consolação". Petrificado, ele compreendeu que ele estava na Avenida Paulista, 1000 anos à frente de seu tempo. Nada a não ser o nome no cartaz o lembrava das estações do Metro que ele conhecia. Sem tocar o chão, o assento se inclinou à frente e o despejou num objeto arredondado que lembrou a Edivaldo do escudo do Capitão América, o super herói de quem ele tanto gostava quando pequeno. Ele ao descer em cima daquilo, ele procurou se equilibrar para não cair para fora dele, pois lá embaixo, não havia calçadas, não havia asfalto. Aquela imensa avenida tinha o chão feito de um material brilhante e pelo que podia perceber, nele passava uma corrente de energia imensa que circulava em ambas as direções. Atônito, ele viu varias "unidades" indo de um lado para o outro, em cima de objetos iguais ao que ele estava cima. Eles seguiam seu rumo em filas tão perfeitas e em tão perfeita ordem, que ele sem querer, lembrou-se da velha pata que tinha no quintal de sua casa, que quando saia para passear, levava uma fila indiana de patinhos atrás dela. Olhando para cima, ele viu veículos enormes que sobrevoavam aquela avenida nas duas direções e o incrível, era que eles não emitiam o menor barulho. Eles podiam se deslocar em qualquer direção, para o lado, para cima ou para baixo, sem o perigo de se chocarem como acontecia com os ônibus, carros e caminhões de seu tempo.
#
O objeto em cima do qual ele estava não se moveu do lugar. Ele pode apreciar tudo à sua volta e não havia edifícios como os que ele conhecia. Eram torres imensas e pontiagudas que em alguns casos, quase tocavam o teto de uma gigantesca cúpula que protegia aquele lugar. Não havia plantas, nem flores, muito menos animais. A natureza já não mais existia em todo o seu esplendor. Não havia nem mesmo vento. Ele não sentia sequer uma brisa. Em nenhum momento ele viu qualquer uma daquelas coisas chamadas de unidades se olharem ou se tocarem. Cada um parecia estar programado para ir e vir, para executar isto ou aquilo, e nada mais. Num piscar de olhos, o objeto projetou-se para frente subindo vertiginosamente rumo ao alto de uma das torres de vidro espelhado. Edivaldo imaginou que ele iria morrer, pois tudo levava a crer que ele iria cair de cima daquele "escudo" do Capitão América e a altura agora, já era aterrorizante. Eles estavam subindo em direção à mais alta torre daquele lugar. Contudo por algum outro mistério tecnológico, ele se manteve em pé e em cima daquilo, e quando ele percebeu, estava pousando numa plataforma de aço inoxidável, tão polida que parecia de uma liga feita com algum material extraterrestre. Lá naquele lugar, bem na entrada de um enorme compartimento mal iluminado, havia uma inscrição feita com letras muito parecidas com as que eram usadas pelos romanos, onde ele pode ler: MASP. Edivaldo quase desmaiou. Seu corpo tremia de uma forma que ele não pode controlar.
#
Ele estava no mais famoso museu da Avenida Paulista, há centenas de metros acima do solo, no ultimo andar, quase tocando o teto da imensa cúpula que envolvia o lugar. Pelas paredes de vidro totalmente transparentes, ele pode ver uma série de urnas também de vidro e dentro delas, havia corpos de seres humanos mortos há séculos atrás. Escrito em numa placa de identificação, ao lado de cada urna havia a descrição da raça, da época e da cultura a que eles haviam pertencido. Mas uma coisa o chocou mais do que tudo que já tinha visto. Pairando sobre a exposição de urnas, havia um painel digital que dizia:
#
Raças extintas pelas primeiras unidades construídas.
#
Causa da extinção: Seres contaminados pelos vírus incuráveis da rebeldia e sentimentalismo.
#
A arte assim como os sentimentos também havia desaparecido. Naquele museu que em sua época era repleto de objetos de arte, dos maiores gênios das artes plásticas, agora era um local que servia apenas para expor a decadência e a extinção do ser humano.
#
As lágrimas rolaram livremente pela face de Edivaldo. Ele, naquele momento, se lembrava mais do que nunca, de sua mulher e de seu pequeno filho de apenas 3 anos de idade. O amor que ele sentia pela sua família era imenso. Era algo tão maravilhoso que ele nunca encontrou as palavras certas para descrever o quanto a presença deles em sua vida lhe fazia bem. Um desespero incontrolável tomou conta de seu ser. Num movimento rápido e brusco, ele pulou para fora do "escudo" do Capitão América e saiu correndo na direção à beira da plataforma onde haviam pousado. Ele não sabia como voltar no tempo. Não podia voltar para sua época, para o seu lar, para sua família. Sua vida não tinha mais valor.
#
Ele teria que ficar naquele lugar, onde ele e seu povo eram considerados seres inferiores e por causa de uns poucos que ainda existiam, por insistirem em ser sentimentais, tornando-se rebeldes contra o sistema, foram exterminados pelas primeiras "unidades", que por uma ironia, eles mesmos construíram. Se ele não podia mais ver, tocar, abraçar e beijar sua esposa e seu filho, só lhe restava uma saída. Procurar a morte, acabar com aquele sofrimento de uma vez por todas, saltando de centenas de metros de altura, na direção daquela imensa avenida energizada, onde quando caísse, seria desintegrado tão rápida e instantaneamente, que nem mesmo iria sentir dor. Viver sem amor, sem o contato humano, sem sentimentos, sem poder dar continuidade à raça humana através do ato de fazer amor para perpetuar a espécie humana, era uma ideia inconcebível para ele. Determinado a acabar com tudo aquilo, como uma flecha ele se atirou no ar. Durante sua queda livre naquele lugar, ele olhou para cima. Ele ainda estava tão alto, que pode ver que apesar de estar envolvido por uma estranha luz parecida coma do Sol, do lado de fora da imensa redoma de vidro, era noite. Não havia a luz da lua. Não havia estrelas brilhando no firmamento. Apenas uma imensa escuridão, quebrada vez ou outra, por meteoros que entravam na atmosfera. Caindo, caindo, Edivaldo só pensava que logo tudo estaria acabado, que de alguma forma, depois de morrer, mais cedo ou mais tarde, ele iria se reencontrar com as pessoas que ele mais amava na vida. Ele fechou os olhos e se deixou afundar no imenso vazio. Parecia que a queda nunca iria acabar.
#
Durante sua queda longa, que parecia sem fim, ele foi sentindo seus olhos pesados. Edivaldo tentou mantê-los abertos, mas foi em vão. Cansado, com medo, arrasado com tudo que ele viu naquele mundo do futuro ele adormeceu.
#
Em 2014, eram 23h00mins.
#
Um ônibus sai do terminal do metro de Vila Madalena, rumo a um bairro de periferia. Quase todos os lugares estão tomados por pessoas que estão indo para casa. Apenas um estava vazio ao sair do terminal. O ultimo banco permaneceu vazio pela maior parte da viagem. Quando o ônibus se aproximava do ponto final, o cobrador olhou para o banco que até então estava vazio, e achou estranho ver um homem sentado nele. Ele estava adormecido com a cabeça encostada no vidro e só acordou, quando o ônibus parou e o motorista gritou que era o ponto final. Lá fora, do outro lado da rua, uma mulher estava no portão de sua casa, segurando um menininho nos braços. Quando o homem ainda meio zonzo de sono levantou-se do banco onde estava para descer do ônibus, ele olhou pela janela e um sorriso imenso tomou conta de sua expressão cansada. Ele desceu as escadas do coletivo, meio cambaleando e quando o menino o viu, ele gritou:
#
Papai!
#
A jovem sorrindo e com lágrimas nos olhos, disse a ele com voz emocionada:
#
Edivaldo! É você mesmo querido? Eu nem acredito que você chegou meu amor! Vai ser a primeira vez em muitos anos que vamos poder comemorar o Ano Novo juntos! Como uma verdadeira família! Era tudo que eu mais queria na vida! Nunca se esqueça meu amor, você é mais importante para nós do que o seu trabalho, do que tudo que você possa comprar com o dinheiro que você ganhar com ele. Sua presença ao nosso lado alimenta nossa alma, nosso coração. Enche-nos de alegria e satisfação! De que nos valeria ter de tudo, ter luxo e conforto, sem você ao nosso lado para nos dar amor, carinho e atenção?
#
Sem conseguir dizer uma única palavra, tomado por uma emoção intensa, Edivaldo os abraçou e beijou muito por um longo tempo. Aquela foi a travessia de ano mais feliz de sua vida, porque ele voltou no tempo e no espaço, uma hora antes do que quando partiu rumo ao futuro. Ele foi trazido de volta por um poder que para ele só poderia ser divino.
#
A mensagem que ele recebeu naquela noite, passando por tudo o que passou, só veio confirmar seus pensamentos de muitos anos atrás, sobre nós, sobre nosso comportamento para com os nossos semelhantes. Ali, ajoelhado em frente à sua esposa e seu pequeno filho, ele agradeceu àquele que tudo pode e tudo vê, por mais uma vez ter mostrado a ele que ele nunca esteve só nos momentos mais desesperadores de sua vida.
#
De cabeça baixa, humildemente, ele rogou ao todo poderoso que fizesse com que a humanidade compreendesse que a vida não pode existir sem sentimentos, muito menos, sem o amor, pois caso contrário, corre o risco de um dia, num futuro talvez até não muito distante, se transformar em seres vazios, sem a menor razão de existir.
#
Faltava agora apenas um minuto para a chegada do ano novo. Os fogos de artifício começaram a iluminar os céus da cidade. As pessoas saiam de suas casas para abraçar e cumprimentar os vizinhos e amigos.
#
Edivaldo, sua esposa e seu filhinho observavam emocionados o espetáculo, quando o garotinho com sorriso alegre e um brilho de felicidade em seus olhos, passou os braços em volta do pescoço dos dois, deu um beijo no rosto de cada um e disse com a voz mais doce deste mundo:
#
Feliz Ano Novo papai!
Feliz Ano Novo mamãe!
Eu amo vocês dois!
#
E os três juntos e abraçados, unidos mais do que nunca o foram, em uni sono, disseram uns aos outros, sorrindo e mais felizes do que nunca:
#
FELIZ 2015!
#
Autor: José Araújo
#
Fotografia:
#
Clique noturno de uma Composição do Metro de São Paulo-
Estação Paraíso – Janeiro de 2009.

sábado, 27 de dezembro de 2008

UNIVERSO PAULISTANO - SP 455 ANOS



Queridos amigos e leitores, é com imensa satisfação que comunico a todos, que mais uma vez fui escohido para participar com um de meus contos em uma das antologias da ANDROSS EDITORA a qual será publicada no livro:


UNIVERSO PAULISTANO - CONTOS, CRÔNICAS E POEMAS
DE UMA CIDADE QUE NUNCA DORME


Dentro da agenda de comemorações do aniversário de São Paulo, o lançamento desta edição comemorativa e histórica será dia 14 de março de 2009 das 16h às 20h, no ESPAÇO WN situado à Rua Jorge Augusto, 668 em Vila Matilde, São Paulo, próximo à Estação do Metro Vila Matilde.

Trata-se de uma coletânea de textos literários de diversos autores, organizada pelo editor de livros, escritor e roteirista de HQ Edson Rossatto, e pelo Professor Doutor Carlos Francisco de Morais, cujo objetivo é homenagear São Paulo por seus 455 anos.

Na capa, podemos contemplar sob a objetiva de um fotógrafo, o imponente edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu de São Paulo, que já foi palco de grandes bailes de gala e festas da alta sociedade paulistana, nos anos dourados desta magnifica obra de arquitetura. Todos os eventos se realizavam na suntuosa mansão de cobertura de Giuseppe Martinelli, seu construtor, e contavam com a presença de Reis e Rainhas, Principes e Princesas, assim como também presidentes e politicos de vários países, além de astros e estrelas do mundo artístico internacional. O majestoso edifício, também abrigou o luxuoso Hotel São Bento, onde ficavam hospedadas as celebridades que visitavam nossa São Paulo, a cidade de todos os tempos, de todos os credos, de todas as cores, de todas as raças.

O conto de minha autoria escolhido pela Andross, para fazer parte desta edição especial de comemoração ao aniversário de nossa querida São Paulo, foi:

SÃO PAULO, TRÂNSITO, SUOR, EU E ELA...

José Araújo – Autor e escritor paulista

sábado, 20 de dezembro de 2008

O ESPIRITO DE NATAL...



Só restavam poucos dias para o Natal em São Paulo e o vírus que provoca a febre das compras, já havia contaminado a maioria das pessoas da cidade. Mario, depois de muitos anos, ainda se lembrava daquele dia, como se fosse hoje. Havia em todos os lugares multidões de pessoas esperando impacientes os meios de transportes coletivos e quando ele chegavam, já vinham totalmente lotados e se isto acontecia desde cedo até a noite, nas outras épocas do ano, quando se aproximavam as festividades de final de ano, a situação se agravava muito mais. Os trens do Metro iam e vinham lotados. A estação Sé mais parecia um formigueiro. Os Shoppings Centers viviam lotados. Seus estacionamentos ficavam o tempo todo entupidos de automóveis. O transito nas redondezas ficava caótico. Uma loucura total. A Rua 25 de Março, era a campeã de vendas e da preferência dos consumidores de todas as camadas sociais, não só de São Paulo, mas de todo o Brasil, e até mesmo do exterior. A região do Brás, outra das áreas comerciais mais antigas e conhecidas da cidade, era uma das favoritas para se fazer compras em todas as épocas do ano, mais ainda, na época do Natal. Lá, no meio de muitos empurrões, cotoveladas, desaforos e disputas por mercadorias em ofertas, entre camelôs se degladiando com a polícia, era possível se comprar muitos presentes com pouco dinheiro e que certamente agradariam a todos que os recebessem. Ao final das compras, as calçadas da Avenida Celso Garcia e do Largo da Concórdia, se transformavam em um local onde as pessoas disputavam um grande premio, a todo o momento.
#
Quem conseguisse pelo menos entrar em um ônibus, já se sentia de alguma forma vitorioso, mas conseguir pegar um deles, e ainda encontrar um lugar para sentar, era o prêmio mais desejado, quase impossível de se obter. Naquele tumulto de gente se esbarrando e se empurrando, carregados de pacotes e sacolas com presentes, muitos pensavam consigo mesmos, o que estavam fazendo ali, se todos os inúmeros amigos e parentes que iriam recebê-los, realmente mereciam tal sacrifício. No meio daquele burburinho todo, daquela disputa quase que selvagem para conseguir embarcar num coletivo, Mario foi literalmente carregado pelos degraus acima ao entrar em um deles, e acompanhado de seus pacotes e sacolas, ele se viu dentro de uma enorme lata de sardinha. Sem poder respirar direito, ele se viu no meio daquela agonia, apertado, amassado, empurrado e muitas vezes tendo que ouvir insultos e ofensas de passageiros menos pacientes. Sentindo-se mal com toda aquela situação em que se encontrava, ele pensava que aquele não era o espírito de Natal que ele aprendeu quando pequeno e no qual ele foi criado. As pessoas haviam esquecido qual era o verdadeiro significado do espírito de Natal. No meio daquela gente toda, nervosa, ansiosa e desesperada para poder sair daquele sufoco, que deveriam estar achando que todos os que estavam dentro daquele coletivo, só estavam lá para atrapalhar a vida, tomando seu espaço, seu tempo, ele pensou que daria qualquer coisa para um lugar para sentar. Seus pés, suas pernas, seus braços e sua cabeça, doíam além do que ele podia aguentar.

Ele já não era nenhum garotinho. Já era avô e pelo menos para sua netinha, ele sabia que estava levando o presente certo, que ela realmente merecia ganhar o presente que tanto esperava e mentalmente, ele tentava se convencer, de que todo aquele sacrifico iria valer a pena. Do ponto onde ele pegou o ônibus, até chegar em sua casa, havia uma grande distancia a ser percorrida, e por um daqueles estranhos estados em que ficamos quando estamos exaustos, Mario não percebeu que as pessoas aos poucos foram desembarcando pelo caminho, e que já havia espaço, pelo menos para respirar. As pessoas com suas feições sérias e distantes não se olhavam. Cada um que estava viajando naquele coletivo, como em muitos outros pela cidade, só estavam preocupadas consigo mesmas, com seus problemas, e o próximo para eles, não representava nada mais do que um estorvo em seu caminho. Um incomodo que só agravava o desconforto físico e mental naquela corrida louca e alucinada, pelas compras de Natal. Depois que muitos já haviam decido em seus pontos, ainda havia muita gente dentro do coletivo. De rabo de olho, Mario pode ver um garotinho de cabelos loiros, puxando a manga da blusa de uma senhora, perguntando se ela queria se sentar. O menino devia ter uns seis, ou sete anos. Ele segurou-a pela mão e em silêncio, e a levou para perto de onde estava sentada uma outra senhora que ia se levantar para desembarcar. Quando ela se levantou para descer, ele gentilmente ajudou a outra a sentar e a arrumar no colo, todos os pacotes e sacolas que ela carregava.
#
Mario ficou observando o garoto com atenção. Ele ia de banco em banco e perguntava às pessoas que estavam sentadas onde iam descer e quando se aproximava o ponto de um deles desembarcar, ele se aproximava de alguém que estivesse precisando realmente de um lugar para sentar e levava a pessoa até o banco que iria ser desocupado. Alguns naquele coletivo dariam qualquer coisa para conseguir um assento, de tão exaustos que estavam. Não demorou muito tempo foi a vez de Mario. O garotinho puxou a manga de sua blusa e quando ele olhou para baixo, ficou atônito com a beleza dos olhos do menino. Sem poder pegar na mão de Mario porque estavam ocupadas com sacolas, o garotinho segurando seu braço pediu que ele o seguisse. Foi um momento, que Mario jamais esqueceu pelo resto de sua vida. Quando Mario já estava sentado no lugar do passageiro que desceu, o menino o ajudou a arrumar as suas sacolas, deu um sorriso, e partiu para ajudar outra pessoa a se sentar. Todos que estavam naquele ônibus e em todos os outros na cidade, como era usual, evitavam olhar nos olhos uns dos outros. Queriam ter o menor contato possível com estranhos, afinal, a vida moderna nas grandes cidades é tão perigosa. Ninguém sabe ao certo do o próximo é capaz. Contudo, naquele ônibus onde Mario estava, aos poucos, todos já haviam notado a ação do garotinho entre eles, e começaram timidamente a trocar sorrisos e olhares.
#
Uma senhora abriu sua sacola e deu um pequeno panetone para a moça grávida que estava sentada ao seu lado. Logo as duas começaram a conversar, trocando sorrisos. Um senhor que estava sério lendo seu jornal, tirou a coluna infantil e com um sorriso nos lábios deu ao menino que estava no colo da mulher que estava sentada ao seu lado, que agradeceu a gentileza, pois seu filho adorava ler os quadrinhos da Mônica e do Cebolinha. Duas senhoras sentadas lado a lado, carregadas de pacotes e sacolas, até então pareciam que iriam travar uma batalha por espaço no banco onde estavam, mas de repente, num solavanco do ônibus, um pacote caiu da sacola de uma delas e foi parar embaixo do banco. Ele havia caído num lugar de difícil acesso e nenhuma delas teria condição de pegá-lo. No banco da frente estava sentado um velhinho franzino e quando ele percebeu o pacote caído, com uma certa dificuldade, ele o pegou. Por uma daquelas coincidências da vida, quando ele perguntou a quem ele pertencia, nenhuma das duas pode dizer com certeza de quem era ele, pois os presentes das duas tinham sido comprados na mesma loja e as embalagens, eram exatamente eram iguais. O velhinho ficou segurando o pacote em sua mão e seus olhos pareciam estar sorrindo para elas, esperando que uma delas o pegasse. Foi então que as duas senhoras se olharam constrangidas pela situação e de repente, começaram a sorrir. As duas disseram ao mesmo tempo, como se tivessem combinado antes, que o presente era para ele. O velhinho sorriu, emocionado e surpreso agradeceu o presente às duas, e se ajeitou em seu banco. Em seu rosto havia um ar indescritível de felicidade e contentamento. Ele não tinha ido comprar presentes. Estava apenas voltando de seu trabalho, que mal dava para o sustento dele e de sua velha esposa, e nem por sonho, esperava ganhar alguma coisa naquele Natal.
#
As duas senhoras a partir do que aconteceu, encontraram muitos outros assuntos e estavam conversando e sorrindo e assim foi, até onde uma delas teve que desembarcar. Elas se despediram com beijos e abraços, desejando um Natal muito feliz junto às suas famílias. Trocaram telefones e prometeram se comunicar o mais breve possível. Em outro banco, estava um rapaz que era deficiente físico que até então, estava com uma expressão de tristeza em seu rosto. Ele sem querer deixou escorregar sua muleta que estava apoiada no banco e ela caiu no pé de outro rapaz que estava em pé. O rapaz sentiu a dor da pancada, mas ao invés de retrucar como normalmente o faria, sem levar em consideração a situação do outro rapaz, ele a pegou e quando ele foi lhe entregar para que a segurasse, suas mãos se tocaram. Eles sorriram um para o outro, e daquele momento em diante, seguiram trocando ideias e sorrindo, até o ponto final. Era mais uma amizade que estava começando e o rapaz deficiente, já não tinha em seu rosto aquele ar de tristeza. Em seu lugar havia uma expressão de contentamento e alegria por ter conhecido o outro rapaz que o tratou tão bem. Que respeitou sua condição, mas o tratou como se fosse uma pessoa normal, como todas as outras. Aos poucos, até o ponto final, as pessoas começaram a se relacionar mais abertamente. O clima dentro do coletivo, nem de longe lembrava aquele que era antes, quando Mario subiu a bordo.
#
Todos estavam tão distraídos com seus novos amigos que ninguém percebeu quando o menino desceu, mas para Mário, que observava atento os acontecimentos, a atitude daquele menino mudou alguma coisa dentro dos que estavam dentro daquele coletivo. Todos relaxaram e tiveram um súbito sentimento de calor humano e curtiram alegremente cada segundo que tiveram a oportunidade de ficar juntos, até que cada um teve que descer em seu ponto de destino. Certamente, cada um que desceu depois de ser envolvido pelo espírito do garoto, não saltou, mas flutuou para fora do ônibus, carregando um sorriso largo e sincero nos lábios, desejando a todos os passageiros que ficavam e também ao motorista e ao cobrador, um Feliz Natal. Quando chegou a vez de Mario descer, sentindo-se leve, sem nenhum peso no corpo, ou na alma, ele olhou para a decoração de Natal das casas de sua rua que brilhavam na noite. Eram as mesmas que ele havia visto na noite anterior, mas para ele, era como naquele momento aquele brilho fosse muito diferente. Era como se todas aquelas luzes multicoloridas fossem outras. Parecia que as velhas tinham sido trocadas por novas. O brilho delas agora, era infinitamente mais intenso e envolvente. Mario parou no meio da calçada. Olhou ao seu redor. Observou atentamente cada detalhe da decoração da vizinhança. Seu peito estava leve, livre de qualquer angustia ou sentimento negativo. Uma emoção intensa tomou conta de seu coração. Ele percebeu que a diferença de brilho e cores que ele havia notado na decoração de Natal, foi porque aquele menino do coletivo, o havia feito enxergar o verdadeiro espírito de Natal, do mesmo jeito aberto e cheio de fé com que ele via, quando tinha seis ou sete anos de idade. Com os olhos cheios de lágrimas invadidos pelo espírito de Natal, sentindo em todo o seu ser, o puro poder da fé em Deus, Mario se lembrou de um texto que leu em algum lugar, e que ele associou naquele momento aos seus pensamentos, e ele dizia:
#
“Então, numa noite de dezembro, em algum lugar do tempo e do espaço, uma criança virá, e com a sua luz, conduzirá seu povo pelas mãos. Ela os guiará pelos caminhos que os levarão à terra prometida. Onde encontrarão com sua ajuda, se assim o quiserem, um mundo melhor para se viver.”
#
Mário atravessou a rua, pegou a chave para abrir a porta e quando ele ia coloca-la no buraco da fechadura, a porta se abriu.
#
Sua netinha que tinha a mesma faixa de idade do garotinho que mudou a sua vida para sempre, abriu a porta, estendeu seus braços e lhe disse com o mais lindo sorriso que uma criança pode dar, que ela o amava muito. Ouvindo aquilo, ele se sentiu um homem realizado. Pronto para comemorar o nascimento do menino Jesus ao lado de um anjo lindo, e que tinha nos olhos, a mesma beleza e brilho que havia agora em seus próprios olhos, e nos olhos daquele garoto do ônibus, que desembarcou ninguém sabe onde, nem quando.
#
Havia nos olhos dele e de sua neta, a mesma beleza e pureza que há nos olhos de todas as crianças. Uma força divina que tanto o impressionou e que transformou de forma efetiva, a vida de Mário e de todos aqueles que se deixaram levar pelo seu espírito de luz, a partir do momento em que aceitaram ser guiados, cada um na sua vez, ao tão desejado banco, para sentar e descansar, redescobrindo dentro de si mesmos, o verdadeiro e único, espírito de Natal!
#
#
Autor: José Araújo
#
Fotografia: As Cores do Natal - Acervo pessoal - Ano 2006
#
Fotógrafo: José Araújo

domingo, 14 de dezembro de 2008

A FADA MADRINHA E O FEITIÇO DA INDECISÃO...



Você acredita em fadas e duendes? Não? 
E se eles existirem? 
E em fantasmas? Você acredita? Também não? 
E se eles existirem?
#
#
O sol surgia por detrás dos arranha céus da cidade, revelando-nos poucos espaços existentes entre os prédios da grande metrópole, o céu azul dourado, das luzes do amanhecer. Era uma linda manhã de sexta feira na capital paulista. Fernando tomou seu café da manhã, se preparou na mesma rotina de sempre para mais um dia duro de trabalho. Exatamente às 07h00mins ele saiu de casa em direção ao ponto de ônibus. Naquela manhã, ele estava sentindo-se particularmente cansado. Não era somente um cansaço físico. Era algo muito mais profundo e desgastante. Nando estava à beira de uma crise nervosa, provocada pelo stress físico, mental e emocional causado pelo seu trabalho desgastante e pelos últimos acontecimentos em sua vida. Enquanto ele caminhava na direção do ponto de parada dos coletivos, ele pensava na pilha enorme de papéis que havia em cima de sua mesa, que a cada dia, crescia mais e mais. Após alguns minutos de espera, sua condução chegou, e como sempre, o veículo de transporte coletivo veio lotado. Por muito pouco, ele não conseguiu embarcar. Sentindo-se mal como já o estava antes de sair de casa e com aquele acumulo de passageiros, provocando até mesmo falta de ar, quando o ônibus ia passando pelo parque do Ibirapuera, ele resolveu desembarcar. Nando estava precisando de um pouco de ar puro. Precisava literalmente respirar. A passos largos ele entrou por um dos portões do parque. O mais rápido que ele pode. Lá, ele começou uma caminhada lenta pelas alamedas. Era cedo ainda, mas já havia alguns frequentadores praticando esportes. Uns andavam de bicicleta, outros caminhavam, e outros, mais afoitos, preferiam correr. Contudo, ele estava tão confuso, perdido em seus pensamentos, que nem ao menos percebeu a presença das outras pessoas. Apenas caminhava em frente, parava de vez em quando, olhava para os lados, como se estivesse assombrado com alguma coisa, e logo depois, continuava a caminhar.
#
Nando além de trabalhar muito como empregado era um escritor e amava escrever seus contos que publicava semanalmente. Ninguém compreendia, como um cara como ele, que trabalhava sem parar durante todos os dias da semana, conseguia ainda tempo para escrever. A resposta era bem simples. Ele escrevia nas noites de sábado para domingo. Ele varava a noite escrevendo seus contos, pois ele tinha verdadeiro amor pelo que fazia. Na verdade, era a coisa que ele mais gostava de fazer na vida. Esse era o seu ritmo e se não fosse assim, se ele não tivesse a literatura como uma válvula de escape, já teria pirado, há muito tempo atrás. Na semana anterior, ele havia recebido um convite de uma editora para ir para a Espanha e lá, lançar uma antologia de seus contos, mas para isto, ele teria que largar tudo por aqui e ficar por lá até o lançamento do livro. Foi uma surpresa para ele. Algo que nem sequer havia passado por sua cabeça. Publicar um livro dele em outro país seria maravilhoso. Contudo, apesar da alegria de saber que seu trabalho como escritor estava sendo reconhecido até mesmo no exterior, ele ficou em total indecisão. Ele tinha família, sua esposa e seus filhos que dependiam dele financeiramente e para garantir o atendimento das necessidades deles, ele não poderia simplesmente largar seu emprego e seguir em busca de sua realização profissional. Sem condições financeiras para poder arcar com as despesas dele no exterior e da família aqui, ele estava se sentindo, arrasado, deprimido, acuado e pressionado pelas responsabilidades e obrigações que ele tinha que cumprir. Nando já não era mais um jovem. Estava na faixa dos 50, e sabia que a estas alturas, a cada dia que se passasse, menos chances ele teria de se realizar profissionalmente e poder largar o emprego que o estava matando aos poucos, mas que ele era obrigado a aguentar. Não havia outra opção. Desde o dia em que recebeu o convite, após ter vivido a angustia de uma indecisão e depois a frustração por não poder aceitar por causa de suas responsabilidades, tudo que aconteceu, só contribuiu para agravar seu baixo astral. Nando trabalhava há longos anos em uma empresa, onde tinha um cargo de responsabilidade, mas seu cargo era só um nome no registro da carteira profissional. Na realidade, ele era nela, o famoso Bombril. Um personagem tão apreciado no mercado de trabalho no Brasil, pelo seu baixo custo, grande produtividade e alta rentabilidade.
#
Afinal por que ter três, quatro, ou cinco funcionários em um setor que pede até mais do que isto, se um só pode fazer tudo sozinho? Ele muitas vezes se sentia exatamente como uma Lula. Tinha momentos, em que ele era obrigado a dar conta de várias coisas ao mesmo tempo, e para isto, precisava de mais braços, mas tudo que tinha, eram os seus. Quando pedia a contratação de pelo menos mais um para ajudar, a resposta era sempre a mesma. Ele recebia um não como resposta. Segundo a empresa, não poderiam arcar com os custos de mais gente no quadro de funcionários. As funções que ele exercia no seu papel de Bombril, exigiam dele um esforço supremo, tanto físico, como emocional, porque cuidar da parte financeira de uma empresa como a que ele trabalhava, sem o menor suporte, tendo também que executar tarefas inerentes a outros setores que não o seu, era uma loucura total. Mas para ele, aquela loucura era necessária porque ele precisava de seu emprego e trabalhava sem parar. De segunda a segunda, sem descansar. Ele detestava o que fazia e só trabalhava naquela área, por ter sido sua única chance real de um emprego, após ter ficado um ano desempregado ao completar seus 40 anos de vida. Desde há muito tempo atrás, com esta idade, quase todas as empresas parecem fechar as portas para um trabalhador como ele no Brasil. Não importam quais são suas qualificações, a desculpa em geral, é que a política das empresas no mundo da globalização, é ter em seu quadro gente jovem e dinâmica. 
#
Sempre envolto em seus pensamentos, ele caminhou um bom tempo no parque, e quando decidiu ir embora, passou a andar na calçada que beirava um dos lagos. O sol já estava alto e seus raios refletidos nas águas, pareciam criar um ambiente mágico, mas isto, ele nem percebeu. Quando ia passando próximo de onde os funcionários do parque deixavam ancorado o barco que usavam para fazer manutenção na fonte dançante, ele não pode deixar de ver algo voando sobre as águas, e fosse o que fosse, tinha asas transparentes que brilhavam à luz do sol e os reflexos dos raios dele nas águas, se refletiam também nas pequenas asas, criando um efeito multicolorido sem igual. Nando parou de andar e ficou observando o voo do que lhe parecia a princípio ser uma Libélula. Em certo momento, aquilo que ele via pareceu se aproximar, e ele, sem entender o porquê, sentiu que precisava ver melhor para identificar o que era. Ao firmar as vistas e com a proximidade maior, ele ficou pasmo e não pode acreditar no que via. Era uma Fada! Ela era tão pequenina, mas sua beleza era algo fenomenal. Uma jovem de cabelos loiros, usando um vestido tão leve e esvoaçante, que o deslocamento de ar, provocado pelas batidas de suas pequenas asas, o fazia balançar suavemente no ar. Incrédulo, ele balançou a cabeça e pensou que estava tendo alucinações.
#
No fundo, no fundo, ele achou que tinha chegado a hora dele perder de vez a sua razão. Contudo, a bela fadinha veio lentamente em sua direção e quando chegou bem perto de seu nariz, com uma voz doce e suave, disse a ele que ela não era sua imaginação. Nando respondeu mentalmente, quase que mecanicamente, que não acreditava em fadas. Ela, lendo seu pensamento, disse que ele estava enganado. Que elas existem sim e que ela, era a prova disto. Ela perguntou se ele se lembrava de que na noite passada, ele tinha tentado acertar com uma vassoura, um vaga-lume que voava em seu quarto. A fadinha disse a Nando que aquilo que ele achava que era um vaga-lume, na verdade era ela mesma, e que estava lá em seu quarto, para observa-lo e descobrir uma maneira de o ajudar. Passando as mãos pelos cabelos, Nando ainda estava atônito com os acontecimentos e não conseguiu pronunciar uma única palavra. A bela fadinha, percebendo que ele estava lutando consigo mesmo para acreditar no que via, disse que iria lhe provar que ela era real. Com um sorriso lindo e segurando uma varinha de condão na mão, ela lhe disse que seu nome era Esmeralda, a Fada do Lago, como todos a chamavam no parque. Ela disse também, que ele era um homem de sorte. Que fadas como ela, só aparecem para um, entre milhões de humanos, e que ela, o havia escolhido para ser a sua Fada Madrinha. Ela tinha vindo até ele para lhe conceder a realização de um desejo que mudasse a vida dele para melhor, mas deixou bem claro, que seria apenas um. Poderia ser qualquer coisa. Aquilo que ele lhe desejasse. Por mais difícil que fosse de se conseguir, ela o atenderia. Num piscar de olhos, mas se o que ele fosse pedir iria fazê-lo mais feliz, ou não, isto era com ele. A estas alturas, Nando já estava se recuperando do choque que levou ao perceber que aquilo que ele achava ser uma libélula, na verdade era uma Fada, e mais ainda! Por saber que ela era a sua Fada Madrinha! Com certo esforço, ainda resistindo à ideia de aceitar que as fadas existem, ele respondeu a ela, que não acreditava em tudo aquilo. Que para ele, coisas assim só aconteciam em contos e historias da carochinha.
#
Ela sorriu novamente e pediu com sua voz suave, que ele fizesse o seu pedido. Mais uma vez, ela deixou bem claro que poderia ser qualquer coisa. Nando de alguma forma, bem lá dentro de seu coração, já estava pensando em fazer seu pedido. Mas a razão gerava uma dúvida imensa em sua mente. Como uma fada poderia estar ali naquele lugar? Um ser mitológico em pleno parque do Ibirapuera, e voando sobre as águas do lago! Como ela poderia saber sobre o vaga-lume que ele quis acertar com uma vassoura em seu quarto, na noite anterior? Tudo aquilo seria mesmo verdade? As fadas realmente existem? Ele se fez estas e muitas outras perguntas, mas não conseguiu responder a nenhuma, e naquele instante, de uma forma intensa e misteriosa, uma vontade imensa de atender ao apelo da fadinha, tomou conta de seu ser. Ele começou a pensar no que pedir. Mas teria que ser algo muito especial. Afinal, aquela poderia ser a sua única chance na vida, de se realizar e poder se libertar daquela prisão que era o seu trabalho e que o aniquilava dia a dia. Onde ele não via a menor perspectiva de melhora, e pior, um trabalho que não tinha nada a ver com ele. Nando se submetia àquilo apenas por obrigação, por necessidade. Já haviam se passado muitos anos de sua vida naquele lugar que vinha acabando com ele lentamente. Sugando suas energias, gota, por gota. Em seus pensamentos, ele se perguntava se deveria pedir dinheiro, joias, propriedades. Mas a indecisão o estava martirizando. Ele já havia sentido antes o peso e as consequências daquele sentimento. Cansado, stressado e debilitado, tanto física como emocionalmente, se não fizesse o pedido certo, poderia se arrepender pelo resto de sua vida. Pedir mulheres, poder, status, lhe parecia tão fútil. Tão sem sentido.
#
A fadinha é claro, lia em sua mente tudo que estava pensando e lhe disse que ele teria que fazer um pedido concreto. Nada de abstratos. A coisa ficou pior quando ela lhe disse, que não havia lhe falado nada antes, porque achava que ele fosse decidir logo o que pedir, mas já que ele estava demorando tanto, era preciso lhe dizer que ele só tinha 10 minutos a partir do momento em que ele começou a acreditar e pensar em fazer o seu pedido. Que já haviam se passado 8 minutos, e que ele precisava se decidir. Caso contrário, quando acabasse o tempo, ela iria desaparecer no ar e ele teria perdido a maior chance de sua vida. Nando se apavorou.
#
Ele olhou em seu relógio e o ponteiro dos segundos, lhe pareceu estar andando mais depressa do que o normal. Seu coração começou a bater mais forte enquanto desesperadamente, ele tentava decidir o que pedir. Um carro importado? Uma mansão? Um avião? Não! Uma empresa aérea! Quem sabe uma rede de Hotéis? Um trono num país dos emirados Árabes? Mas, e se ele pedisse muito dinheiro? Com toda a grana ele poderia comprar tudo que quisesse! Tudo aquilo com que sonhou durante toda a sua vida e não pode ter! Um quinquilhão? Um milhão de quinquilhões? Mas ao mesmo tempo ele achava que pedir dinheiro seria uma grande tolice! Sua mente trabalhava num ritmo frenético, e a fadinha, tentando apressa-lo por medo de não poder lhe conceder o pedido, disse para ele se apressar e resolver de uma vez por todas! Nando, sentindo-se acuado e pressionado, não conseguia se decidir por nada. A pequenina quando só faltavam apenas 10 segundos para acabar o tempo, começou uma contagem regressiva, e o coração de Nando naquele instante, já estava quase saindo pela sua boca. 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4... Tem que ser agora! Como um raio fulminante, finalmente as palavras saíram da boca de Nando. Ele disse que queria outra fadinha igual a ela! PUFFFFFFF!!!!!!! A fadinha desapareceu no ar em meio a uma nuvem de fumaça e no mesmo lugar onde ela estava flutuando quando desapareceu, surgiu outra, exatamente igual a ela.
#
Nando, ainda meio desconfiado, a principio achou que poderia ser a mesma, afinal, ele ainda não estava totalmente convencido daquela situação. Contudo, a nova fadinha, cujo nome também era Esmeralda, começou a falar e ele ouviu toda a ladainha de novo. Então, ele pensou que se fosse a mesma, ela teria continuado a falar com ele, do ponto onde ela havia parado entes de desaparecer. Não! Definitivamente ela não era a mesma. A que estava bem na sua frente agora estava repetindo tudo que ele havia ouvido antes da outra que desapareceu. Naquele momento, ouvindo-a falar, mais uma vez ele estava sentindo-se pressionado a resolver o que pedir, e rápido! Ela o estava apressando e ele teria que resolver qual seria seu pedido, em muito pouco tempo! Que injustiça! Num momento como aquele, tão cheio de magia! Talvez até mesmo, aquele fosse o único e último de sua vida! Ele decididamente precisava de mais tempo! Porque ele deveria se apressar e correr o risco de fazer o pedido errado, e depois sofrer as consequências disto?

A fadinha estava ficando cada vez mais impaciente. Nando pensava e pensava, mas não conseguia se resolver por nada. E se ele pedisse uma frota de navios de cruzeiro? Uma companhia de petróleo? Uma Ferrari quem sabe? Saúde? Amor? Um aperto enorme em seu peito começou a lhe incomodar, e aquele aperto, ele já conhecia muito bem. Porque era tão difícil escolher? Porque não conseguia decidir? Qual seria o motivo pelo qual ele estava se sentindo tão mal por dentro? Porque sua mente estava bloqueada naquele instante tão especial? Ele não conseguia controlar seus pensamentos. Algo muito mais poderoso do que seu poder de raciocínio o estava impedindo de decidir. Era como se ele tivesse sido vitima de um feitiço maléfico, do qual ele não podia se livrar. Porém, a nova fadinha, mais decidida a ajudar do que a outra, ansiosa por vê-lo sair do sufoco em que estava a sua vida, antes de começar a contagem regressiva, como a anterior havia feito, disse a ele, que no ultimo momento, ele sempre poderia optar por pedir outra fadinha como ela, e assim, ganhar tempo para pensar melhor, e decidir depois. Mas agindo assim, protelando sua decisão, deixando que o medo e a insegurança o impeçam de enxergar o que realmente quer em sua vida, ele nunca mais viveria em paz, e sofreria, para todo o sempre, a mercê do feitiço da indecisão!
#
#
#
Quando decidimos por algo, temos que saber que ao mesmo tempo teremos que deixar muitas outras coisas para trás. Que o que acontece na verdade, quando vivemos uma indecisão, é que no fundo, temos dúvidas se vale a pena mudar alguma coisa, ou deixar como esta, ou então, se vale a pena decidir por arriscar. Contudo, não é possível viver eternamente sem mudanças, porque a própria vida já é constituída, principalmente de mudanças. Assim como também, ela é curta e mal temos tempo de aprender tudo que ela tem a nos ensinar. Então, nada mais nos resta, senão decidir por arriscar, mas para arriscar qualquer coisa, é preciso em primeiro lugar, se livrar de um fantasma que nos apavora, que nos enfraquece. Um ser invisível e sinistro que é criado por nós mesmos e exerce sobre nós um poder enorme, capaz de nos fazer sofrer muito, até mesmo nos tirar a chance de sermos felizes, realizados na vida, e toda a força dele esta num único sentimento humano, a nossa própria indecisão!
#
Autor: José Araújo
#
#
Fotografia: A fadinha – Fotógrafa: Roberta Teixeira

sábado, 6 de dezembro de 2008

LIPE, O BOTO COR DE ROSA
E AS ONDAS DA PORORÓCA...


A meio caminho da nascente do rio Araguari, em um de seus braços, num lugar ainda quase intocado pelas mãos dos homens, vivia uma comunidade de botos. As águas eram tão limpas, que era possível de ser ver o fundo de tão transparentes. Peixes e outros animais conviviam naquele paraíso em perfeita comunhão. O grupo de botos vivia como uma grande família e todos obedeciam a regras de comportamento, que haviam sido estipuladas pelo conselho dos mais velhos, que considerados por todos sábios na arte de viver, governavam a todos, sem exceção. Felipe, um boto cor de rosa, era simplesmente Lipe para os amigos e para a família. O jovem boto, desde pequeno, não concordava com muitas das imposições a que ele e os outros de seu grupo tinham que se submeter. Cada membro da comunidade tinha seus deveres e obrigações a cumprir, em prol de si mesmos e do resto do grupo. Logo pela manhã, todos os dias, eles acordavam atarefados, sempre preocupados em cumprir suas missões. Era um corre, corre o dia todo, mal paravam para se alimentar e quando o faziam, era por questão de minutos, pois não havia tempo a perder. A vida deles era tão corrida, que nunca tinham tempo para si mesmos, muito menos para se relacionar com os amigos e parentes como se deve. Lipe foi crescendo e seu comportamento na mente dos outros botos, era de alguém que não tinha mais jeito, um desajustado, um perdido na vida. Ele era incompreendido por aqueles a quem ele amava, pois tudo o que ele fazia, era sair bem cedo pelos arredores em busca de correntezas que ele adorava surfar. Era tão grande a sua paixão pelo que fazia, que ficava imaginando se um dia ele iria encontrar na vida, uma onde enorme, onde pudesse sentir todo o prazer de poder domina-la, deslizando nela, desde sua crista até onde ela terminasse. Os mais velhos, já haviam perdido as esperanças de que ele um dia mudasse e apesar de muitos conselhos e avisos sobre as conseqüências de seu comportamento impetuoso, a cada dia, mais e mais, ele sentia a necessidade de perseguir o seu sonho.

Lipe observava os outros membros de seu grupo, principalmente os mais velhos. Tudo que ele via neles, era a imagem da tristeza, da desolação e por mais que negassem, uma grande frustração. Mesmo estando todos juntos, recebendo o amor e o carinho dos parentes e amigos, Lipe sentia que lhes faltava alguma coisa. Nos olhos de cada um, havia um vazio imenso e quando eles eram questionados sobre quais eram suas expectativas para suas vidas, a resposta invariavelmente era que tudo que precisavam estava ali naquele lugar. Ele nunca conseguiu engolir esta vaga explicação e por mais que tentassem ser convincentes, não conseguiam faze-lo acreditar. Para ele viver não poderia significar somente aquilo. Tinha que haver algo mais excitante, mais gratificante para a alma e para o coração. Apesar dos contras de sempre, Lipe continuava em suas excursões pelos rios adjacentes. Ele precisava de muito mais para se sentir vivo. O tempo passou e ele agora, com 2,50 metros de comprimento, pesando 90 quilos, já era um adulto. Já fazia um bom tempo que ele não ouvia mais nãos como respostas aos seus pedidos para ir mais longe do que lhe era permitido. A única coisa que ainda faziam, era lhe dar o mesmo conselho de sempre. Ele nunca deveria se atrever a ir em direção à foz do Rio Araguari. Dizendo que ir naquela direção, era procurar a morte com as prórpias mãos. Diziam que mais abaixo do rio, havia homens maus que poderiam captura-lo, e se o fizessem, seria o seu fim. O desejo de descobrir o que realmente havia naquele lugar proibido, era para ele como um combustível que o instigava a ir até lá. Certo dia, ele se encontrou com um peixe enorme que nunca havia visto na vida e ele parecia velho e cansado. Ao se aproximar do estranho com muito cuidado, ele se apresentou, trocaram cumprimentos e começaram a conversar.

O velho peixe disse que estava vindo da foz do rio, onde tinha ido em busca de realizar um velho sonho, e em seus olhos, enquanto ele lhe contava os detalhes de sua aventura, havia uma expressão de paz e plenitude, que encantou o jovem boto. O viajante lhe disse também, que lá, ele havia encontrado a maior onda existente em todos os rios e nela, ele havia surfado, exatamente como era o sonho de Lipe. Seu jovem e intrépido coração bateu mais rápido e uma estranha sensação tomou conta de seu ser. Era uma vontade louca de ir ao encontro da tal onda que o velho peixe disse se chamar Pororoca. Lipe, o jovem e impetuoso boto cor de rosa, ao terminar a conversa com o estranho, resolveu que iria partir em busca da realização de seu sonho. Na manha do dia seguinte, mesmo contra a vontade de todos do seu grupo, ele partiu. Enquanto ele descia o rio, ia observando a paisagem ribeirinha e pelo caminho, conheceu muitos outros peixes e bichos da floresta, que ele nunca tinha visto em sua vida. A sensação de liberdade já havia tomado conta dele e o lugar onde ele vivia com os seus, já estava há muitos quilômetros atrás. Ao contrário do que lhe disseram, ele não viu nada que representasse perigo de vida durante uma boa parte de sua jornada. Contudo, ao virar uma curva do rio, ele deu de cara com um barco enorme e nele, haviam homens armados, alguns com arpões e outros que empunhavam enormes varas de pescar.

Naquele momento, ele se lembrou do que lhe disseram sobre o bicho homem, e para não arriscar, ele tentou fazer um desvio, mas foi capturado por uma rede fixa que estava armada embaixo d'água. Era final de tarde, quase caindo a noite e os homens não perceberam a movimentação da rede, e lá ele ficou. Preso sem poder se libertar e quase asfixiado por precisar subir à tona para respirar. Para sua sorte, talvez até por uma providencia divina, uma indiazinha havia percebido que ele estava preso na rede. A pequenina só esperou cair a noite e mergulhou em seu socorro. Ao alcança-lo, cuidadosamente ela cortou a rede o suficiente para ele poder passar. Quando ele conseguiu subir à superfície, já estava passando mal pela falta de oxigênio e ao respirar, foi como se tivesse renascido naquele instante. A indiazinha que estava sentada agora na margem do rio, observava seus movimentos e em seus lábios, havia um sorriso sincero de satisfação. Lipe se aproximou dela, quase tocando a margem, balançou a cabeça tentando com com isto dizer a ela que estava muito agradecido por ter sido salvo. A menina sorriu e olhando diretamente em seus olhos ,e fez um sinal para ele ir. Ele compreendeu a mensagem, e partiu.

Agora, sua viagem iria ser muito mais cautelosa. Depois de tudo que aconteceu, prevenir era melhor do que remediar. Muito longe de seu lar, há muitos quilômetros de distancia de seu povo, Lipe finalmente estava chegando ao ponto descrito pelo velho peixe, e ele estava ansioso. Feliz e ao mesmo tempo excitado, pelo que estava por vir. Sua ânsia era tão grande, que por um momento, ele pensou que tudo aquilo que o velho tinha lhe dito poderia ser mentira. Ele poderia muito bem ser um contador de estórias e seu coração ficou apertado, com a perspectiva de se decepcionar. Mesmo apreensivo, ele continuou nadando, mas agora, ele o fazia mais devagar.

As águas calmas e mansas do rio corriam lentamente rumo à sua foz, cumprindo fielmente sua rota, por vezes em linha reta, por vezes por linhas sinuosas, em meio à magnitude da floresta Amazônica, e Lipe, as estava acompanhando. Nas margens, em ambos os lados, a exuberante natureza da região mostrava todo seu encanto e sua magia. Em meio a um ambiente de paz e perfeita integração da fauna e da flora, os pássaros revoavam sobre as árvores, sobre a floresta e sobre o rio. Macacos pulavam de galho em galho, em seu alarde costumeiro. Ninhos espalhados pelas copas das arvores, davam aconchego e segurança aos pequenos filhotes recém nascidos. Em outros, futuras mamães chocavam cuidadosamente seus ovos. O som que predominava, era o do canto das aves, apenas perturbado pelo barulho dos macacos em plena euforia. Tudo parecia em completa harmonia. De repente, tudo que se pode ouvir foi o som pesado e tenso do silêncio da natureza anunciando perigo. Poucos minutos se passaram e um ruído surdo e estranho se fez sentir no ar, mas logo em seguida, novamente imperou o silêncio total. Em poucos instantes, o mesmo ruído ecoou de novo, mas desta vez, acompanhado de outros rumores desconhecidos, que para ouvidos despreparados, era como se eles fossem despedaçados no ar pelo vento, que soprava na floresta. Tanto os nativos quanto os animais da região, sabiam o estava por vir. Era a Pororoca que estava chegando no Araguari.

Como um gênio do mal que acaba de ser libertado da garrafa onde estava preso, o fenômeno causado pela atração simultânea da Terra, da Lua e do Sol se aproximava do lugar. O ruído em instantes se transformou num barulho enorme e como se fosse uma grande explosão, ecoou num rugido demoníaco que se propagou por todos os cantos. Carregando consigo, mil outros sons que se dissipavam ao longe, na imensidão da floresta sem fim. Uma onda espumante que mal se podia ver ao longe, de repente, como num passe de mágica, chegou a uma velocidade de 35 quilômetros por hora, e ela veio, transformando-se pelo caminho, num monstro, num demônio destruidor. Ela chegou com sua primeira onda afrontando, desafiando e destruindo a tranqüilidade das águas do rio, arrastando com ela, tudo que estivesse em seu caminho. Ela derrubava os barrancos das margens sem dó, nem compaixão. Aniquilava pequenas árvores e até mesmo arrancava pelas raízes outras delas, que tinham porte maior. A imensa onda, de um poder absolutamente devastador, estava passando pelo local e suas águas, já atingiam até mesmo os pequenos ninhos, que ficavam na copa de algumas arvores mais altas. A onda era de uma proporção descomunal e fazia questão de mostrar a todos, a quem quer que seja, que era ela quem comandava o show naqueles momentos de pura expressão do poder das forças da natureza.

Furiosa, a Pororoca continuava avançando rio acima, formando tubos beirando à perfeição para a alegria dos surfistas, que já tentavam dominar com suas pranchas as poderosas ondas, que agora, já se elevavam a 10 metros de largura, chegando até a 5 metros de altura, desfrutando momentos de aventura, e pura adrenalina. Em meio a uma delas, no meio das pranchas dos surfistas, lá estava ele. Lipe, o Boto cor de Rosa. Ele surfava as ondas ao lado do bicho homem, competindo palmo a palmo, pelas melhores ondas, e demonstrando sua perícia em manobras radicais, deslizando nelas, com perfeição. Para quem teve a chance de ver sua performance, sabe que foi algo de proporções nunca vistas para um animal como ele. Pegando cada onda que vinha, ele não precisava de prancha, nem equipamentos de segurança. Ele surfava apenas com aquilo que Deus lhe deu. Seu corpo e sua habilidade de nadar. Lipe, aquele jovem e intrépido boto cor de rosa, deslizava de barriga, de costas, de lado, e muitas vezes , ele conseguia pegar a crista de uma onda que se formava, e descia numa velocidade alucinante, deixando os surfistas boquiabertos, e alguns deles mais espertos, até conseguiam fazer manobras parecidas, observando ele surfar. Para ele, aquilo sim era vida. O que estava fazendo naquele instante, era por puro prazer de viver. Não fazia a menor diferença estar ou não dividindo aqueles momentos com os homens ou saber que alguém o estava observando. Também não fazia diferença se o estavam elogiando ou criticando.

Naqueles momentos, em meio à fúria da pororoca que avançava numa velocidade incrível, e sem parar, para ele, o tempo havia parado de correr. Ele vivia cada segundo intensamente, pois sendo um boto diferente dos outros, ao invés de querer passar o resto de sua vida nadando em águas mansas e rasas, tudo que ele mais queria, era realizar os seu sonho de viver intensamente e conhecer novas emoções. Monotonia e marasmo, eram palavras que ele nunca admitiu em seu vocabulário, na sua vida. Lipe decidiu que não iria envelhecer e morrer sem ter vivido plenamente, como não viveram os outros de sua espécie, tão ameaçada da extinção. Ele perseguiu seu sonho e mesmo tendo passado por grandes dificuldades para alcança-lo, um dia ele tinha certeza de que iria conseguir. Finalmente tinha chegado para ele, a hora de realiza-los. E ele conseguiu. Um sentimento de plenitude e uma sensação plena de realização pessoal, tomaram conta de seu ser. Do mais fundo de seu coração, ele soube que se tivesse ouvido os conselhos dos mais velhos de sua espécie, seguindo cegamente as regras impostas por eles e pelo sistema, ficando lá no lugar onde nasceu, executando as mesmas tarefas e movimentos pacatos e mecânicos pelo resto de sua vida, ele iria morrer, sem ter vivido.

Para Lipe, viver nunca significou ter que ser obrigado se render à vontade dos outros. Para ele, viver era se atrever a enfrentar o desconhecido. Era ter coragem de se arriscar e se atrever a descobrir, se aquilo que nos dizem a respeito das coisas, são realmente a verdade, ou se foram apenas invenções, criadas para nos cegar. Numa tentativa de nos manipular e impedir que possamos descobrir que a verdade, é bem diferente daquilo que nos dizem. Lipe nunca desistiu de sua determinação de perseguir o seu sonho, de correr atrás da realização daquilo que mais desejava na vida, mesmo sendo criticado sem dó nem perdão, ele nunca desistiu e ele conseguiu. Quando a ultima onda da pororoca acabou e as águas do rio voltaram a correr calmas, em direção à sua foz, ele se despediu de seus colegas surfistas, dando saltos para fora da água em volta de onde eles estavam com suas pranchas. Feliz por ter alcançado o seu objetivo, ele nadou rio acima, na direção de onde ficava o seu lar. Ele estava com saudades dos seus e mesmo sabendo que eles talvez nunca mudassem sua maneira de pensar ele iria tentar abrir os olhos de todos os componentes de seu grupo. Desde aquele dia, entre os meses de janeiro e abril, todos os anos, quando o espetáculo da pororoca se repetia, a presença de Lipe o boto cor de rosa era uma constante, e assim foi, ano, após ano, até que um dia, já velho, cansado e sem forças nem mesmo para nadar por curtas distancias, ele partiu para a viagem final, mas sua passagem para o outro lado não foi triste, muito pelo contrário. Lipe morreu feliz.

Em seu semblante, havia uma expressão de paz e contentamento, quando ele fechou os olhos pela ultima vez. Bem diferente de todos os outros de sua espécie que ele viu morrer. Todos eles eram botos tristes, que nunca souberam na vida o que era sorrir de verdade, sorrir de contentamento, de alegria, e partiram, com o mesmo vazio que carregaram nos olhos por toda a vida, executando sempre as mesmas tarefas e obedecendo cegamente às determinações impostas pelo grupo, e pelos mais velhos, acomodados na situação em que viveram. Renegaram seus próprios sentimentos, por toda uma existência, achando que assim é que era a maneira certa de viver. Eles se foram como se não tivessem vivido na vida. Partiram como se fossem apenas peças de um grande cenário, onde nunca tiveram a oportunidade de atuar efetivamente, no maior de todos os espetáculos. O espetáculo da vida. Mas Lipe não. Ele decidiu viver na expressão da palavra. Ele quis ter um papel importante, não apenas ser um objeto do cenário, no palco de sua existência.

O espetáculo em que ele atuou por toda a sua vida, desde que era muito jovem, foi um grande sucesso e permaneceu em cartaz para todo o sempre, nas mentes e nos corações daqueles surfistas, que maravilhados com sua presença ao lado deles, compartilharam com ele, as grandes manobras radicais que fizeram juntos.

Para eles, foram momentos mágicos, mas muito reais, vividos intensamente, nas cristas das ondas da pororoca, na foz do rio Araguari...


Autor: José Araújo

Fotografia: Boto cor de rosa do Amazonas