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domingo, 19 de abril de 2009

A ARVORE DO CONHECIMENTO...





A noite escura e a lua aparecendo de vez em quando por detrás das nuvens, davam a nítida impressão de cenas de filmes de terror, onde os personagens principais são vampiros e lobisomens. Enquanto a lua ficava escondida, mal dava para se ver onde pisar. Barulhos estranhos que soavam por todo o lugar davam mais ênfase ao clima sombrio. Chiados e correria de ratos e ratazanas e o bater de asas de pássaros noturnos, conspiravam para fazer com que qualquer um que não estivesse acostumado ao ambiente se arrepiar. Do córrego fedorento que era usado para se despejar todo tipo de sujeiras, inclusive descargas de banheiros, sem a luz do luar só se podia ouvir o ruído das águas correndo ao lado da favela. Na maior parte de sua trajetória, ele corria na parte de trás dos barracos, mas no trecho em que ele seguia seu rumo ao lado de uma viela, era preciso tomar muito cuidado para não escorregar e cair dentro dele. Em qualquer canto, em qualquer viela, a delinquência e os atos ilícitos eram uma constante no lugar.
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Quando acontecia da luz da lua passar pelas densas nuvens sombrias que pairavam no céu, seus raios eram refletidos nas águas do riacho e nos olhos de gatos e cachorros que perambulavam por toda parte. Naquela favela, envolta pelo clima de medo e mistério, com tantos perigos, com tanta pobreza, tantos crimes e violência, morava um verdadeiro estudante. Um verdadeiro leitor. Seu nome era Gabriel. Seus pais haviam falecido quando ele tinha oito anos e depois disto, ele foi viver com uma velha tia que morava de favor num dos barracos da favela. Quando completou dez anos de idade, sua tia também veio a falecer. O dono do barraco era um dos traficantes de lá. Retomando o barraco onde a velha senhora morava para dar a um dos seus parceiros, para não deixar Gabriel na rua, sem ter onde morar, ele deixou que o garoto ficasse numa espécie de quarto, tão apertado que mais parecia um caixote e ficava em cima do barraco do traficante.
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Ele era tão incomodo, que nem dava para Gabriel esticar as pernas quando deitava no chão duro e úmido para dormir. Era uma vida de cão. O garoto tinha tido a sorte de ter ido pelo menos por três anos à escola onde aprendeu a ler e a escrever. Muitas noites, sem ter o que comer, ele pegava folhas de jornais e revistas que ele tinha encontrado no lixo e para se distrair, ficava lendo e relendo as mesmas coisas que já tinha lido por inúmeras vezes, até finalmente adormecer. Era como se lendo ele estivesse se alimentando. Para ele conhecimento era o alimento da alma. Quando sua mãe ainda estava viva, ela costumava se cansar de chamá-lo para o almoço ou jantar, mas ele preferia acabar de ler. Agora, só no mundo e vivendo às custas de favores e doações, não eram poucas às vezes em que ele ficava sem comer. Sem nenhuma renda e sem um adulto para cuidar dele, ele vivia como era possível. Seu maior prazer, era quando encontrava um velho livro jogado fora.
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Mesmo que faltassem algumas páginas, com sua capacidade de raciocínio aguçada, ele ficava imaginando o resto. Ao contrário dos outros garotos de sua idade que moravam na favela, ele conhecia o mundo, sem sair do lugar. Ele sabia de cor e salteado os nomes de todas as capitais de todos os países. A descoberta de que se aprende lendo, desde pequeno o encantou. Ficava fascinado quando descobria algo diferente nas folhas de jornais e revistas, que muitas vezes ele encontrava no chão das vielas por onde passava.
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Ele era diferente aos olhos dos outros garotos da favela e dos adultos também.
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Dentro dos vários grupos de moleques soltos no mundo por pais irresponsáveis e até mesmo marginais, eram poucos os que tinham entrado no mundo das drogas e conseguido sair sem sofrer represálias por parte dos traficantes, e isto, quando conseguiam sair. Toda semana, ele ouvia os moradores dizer que um deles havia sido encontrado morto. Uma hora por overdose, outra por assassinato. Como em todo lugar, tem gente boa e gente ruim. Naquela favela, existiam pessoas de bem, decentes, tementes a Deus e com boa índole, mas infelizmente lá, a grande maioria, era voltada para o mal.
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Os grandes bandidos tomavam conta da favela e eram eles que ditavam as leis naquele lugar. A maioria dos barracos, eram iluminados por ligações clandestinas feitas diretamente dos postes de iluminação pública que havia apenas numa rua que passava ao lado da favela. Em seu pequeno quarto Gabriel não tinha luz. À noite, quando ele queria ler alguma coisa, acendia um toco de vela e era assim que ele conseguia fazer o que mais gostava na vida antes de dormir. O jovem estudante, que mesmo não frequentando escola nenhuma, aprendia o tempo todo lendo tudo que encontrava pela frente e apesar de toda sua inteligência e conhecimentos, ele não tinha ainda idade para trabalhar. Ele era muito pobre e quando comia direito, era porque almas bondosas lhe davam o que comer. Roupas, ele só tinha algumas poucas, muito velhas e remendadas. Pobre, só no mundo, sem nenhum bem material que fosse seu, dia após dia, ele lia e aprendia cada vez mais. O dono do barraco morava na parte de baixo e utilizava seu espaço para o tráfico de drogas. Durante o dia ou durante a noite, o barraco era muito movimentado.
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Pessoas das mais estranhas entravam e saiam de lá ha todo momento. Eram garotinhos usados como aviõezinhos como os traficantes os chamavam, eram os "clientes" e "parceiros" que num fluxo de se espantar, faziam movimentar milhares de reais em plena favela enquanto a pobreza dos verdadeiros moradores era de se assustar. Crianças, jovens adolescentes, adultos e pessoas com mais idade eram atraídos para as drogas das maneiras mais inimagináveis possíveis. O dono do ponto, este era rico. Morava no barraco como disfarce para sua atividade, mas tinha de tudo. Em seu espaço, infinitamente maior do que o cubículo em que morava Gabriel, ele tinha aparelhos Som de última geração, TV Digital, Celulares, Refrigerador Duplex, computador, dentre tantas outras coisas que pelas vias normais, só poderiam estar nas casas de pessoas que trabalham ganhando um bom salário, para poder conseguir comprar tudo aquilo. Enquanto o dono do barraco tinha tudo e se gabava de poder ter o que quisesse, Gabriel não tinha nada além de um livro velho que ele tinha achado há muito tempo e que não deixava de ler todos os dias. Nem mesmo um colchão ele tinha para dormir.
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Mesmo com a vida difícil que ele levava, nunca se envolveu ou se deixou levar para mau caminho. Muitas vezes, os delinquentes que encontrava pelas vielas por onde tinha que passar, tentavam obriga-lo a experimentar as drogas, mas com sua astúcia e inteligência, ele sempre se esquivou deste mal. Os amigos e “parceiros” do dono do barraco, sempre riam dele e faziam piadas de mau gosto, insinuando que ele não era "macho", que não era homem nem para provar que podia fazer muitas coisas que eles faziam. As palavras deles nunca ficaram nas lembranças de Gabriel. Parecia a todos que ele tinha alguma coisa de anormal, afinal, todos se enturmavam e facilitavam as coisas uns para os outros, mas ele não. Certo dia, Betão, o dono do ponto, começou a ficar curioso com o comportamento de Gabriel. Ele não tinha luz em seu cubículo, mas quando Betão olhava para cima de seu barraco quando caminhava pela viela à noite, ele sempre via uma estranha luz.
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Certamente não era a luz de uma vela. Muito menos, de uma lâmpada comum. Era algo diferente e ela só se apagava, bem tarde da noite. Fazendo girar a sua mercadoria sem parar, mesmo sem ter muito tempo para se preocupar com o que Gabriel fazia em seu cubículo à noite, ele não deixava de pensar naquilo. Dia a dia ele passou a observar Gabriel durante o dia e por poucas vezes à noite quando entrava e saia de lá. Ele não se envolvia com a gente do tráfico. Não tinha amigos e sempre andava só, mas tinha sempre em seu rosto um sorriso para as pessoas que o cumprimentavam ao passar por ele. Dizer muito obrigado era costumeiro em seu vocabulário e uma regra em sua vida. Com seu jeito humilde de ser, ele sabia ser agradecido pela ajuda que algumas pessoas lhe davam quando podiam. Ele tinha um "quê" que nenhum dos outros garotos da favela tinha. O ser humano, curioso por natureza, pode chegar a extremos para satisfazer sua curiosidade e numa noite, quando já ia se deitar, Betão subiu pé por pé a escada de madeira que levava até onde Gabriel dormia.
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Silenciosamente, ele se aproximou da porta improvisada feita com uma placa de madeira compensada e por uma fresta na madeira rachada, se pôs a olhar furtivamente o que o garoto estava fazendo, invadindo a sua privacidade, o que para ele, como um marginal e fora da lei, era normal. Naquela noite a luz que se podia ver saindo até mesmo pelos buracos feitos por pregos arrancados da madeiras do barraco, era intensa. Era algo que parecia ser sobrenatural. Quando Betão colocou os olhos encostados na fresta, ele pode ver Gabriel sentado num velho engradado em frente a uma mesa improvisada com um caixote de madeira. Ele estava lendo. O que mais chamou a atenção do traficante, foi que ele estava iluminado como se estivesse em pleno dia. Aquilo já era demais. Forçando um pouco mais a vista por causa da luz, ele pode ver que o garoto sorria. Havia em seu semblante uma paz e uma alegria que para quem vivia a vida que ele levava e ainda morando naquele cubículo, extremamente desconfortável e tão apertado, não podia ser. Betão se afastou um pouco, coçou a cabeça sem saber o que pensar.
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Mais curioso ainda, ele se lembrou que havia um outro buraco por onde ele poderia ver melhor. Sorrateiramente, tal como uma serpente que se prepara para atacar sua presa, ele desceu da escada, saiu do barraco e contornou o mesmo, onde havia uma outra escada maior encostada na parede. Betão subiu nela e ao chegar na altura do buraco, ele olhou para dentro do cubículo de Gabriel. Naquele momento ele ficou paralisado. A visão que ele teve foi muito além da mais fértil imaginação. Do velho livro que Gabriel lia, saia uma árvore que parecia se feita de luz. Seu tronco que saia bem do meio do livro, subia quase ao teto e seus galhos, estavam espalhados sobre o garoto. Ela era tão linda, tão maravilhosa e as folhas de seus galhos, iluminadas como se tivessem luzes próprias balançavam suavemente, e olhando bem, os cabelos de Gabriel balançavam também. Nela havia lindas flores. Todas elas tinham o formato de uma estrela brilhante. Como as estrelas do céu. Havia também frutos, mas no lugar de frutos, havia cabeças e elas eram de todas as cores, de todas as raças.
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Cada qual com uma expressão mais bela que a outra. Em cada olhar o brilho da inteligência e de sabedoria. Ainda tomado pela emoção da surpresa, sem poder mover um músculo sequer, Betão sentiu que lá de dentro vinha um cheiro delicioso de grama verde. Coisa que para um barraco, às margens de um riacho que era um esgoto a céu aberto, era impossível de acontecer. Gabriel, com as pernas cruzadas sorria enquanto lia. A cabeças pareciam falar com ele e ele parecia ouvir. Havia também uma musica linda e suave que tocava o tempo todo. De vez em quando, ele balançava a cabeça em sinal de aprovação, outras vezes, como se não acreditasse no que lia, mas estava maravilhado do mesmo jeito. Betão foi tomado por um sentimento profundo. Era um misto de inveja e encantamento. Ele daria tudo para estar no lugar de Gabriel e ele poderia estar à força, se conseguisse se mover. Afinal, ele sempre pode tudo. Do fundo de sua alma, ao ver tudo aquilo, ele sentia que Gabriel tinha em suas mãos o maior de todos os tesouros e que seu dinheiro sujo, não poderia comprar. E lá ele ficou.
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Foram algumas horas na mesma posição em cima daquela escada. Nenhum músculo se movimentou em seu corpo. Em certo momento, Gabriel bocejou de sono. Olhou para o livro, e sorriu. Ele estava feliz. Quando ele o fechou delicadamente, a árvore foi engolida pelo livro como num passe de mágica e a luz se apagou. Naquele momento Betão conseguiu se movimentar. Não que ele estivesse cansado de ficar lá, na mesma posição, mas ele ficou contente por poder voltar para seu barraco, deitar em seu colchão e pensar sobre tudo aquilo que ele viu. Assim foi. Deitado, olhando para o teto, ele varou a madrugada pensando. Então era por isto que Gabriel era diferente e sempre feliz mesmo sem ter nada de seu na vida. Aquela visão, uma constante em sua memória, foi amolecendo o seu coração. Ele relembrava das coisas horríveis que ele fazia com garotinhos em idade escolar. Ele refletiu sobre muitos aspectos de sua vida. Lembrou-se de como sofreu abusos em sua infância e como tudo que sofreu refletiu em sua personalidade e comportamento. Reconheceu que todo o poder que ele tinha e todo dinheiro que conseguia vendendo as drogas, na verdade, não tinham o menor valor.
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Do que lhe servia ter de tudo? Os melhores e mais modernos aparelhos eletrônicos. Carro novo que ficava escondido numa garagem longe da favela. Ele na verdade, tinha tudo, mas ao mesmo tempo, não tinha nada. Ele que sempre se proclamou dono da verdade na favela e ditava as leis que ele mesmo criava, não sabia nada de nada, mas Gabriel sim. Ele tinha um tesouro incalculável. Algo tão precioso e valioso que ele não tinha, porque nunca procurou. Ele tinha o conhecimento e isto, ninguém pode tirar de ninguém. Em suas reflexões ele se arrependeu amargamente por ter fugido da escola depois de ter cabulado aulas quase todos os dias, no pouco tempo que ficou na escola onde sua mãe o matriculou. O grande tesouro de Gabriel era aquele livro. O mistério daquela luz estranha e maravilhosa que tanto lhe chamou a atenção, até que ele resolveu investigar, era aquela arvore. Era lá que estava a chave do segredo de sua paz, de sua personalidade diferente, de seu semblante sempre acompanhado por um sorriso, mesmo nos piores momentos de sua vida.
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Betão queria muito que aquele livro fosse dele. Que ele pudesse se sentar embaixo dos galhos daquela árvore mágica que saia dele, mas ele sentiu do mais fundo de seu coração que não era justo nem correto, roubar o livro do rapaz. Antes de ter presenciado aqueles momentos de pura magia no cubículo onde morava Gabriel, ele simplesmente roubaria o que quer que fosse. Bastava ele querer para ter. Ele penas tiraria o objeto do dono, sem pedir permissão, afinal, naquele lugar ele sempre foi o chefão todo poderoso, mas agora não mais. De alguma forma, ele sentia que precisava proteger aquele grande tesouro de ser roubado de Gabriel, muito menos queria correr o risco daquele objeto de infinito valor ser destruído de alguma forma. Noites e noites se passaram. Sempre que podia, Betão ficava olhando Gabriel embaixo daquela arvore maravilhosa e aquela visão lhe dava uma paz e um sentimento que ele nunca teve na vida. Algo começou a tomar conta de seu coração. Ele queria o bem de Gabriel. Aprendeu a respeita-lo por ser tão especial assim.
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Secretamente ele começou a fazer uma coisa que ele não fazia há muito tempo. Ele começou a ler e lendo ele começou a aprender. Ele conheceu lugares que nem imaginava que existiam. Povos e costumes de todo canto do mundo. Ele aprendeu a viajar sem sair do lugar e quando ele lia escondido dos outros marginais, ele tinha a nítida impressão de que estava embaixo daquela mesma arvore que ele viu no cubículo de Gabriel. Dia após dia, escondido dos "clientes" e “parceiros” do tráfico, ele aprendia mais e mais. Sempre que podia, ele comprava um livro diferente e quando acabava de ler, emprestava a Gabriel que na primeira vez em que ele lhe ofereceu um livro emprestado, nem acreditou. Betão começou a agir estranho para os manos do pedaço. Não queria mais que o chamassem pelo apelido, mas sim de Roberto que era seu nome. Passou a ir a teatros, ao cinema, chegou mesmo a ir ao Teatro Municipal assistir uma ópera escondido, é claro, dos outros delinquentes e ele sempre foi um deles, mas depois de saber da origem da Arvore do Conhecimento e conhecer seus encantos, aos poucos estava deixando de ser.
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Roberto, o ex-Betão, gradativamente foi mudando sua vida. Fez um acordo com outro traficante e passou seu ponto e a clientela, porque não tinha outra coisa a fazer. Ou ele passava o negócio para a frente, sou seria morto pelos outros marginais. Feito isto, ele se mudou de lá e arrumou um emprego. Foi trabalhar numa biblioteca onde tinha ao alcance de suas mãos, os maiores tesouros literários da humanidade. Na mudança, ele levou Gabriel para morar com ele e dividiam o mesmo quarto no novo barraco, assim como tudo que ele tinha. Após a fase de adaptação ao novo lugar onde foram morar, ele fez questão de custear a volta de Gabriel para a escola e garantiu que ele nunca mais ficaria só neste mundo. Roberto saia cedo para trabalhar, deixava dinheiro para Gabriel tomar o ônibus para ir e voltar da escola e quando voltava à noite, eles sentavam juntos na mesa para jantar. Um dia, Gabriel ainda atônito pela mudança de Roberto, com muito jeito perguntou como ele pode mudar tanto.
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O ex-traficante e marginal, que agora era um homem de bem, que cuidava de seu "filho" que surgiu como milagre em sua vida, olhou bem em seus olhos e lhe contou seu segredo. Ele disse com lágrimas nos olhos, que o milagre aconteceu, porque sem Gabriel saber de nada, ele havia visto sair do livro que ele estava lendo numa certa noite, há muito tempo atrás, a árvore mais linda que alguém pode ver na vida. Que o havia visto, sentado naquele engradado de madeira, no cubículo onde ele vivia, com fome, com frio, sem ter nem mesmo um colchão para se deitar e dormir, mas alegre e feliz, porque estava embaixo dos galhos da Arvore do Conhecimento, que sempre o iluminou com sua luz, fazendo ele ser o garoto especial que era. Emocionado Gabriel sorriu e o abraçou. Por alguns momentos eles ficaram abraçados, com lagrimas correndo nos olhos de ambos, mas de repente, um tiro se fez ouvir. Roberto olhou para trás. Virou-se novamente para Gabriel e caiu...
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Uma bala perdida o havia acertado nas costas, na altura de seu coração. Se as posições dos dois fossem diferentes, seria Gabriel quem teria sido atingido. O garoto mais do que depressa tentou socorrê-lo, mas foi tarde demais. A bala havia perfurado seu pulmão e se alojado próxima ao seu coração. Gabriel ajoelhado, com a cabeça de Roberto no colo, gritou por socorro, mas ninguém apareceu. Outros disparos foram ouvidos em meio à escuridão da noite. A favela emudeceu. Todos os moradores ficaram em seus barracos. Ninguém se atrevia a sair, nem mesmo para prestar socorro a alguém. Roberto não teve chance nem mesmo de ser socorrido e levado a um hospital. Ele partiu deste mundo nos braços de Gabriel, mas antes de morrer, teve tempo de dizer ao garoto, que um dia, se Deus permitisse que ele voltasse para pagar seus pecados e se redimir de tudo de ruim que ele fez nesta vida, ele queria que pelo menos, pudesse ter mais cedo, a chance de poder ver surgir novamente de dentro de um livro, a Arvore do Conhecimento.
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Emocionado, com seu jovem coração sangrando mais uma vez na vida, ele viu seu novo amigo e protetor partir. Mais uma vez ele estava só. Mas a vida nem sempre nos traz coisas ruins, umas atrás das outras. Quando vieram recolher o corpo de Roberto, junto com a equipe veio uma policial técnica que ao ver Gabriel, não conseguia tirar os olhos dele. Assim que o corpo foi removido, ela se aproximou dele e para cumprir seu dever começou a preencher um relatório de rotina. Ao questioná-lo sobre muitas coisas, ela ficou impressionada com a educação e desenvoltura dele. Após ter cumprido sua obrigação preenchendo o relatório com muito profissionalismo, ela se afastou por uns instantes de Gabriel, pegou o celular, fez algumas ligações. Gabriel observava intrigado. Enquanto ela falava com as pessoas do outro lado da linha, sua expressão mudava constantemente. Por vezes ela parecia triste, por outras, pensativa, e às vezes, ensaiava um sorriso.
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Entre uma ligação e outra, ela olhava para Gabriel. De acordo com a Lei, não tendo parentes, sem ninguém da família para cuidar dele, seu destino seria ir para o Juizado de Menores e de lá, encaminhado para um reformatório. O coração de Gabriel batia acelerado. Ele sabia qual era seu destino e pedia a Deus que fizesse em sua vida mais um milagre. Que de alguma forma ele não fosse obrigado a ir para um lugar de onde ele tinha medo, porque ele sabia que quem entrava lá, se fosse bom, saia ruim e se fosse ruim, saia pior. Curioso, meio desconfiado, sem saber o que mais de ruim poderia acontecer com ele, ao lado de outro policial ele ficou. Em dado momento, depois de quase uma hora de conversas pelo celular, finalmente ela desligou o aparelho de uma vez. Segurando o celular junto ao peito, como se ele tivesse sido naquele momento a melhor ajuda que ela poderia ter, ela sorriu. Calmamente ela caminhou em direção a Gabriel. Ao vê-la se aproximando com um sorriso lindo em seus lábios, ele não sabia o que esperar.
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Quando ela lhe disse que não precisava mais se preocupar, que ela tinha arrumado um jeito dele não ter que ir para o reformatório juvenil, ele sorriu e a abraçou. A jovem policial correspondeu ao abraço dizendo que depois de falar com muitos amigos e conhecidos, ela tinha conseguido um casal para adota-lo. Ao ouvir isto ele nem pode acreditar. Além de não ter que ir para aquela fábrica de marginais ele tinha ganhado uma família! Deus lhe concedeu o milagre que ele pediu com tanta fé. E assim foi. Gabriel, do barraco na favela, foi morar com um casal que não podia ter filhos por motivos de saúde. Já eram de meia idade e não queriam arriscar a assumir a responsabilidade de adotar um bebê, por medo de não conseguir cumprir a missão de criar e educar a criança. Gabriel na vida deles tinha caído do céu. Em sua nova casa havia uma biblioteca enorme. Seu novo pai era um homem culto e um dia, sentados na sala lado a lado, ele lhe contou uma fábula antiga sobre a história da Arvore do Conhecimento.
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Gabriel ouviu calado, a historia era linda, mas a sua era mais. Sua memória o levou de volta ao barraco na favela e ele se lembrou do desejo de Roberto, seu amigo e protetor, que tanto bem lhe fez antes de morrer. Ele não disse nada ao seu novo pai, mas pensou. Ninguém como ele e Roberto, sabia exatamente o que significava estar lendo um livro, do qual saia o tronco de uma arvore, cujos galhos eram repletos de folhas iluminadas. Uma arvore cheia de luz, carregada de botões de flores que tinham o formato e o brilho, das estrelas lá do céu...
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Ele e Roberto tiveram em suas vidas, de formas diferentes, em circunstâncias diferentes a alegria de conhecer, a verdadeira e única Arvore do Conhecimento. Uma arvore tão bela, tão cheia de luz, tão ao alcance de todos, mas tão ignorada e desconhecida por muitos, que às vezes, passam a vida inteira, sem dar a ela a devida atenção. O segredo de sua localização na verdade não é um segredo, é questão de sentimentos, de emoção. Basta abrir um livro, começar a ler e se entregar à leitura. Em poucos instantes, enquanto se passa a viver a historia que estamos lendo, deixando o espírito ser levado pelo enredo criado pelo autor, quando já podemos até mesmo visualizar os lugares, as paisagens e os personagens, do meio do livro, a gente nem percebe, mas surge uma luz e ela vai crescendo, e conforme lemos o livro, esta mesma luz vai tomando a forma de um tronco, depois surgem os galhos, depois as folhas, depois as flores, e por ultimo, os frutos e eles só aparecem, quando terminamos de ler o capitulo final.
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Sem saber, a cada livro que lemos na vida, fazemos germinar, crescer, florir e dar frutos, uma nova, mágica e encantadora Arvore do Conhecimento, que nos ilumina com seus galhos e folhas cintilantes, para nos proteger a todo momento, dos males que acompanham as trevas da ignorância.
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Autor: José Araújo

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O GRANDE CONCURSO



Na zonal sul da cidade, um grande e famoso shopping promoveu um concurso, que daria um carro zero quilometro, à pessoa que fizesse a coisa mais inacreditável. O carro era um automóvel importado de ultimo tipo e a euforia tomou conta dos clientes que freqüentavam o lugar. A chamada a nível de promoção do Shopping, funcionou perfeitamente. Era um concurso diferente dos demais, e todos os dias, na praça de eventos havia sempre uma chamada para o concurso, com a informação ao público sobre candidatos já inscritos. O Shopping ficava lotado de segunda a domingo. As lojas estavam vendendo muito além da média, já que estavam fora de épocas especiais. Os jovens, os de meia idade, e é claro os velhos também, estavam se matando de tanto treinar para o que iriam fazer no dia de sua apresentação. Eram dores de cabeça de tanto pensar. Músculos e nervos distendidos causando desconforto em todo lugar. O exagero chegou a um ponto, que quatro pessoas morreram de tanto comer e duas foram parar na UTI de tanto beber, só para provar que poderiam conseguir vencer, fazendo a coisa mais inacreditável, mas certamente, este não era o caminho para ganhar o primeiro lugar.

No dia marcado para as apresentações na praça de eventos do Shopping Center, cada um tinha que mostrar que podia mesmo fazer a coisa mais inacreditável que já se tinha visto no país. Pais orgulhosos e esperançosos, inscreveram seus bebês até de dois anos de idade e outros, inscreveram seus avós e bisavós, pois tinham certeza de que eles poderiam vencer o concurso. Não se falava em mais nada na cidade, a não ser, o grande concurso. Entre os jovens e os velhos, entre homens e mulheres, o assunto era um só. O concurso virou coqueluche e contaminou a todos os cidadãos. Foi então que chegou a o grande dia.

A praça de eventos estava lotada. Havia até torcidas uniformizadas e o barulho... era infernal! Um a um, os candidatos foram se apresentando perante a comissão julgadora e a expectativa pela próxima apresentação deixava a todos inquietos. O que viria depois? Apareceu de tudo na concorrência pelo primeiro lugar. Foram canções cantadas de bocas fechadas, dançarinos que usavam as costas ao invés dos pés para dançar, dentre muitas e muitas coisas que não se vêem todos os dias, até que enfim, chegou a vez do penúltimo candidato. Ele era um escultor. Quando o alto falante anunciou o candidato, o riso foi geral. Um escultor? O que poderia um artista como ele fazer de inacreditável?

As esculturas são formas e os resultados dos trabalhos dos escultores geralmente são muito bons, mas de inacreditável, o que ele poderia fazer? Anunciado, ele entrou no grande palco arrastando algo sobre um carrinho, e fosse o que fosse, estava coberto por um enorme tecido preto. O silêncio foi total. A platéia ansiosa, não via a hora de ver o que ele havia feito para concorrer, nem ao menos respirava. O jovem escultor disse algumas palavras ao publico e após com um movimento súbito e inesperado, ele puxou a cobertura que escondia sua escultura. A exclamação foi geral! OOOOHHHHHHHHHH!!!

Na frente de todo mundo, estava a mais bela escultura que alguém já tinha visto. Era a escultura de um corpo de mulher. Seus traços faciais eram tão perfeitos. Seus olhos tão vívidos. Sua boca tão linda. Um corpo escultural, vestindo uma túnica  como nos tempos dos Deuses do Olimpo. A perfeição era tão grande, que todos silenciosamente esperavam que ela se movimentasse e que a qualquer momento, falasse também. Não houve um dos jurados que não concordasse que aquele era o melhor candidato. Ele era mesmo um grande artista. Um daqueles que aparecem de séculos em séculos, e para a felicidade de todos, ele estava ali, bem na frente de seus olhos. Ele era de carne e osso e tinha realmente feito a coisa mais inacreditável já vista.

Sua escultura parecia viva, e mais, ela parecia que com sua beleza tinha enfeitiçado a todos! Ele tinha que ser o vencedor. Contudo, alguém lembrou ao júri que ainda havia um candidato que não se apresentou. Ele era o ultimo na lista e tinha direito a fazer sua apresentação, e quem sabe, até vencer o concurso, se fosse o melhor. Justiça tinha que ser feita. Mesmo contrariados,  todos foram unânimes. Ele iria se apresentar. A platéia inconformada, começou a vaiar. Em meio a um barulho ensurdecedor, com um martelo enorme em suas mãos, ele entrou no palco. No mesmo instante em que ele chegou ao centro do palco, as vaias pararam de soar. O silencio se fez.

Os jurados, a comissão organizadora do evento e a platéia, estavam sem piscar. O que um cara com um martelo enorme nas mãos poderia fazer de mais inacreditável, do que aquela escultura mágica que encantou todo mundo? O candidato disse a todos que agora sim eles iriam ver alguém fazer a coisa mais inacreditável que já tinham visto, e que isto, eles poderiam escrever, porque era o que ia acontecer. Sem dizer mais uma palavra, ele dirigiu-se para onde estava a bela escultura feita pelo seu concorrente. Ele parou em frente a ela e admirou cada detalhe. Depois virou-se para a platéia que ainda estava muda, dizendo que ele mesmo, nunca tinha visto algo tão inacreditável como aquele trabalho, mas que agora sim, todos iriam ver algo verdadeiramente inacreditável.

Então, ele empunhou seu enorme martelo de ferro e com golpes firmes e decididos, CRASH! TUD! TUD! BAM! CRACK! CABRAM! TUNK! CRÁS! CRECK!

Ele destruiu a bela e magnífica escultura de seu concorrente que encantou a todos. Diante dos olhos arregalados dos jurados, da comissão organizadora e da platéia, ele não se cansou de dar marteladas naquela magnífica obra de arte, até que de suas formas perfeitas, não houvesse mais nada. Atônitos, ainda em silêncio, diante do que tinham que admitir, era inacreditável, todos ouviram quando ele disse com voz firme e decisiva, que tinha provado que ele poderia fazer melhor que todos os outros candidatos. Que tinha superado a todos com o que tinha acabado de fazer, e sobre tudo, o escultor da obra de arte que ele destruiu. Naquele instante, ele se proclamou o vencedor do concurso, porque ele tinha feito a coisa mais inacreditável já vista. Ele havia destruído uma verdadeira obra de arte. Revoltados com a atitude dele, a platéia inteira, num tremendo estrondo, como um vulcão quando entra em erupção, vaiou a toda voz. UUUHHHHH!!!! FOOORAAAAA!

Contudo, os juizes após ponderar muito sobre a decisão, o proclamaram como o grande vencedor, deixando a todos sem saber o que dizer. Eles o fizeram, porque perante a lei, destruir uma obra de arte, é o crime mais incrível e a coisa mais inacreditável que alguém possa fazer. A platéia inteira, mesmo não concordando com a decisão, teve que aceitar que ele fosse o vencedor e grande ganhador do concurso, recebendo as chaves do seu carro importado e zero quilometro, enquanto o escultor chorava tristemente sobre o que restou de sua obra de arte, porque Lei é Lei e ela tem que ser obedecida, em qualquer situação.

Mesmo que para isto, seja preciso que se faça, a coisa mais inacreditável que alguém possa fazer.

Autor: José Araújo

domingo, 5 de abril de 2009

UM DIA TALVEZ, ELES POSSAM VIR...





Quem sabe, daqui há dois mil anos eles virão. Talvez, mas ao que tudo indica, é o que vai acontecer, eles possam chegar em suas naves prateadas, que após entrar na atmosfera de nosso planeta, irão atravessar a massa de gases que terá substituído o oxigênio impuro que hoje respiramos, voando sobre o que tiver restado dos oceanos, dos rios e das florestas. Elas estarão protegidas por poderosos campos de força que impedirão que as devastadoras tempestades magnéticas lhes façam algum mal. Jovens humanos vindos do planeta Gaia, a irmã gêmea da Terra do outro lado do Universo, virão conhecer o que sobrou dela depois que interferimos na natureza. Terra. O berço de seus ancestrais.

Curiosos, eles virão visitar monumentos anciões em ruínas, exatamente como fazemos hoje com lugares como as pirâmides do Egito, a cidade perdida de Machu-Pichu, os templos dos Maias e dos Incas e as planícies de Nazca, com seus desenhos tão grandes e detalhados, que só podem ser vistos do alto, e que hoje, nos despertam tanta curiosidade e fascínio, dos quais, nem mais vestígios existirão. Em dois mil anos eles poderão vir. Quando aqui chegarem, poderão encontrar apenas enormes sulcos no solo, onde um dia foram grandes rios como o Amazonas, o Tâmisa e o Nilo, dentre muitos outros. Em lugares onde hoje existem paraísos tropicais, encontrarão paisagens cobertas pelo manto branco da neve, e a Aurora Boreal, poderá estar brilhando num céu avermelhado, sobre as terras do Brasil.

Onde antes haviam muitas fontes verdejantes, em meio a uma natureza esplendorosa, poderão encontrar ao mesmo tempo, deserto e geleiras, dunas de areias, grandes muralhas de gelo e rios de lava incandecente coexistindo lado a lado, como ainda não chegamos a ver. Não encontrarão nada parecido com aquilo que aprenderam nos livros virtuais sobre o que foi planeta azul. Geração após geração, a raça humana no planeta Terra terá chegado ao fim dos tempos de sua existência e terá se tornado em pó. Os sábios de Gaia, ensinarão aos jovens humanos de lá, que os humanos da Terra, do pó vieram e ao pó retornaram, pelas próprias mãos. Quando partirem de seu planeta, os grupos de jovens da nova geração de humanos nascidos em Gaia gritarão excitados:

Vamos para o planeta Terra!

O berço de nossos ancestrais!

Lugar de muitas memórias e imaginação!

Vamos partir!

Então, suas naves virão. Todas elas repletas de novos humanos, loucos para chegar aqui. Ansiosos para conhecer o lugar que deu origem à sua raça. Com a velocidade da luz, eles logo chegarão. Sensores eletrônicos de presença instalados no fundo dos oceanos por mãos humanas do passado, os que ainda tiverem resistido ao caos provocado por nós, indicarão em seus resgistros, o tamanho do grupo de naves que estarão chegando. Ao entrar na atmosfera, que então será composta de gases que hoje nem imaginamos poder existir, terão apenas noção das proporções dos continentes pela sua silhueta escura, destacada na imagem avermelhada do planeta que dantes era azul e que graças aos humanos, se tornou avermelhado. Guias turísticos e mestres em história, mostrarão a eles onde ficavam grandes países, berços de gigantescas nações e suas grandes capitais, assim como as principais cidades e monumentos de cada lugar.

Quando as naves estiverem sobrevoando onde um dia foi um país chamado Brasil, os mestres lhes dirão que lá embaixo, onde estarão vendo apenas vulcões em erupção e fogo saindo do solo por toda parte, um dia foi um país tropical. Um lugar paradisíaco, onde nasceram grandes artistas do passado da humanidade. Alguns conhecidos por nós, outros ainda por nascer. Uma nação onde Caetano Veloso cantava a Tropicália para a alegria da juventude Hippie brasileira. Onde Cecília Meireles escrevia e declamava os mais belos versos e poesias do romanceiro da inconfidência. Lugar onde outro grande artista, Dorival Caymmi, mostrava ao mundo inteiro todo seu talento de compositor para orgulho da pátria amada.

Onde Gal Costa e Maria Bethânia, cantaram e encantaram corações com suas vozes melodiosas. Um país de tantos talentos, de tantas artes, de tantas glórias. O Brasil das obras de Tarsila do Amaral, de Di Cavalcanti e Cândido Portinari. Berço dos grandes mestres da literatura nacional, como Graciliano Ramos; Guimarães Rosa; José de Alencar; Lima Barreto; Machado de Assis; Mário de Andrade; Luiz Érico Veríssimo; João Ubaldo Ribeiro; José Lins do Rego, Oswaldo de Andrade e outros que ainda vão surgir. Quanto desperdício! (Eles dirão) Eles também se perguntarão, porque uma raça tão inteligente, tão sensível, tão cheia de talentos e virtudes, mãe de tantos gênios da arte e da literatura teria cometido um crime tão hediondo assim? Por que tanto ódio de si mesmos? Com uma mente aberta, usando seus 100% de sua capacidade de raciocínio, eles não encontrarão explicação lógica para crime que teremos cometido.

Atônitos, ao ver nas telas de suas naves o registros digitais das imagens do que antes foi o planeta Terra, eles ouvirão os relatos de seus mestres e guias silenciosamente, com um aperto no coração. Enquanto isto, suas naves irão pairar sobre vários locais históricos de onde foi um dia um país maravilhoso, sem igual. Em muitos lugares estratégicos, como no topo do Pão de Açúcar, ou o que sobrar dele após tanta destruição, serão construídos hotéis para acomodar os turistas vindos de Gaia em busca de conhecimento. Neles, haverá sem exceção, atmosfera artificial para maior conforto dos viajantes. Poder respirar sem ser artificialmente, será definitivamente impossível num planeta como a Terra do futuro.

Grande parte dos turistas, pagarão enormes quantias em dinheiro para se hospedar em hotéis construídos em pontos especiais, por apenas uma noite, mas para poder dizer aos seus quando retornarem, que estiveram aqui. Gastarão o que for necessário para poder viver momentos únicos e aterrorizantes de encontro com aquilo que um dia, foi o lar de seus ancestrais. Turismo cultural na Terra, daqui a dois mil anos, poderá ser considerado matéria obrigatória no curriculum de cada ser humano que nascer em Gaia. Em suas naves, durante as viagens de um lugar para o outro no planeta Terra, que um dia será chamado de Planeta Vermelho, muitos passageiros adormecerão porque fugir da realidade através dos sonhos, poderá ser sua única saída para que não fiquem extremamente traumatizados, com tudo que virem de ruim por aqui.

Por entre os gazes nos céus, sobre o que restar dos oceanos, voando sobre grandes geleiras onde um dia foi o sertão brasileiro, eles poderão vir, e eles virão, se os humanos do planeta que hoje é azul não pararem para refletir sobre as conseqüências de seus atos, contra a natureza, contra o meio ambiente, e pior, contra eles mesmos. Quando estiverem satisfeitos com o aprendizado que tiveram visitando o continente sul americano, seguirão viagem rumo a outras paragens. Seu destino, o lugar onde foi o Pólo norte do planeta. Pelas imagens que viram nos livros digitais, o solo de lá antes era coberto pelo gelo e ficava no extremo norte do planeta, mas as imagens reais que irão encher seus olhos de terror, serão as enormes erupções de Geisers, que se lançarão em jatos poderosos de líquidos ácidos e com uma temperatura tão alta, que se atingissem suas naves sem que estivessem protegidas por seus campos de força, seria o seu fim.

Pouco a pouco, lugar por lugar, os novos humanos vindos de Gaia conhecerão detalhes de cada país que um dia existiu na Terra. Algumas naves já mais distantes que as outras, ao sobrevoar o que antes foi uma cidade que se chamava Paris, proporcionarão aos seus tripulantes, a oportunidade de ver surgir do lodo fedorento de enxofre, apenas a ponta de uma imensa estrutura metálica que em sua época de glória, era chamada pelos homens de Torre Eiffel. Um dia, certamente eles virão e se permitirmos que este dia chegue, teremos cometido suicídio, teremos procurado a nossa morte com as próprias mãos. Teremos usado a inteligência que Deus nos deu com a melhor das intenções, infelizmente, para este fim. Teremos matado aos poucos, desde os primórdios dos tempos, a nós mesmos e a todos os seres vivos que Deus criou.

O planeta vermelho do futuro, que hoje conhecemos como azul, terá resistido a tantas barbaridades, a tantas atrocidades, mas estará moribundo, e deserto, porque não mais estaremos aqui. Ele estara pedindo clemência para que acabem com seu sofrimento, com sua agonia. A Terra estará gritando de dor, e seu pranto, será ouvido através da imensidão do Universo sem fim. Ela estará implorando ao todo poderoso, ao nosso criador, que faça com que chegue para ela, assim como chegou para nós humanos, o dia do juízo final.


Daqui a dois mil anos, ou até muito menos, um dia talvez, eles possam vir...

Será que ainda há tempo para mudar o rumo que as coisas estão tomando?

Vamos deixar que o pior aconteça por causa de nossas atitudes impensadas?

Responda sinceramente, mas não a mim, o escritor e autor deste conto, mas a sí mesmo, contudo, pense bem antes de responder...

De minha parte, do mais fundo de meu coração...

Eu espero que não...

Autor: José Araújo


domingo, 29 de março de 2009

A ARCA DE NOÉ



L. M. Honesto, era prefeito de uma grande cidade de um país de um dos maiores continentes do planeta Terra. Carinhosamente, era chamado por todos apenas de Honesto. Ele era um exemplo para todos. Um ser humano que só se podia conceituar atualmente como um homem justo. Particularmente, era um apaixonado pela organização de forças de combate e pelo uso de armas avançadas, tais como canhões laser, pistolas desintegradoras, mísseis inteligentes, impossíveis de serem interceptados por causa de seus campos de força especiais e que eram guiados pelo calor humano, e também a última novidade bélica - A bomba química, que uma vez lançada, ao atingir o alvo, liberava vírus mortais capazes de aniquilar nações inteiras sem deixar absolutamente nenhum vestígio! Ele era um líder nato para os padrões de sua época. Um dia, ele caminhava pelo calçadão da praia, quando de repente, de seu fone de ouvido conectado ao seu celular via Bluetooth, um vozeirão se fez ouvir:

- HONESTO!

Ele imediatamente estremeceu.

Só podia ser o Criador!

Quem mais teria aquela voz?

-HONESTO, a voz trovejou:

-NÃO ESTOU CONTENTE COM OS HOMENS. ELES ESTÃO INSENSIVEIS E POLITIZADOS DEMAIS. GUERREIAM ENTRE SI E SÓ DEFENDEM OS INTERESSES PRÓPRIOS. DA MINHA INTENÇÃO QUANDO CRIEI ADÃO E EVA, NÃO SOBROU NADA E ACABOU DANDO NISTO...

-ANTES EU FIZ CHOVER DURANTE 40 DIAS E 40 NOITES, ATÉ COBRIR A TERRA DE ÁGUA, O QUE ACABOU POR SER CONHECIDO COMO 'O DILÚVIO', MAS DESTA VEZ SERÁ DIFERENTE.

-VOU MANDAR UM METEÓRO DE GIGANTESCAS PROPORÇÕES SE CHOCAR COM A TERRA E TUDO ACABARÁ EM FOGO, EM QUESTÃO DE SEGUNDOS. QUERO QUE NASÇA UMA NOVA HUMANIDADE, DE HOMENS MAIS SENSIVEIS E INTELIGENTES, PRÁTICOS E OBJETIVOS.

-VÁ! CONSTRUA UMA NAVE ESPACIAL, PARA TI E PARA A TUA FAMÍLIA E LEVA PARA DENTRO DELA UM CASAL DE CADA SER VIVO DESTE PLANETA.

-TERÁS CENTO E VINTE DIAS PARA ESTE EMPREENDIMENTO. O MEU CONTATO CONTIGO, SERÁ SEMPRE VIA E-MAIL ATRAVÉS DO ARCANJO GABRIEL.

O fone de ouvido emudeceu...

Honesto imediatamente começou a pensar. O Criador o elegera gerador da nova Humanidade! Que grande oportunidade lhe caiu do céu! Todas as suas ideias daquele momento em diante, seriam direcionadas a programar o futuro da humanidade! Mas, Honesto não conhecia nada de naves espaciais, muito menos de navegação interestelar! Quatro meses... Era muito pouco! Ele tinha que resolver um problema técnico, como construir uma nave enorme. Que incumbência!

Honesto vasculhou o banco de dados de sua memória. Conhecia um engenheiro espacial que se chamava Noé. Ele poderia sem dúvida construir para ele a nave que levaria a humanidade a outros mundos em busca de um novo lar. Honesto seria o coordenador do empreendimento (que demais!) e Noé seria o elemento técnico desta proeza. Tão rápido como pensou, tão rápido ele fez. Foi falar pessoalmente com Noé.

- Meu caro amigo de tantos anos - falava Honesto com propriedade - quero encomendar-lhe uma nave espacial, mas não uma nave qualquer, a maior já construída!

- Sim, senhor, mas de que tipo, para que tipo de carga e para qual destino?
- Ora, ora Noé, isto são só meros detalhes. É uma nave para grande carga e para o espaço aberto. Para uma viagem interestelar! Quero fazer uma longa viagem com a família em busca de outros mundos e levarei tudo que possuo.

- Está bem, senhor. Temos aqui mesmo, na siderúrgica onde trabalho, Titânio de ótima qualidade e densidade, em quantidade suficiente. Acho que consigo arranjar dez bons metalúrgicos, dez bons maçariqueiros, dez técnicos em engenharia espacial e assim conseguirei construir sua nave.

Mais tarde, Honesto chamou G. H. Larápio, o funcionário padrão de sua empresa.

- Larápio, como você já deve saber, vamos construir uma enorme nave espacial...

- Sim, chefe, ouvi mesmo o Senhor dizer algo a respeito.

- E o que você me diz de tomar a frente e coordenar a obra?

- Beleza! Pode deixar comigo, patrão. No recrutamento da última batalha que lutamos contra o “aquele” país, pagamos sete mil reais a experts em armas biológicas e estes, são apenas metalúrgicos e trabalhadores braçais. Nosso departamento de R.H. tem cinco recrutadores e quinze examinadores, para esta primeira fase de seleção!

- E quanto você acha que devem ganhar?

- O salário desta equipe vai variar entre dez e doze mil reais, por serem especialistas. Chefe, só há um pequeno problema que precisamos resolver. Não vou assumir as responsabilidades com o numerário, além do mais, não sou mesmo bom em contabilidade. Não acha melhor termos uma pessoa qualificada para a gerência financeira de seu empreendimento?
- Bem lembrado meu acaro Larápio! Mas há outro problema. Não conheço nenhum que se enquadre no cargo e deve ser um homem de confiança!

- Ok chefe! Mas sempre podemos fazer uma seleção entre vários candidatos. - Fique tranquilo e deixe também isto comigo! Vou já providenciar os primeiros passos.

A cada dia, o empreendimento crescia mais e mais. O R.H. e suas equipes de recrutamento e seleção já estavam trabalhando de vento em popa. Depois de muitos candidatos, todos reprovados, alguém foi nomeado para o cargo por indicação de Larápio e as finanças finalmente já tinham um responsável. Mas onde colocar todo o pessoal que estavam contratando? Honesto, com o seu habitual dinamismo, adquiriu por indicação de Larápio através de um financiamento, um imenso galpão onde antes havia sido uma fábrica de aviões que estava desativada, contratando de imediato, para maior controle, pessoal de supervisão e segurança. Claro, por indicação de Larápio.

Uns tempos depois, na sala da presidência o interfone tocou.

-Senhor Presidente - falou a graciosa e sexy secretária e recepcionista. - Está aqui o Sr. Noé, o engenheiro espacial. Ele trouxe alguns desenhos para lhe mostrar e...

- Menina! Já não lhe disse para não me interromper? Diga ao Engenheiro Noé que marque um horário e volte outro dia.

O interfone tocou novamente e a secretária disse que o Senhor Larápio estava ao telefone. Honesto atendeu imediatamente.

-Pois então, meu caro amigo Larápio, meu amigo e parceiro nesta jornada, preciso cercar-me de gente de absoluta confiança para o sucesso de nosso empreendimento.

- Claro meu querido chefe! Sabe que pode confiar em mim em qualquer situação, mas o armazenamento das chapas de Titânio que vão ficando prontas necessita de um almoxarifado adequado e de um bom almoxarife para controlar as entradas e saídas de material. Para maior controle, preciso de um computador, uma impressora nova, além de alguns arquivos, prateleiras de grande porte e pessoal de apoio.

- Perfeito meu caro Larápio! Encomende tudo que precisar e supervisione você mesmo todo o processo de recrutamento e seleção de pessoal.

Naquele momento, entrou Shirley, a secretária do Presidente. Larápio aproveitou a chance e afastou-se de fininho.

- Senhor Presidente, o Engenheiro Noé passou vários e-mails e tem ligado constantemente tentando marcar um horário, mas de acordo com suas ordens, disse a ele que sua agenda esta lotada nas próximas semanas. Tenho a nítida impressão de que ele estava aflito para a aprovação de alguns desenhos.

- Ora, este Noé! Que cara insistente e inconveniente! Ele anda precisando de uma boa dose de Semancol! Esta constantemente querendo me confundir com detalhes sobre densidade e espessura das chapas de Titânio e outras bobagens que acha relevantes sobre a carcaça da espaçonave. Ele deveria saber que sozinho não posso e nem quero me responsabilizar pela aprovação desses desenhos. Faça o seguinte: Envie um e-mail a ele e diga que nomearei um Grupo de Trabalho da Nave, o GT-NAV, para me dar o parecer. O cara sem dúvida nenhuma é bom em projetos, mas não entende nada sobre custos ou de administração financeira!

Quinze dias se foram e o organograma proposto já estava na mesa do Presidente. Na mesa de Honesto, havia relatórios de todos os departamentos criados por ele com a ajuda de Larápio, sendo que os mais ativos nos processos eram o da Diretoria das Coisas (DC), o dos Investimentos (DI) e o do Grupo de Trabalho da nave (GT-NAV).

A Diretoria das coisas, já tinha montado um laboratório especializado para a medida de densidade das placas de Titânio e analise de comportamento fora da atmosfera. A Administração, em apenas vinte dias, já tinha preparado as provas de seleção para arquivistas de desenho espacial, para a seleção do pessoal de apoio ao recrutamento, entre outros cargos criados por Larápio no processo de organização geral do empreendimento de Honesto.

Certa tarde, Honesto estava exausto, mas não pôde esquivar-se de receber Noé que o procurou em sua residência.

- Senhor Presidente, perdoe o atrevimento de vir até a sua casa atrapalhando o seu merecido descanso, mas o projeto já está pronto e maioria das pessoas mais necessárias à sua execução ainda não foram nomeadas. O material já está especificado, porém o laboratório ainda não emitiu o laudo de aprovação do Titânio a ser usado e não consegui os metalúrgicos especializados para o corte e montagem das placas... Se o senhor pudesse autorizar-me a trazer os profissionais que conheço para não perdermos mais tempo...

- Cara! Isto não é uma sangria desatada! (Falou Honesto) Não se preocupe Noé. Falarei amanhã com o pessoal do R.H. e apressarei a contratação do pessoal. Noé, nem mesmo sendo o Presidente desta empresa, não posso mudar as normas da organização autorizando diretamente a contratação do pessoal! Normas são normas meu amigo! Sossegue! O empreendimento está nas mãos dos melhores profissionais e sob a supervisão do meu fiel Larápio! Boa noite, Noé, o mordomo o acompanhará até a porta de saída...

Noé afastou-se confuso. Ele não estava entendendo nada. Tinha sido convidado para construir uma nave espacial e agora estava se vendo às voltas com normas, instruções, exames de seleção e uma imensa quantidade de questões burocráticas etc...

Trigésimo dia - A manhã estava radiante. Shirley anunciou a chegada de Larápio.

- Entre meu velho e fiel amigo! Sente-se. Aceita um licor especial ou prefere água mineral?

- Sim, chefe, aceito a agua mineral obrigado! Por falar nisso, mandei distribuir agua pura a todos esta tarde, mas para isso, foi necessário adquirir três caminhões carregados de garrafas de PVC de uma fonte nova para sair mais barato, além de alugar um espaço para estocar a agua e contratar cinco pessoas para trabalhar na organização da distribuição aos funcionários.

- Você é máximo na administração de pessoal Larápio! Esta definitivamente merecendo uma promoção! Graças a você, já temos quinhentas pessoas no efetivo e todas passaram por suas mãos! Que capacidade você tem!

- Meu caro Larápio, não quero incomodá-lo e nem em pensamentos desfazer o belíssimo trabalho da sua equipe, mas o Noé disse que ainda não foram contratados os maçariqueiros para o corte e moldagem das placas de Titânio...

- Chefe, o engenheiro Noé é um sonhador. Só pensa nos seus projetos e desenhos. Já lhe expliquei inúmeras vezes a complexidade e a seriedade do processo de contratação. Apenas como exemplo, já aumentamos a oferta para nove mil reais, mas todos os metalúrgicos especializados em corte e moldagem de placas de metal foram reprovados no primeiro psicotécnico. Se não passam nem mesmo neste exame, imagine nos demais!

- Esta certo! Você tem toda a razão, Larápio. Noé nem de longe imagina o que seja efetivamente é uma boa organização. Oriente e faça as coisas como achar melhor. Se contratei seus serviços e lhe atribui tamanha responsabilidade, é porque tenho total confiança em você e em seu trabalho...

Quadragésimo quinto dia - Finalmente iria ser realizada a primeira reunião de Direção. Era o momento crucial de onde sairiam as grandes decisões de cúpula do empreendimento. O Presidente, empolgado e satisfeito, relatava que o empreendimento era o orgulho da nação. Havia enfim, depois de tanta crise, muito trabalho e emprego para todos. O Diretor da Nave ponderou que faltava papel para o desenho e que a eficiência dos metalúrgicos admitidos era baixa. Noé tentava suprir a falta desenhando em pedaços de papelão e pessoalmente cortava chapas de Titânio à noite, após o expediente. Quando o Diretor da Nave propôs aumentar o salário de Noé para quinze mil reais o Diretor das Coisas explodiu e foi seguido de perto pelo Diretor dos Investimentos que quase teve um enfarte.

- Isto é um absurdo! Estes técnicos não funcionam e ainda querem aumento! Senhor Presidente, um minuto de sua atenção! Sou de opinião que devemos aumentar a equipe de recrutamento e apertar as provas de seleção.

- Desculpe interromper! - retrucou o Diretor da Nave - Acontece que não temos o apoio que precisamos. O senhor está simplesmente desviando recursos para a área de operação da espaçonave, recrutando pilotos, navegadores, etc.

- Mas é claro! - interveio o Presidente - Temos que agir com antecedência no treinamento.

No Octogésimo dia - Honesto passeava pela praia, cercado de seguranças pessoais. Ele estava orgulhoso. Era Presidente de um empreendimento que já contava com duas mil e duzentas pessoas. As preocupações de Noé eram absurdas e infundadas. Não passava de um tecnocrata aloprado e pessimista. Felizmente já haviam contratado o Diretor da Nave para despachar com Noé - Um aborrecimento a menos para ele. Subitamente, o alerta de mensagens SMS de seu celular soou!

- Era um torpedo do Arcanjo Gabriel! - Ansioso Honesto se pôs a ler a mensagem:

"HONESTO! PONHA PESSOAS DE PESO NO TOPO, CASO CONTRÁRIO, O EMPREENDIMENTO IRÁ À FELÊNCIA!"

Honesto que iria passar a tarde fazendo caminhada mudou de opinião. Atravessou a rua e dirigiu-se para o apartamento de Noé.

- Noé, Noé, mude seu projeto! Ponha outra cabine atrás da cabine de comando que já fica na ponta da nave. Vou colocar nela as pessoas mais pesadas!

- Mas, Presidente, isso é inviável! Eu digo mais ainda! É impossível!

A área do bico na espaçonave deve ser sempre a mais leve. Se aumentarmos a massa do topo, a nave vai emborcar!

- Não discuta comigo, Noé. O Arcanjo mandou colocar homens pesados no topo e é isso que vou fazer... E não discuta! Cumpra as minhas ordens!

Noé não retrucou. O Presidente estava irritado e nervoso. Noé correu à Secretaria Geral, mas lá encontrou o Comandante de Operações da Nave, que já o esperava há quase três horas.

- Noé - disse o Comandante - o seu projeto não sai do lugar! Vou treinar os meus homens sem nave? Vou ser obrigado a pedir a aprovação do Presidente para adquirir um simulador, caso contrário não me responsabilizo pelo que vai acontecer.

Noé balançou a cabeça e saiu. Realmente o que ele conseguira até aquele momento? Uma dúzia de desenhos em folhas de papelão por falta de papel para seus projetos? Isto em oitenta dias. Que mais ele poderia esperar? Estava acabrunhado. Do jeito que as coisas andavam, ele estava começando a se sentir um incompetente. Mas o que estaria errado?

O Presidente entrou em sua sala, furioso e desabafou com Shirley.

- Veja só! Faltam apenas quarenta dias e a Divisão de Importação, diz que há crise de transporte e as peças necessárias para a montagem e que são fabricadas no exterior só chegarão no prazo médio de dez dias! Quase berrando ele ordenou: Quero uma reunião de emergência com os diretores. Vou despedir os metalúrgicos admitidos e contratar outros. Se não fosse o Larápio com a equipe de recrutamento, não sei o que teria sido.

- Mas, Presidente, perguntou Shirley. Faltam quarenta dias para quê?

- Para o fim do mundo minha filha, para o fim do mundo!

- Não falo com subordinados, não vou usar o Arcanjo Gabriel como intermediário entre mim e o Criador, portanto, cale esta boca e envie o seguinte e-mail para o dono da boiada:

De: Honesto

Para: O Criador

Solicito prorrogação prazo restante 40 dias. Dificuldades difíceis de serem superadas de imediato. Crise internacional de peças e componente eletrônicos. A sua benção, Honesto.

O ruído monótono de Shirley digitando o e-mail deixava Honesto ansioso, mas a resposta veio finalmente:

De: O Criador

Para: Honesto
CONCEDIDO PRAZO DE APENAS MAIS CINCO DIAS IMPRORROGÁVEIS. METEÓRO A CAMINHO.

Honesto desesperou-se e correu para a reunião. Shirley, pelo telefone interno, espalhou a história do cometa chegando. O Pânico foi geral.

Octogésimo segundo dia.

- Shirley! Ligue para o Larápio imediatamente.

-Larápio? Aqui é o Presidente.

-Já recrutou e contratou os metalúrgicos e novos técnicos?

- Infelizmente, não passam nos testes, meu chefe. Até já afrouxamos as provas, mas o exame de reconhecimento de tipos degeneração dos metais no espaço sideral reprova todos!

- Presidente - interrompeu Shirley que parecia nervosa. É urgente: há dois fornecedores de agua na antessala e dizem que há uma crise nas fontes de água mineral e não vai haver distribuição aos funcionários durante uma semana. O suprimento não providenciou estoque de água durante a seca das semanas anteriores...

Qual é a sua decisão?

Centésimo dia.

- Senhor Presidente - disse o Diretor dos Investimentos - dentro de uma semana vencem os nossos empréstimos internacionais, com as nações vizinhas, e o caixa não é suficiente. O nosso empreendimento economicamente vai muito bem, mas financeiramente... Estamos em crise. Sugiro uma redução de pessoal...

- Senhor Presidente - tentou timidamente o Diretor da Nave - Acho que o Diretor dos Investimentos tem razão, mas não prometemos ao CRIADOR que a nave estaria pronta em breve?

- Mas... Sem material?
- Como posso fabricar as peças que faltam? - gritou o Diretor das Coisas - o seu laboratório não acha a liga ideal de Titânio no estado e há crise de transporte! Os torneiros mecânicos são incompetentes... E esse tal Noé! Que fez ele até agora? E ganha dez mil reais...

- Senhores! - falou gravemente o Presidente. Todos o olharam esperançosos. - A situação do empreendimento é razoável, mas temos que tomar uma atitude mais séria quanto ao projeto da nave...

- Presidente, não quero interromper, mas nos nossos arquivos não constam os exames de admissão de Noé e nem sabemos se ele é engenheiro espacial!...

- Sim, a culpa é minha - falou o Presidente - mas quando convidei Noé ainda não existiam as normas do empreendimento. Sou, portanto, obrigado a despedi-lo. Queira providenciar isto através do Larápio.

Noé ficou realmente furioso com a notificação. Ele estava disposto a sair daquela terra e o caminho mais fácil era atravessar o parque da cidade a pé. Partiu para a sua casa e reuniu a família e os parentes.

- Vamos nos juntar e executar o projeto da Nave por nós mesmos e sair logo daqui!

- Mas, Noé, não somos metalúrgicos, nem sabemos fazer naves espaciais...

- Não importa. Eu ensino vocês a cortar e emoldurar as chapas, pregando-se umas nas outras... Quanto às outras peças e componentes eletrônicos, usaremos o que tivermos à mão, e já que tenho os desenhos. Faremos uma corrente e construiremos uma nave para tentar uma vida melhor, bem longe daqui! Por medidas de segurança, levaremos alguns animais a bordo na viagem. Nunca se sabe que tipo de dificuldades poderemos encontrar por lá.


Mãos à obra!

Em poucos dias a fuselagem da espaçonave já tomava forma. No centésimo vigésimo quinto dia - O Presidente acordou assustado e preocupado. As peças importadas haviam chegado, mas só havia três funcionários no setor de montagem. Seu chofer seguiu o caminho mais rápido para o escritório, para evitar transito engarrafado e o mau tempo. A luz do sol já estava sendo ocultada pela silhueta do imenso meteoro. Nuvens pesadas cobriam os céus. Honesto dirigiu-se diretamente à recepção, mas Shirley só chegava às dez horas. Frustrado ele dirigiu-se ao Centro de Processamento de Dados e ao chegar lá ficou atônito com o que viu.

- O que se passa aqui? Não começou o expediente?

-Quem Diabos é você?

-Sou do "telemarketing", senhor.

-Respondeu a jovem que estava sentada numa das mesas. Já faz dias que não há ninguém. Dizem que, com esse plano de classificação de cargos e salários e com essa política de promoções, não para ninguém em sua empresa... Se for de seu desejo, eu vou localizar a sua secretária...

Por um breve momento, Honesto esqueceu todos os seus problemas e falou consigo mesmo: - Que diabos de língua fala essa jovem? "Telemarketing... Vou localizar..."?

O que ela quer dizer com isso?

Mas logo voltou à realidade e disparou em direção ao seu escritório. No caminho encontrou Larápio que lhe disse preocupado haver ouvido burburinho sobre uma noticia de que o impacto do meteoro com a Terra era eminente. Que poderia ser apenas um boato, mas por via de dúvidas, ele e sua equipe...

Honesto não esperou ele terminar.

Ficou branco e correu em direção à recepção.

Shirley finalmente havia chegado.

- Shirley! Rápido! Passe um e-mail agora!


De: Honesto

Para: O Criador

Dificuldades com projetista atrasam empreendimento. Solicito prorrogação do prazo.

A resposta foi imediata:

De: O Criador

Para: Honesto

PS: Favor acusar o recebimento desta!

PRORROGAÇÃO NEGADA.

Naquele mesmo instante, começou a cair na Terra uma chuva de pequenos meteoros que já causavam destruição em alguns pontos do planeta. Honesto saiu correndo arrastando Shirley pelo braço, seguido por Larápio. Tudo que se via era a escuridão amenizada apenas pelas luzes que se acenderam fora de horário. Os três entraram na Pick-up do Presidente e saíram em uma velocidade insana. Por todos os cantos caia uma chuva de fogo. Olhando-se para o céu, já era possível de ser ver nitidamente os contornos do imenso corpo celeste que se aproximava mais e mais. Em pouco tempo já estavam numa rodovia quase não utilizada, e no caminho, quando passavam próximos da Usina onde Noé trabalhava, a chuva de fogo foi aumentando gradativamente e quando a Pick-up ia ser atingida por um enorme bloco de massa incandescente, Larápio ainda teve tempo de gritar para o chefe, apontando para o outro lado da estrada:

Chefe veja aquilo!

Há uma nave decolando nos fundos daquela Usina e você não vai acreditar no que esta escrito nela!

Mal ele acabou de falar e seu chefe de olhar para onde ele estava apontando e o veículo foi atingido.

Na fuselagem da nave, que agora ascendia os céus rumo à salvação da raça humana, enfrentando e vencendo bravamente a chuva de pequenos meteoros que se abatia sobre ela, carregando Noé, sua família e vários casais de animais que eles haviam conseguido juntar nos zoológicos da cidade antes de partir, estava escrito em letras garrafais:

ARCA DE NOÉ!


Autor: José Araújo


























































































































domingo, 8 de março de 2009

ESCRITORES FALAM SOBRE SÃO PAULO



UNIVERSO PAULISTANO, com lançamento marcado para dia 14, reúne contos inéditos de 44 autores, a maioria deles iniciantes.

Como não poderia deixar de ser, a maior metrópole do País é uma cidade plural em tudo: arquiteturas, formas, raças, credos, climas... Quem vive nela já está acostumado a sair de casa com sol às sete da manhã, abrir o guarda-chuva às nove, às onze vestir o casaco e às cinco tornar a sentir calor.

Cada paulistano — nascido em São Paulo ou adotado por ela — reclama diariamente, e a seu jeito, das peculiaridades desta metrópole. Contudo, ninguém se arrisca a abandoná-la com medo de deixar nela seu coração enquanto o corpo migra para outro lugar. No Pátio do Colégio, afundem o meu coração paulistano, dizia Mário de Andrade. Se Mário disse, é porque é.

Os amantes da Pauliceia ganham mais um instrumento para expressar sua paixão. No próximo dia 14, será lançada pela Andross Editora a antologia Universo Paulistano – Contos, crônicas e poemas de uma cidade que nunca dorme, escrita por 44 autores, a maioria da Capital, e também alguns que há muito se foram, mas continuam com seus pensamentos voltados à grande metrópole.

Os organizadores Edson Rossatto, editor da Andross, e Carlos Francisco de Morais, professor de Literatura, analisaram cerca de 300 textos até chegar às 54 obras selecionadas.

O Viaduto do Chá era a passarela da maior parte de minhas assombrações. O homem das gaitas. Sempre lhe ouvia a gaita antes de lhe vislumbrar o rosto. A índia sentada ao pé da mureta do viaduto com um pano estendido no chão, coberto por peças de artesanato indígena. O filho de pés descalços e sujos escondia a cabeça sonolenta no ombro da mãe índia. O pai-de-santo com seu banco e seus búzios gritava obscenidades aos que passavam por ele. Tantas cartomantes: brancas, negras, gordas, magras. Não descreverei aqui cada assombração, pois descrevê-las significa recordar; e, ao recordar, meu peito parece ficar mais pesado.

A São Paulo invisível, de Maíra Martins


LANÇAMENTO


Universo Paulistano – Contos, crônicas e poemas de uma cidade que nunca dorme

Organização: Edson Rossatto e Carlos Francisco de Morais

DATA: 14 de março

LOCAL: Espaço WN - Rua Jorge Augusto, 668 – Penha - São Paulo –SP (Próximo ao metrô Vila Matilde)

HORÁRIO: das 16h às 20h

Sobre a Andross Editora

Com quatro anos de mercado e 35 títulos publicados, a Andross Editora nasceu no campus da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, para abrir espaço no mercado aos alunos que não tinham condições de publicar seus primeiros textos. Iniciou as atividades com obras acadêmicas, mas cresceu e se manteve no mercado graças a um modelo de negócio diferenciado: a publicação de antologias. Até hoje, a editora já lançou 19 livros deste tipo, e está com inscrições abertas para mais sete até o final do ano.

Mais informações para a imprensa:

Edson Rossatto

(11) 8217-6191

(11) 2943-7687

edson@andross.com.br

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