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domingo, 19 de julho de 2009

A MANSÃO DOS ESPELHOS



Aquela poderia ter sido uma noite como tantas e tantas outras, se algo estranho e inacreditável não tivesse acontecido para mudar de forma inusitada a vida de Eliseu. Enquanto andava pelas ruas do condomínio fechado de alto nível onde trabalhava na capital paulista, cumprindo seu dever profissional de proteger os moradores do lugar contra os perigos comuns da vida moderna, como assaltos, roubos, seqüestros ou vandalismos vindos de fora, ele caminhava absorto em seus pensamentos. Não eram incomuns as tentativas de invasão e toda a atenção ainda era pouca, mas ele estava esgotado. Aquela rotina de medo e insegurança o estava deixando abatido, cansado e com medo até da própria sombra. Seu sonho era sair daquela área de trabalho tão desgastante e arriscada. Em dado momento, ele ouviu o som de uma canção que se fez ouvir ao longe. Pareciam os acordes de um violão e era uma canção tão doce, tão romântica e cativante, que ele se sentiu compelido a caminhar em sua direção. Após andar algumas quadras, iluminado apenas por algumas tímidas lâmpadas dos postes das ruas, ele chegou a uma pequena praça e para seu espanto, ela estava toda iluminada. Nela não havia lâmpadas, nem postes de iluminação, a única fonte de luz possível naquele lugar era dos postes da rua que a contornava. No entanto, ela estava absolutamente iluminada e a luz que a envolvia não era uma luz comum.

Encantado, ele viu num dos bancos da pequena praça, a mais bela jovem que já tinha visto em toda a sua vida. Dela emanava uma luz intensa. Era algo difícil de se distinguir se era causada por magia ou forças divinas e era ela quem estava tocando aquela linda canção. Naquele momento, ele foi enfeitiçado. Cupido lançou em seu coração uma flecha certeira. Ele se apaixonou perdidamente pela jovem e seu coração batia tão rápido que ele mal podia respirar. Foram momentos de pura magia. Ele descobriu em questão de segundos, o que significa estar amando. A bela jovem parecia tão distante. Em seu semblante, apesar de belo, havia algo estranho. Era como se aquela linda mulher vivesse em poder de uma tristeza profunda que havia se apoderado de seu coração. Emocionado, ele a observava em silencio. Eliseu admirava a beleza daquele ser iluminado, ouvindo o som maravilhoso que ela conseguia tirar das cordas de seu violão. De repente, num dos trechos mais tocantes daquela bela canção, da linda jovem uma luz intensa começou a ser emanada. Era uma luz ainda maior do que aquela que estranhamente iluminava a praça e ela foi aumentando mais e mais, até que pequenos raios de luz começaram a ser lançados em todas as direções. Ele se assustou e instintivamente sacou de sua arma.

A jovem ao ouvir o barulho mecânico do desabotoar da cartucheira, se assustou também e desapareceu. Ele, sem saber o que estava acontecendo naquele lugar tão ermo, tão tarde da noite e sem testemunhas do que estava acontecendo, ficou paralisado. Passaram-se alguns minutos até que ele tivesse se recomposto para conseguir tomar uma atitude ou falar. Quando ele conseguiu se recuperar do susto, caminhou a passos largos para longe daquela praça estranha e o que ele sentiu naqueles poucos segundos quando ela desapareceu, o acompanhou durante todo o caminho de volta ao seu posto de serviço que ficava no começo da rua principal do bairro. Os dias e as noites não foram suficientes para apagar aqueles momentos de sua memória ou de seu coração. A magia e beleza daquela jovem e da canção que ela tocava ao violão não o deixavam um só segundo. Ele não sabia de onde ela tinha vindo, ou para onde ela tinha ido, mas a ausência dela em sua vida o fazia sofrer. Ela definitivamente era a mulher de seus sonhos. Eliseu havia namorado muitas outras garotas, mas sempre teve dentro de seu coração a imagem daquela que um dia ele iria escolher para se casar e com ela viver um grande e infinito amor. Já haviam se passado semanas, meses e ele não a tirava da cabeça. Sua imagem em sua mente era clara e constante.

Ele podia ver cada detalhe de seu rosto, cada expressão de sentimentos mostrados nele e a lembrança daquele momento, quando ela tinha deixado transparecer tanta tristeza, sempre faziam uma lágrima furtiva rolar em seu rosto. Era algo que ele não podia evitar. Num dia de folga, em companhia de amigos num bar, ele conheceu e conversou um longo tempo com um colega de profissão, muito mais velho que ele, que há muitos e muitos anos tinha trabalhado como segurança naquela região onde Eliseu estava trabalhando. Ele desabafou com o colega e confidenciou a ele a estranha e maravilhosa experiência que viveu naquela praça. Após ouvir tudo calado, quando o rapaz terminou de contar sua historia, o velho Batista lhe disse que tinha a explicação para o que lhe havia acontecido. Curioso, ele pediu ao velho que deixasse e lado os rodeios e fosse direto ao assunto, contando a ele tudo em detalhes, porque ele já estava cansado de tanto sofrer com a angústia da incerteza de que tudo que lhe aconteceu foi um sonho, ou a mais pura realidade. O bom homem lhe disse que há muitos e muitos anos atrás, quando aquele bairro elegante estava se formando, uma viúva milionária havia construído uma mansão diferente de todas as outras que estavam sendo feitas no lugar.

Ele contou a Eliseu, que a velha tinha uma filha muito pequena que era muito bonita, mas muito frágil e indefesa nas mãos de sua mãe. Seu nome pelo que ele sabia era Iris e que logo após o termino da construção da mansão, a viúva se mudou para lá com a pequenina, que foi vista apenas de longe, no dia da chegada da família ao novo lar e depois disto, nunca mais. Os mais velhos que tinham trabalhado lá, contavam que mãe dela era uma mulher má e fria. Uma pessoa desiludida da vida, que com ódio até mesmo da própria sombra, mandou revestir todas as paredes da mansão com espelhos, de forma que quem entrasse lá tivesse a impressão de que a casa estava cheia de gente, mas que na verdade, os espelhos só refletiam a sua própria solidão. Contava-se também que quando elas se mudaram para lá, a velha trancou sua filha num quarto secreto dentro da imensa propriedade, para que ela nunca tivesse contato com mundo externo. Diziam que ela tinha feito isto para tentar proteger sua filha dos males do mundo, pois em sua loucura, ela não queria que sua filha sofresse como ela sofria. Anos se passaram e aquela que então era apenas uma criança quando sua mãe a trancou no tal quarto secreto, já não era mais uma criança. Ela era uma linda jovem que sonhava que um dia alguém viria salva-la de sua prisão e então ela poderia conhecer e viver um grande amor.

A mansão ficou mais vazia do que nunca quando a mãe da pobre jovem veio a falecer e desde então, ninguém mais havia entrado lá. Dizia-se que perigos enormes aguardavam a quem tentasse penetrar a fortaleza de espelhos, mas também, que durante as noites, o espírito da jovem Iris se libertava de seu corpo material e saia para a praça. Lá ela tocava com seu violão a mais bela, triste e encantadora canção, na esperança de ser encontrada lá por alguém de bom coração e que pudesse libertá-la de sua prisão. De olhos e ouvidos atentos, Eliseu ouvia o velho Batista contar toda a historia com detalhes e de alguma forma, ele sabia que a linda jovem por quem ele se apaixonou naquela noite era a filha da mulher fria e malvada, que sem coração, a encerrou em sua prisão. O bom velho disse a ele, que quem quer que tivesse a ousadia de se atrever a entrar naquela velha mansão, teria que enfrentar perigos imensos que foram descritos por outros que já haviam tentado antes, sem conseguir. Ele estava apaixonado. Aquela linda jovem era a mulher que ele sempre sonhou amar. Que perigos tão grandes e tão intransponíveis estariam do outro lado da porta de entrada daquela mansão?

Pensativo, ele agradeceu ao seu novo amigo o papo que tiveram e disse que iria para casa dormir e descansar para o dia duro de trabalho que o esperava. Ao chegar em casa, ele não conseguiu pregar os olhos. A imagem daquela linda jovem e o som daquela linda canção martelavam em sua cabeça. Se ele não conseguisse se livrar daquele martírio, nunca mais teria sossego. Já era muito tarde quando ele resolveu tomar uma decisão. Eliseu pegou sua ferramenta de trabalho, uma arma que só carregava quando estava no exercício de sua profissão, colocou a pendurada na cintura por baixo da camisa e saiu na direção da mansão. Ao chegar lá, após ter andado muito sem encontrar uma viva alma pelas ruas onde passou, ele parou em frente ao portão principal da propriedade. Hesitante, ele abriu o portão que estava destrancado e entrou devagar. Após atravessar um enorme jardim com um chafariz bem no meio dele de onde não saia mais nem sequer uma gota d água, passando por várias estatuas espalhadas pelo que um dia deveria ter sido um belo lugar, ele chegou até a porta de entrada da mansão. Ele estava assustado e com medo. Seu coração dizia para bater na porta, apertar a campainha ou bater palmas para chamar alguém que por ventura estivesse em seu interior, mas sua razão lhe dizia para ir embora.

Muitos e desconhecidos perigos o aguardavam do lado de dentro. Em extrema indecisão, ele ficou parado mesmo lugar. Por alguns momentos, se alguém tivesse passado na rua e o visse lá onde estava, poderia jurar que se tratava de mais uma estátua entre tantas outras naquela escuridão. Superando seus medos, ele apenas tocou na maçaneta e a porta se abriu num ranger assustador. Eliseu se arrepiou. Trêmulo, lutando contra o medo terrível que havia tomado conta de seu ser, ele caminhou lentament para dentro da mansão. Não havia luz. Tudo estava na mais completa escuridão. Como um profissional competente, ele sempre estava preparado para emergências e lembrou-se de que havia trazido uma lanterna e rapidamente a acendeu. Como passe de mágica, todo o ambiente interno da mansão se iluminou. Na frente dele, dos lados e atrás dele, sugiram centenas de inimigos prontos para atacá-lo, sem dó nem perdão. Apavorado, ele deu um pulo para trás e no mesmo instante, todos os inimigos pularam também. Num rápido movimento, ele sacou de sua arma para se proteger e no mesmo instante em que o fez, os inimigos também sacaram suas armas. Ele estava perdido. Se atirasse poderia talvez acertar apenas um, mas eram centenas deles!

Certamente ele não tinha chance contra tantos inimigos. Seria o seu fim. Num gesto de extrema humildade ele baixou sua arma. No exato momento em que o fez, todos os seus inimigos fizeram o mesmo. Ele ficou atônito com aquilo. O que estava acontecendo? Porque seus inimigos tinham baixado suas armas? Seria tão fácil para eles o terem liquidado ali naquele mesmo instante! Sem saber o que pensar, ele deu um passo à frente. A imensa luz de todas as lanternas dos seus inimigos o estavam cegando e ele tropeçou. Ao tentar se equilibrar para não cair, sem querer ele deixou sua lanterna cair e apertou o gatilho. Um tiro se fez ouvir. O que se seguiu foi o som de vidros se quebrando bem à sua frente. O barulho foi tão grande com o eco causado pela imensa sala vazia que ele levou as mãos aos ouvidos e caiu de joelhos, esperando receber uma salva de tiros de seus inimigos. O silencio inacreditável que se seguiu fez com que ele abrisse lentamente seus olhos e olhando para os cacos de vidros espalhados perto de onde se ajoelhou, ele apanhou um pedaço. Naquele instante a luz de sua lanterna que estava caída perto de onde ele havia se ajoelhado, estava sendo refletida nos pedaços de vidro do espelho da parede quebrado pelo tiro, mas todos os seus inimigos tinham desaparecido como num passe de mágica. Ele não pode acreditar! Onde tinham ido parar todos aqueles homens que há segundos atrás estavam lá?

Ao olhar para o pedaço de espelho em suas mãos Eliseu se viu. Foi então, que ele compreendeu o que tinha acontecido. Os espelhos! Ele havia se esquecido da parte da história contada pelo velho Batista onde ele lhe falou deles! Não havia nada nem ninguém lá. Não havia perigo algum dentro daquela mansão e o seu único inimigo, era ele mesmo. Desde que ele entrou naquele lugar, com o com a mente cheia de receios, com o medo que mantinha seu coração cativo, tudo que ele imaginou ver eram apenas ilusões. Naquelas paredes cobertas por espelhos, ao acender sua lanterna, a luz se propagou por reflexão de um espelho ao outro e sua imagem apareceu em todos os lugares, criando a impressão de que o lugar estava cheio de inimigos, prontos para atacá-lo. Aliviado, ele sorriu. Naquele instante, ele compreendeu que todos os seus medos e inseguranças só existiam dentro dele mesmo, e que tudo que acontece na vida, seja de bom ou de ruim, são reflexos de nossos próprios pensamentos. Um sentimento de profunda liberdade tomou conta de Eliseu. Ele estava também se sentindo leve como nunca o sentiu em toda a sua vida. A indecisão que o atormentava ha tanto tempo desapareceu por completo. Decidido, ele resolveu sair de lá. No dia seguinte ele iria procurar outro emprego. Algo que ele pudesse fazer por prazer e que o realizasse profissionalmente. Todos aqueles inimigos imaginários que viviam em sua mente, mantendo seu coração cativo, desapareceram diante de seus olhos como que por encanto.

A verdadeira e profunda emoção dos sentimentos de liberdade e coragem que ele vivenciou naqueles momentos, o fizeram enxergar que muitas vezes, sofremos porque não temos coragem de enfrentar nossos inimigos e que a maioria das vezes, nosso maior inimigo esta muito mais perto do que pensamos, ou seja, dentro de nós mesmos. Ao bater a porta atrás de si quando saiu, tudo que ele ouviu foi um enorme estrondo e sons de vidros se quebrando e caindo. As paredes a velha mansão ruíram e ao caírem, todos os espelhos se quebraram um a um. Atônito mais uma vez, ele percebeu que mesmo estando longe da iluminação da rua, ele estava envolto por uma intensa luz e ela emanava dele mesmo. Maravilhado com a luz de sua própria existência, o som daquele vilão tocando aquela linda canção, mais uma vez se fez ouvir. Seu coração quase parou. Fascinado, ao olhar na direção da pequena praça quase em frente a onde antes era a velha mansão, ele viu de novo sua musa, sua grande paixão. Seu espírito se encheu de alegria e seu coração cantou. Ela estava tão linda. De seu corpo emanava uma luz brilhante e parecia ser a mesma que emanava do corpo dele. Era como se ela fosse um espírito iluminado por Deus. Com lágrimas em seus olhos Eliseu viu quando ela olhou para ele e sem parar de tocar nem um instante, ela sorriu.

Em seu rosto não havia mais aqueles traços visíveis de sofrimento que tanto o impressionaram quando ele a viu pela primeira vez. Munido da coragem que ele descobriu que tinha, da confiança em si mesmo que nunca pensou que pudesse ter, Eliseu caminhou lentamente em direção à bela jovem. Ao se aproximar dela, com o coração repleto do mais puro e verdadeiro amor, ela parou de tocar, colocou o violão apoiado no pequeno banco onde estava sentada e estendeu-lhe a mão. Ao tocá-la, Eliseu soube que o milagre em que ele estava vivendo só foi possível porque ele venceu o seu maior inimigo, o inimigo interior. Olhos nos olhos, com pétalas de flores dos pessegueiros da praça que caiam sobre eles naquele momento, um beijo mágico os uniu. O tempo parou para eles naquele instante. A magia do amor tomou conta do lugar. Após algum tempo abraçados, olhando para lua que brilhava lá no céu, eles caminharam através da praça, atravessaram a rua e seguiram lentamente pela calçada de mãos dadas. Como pura magia, a luz da lua, por onde quer que eles fossem, os acompanhava com seus raios de prata, celebrando sua doce união. Eliseu levou a bela Íris para sua humilde casa, onde ele não tinha nada, mas tinha um tesouro que nem ele mesmo sabia que tinha. A liberdade de decidir o que fazer de sua própria vida.

Sem perguntas, inexplicavelmente a família dele recebeu a moça de braços abertos. Todos se apaixonaram pela linda jovem e pela musica que ele tocava em seu violão. Ela conquistou a todos com sua verdadeira luz. Eliseu após ter abandonado o emprego onde não se sentia bem, após ter procurado muito e ter superado várias dificuldades para arrumar outro, conseguiu uma colocação muito melhor. Os dois se casaram e de sua união nasceu Violeta, um pequeno anjo iluminado que sorria o tempo todo. Era como se ela respirasse alegria e felicidade de seus pais desde seus primeiros momentos neste mundo. Tempos depois, Eliseu resolveu passar pelo lugar onde havia sido aquela velha mansão e, para seu espanto, soube pelo porteiro de uma enorme e novíssima mansão que havia no lugar, que a construtora tinha comprado a propriedade vazia, em chão batido e limpo, pois desde que o bairro se formou nada havia sido construído lá. Intrigado, ele foi procurar pelo velho Batista na empresa onde tinha trabalhado. A surpresa que ele teve foi maior ainda, quando lhe disseram que lá nunca houve nenhum funcionário com o nome de Batista. Após algum tempo refletindo, ele chegou à conclusão de que só havia uma explicação.

Os sonhos e a realidade vivem juntos e é impossível viver com eles em separado. Sorrindo, ele se despediu das pessoas com quem havia trabalhado e voltou para casa. Caminhando pela cidade, rumo ao bairro onde morava, ele observava tudo ao seu redor. Em sua mente, ele imaginava quantas pessoas, haviam perdido a chance de serem felizes na vida porque tinham medo de enfrentar seus próprios medos e receios. Em quanta gente que naquele exato momento, estavam sofrendo, porque decidiram optar em viver somente na realidade, e outras, porque resolveram viver apenas num mundo de sonhos. Com o coração repleto de alegria, ele elevou seus pensamentos a Deus e pediu a ele com toda sua fé, que se toda a felicidade que estava vivendo fosse um sonho, que ele permitisse que ele continuasse a sonhar para o resto de seus dias. Naquele exato momento em que ele falava com Deus em suas preces, o céu que estava nublado se abriu e um raio de sol atravessou as nuvens e o iluminou. Depois de ter que tomar dois ônibus e um metrô, ao chegar em casa, sua esposa o esperava no portão com a pequena Violeta em seus braços. Ao vê-las, ele olhou para o céu e agradeceu ao bom Deus pela graça concedida. A vê-lo se aproximar, seu pequeno anjo que estava no colo da mãe estendeu seus bracinhos a ele e sorrindo, disse a palavra mais linda que um homem pode ouvir em toda a sua vida. Com sua voz doce, suave e verdadeira de um bebê que pronuncia sua primeira palavra, ela disse... Papai!

Autor: José Araújo

domingo, 12 de julho de 2009

POR UM MUNDO MELHOR



Quando todas as pesquisas tiverem sido feitas. Quando a ciência tiver revelado tudo àquilo que a humanidade sempre desejou saber. Quando todos os livros tiverem sido escritos. Quando todas as palavras tiverem sido escritas e todas as frases tiverem sido faladas em todas as línguas na face da terra, mesmo assim, o grande mistério da vida ainda permanecera.

Podemos até mapear cada canto do mundo, saber qual o ínfimo tamanho de um átomo, podemos medir as distancias dos mais longínquos confins do Universo, pesquisar com a ajuda da ciência e dos grandes pensadores as origens da humanidade, mas nenhuma busca será frutífera o suficiente para nos dizer com certeza, se somos filhos do acaso, ou parte de um grande projeto.

Quem de nós pode descrever com certeza o que sentiu quando teve a experiência de ver nos olhos de um bebê, uma nova esperança para a humanidade?

Quem de nós não se sentiu roubado de alguma coisa realmente grande e que se foi para sempre, quando olhamos para o rosto de alguém muito querido que morreu?

São eventos como estes que nos diferenciam de outras espécies, que fazem de nós humanos e que definem a verdadeira distancia que há entre nós e as estrelas lá do céu.

Contudo, o mundo é difícil, por vezes cruel e a vida não é tão fácil de se viver.

Grande parte de seus mistérios estão, estarão e permanecerão para sempre na mais completa escuridão.

Tragédias acontecem, injustiças são cometidas. Coisas ruins acontecem com boas pessoas e muitos sofrimentos atingem inocentes que nada devem a ninguém enquanto pessoas más, sem escrúpulos ficam impunes e levam a melhor.

Para viver, muitas vezes nós humanos precisamos tirar a vida de outras espécies, sem dó nem perdão.

Para sobreviver muitas vezes, temos que deixar nossos próprios semelhantes às margens dos caminhos por onde passamos, sem olhar para trás.

Somos todos prisioneiros do tempo, vítimas da nossa condição biológica e totalmente reféns de nossa capacidade infinita e mágica de sonhar.

Às vezes, tudo isto pode nos parecer demais, impossível de se suportar ou aceitar.

Temos que reagir contra estes pensamentos e sentimentos negativos que por vezes nos atormentam para seguir em frente e continuar nossa jornada porque de alguma forma todos sabemos que esta é a nossa missão durante nossa curta passagem pelos caminhos da vida.

O mundo é um grande e misterioso lugar e, suas possibilidades infinitas são governadas unicamente pelas coisas que só nosso coração pode conceber.

Se deixamos que nossos corações sejam invadidos pela escuridão, viveremos até o fim na mais completa escuridão.

Se deixamos que nossos corações sejam invadidos pela luz, viveremos envoltos por ela e tudo ficará mais claro em nossos caminhos.

Somente aqueles que têm um grande coração, aberto e receptivo aos poderes de Deus e da verdadeira fé sabem e sempre souberam desta grande verdade.

Eles compreendem do fundo de suas almas, que não há nada mais honroso do que enxergar o que é errado e tentar corrigir isto.

Uma vida bem vivida, de alguma forma, celebra as promessas que a própria vida nos faz.

A escuridão sempre esta no limite entre as fronteiras da razão e de todos os nossos conhecimentos.

Ela, que de vez em quando parece querer nos devorar, é apenas um instrumento divino para nos fazer querer alcançar a certeza de que somos capazes de superá-la e encontrar a luz e fazer de nossas vidas testemunhas vivas da esperança, da possibilidade de se ultrapassar os mais terríveis obstáculos.

A escuridão nada mais é do que um teste, uma provação que se põe em nossos caminhos, para que munidos da fé em Deus e em nós mesmos, possamos seguir na direção nos mais honoráveis sentimentos e impulsos que nossos corações podem conceber, e alcançar finalmente, a verdadeira luz.

Compreender isto não é difícil. Pode levar tempo e talvez até mesmo, só o tempo, a idade e a experiência de vida venham nos provar que isto é real.

Há em cada um de nós, não importa quão pequena possa ser, a capacidade de amar.

Mesmo que nossas vidas não tenham tomado o rumo que um dia desejamos. Mesmo que sejamos apenas uma mera sombra de nossos sonhos, somos parte de um todo.

Somos humanos e parte de uma grande família. Mesmo que muitos de nós não fale a mesma língua, em algum lugar, no mais insignificante canto escondido de nossas vidas, está escondida uma oportunidade de amar e para amar, não é preciso falar o mesmo idioma.

A linguagem do amor é universal. Ela é compreendida até pelos animais.

Viver vai muito além do amor, o maior e mais poderoso de todos os sentimentos. Vai também além de tudo aquilo que valorizamos e prezamos no mundo material.

Deus nos deu muitas opções para enxergarmos a beleza da vida em qualquer circunstância.

Se ficarmos cegos, podemos deslizar nossos dedos sobre uma concha do mar e sorrir alegremente celebrando toda a beleza da vida.

Se ficarmos aleijados, sem poder andar, podemos sentar à beira mar e ouvir silenciosamente o infindável murmúrio das ondas.

Se nossos espíritos de alguma forma são feridos, podemos estender as mãos para o céu, pedindo numa prece silenciosa a ajuda Deus e o consolo daqueles que nos amam, seja um irmão, ou um amigo.

Tudo que temos a fazer é ter fé, acreditar na existência de Deus e deixar que as pessoas conheçam nossos sentimentos e que possam nos tocar o coração com seu amor, com seu carinho e compreensão.

Quando nos revelamos aos nossos semelhantes com relação aos nossos sentimentos, abrindo nossos corações, sem criar barreiras de aproximação, eles se chegam a nós, o milagre acontece e voltamos a acreditar e enxergar a beleza da vida.

Se ficarmos na solidão, podemos seguir em direção àqueles que estão carentes de amor, porque lá, com a mais absoluta certeza, encontraremos o bálsamo que irá nos curar de uma doença que normalmente é criada por nós, por nossas atitudes e comportamentos.

Não há tragédia ou injustiça tão grande, muito menos uma vida que seja tão pequena e inconseqüente no grande espetáculo da vida.

Não há nada, nem ninguém neste mundo tão insignificante, que não possamos ver neles a luz que irradiam em pequenos e silenciosos atos e momentos que ocorrem em nosso dia a dia.

Quem de nós pode afirmar com certeza se um destes atos ou momentos, tão despercebidos ou ignorados na maioria das vezes por nós, não poderia fazer toda a diferença na vida da gente?

O Universo é um vasto e mágico fluir de energias que se estende além do tempo e do espaço e Deus não nos deu permissão para conhecer seus segredos e suas maneiras de agir.

Não adianta tentarmos decifrá-los ou compreende-los, pois são segredos divinos.

Quem sabe, todos nós, tenhamos sido colocados aqui para presenciar a mudança de um simples momento no tempo e no espaço.

Quem sabe, depende de nós darmos a este momento nosso toque único e especial.

Quem sabe, dependendo do toque que dermos a este momento sublime de mudança, entre um momento e outro de nossas vidas, possamos realmente fazer a diferença e causar a mudança deste planeta, para um lugar melhor para se viver.

Um mundo melhor, não só para alguns, mas para todos nós, sem distinção.

Autor: José Araújo

sábado, 4 de julho de 2009

PROCURANDO POR DEUS



Há muitos anos, tantos que é quase impossível de se dizer quantos se passaram desde então, no Reino das Águas Calmas, um lugar encantado que ficava em algum lugar do arquipélago de Fernando de Noronha, nas profundezas do Oceano, vivia Yara, uma pequena sereia que levava uma vida triste e solitária. Desde que nasceu, ela sempre foi rodeada por magníficos recifes de corais, exóticas criaturas do fundo do oceano e pela magnífica arquitetura do povo do fundo do mar que era de tirar o fôlego de qualquer um. Ainda assim, com tanta beleza à sua volta, vivendo em meio a uma natureza exuberante, ela nunca parecia satisfeita. Sempre via só o pior em tudo e criticava a todos que estavam à sua volta. Isto é claro, a fez tonar-se uma pessoa indesejada por todos os seres do fundo do mar. Era comum encontrá-la só, pensando em como tudo e todos eram chatos e antipáticos. Mesmo sendo uma pessoa desagradável, difícil de se conviver, ela tinha uma única, mas verdadeira amiga. Seu nome era Jasmim e era a sereia mais velha, mais sábia e bondosa do reino. Ela conhecia os pais de Yara há muito tempo e sabia que a menina não tinha amigos por causa sua conduta e atitudes sempre negativas. A sereia anciã sentia pena da menina por vê-la sempre tão triste, tão solitária e assim, sempre que podia, arranjava algum tempo para tentar ajudá-la de alguma forma. Certa manhã, a jovem sereia e sua única amiga estavam nadando suavemente pelo Reino das Águas Calmas e a velha sereia, com sua sabedoria e sensibilidade, admirava com sentimento a bela manhã que tinha acabado de nascer, mas a menina não.

Ela só havia notado que a água estava mais fria do que a temperatura que ela gostava e também que os golfinhos brincavam demais e faziam um barulho enorme que a incomodava. Em dado momento, esperançosa, Jasmim perguntou a Yara o que estava achando dos corais com aquela iluminação mágica do sol da manhã, afinal, naquele dia eles estavam particularmente radiantes, com suas cores mais gloriosas que nunca. A resposta da menina foi que até podia ser, se ela gostasse das cores laranja, vermelho e cor de rosa, mas definitivamente, não era o seu caso. A velha e sábia sereia olhou pensativa para a menina por alguns momentos e depois balançou a cabeça, imaginando se algum dia ela poderia pensar em alguma coisa que a fizesse feliz e enquanto ela assim pensava, enrolava as voltas de seu lindo colar de pérolas cor-de-rosa com os dedos e depois os desenrolava de novo. Ela já estava um pouco atrasada e então disse a Yara que precisava ir até a escola do Reino, pois tinha uma aula a dar. Curiosa, a pequena sereia perguntou sobre o que ela iria ensinar na aula que ia dar naquele dia e Jasmim respondeu que a aula seria muito especial, pois naquele dia ela iria falar aos seus alunos sobre Deus. Um tanto confusa, a menina perguntou à anciã se tinha ouvido direito, pois ela não conhecia ninguém com o nome de Deus. Nem mesmo havia ouvido falar sobre ele. A sábia anciã, com sua voz firme, mas suave, disse que sim, que era exatamente o que a menina tinha ouvido e perguntou a ela se nunca tinha ouvido mesmo falar de Deus. Yara respondeu que não. Como ela poderia se nunca tinha assistido a nenhuma aula dela sobre ele? A velha sereia ajeitou seus longos cabelos brancos pensativa e disse que era uma pena que não tivesse assistido e se despediu dizendo que a veria mais tarde.

Quando ela já ia se afastando, a menina a parou e perguntou se ela não iria lhe contar quem era o tal Deus. Preocupada pela maneira como a menina se referia a Deus, ela disse a Yara que não. Que ela mesma teria de procurá-lo e quando o encontrasse, viesse lhe contar depois o que achou dele. Antes de partir, a bondosa sereia disse que não seria difícil encontrá-lo, pois ela poderia encontrar Deus em todo lugar. Espantada, a menina disse que em qualquer lugar era impossível, porque ninguém pode estar em lugares diferentes ao mesmo tempo. A velha sereia sorriu e calmamente disse que ela estava enganada, que era possível sim, porque ele era lindo e ela o via o tempo todo, em todos os lugares do Reino das Águas Calmas. Inconformada, Yara disse que se era mesmo assim como ela estava dizendo, se ela o conhecia tão bem, deveria saber qual era sua aparência e com quem ou o que ele se parecia. Em resposta, a velha sereia disse a Yara que Deus era igual a elas duas, igual aos golfinhos, aos peixinhos, aos cavalos marinhos e também igual às mais altas montanhas que se elevavam até além da superfície das águas do mar, mas também igual aos corais. A menina franziu as sobrancelhas e ficou mais séria do que já estava e respondeu dizendo que se era assim, certamente Deus não era nada de especial. A velha e sábia anciã olhou para a garota por alguns instantes e se virou para seguir seu caminho. Irritada, a menina gritou perguntando se ela ia mesmo embora sem lhe contar quem ou como era o tal Deus.

Jasmim parou, olhou para trás e disse novamente com a mesma voz bondosa de sempre, que Yara era quem teria de lhe dizer qual era a aparência de Deus e sem mais demora, ela se foi. A jovem e inexperiente sereia nadou por todo o reino por um longo tempo à procura de Deus, mas não o encontrou. Em sua mente, em silêncio ela pensava na besteira que tinha acabado de ouvir da velha anciã. Que idiotice! Ela pensou. Se Deus parece com qualquer coisa, quando o encontrar, como vou reconhece-lo? Com a mesma cara amarrada de sempre, ela olhou à sua volta, olhou para os prédios, para as sereias, para o povo do fundo do mar e para os cardumes de peixe que passavam à frente dela indo de lá para cá sem parar. Foi então que ela se lembrou das palavras da velha anciã e disse a si mesma que estava tudo bem, já que era para ser assim, ela iria encontrar Deus e depois diria à sua velha amiga qual tinha sido sua impressão sobre ele. Nadando rápido como um torpedo, a menina se encontrou com um golfinho, parou em frente a ele e com as mãos na cintura, perguntou se ele é que era Deus. O golfinho apenas olhou para a menina e sorriu gentilmente, mas a menina não fez a mesma coisa. Ela não sorriu. Muito pelo contrário. Yara permaneceu tão séria quanto no momento em que o havia encontrado em seu caminho. Irada, a menina disse ao golfinho que se ele era Deus e tinha os dentes sujos de restos de peixe que havia acabado de comer, então esta coisa de Deus, não passava de pura estupidez. Sem olhar para trás a menina resolveu seguir seu caminho à procura de Deus.

Mal ela se virou para ir embora e o golfinho desatou em gargalhadas e ele riu tanto, que chegou a chorar de tanto rir. A pequena sereia estava com tão mau humor e ia tão depressa seguindo seu caminho à procura de Deus, que nem percebeu um belo homem-peixe em seu caminho e acabou por dar uma trombada na criatura. A principio ele ficou sério, sem achar a menor graça no que aconteceu, mas logo depois sua face se transformou num lindo e gentil sorriso, dizendo que ela deveria estar com uma pressa danada para não ter percebido que ia colidir com ele. Com um olhar atrevido e desafiador, ela respondeu franzindo as sobrancelhas, que não estava com tanta pressa como ele estava dizendo, mas se ele pensava assim, por ela tudo bem. Gentilmente o belo homem-peixe disse que ela deveria tomar cuidado, caso contrário, poderia se ferir ou ferir alguém que estivesse em seu caminho. Ao ouvir aquilo, a menina fez uma careta e falou para si mesma que certamente ele não poderia ser o Deus que ela procurava, afinal, quem ele pensava que era para lhe dizer o que fazer e como agir. De cara ainda fechada, a menina fez de conta que ele não estava ali, simplesmente o ignorou e se afastou sem sequer dizer até logo, ou pedir desculpas pelo que aconteceu. Depois de muito nadar o dia todo por todos os recantos do Reino das Águas Calmas, a pequena sereia subiu no penhasco mais alto da região, de onde se podia ver todo o reino. Lá ela se acomodou em uma rocha e ficou olhando para a cidade. Enquanto ela olhava tudo que acontecia lá embaixo, bem perto de onde ela estava, um pequenino peixe colorido se alimentava das algas marinhas que cresciam na rocha. Fazendo careta como sempre e torcendo o nariz, ela disse a si mesma que o peixinho também não poderia ser Deus, afinal ele era tão pequeno e tão insignificante.

O dia se foi e ao cair da noite, quando as luzes do reino começavam a brilhar, ela balançou a cabeça negativamente. Ela tinha procurado Deus o dia todo, em todos os lugares, mas tudo que ela havia conseguido, tinha sido encontrar um golfinho estúpido, um homem-peixe metido e convencido e um peixinho de nada. Yara já estava pronta para abandonar de vez a procura, quando percebeu Jasmim nadando lentamente em sua direção. Quando a velha e sábia sereia se aproximou, perguntou a menina o que estava fazendo naquele lugar tão alto e tão longe de sua casa. Em resposta ela disse à velha que tinha estado o dia todo fazendo o que ela mandou, mas não tinha encontrado o tal Deus de quem ela tinha falado, e quando ia continuar, Jasmim fez um sinal com mão para que ela parasse de falar e ela se calou. Foi então que a velha sereia disse a ela que era inacreditável que não o tivesse encontrado em lugar algum. Que só havia uma resposta para o seu fracasso em se encontrar com Deus. Ela deveria ter estado o tempo todo tão voltada para si mesma, para seus desejos e necessidades, que nem percebeu que Deus estava o tempo todo bem na frente dela. A jovem sereia abriu a boca para dar uma resposta mal criada à velha e sábia anciã, mas logo a fechou. De alguma forma, ela se sentiu de repente uma tola. Com seu ar de sabedoria e uma paz imensa estampada em seu rosto, Jasmim pediu a ela que prestasse muita atenção no que ela iria lhe mostrar. Foi então que ela apontou na direção do reino lá embaixo; na direção das luzes que podiam ser vistas saindo pelas janelas dos edifícios, das casas e das torres. Apontou também na direção de onde ficavam as escolas noturnas da cidade, onde o movimento de alunos entrando e saindo ainda àquela hora, era um vai e vem sem parar.

Sempre sorrindo, ela também apontou para a direção de onde estavam as sereias e homens peixes do reino, que iam de um lado para o outro da cidade submersa, num movimento sem fim. Mostrou também as pessoas que entravam e saiam de seus lares que eram lindas casinhas feitas de coral e por ultimo, a sombra das grandes baleias, enquanto elas passavam nadando muito acima deles, bem próximas dos limites da cidade. Em êxtase, a pequena sereia começou a perceber, lá de cima do penhasco, que cada movimento, de cada ser vivo e da natureza esplendorosa do fundo do mar, pareciam estar em conjunto executando um único movimento que emitia uma estranha luz. Ela pode ver que cada vida, que cada ação ou objeto, parecia que se encaixava perfeitamente com tudo que estava à sua volta, inclusive com ela mesma. Sentada lá, ao lado de sua única e fiel amiga, a velha e sábia anciã, Yara observava atentamente todo o reino que naquele momento, parecia numa visão global, ser feito de cores, movimentos e respiração, como se fosse um único ser vivo, em toda a sua imensidão. Em silencio, ela pensava no porque dela nunca antes ter visto as coisas da forma como ela estava vendo naquele momento, e subitamente, ela se sentiu muito feliz. De repente, coisa que nunca havia acontecido antes, um sorriso largo e iluminado brotou em seu rosto e vendo aquilo, Jasmim perguntou gentilmente a ela:

-Você vê Deus agora?

-“Sim!" Ela respondeu e disse emocionada que não compreendia o porque de nunca ter notado o mundo à sua volta daquela forma. Era tudo tão perfeito, tão lindo, tão espetacular!”

A velha sereia, a mais antiga de todas as anciãs do Reino das Águas Calmas, passou o braço carinhosamente em volta do ombro da menina e acariciando seus longos cabelos negros, ela falou:

-“Yara minha querida criança, quando a gente para de pensar só em nós mesmos e em como gostaríamos que o mundo e as pessoas fossem, começamos a ver o mundo como ele realmente é, e descobrimos que ele é melhor do que qualquer coisa que um dia quisemos que ele fosse, e isto, minha pequenina, porque o mundo não se resume em cada um de nós, em nossas vontades ou em nossas idéias, pois somos apenas parte do maravilhoso fluir de energias que ele é.”

Ao terminar de falar, ela perguntou à menina se ela não estava se sentindo diferente. Se não estava se sentindo melhor do que antes de descobrir onde estava e como era o Deus que tanto procurou naquele dia e não encontrou. A menina não precisou responder. Em seus olhos, a sereia anciã pode ver como ela estava se sentindo. Foi então, que ao olhar para as pedras, Yara viu o pequeno peixe colorido que havia visto algumas horas antes. Ele nadava calmamente sobre as rochas, aproveitando cada movimento feito pelas águas do mar e ele parecia não estar esperando nada melhor do que o momento que estava vivendo. De repente, a pequena sereia percebeu que do fundo de sua alma, ela gostaria de ter sido a sua vida inteira igual àquele minúsculo peixinho, que antes para ela, era tão insignificante. Jasmim não pode deixar de perguntar o que ela estava achando de tudo aquilo que ela descobriu e ainda sorrindo, como nunca o tinha feito antes, ela respondeu:

-É difícil dizer com palavras, mas a vida, o mundo, as luzes, as cores, o barulho alegre dos golfinhos brincando o tempo todo, os sons da natureza e das batidas de nossos corações, é tudo tão lindo, tão perfeito, tão harmonioso, tão maravilhoso!

-Deus é lindo como você disse que era Jasmim e ele realmente se parece comigo, com você, com as pessoas do Reino das Águas Calmas e com tudo que nos rodeia. Agora minha bondosa amiga, graças a você e sua amizade verdadeira, eu sei porque você me disse que ele pode ser encontrado em todo lugar e também aprendi que para encontrá-lo, só depende de nós...

Uma lágrima se formou nos olhos de Jasmim. Ela estava feliz pela descoberta de sua pequena e jovem amiga. Yara ao ver a lágrima escorrendo dos olhos de sua única e fiel amiga misturando-se com a imensidão das águas do mar a abraçou. Depois disto, as duas ficaram sentadas lado a lado e abraçadas por um longo tempo, admirando tudo em silêncio e compartilhando aqueles momentos mágicos e sublimes, do encontro de Yara com Deus.

Autor: José Araújo

domingo, 28 de junho de 2009

RE - APRENDENDO A VIVER...



Paris. Tudo começou num dia qualquer do mês de agosto, há não muito tempo atrás. Sua vida antes vazia e sem graça começou a mudar como que por encanto, desde o dia em que chegou à cidade luz.

Sucesso, realização profissional, dinheiro, status, estabilidade financeira. Ele achava que tinha tudo que precisava na vida e era no trabalho duro e constante, que Gabriel achava que um dia iria encontrar finalmente a tão sonhada felicidade, mas dentro dele, mesmo que ele não admitisse isto, nem para ele mesmo, havia um enorme vazio que ele não sabia como preencher.

Por vezes vagamos por caminhos errados à procura de sermos felizes. Andamos longas distancias. Tropeçamos em tantas pedras. Escorregamos e quase caímos em despenhadeiros profundos sem ter noção do perigo que corremos. Perdemos tanto tempo seguindo mapas ou indicações de outras pessoas sobre onde poderíamos encontrar a tal felicidade sem sucesso, quando tudo que tínhamos a fazer era ouvir a voz de nossos corações, mas infelizmente, nem sempre a coisa funciona assim. Alguns têm sorte de acordar a tempo para a vida e vivê-la em toda a sua plenitude, outros se vão, sem viver.

2005. Em viagem de negócios, lá estava ele, hospedado no "Le Montmartre Hotel", quarto 36, no 3º andar do estonteante edifício de estilo romanesco, todo pintado de branco, o que lhe conferia uma aura de paz e tranqüilidade. A única coisa que o estava incomodando era que seu Blackberry, como sempre, não parava de tocar. A todo instante ele tinha que checar sua caixa de e-mails para ficar ciente das possíveis alterações quanto à reunião que iria acontecer naquele dia. O sol tinha acabado de acordar de seu descanso noturno e Gabriel também. A vida francesa o cativou logo pela manhã quando um cheiro forte, agradável e envolvente o acordou. Era o aroma das baguetes frescas que tinham acabado de sair de uma fornada na padaria do outro lado da rua. O quarto que estava meio sem vida, desde que ele chegou na noite anterior, de repente ressuscitou com o cheiro que preencheu o ambiente de canto a canto. O azul claro das paredes, com as janelas abertas, pareciam se fundir com o azul do céu limpo e claro que havia lá fora. Tudo, sem exceção, lhe dava uma sensação de que nada poderia ser mais harmonioso, mas o alerta de seu Blackberry soou de novo indicando nova mensagem de texto. Ele resolveu ler depois.

Uma simples batida na porta de seu quarto sem que ele esperasse, e seu dia começou perfeito.

-"Le petit dejeneur est servi".

A voz era de uma jovem, que soou um pouco estranha. Talvez por estar um pouco incomodada pelo fato de estar trabalhando tão cedo, quando o sol mostrava seus primeiros raios na capital francesa. Gabriel percebeu em sua voz um certo sotaque brasileiro e curioso para ver quem era, ele foi atender. Quando abriu a porta a jovem já se dirigia a outro quarto com o carrinho e ele até achou que ela caminhava de uma maneira engraçada. Enquanto ela se afastava o salto de seu sapato fazia um leve barulho no assoalho de madeira ao longo corredor. Quando ele olhou para baixo, bem em frente aos seus pés havia uma magnífica bandeja de prata, repleta de delicias francesas esperava que fosse apanhada e levada para dentro.

Por incrível que lhe parecesse, de cada pedaço de seu café da manhã subia uma leve fumaça que pareceu enfeitiça-lo pelo aroma maravilhoso. Encantado, Gabriel sonhava acordado. Ele via em sua mente as cenas de filmes antigos sobre Paris, como o La Vie Parisiene que assistiu quando ainda era muito jovem. Croissants quentinhos o estavam chamando pelo nome para serem comidos. O café então, este preenchia o quarto, de canto a canto com seu aroma incrivelmente delicioso. As baguetes que o acordaram logo cedo, estavam bem em sua frente. Quase que implorando a ele para serem mordidas. Depois de consumir quase tudo que lhe foi servido, ele finalmente leu a mensagem recebida e ficou sabendo que sua reunião tinha mudado de horário. Ela seria realizada no período da tarde e sendo assim, depois de longos anos sem alguns momentos de folga, ele resolveu que iria sair para uma caminhada e encarar o dia maravilhoso de sol que fazia em Paris.

O hotel onde ele estava parecia estar aninhado aos pés do Monmartre. Ainda era muito cedo quando ele o deixou. Mal saiu para rua e já pode ouvir as pessoas caminhando e conversando na praça quase em frente ao edifício. De repente, acomodados em círculos, como numa galeria a céu aberto, os lendários artistas de Montmartre estavam lá, bem na sua frente. Todos eles pareciam prontos para vender com alguma peça de arte um pedaço de suas almas, pois tudo que faziam tinha sempre partes delas. Eram tantas e tão belas peças em meio a tantas artes diferentes, que ele ficou extasiado diante de tantas cores mixadas em telas de todos os tamanhos e formas. Atônito com tanta beleza, ele observava tudo com extrema atenção. Era quase impossível ver como as mãos ágeis daqueles artistas desenhavam círculos e linhas perfeitas. Eles conseguiam dar vida e forma a coisas que para Gabriel não tinham nada de interessante. Davam a tudo em que tocavam com sua arte, um significado em meio a cores e formas. Gabriel percebeu que cada pessoa que passava em frente às obras de arte ficava absorta em pensamentos. Era como se a arte daqueles artistas os levassem a uma outra dimensão, onde tudo que estivesse à sua volta além daqueles objetos não significasse mais nada. Fascinado ele se lembrava de que nunca em sua vida tinha sequer parado para admirar a beleza de uma flor.

Os artistas pareciam estar todos em outro mundo. Tudo que lhes importava era criar e dar formas à sua imaginação. Envolvendo o ambiente mágico daquela galeria a céu aberto, havia uma música que parecia tocar a alma de todos que estavam lá com seus acordes. Ele ficou um longo tempo admirando apaixonado aqueles homens e mulheres que faziam de sua própria vida, uma obra de arte. Quanta coisa linda ele deixou de ver e conhecer em sua vida tão corrida e sem tempo para nada, muito menos para sí mesmo e para aqueles que o amavam. Um tempo depois, quando resolveu sair da praça, um outro estágio daquele mundo mágico e encantador surgiu bem à sua frente. Uma velha senhora estava em pé no meio de uma multidão que a rodeava. Ela tocava algo que parecia ser um antigo instrumento tradicional da musica francesa. Desconhecido para Gabriel, ele era algo que lembrava muito uma sanfona nordestina, mas com formas muito diferentes. Ela tocava sem parar fazendo soar em cada canto do lugar, uma estranha, mas encantadora canção que arrebatava a atenção e o coração de todos que por lá passavam.

Quando chegou a Paris na noite anterior, ele estava sem a menor inspiração. Tudo que ele sabia é que estava lá, como esteve em muitos outros países apenas por obrigação. Tinha um dever a cumprir e nada mais. O que ele queria, era acabar logo com o que tinha ido fazer e poder voltar para o Rio de Janeiro, onde seu trabalho o esperava e havia muito a ser feito. Ele não parava nunca. Já havia morado em São Paulo e em tantas outras capitais do Brasil. Viver em cidades grandes e barulhentas já era rotina em sua vida. Paz, sossego e inspiração, eram coisas com que ele nem se preocupava, ou pelo menos achava que não. Gabriel não tinha ido procurar inspiração em Paris, mas foi lá que aos poucos, sua vida mudou e tudo aconteceu de uma forma que ele nunca poderia imaginar. Mais à frente, sem estar preparado para tal, outra surpresa surgiu em seu caminho. Depois de andar alguns quarteirões apreciando os cafés, padarias e bares locais, com pessoas elegantemente sentadas em cadeiras nas calçadas, conversando e saboreando as delicias locais, lá estava ela: Dominando tudo à sua volta com sua glória, atraindo multidões com sua magnificência. De um branco celestial, com seus mínimos detalhes tão perfeitos, que nem pareciam ser reais. Com sua estrutura prevalecendo sobre qualquer outra nas proximidades, causando espanto e admiração por sua grandeza e beleza. "La Basilique du Sacre-Coeur de Monmartre". Uma das mais magníficas visões de arte arquitetônica de todos os tempos.

Ao aproximar-se dela, Gabriel se emocionou ao ler as simples palavras que estavam gravadas numa pedra e seu coração se encheu de paz, de fé e da crença de que Deus existe e está em todo lugar. Fazia muito tempo que ele não de lembrava de nosso criador. Era católico, mas não frequentava igrejas. Para ele, santuários como aquele não passavam de construções monumentais, mas as frases lá escritas que eram uma mensagem de boas vindas a todos que por ela passassem, tocaram profundamente o seu coração. Por várias vezes ele as leu antes de resolver seguir caminho. Gravadas na pedra elas diziam:

Seja bem vindo!

Peregrinos, visitantes ou apenas caminhantes;

Aqui, Deus lhe dá as boas vindas, e sentido à sua vida!

Aqui, Deus espera por você, para lhe oferecer todo seu amor!

Com lágrimas nos olhos, ainda muito emocionado, sentindo no peito uma paz que nunca sentiu, em dado momento sua atenção foi desviada para uma velha senhora que estava sentada nas escadarias de mármore perolado da igreja. Ela tinha as mãos mais velhas que ele já tinha visto em toda a sua vida, mas elas se moviam com uma agilidade e rapidez incrível, tricotando um casaco para o pequeno príncipe que estava sentado ao seu lado. Numa questão de segundos, Gabriel viu unir-se diante dele duas gerações tão diferentes. O pequeno anjo que estava com a cabeça encostada no ombro da velha mulher, tinha cabelos loiros e cacheados, que o faziam lembrar um querubim. Foi mais um momento da mais pura emoção. Ele pode ler nos olhos do garotinho que ele sabia que ainda havia muito trabalho a ser feito, mas estava lá, sorrindo de vez em quando enquanto deslizava seus dedinhos sobre a parte do casaco que já estava feita. Seus olhos brilhavam de emoção e excitação. Certamente ele estava ansioso pelo resultado final.

Gabriel pode enxergar no olhar e no sorriso do garotinho a alegria e felicidade dele, quando seu casaco estivesse pronto e pudesse ser vestido. Aquela foi mais uma cena que o tocou profundamente como ele nunca achou que poderia acontecer. Gabriel se esqueceu do motivo pelo qual tinha ido a Paris. Aos poucos sem mesmo saber que estava acontecendo, ele estava re-aprendendo a viver, a dar valor às pequenas grandes coisas da vida. Envolto pela magia da cidade luz, sem acreditar que estava tendo aqueles pensamentos, ele sonhava em um dia poder mudar-se para lá e viver uma outra vida. A vida simples e absolutamente mágica que ele havia descoberto naquelas poucas horas, caminhando pelo bairro de Montmartre desde que saiu do hotel após o seu café da manhã.

Seu Blackberry tocou mais uma vez. Contudo, outra vez o cheiro de baguetes frescas vindo agora de outra padaria nas redondezas foi mais forte e desviou sua atenção do celular. Ele não atendeu à ligação. Gabriel sacudiu a cabeça e riu de si mesmo. Ele não estava acreditando no que estava acontecendo com ele naquele lugar. Como poderia ele, um homem de negócios, que não tinha nem tempo para respirar, sonhar em se libertar de todas as suas responsabilidades, de todos os seus compromissos inadiáveis e suas obrigações forçadas pelas engrenagens desumanas do mundo dos negócios? Desde que se entendeu por gente e começou a trabalhar, sua vida nunca mais foi dele. Sempre viveu uma vida inteira dedicada a fazer o que os outros queriam que ele fizesse. Afinal, no mundo dos negócios, os anseios e desejos do ser humano não importam. Nele, cada membro da dita sociedade dos homens é um objeto que após ter sido usado até o desgaste total, é substituído por outro que por sua vez também é considerado de utilidade para o sistema enquanto estiver produzindo. Quando não tiver mais condições físicas ou psicológicas para continuar, é deixado de lado, sem ao menos receber uma explicação justa e honesta do porque. Depois de ter pego um taxi em Montmartre indo em direção ao Champ de Mars, passando pelos Champs Elyseés, ao virar uma esquina, perto da Place du Trocadéro, ele pediu ao motorista para parar.

Caminhando devagar, conhecendo e admirando tudo à sua volta, ao virar uma esquina, os murmúrios de uma multidão ao longe o fez seguir em sua direção. Mesmo receoso sobre o que iria encontrar, sua curiosidade era muito forte para que ele deixasse de ir até onde estavam aquelas pessoas que faziam todo aquele barulho. Ao virar outra esquina, sua atenção foi atraída para o seu lado esquerdo e ao se virar, ele não pode acreditar no que estava vendo. No meio de uma verdadeira massa de pessoas, dedos apontavam para cima, flashes de câmeras eram disparados, um atrás do outro, vozes de homens, mulheres e crianças em todas as línguas, se misturavam no ar pronunciando palavras de exclamação e admiração que eram ouvidas por toda parte. Era como se uma grande celebridade estivesse diante deles. Uma verdadeira multidão de pessoas estava olhando admirada para aquele símbolo, para aquela estrela sem igual.

Gabriel ficou perplexo. Trezentos e vinte e quatro metros de ferro envelhecido, ainda tão longe dele, mas aos olhos de sua mente tão palpáveis. Colossal, inspiradora, esplêndida, um dos pouquíssimos monumentos reconhecidos por todos ao redor do mundo. Mudo, sem pronunciar uma única palavra, ele não pode deixar de compará-la com uma rainha que estava em pé naquele lugar, olhando lá de cima seus súditos cá embaixo. Vendo a Torre Eiffel predominando os Champs de Mars, com toda a sua magnificência e grandeza, convivendo lado a lado até mesmo com uma pequena flor, que à sua maneira, era tão ou mais bela do que a própria torre, fez com que Gabriel tomasse uma decisão que mudaria sua vida para sempre.

Naquela tarde ele não compareceu à reunião de negócios que tinham marcado para ele no Hotel de Ville em Marais. Os executivos que o aguardaram por mais de 2 horas, nervosos e impacientes, desistiram de esperar e indignados com a ausência de Gabriel, foram embora para seus hotéis, prometendo que aquilo não iria ficar assim.

Naquela tarde seu Blackberry bateu o record de avisos de mensagens e toques de ligações. Gabriel não atendeu.

Enquanto aqueles homens de negócios, tanto os clientes de sua empresa, quanto seus colegas de trabalho tinham fortes dores de cabeça, até azia e mal estar pelo que tinha acontecido, Gabriel percorria todos os lugares da cidade e nem sentiu o tempo passar. Partindo de onde estava, aos pés da Torre Eiffel, com a ajuda de um taxista cheio de gentilezas e atenções, ele rumou para St Germain, conheceu o Quartier Latin, onde era difícil encontrar alguém que falasse francês. Conheceu o Paláis de Justice e depois passeou de Bateau Mouche pelo rio Sena. Mais no final da tarde, ainda com um céu azul anil, sentindo-se mais leve do que nunca, ele foi para o Marais e de lá seguiu rumo a St Martin onde jantou às margens do canal. Já era tarde da noite quando ele voltou ao Montmartre Hotel e mesmo àquelas horas, seu Blackberry não parava de tocar.

Após uma agradável noite de sono, como ha muito ele não tinha, mais uma vez ele acordou pela manhã com o cheiro das baguetes frescas da padaria do outro lado da rua. Gabriel levantou-se, tomou um banho demorado ouvindo musicas de Piaf que sempre curtiu e depois tomou seu café da manhã com todo o prazer, degustando cada pedacinho de seu croissant fresquinho, coisa que antes ele não fazia porque não tinha tempo para isto. Sua vida tinha mudado. Ele já não era o mesmo desde sua primeira manhã em Paris.

Seu Blackberry tocou. Na telinha uma mensagem de texto apareceu. Reunião importante. Rio de Janeiro. Amanhã. 19 horas. Hotel Copacabana Pálace. Gabriel leu a mensagem, olhou para cidade lá fora, olhou de novo para o seu Blackberry, levantou-se e foi até a porta do banheiro, deu uma parada pensativo, mas logo entrou nele por uns instantes. Depois de dar descarga no vaso sanitário ele saiu voltando para o quarto onde arrumou as malas para partir.

Galeão, Rio de Janeiro. Ao se aproximar do aeroporto, da janela do avião, a imagem do Cristo Redentor, com os braços abertos pareciam ser um convite para um abraço carinhoso. Pouco depois o vôo vindo da França havia pousado e os passageiros começaram a desembarcar. Um grupo de executivos o aguardava na saída dos passageiros com ansiedade e nervosismo. Gabriel era o homem chave para o fechamento de um grande contrato naquele dia, mas o que ele não sabia era que o grupo empresarial para quem trabalhava tinha um plano para demiti-lo logo após efetivada a transação para que seu cargo fosse ocupado por outra pessoa, mais jovem, inexperiente, mas amigo do filho do Diretor Presidente. Após a assinatura do tão desejado contrato, que segundo o cliente, só seria assinado com a presença de Gabriel, ele receberia o famoso bilhete azul e sua carreira no mundo dos negócios, aos 45 anos, teria um triste fim.

Muitas pessoas saiam pelo setor de desembarque e o grupo de executivos estava cada vez mais ansioso pela saída de Gabriel. Eles esperavam que ele já estivesse pronto para a reunião que seria dentro de meia hora. De repente um sorriso se abriu nos lábios de todos que o esperavam. Mal ele se aproximou do grupo e dois homens o agarraram puxando-o pelo braço para que fossem rapidamente para o carro que já os esperava com o motor ligado. Num movimento inesperado, Gabriel se livrou de todos que atônitos o olhavam sem saber o que pensar, nem o que dizer. Um deles perguntou se ele estava ficando louco, mas tudo que ele fez foi sorrir. De repente ele começou a rir com vontade e o som de suas gargalhadas contagiou a todas as pessoas que estavam naquela ala do aeroporto que começaram a rir junto com ele, mesmo sem saber porque ele estava rindo. Não demorou muito e uma multidão não parava mais de rir. Para desespero daqueles que esperavam por Gabriel, o setor de desembarque explodiu em gargalhadas. Em dado momento, ele parou de rir e quando ele o fez, todos pararam também.

Mais sério do que nunca, lentamente ele se dirigiu para onde estava reunido o grupo de executivos. Ao chegar bem perto deles, ele parou. Seu semblante se transformou. Com um sorriso largo, encarando de frente, a todos eles, Gabriel desfez o nó da gravata, desabotoou as mangas e o colarinho da camisa, e após dar um suspiro profundo em sinal de alívio, disse a eles, com voz firme, em claro e bom tom, que louco ele já tinha sido antes, mas daquele momento em diante, não mais. Sem dizer mais uma única palavra, ele virou-se e foi embora, deixando para trás, um grupo indignado de homens bem vestidos, engravatados e prontos para uma reunião de negócios, onde seriam usados como tantos outros sempre o foram, até enquanto servissem aos interesses da empresa em que trabalhavam, numa cadeia sem fim.

Paris. "Le Montmartre Hotel", quarto 36, no 3º andar do estonteante edifício de estilo romanesco. Na noite do dia em que Gabriel partiu de volta para o Brasil, a arrumadeira que também fazia a faxina no hotel terminou de arrumar a cama e preparar o quarto para receber um novo hóspede na manhã do dia seguinte. Como de costume, ela entrou no banheiro que seria o ultimo lugar a ser limpo. Ao levantar a tampa do vaso sanitário para fazer a higienização, ela se espantou com o que viu. Dentro dele, havia um Blackberry, e ao que tudo indicava, alguém o tinha jogado lá propositalmente naquele mesmo dia. A jovem pegou uma luva, colocou em suas mãos e pegou o aparelho que já não valia mais nada. Olhando-o de perto, ela deu um sorriso e balançou a cabeça, como se estivesse se questionando, quem em sã consciência teria feito aquilo. Depois caminhou até onde estava o cesto de lixo e o atirou dentro dele, seguindo rumo a outro quarto do hotel para continuar seu trabalho.

Rio de Janeiro, Corcovado. Gabriel de bermuda e camiseta regata, usando sandálias Havaianas estava aos pés do Cristo Redentor. Tantas outras vezes ele esteve lá com clientes sem dar à estátua a devida atenção. De repente, ele sentiu uma vontade irresistível de abrir seus braços, igual ao Cristo e sem pensar no que os outros iriam dizer, ele o fez e se sentiu muito bem. Ele estava feliz. Livre para ser ele mesmo, livre para fazer o que bem entendesse. Livre para viver a sua própria vida, sem ter que representar sentimentos que não sentia, sem ter que fazer só o que os outros queriam ou ordenavam que ele fizesse. Naquele instante, carregado de energias positivas recebidas no alto do Corcovado, ele se lembrou das frases gravadas na pedra na Basílica do Sagrado Coração de Montmartre.

Mais uma vez seus olhos se encheram de lágrimas e seu peito de uma profunda emoção. Finalmente, depois de quase uma vida inteira, ele re-aprendeu a viver. Gabriel compreendeu que não importa qual seja a nossa religião, ou status social em que vivemos, é na fé, na crença em Deus e na beleza da vida, que encontramos a nossa liberdade e o verdadeiro e único sentido de nossas vidas.

Autor: José Araújo

domingo, 21 de junho de 2009

ANIMAIS RACIONAIS



Os primeiros sinais de claridade começavam a aparecer. O sol já atravessava timidamente com seus raios o denso nevoeiro no bosque de Eucaliptos que ficava próximo à nossa casa. Um novo dia de um mês de um setembro qualquer, que ficou perdido no tempo há muitos anos atrás estava nascendo. Enquanto a cerração ainda cobria toda a várzea onde nós morávamos, mal dava para se enxergar pouco à frente de nós enquanto caminhávamos em direção à margem do rio Tietê. Tínhamos que atravessar de canoa para o outro lado, com o auxílio de um canoeira, coisa que fazíamos todos os dias, sem nunca falhar. Aquela era a minha rotina diária por todo o período escolar.

Subi na canoa e quando saímos de nosso lado da margem e chegamos ao meio do rio, não se via terra para qualquer lado que se olhasse, somente a densa cerração causada pelas matas e pelas águas do rio e das lagoas adjacentes, porém nosso canoeiro, seu Chico, experiente como era, podia atravessar o Tiete em qualquer tempo e como ele sempre dizia, até de olhos fechados e assim, desde que eu me entendi por gente, tinha plena confiança naquele mineiro de Bom Despacho, que nos tratava a com muito respeito e cuidado.

Eu entrava na escola às sete horas e para chegar lá havia uma longa caminhada que durava mais de uma hora, andando pelo meio do mato, muitas vezes enxergando apenas onde pisava, beirando por vezes a rodovia, outras a estrada de ferro quando chovia demais e passando por entre industrias que começavam a se instalar na cidade de Guarulhos, beirando a Rodovia Presidente Dutra, que na época tinha apenas duas pistas, ladeadas por lagoas e brejos traiçoeiros que sempre tiravam as vidas daqueles que sofriam acidentes de transito na rodovia e tinham seus veículos atirados em suas águas e lamas, que sem dó nem piedade os sugavam para suas profundezas para nunca mais voltar.

No começo, minha mãe me levava desde a travessia do rio e da rodovia, até a porta da escola e depois ia me buscar, mas isto não durou muito tempo. E eu tinha que ir e vir sozinho, só tendo a ajuda de um adulto nas travessias do rio.

Eu tinha medo no começo, mas com o passar do tempo fui me acostumando e em determinado momento, já não representava mais nenhum desafio ou risco para mim, pelo menos era o que eu pensava.

Naquela manhã de setembro, quando sai de casa rumo à escola, nem de longe poderia imaginar que a rotina diária seria rompida com um acontecimento que marcou minha infância e que com certeza irei relembrar dos fatos que se seguiram, até o fim de meus dias.

Havia uma fábrica de tintas pela qual eu passava e geralmente meu trajeto era por trás dela, beirando os muros num estreito caminho que separava a construção do mato cerrado e naquele dia, de longe ouvi gritos de homens dizendo algo que eu não conseguia entender.

Quando fui me aproximando, vi que havia vários deles em cima do muro da fábrica que por sinal era bem alto e todos estavam atirando pedras em alguma coisa bem no lugar em que eu teria que passar.

Aproximei-me devagar e os homens perceberam minha presença, mas mesmo assim continuavam a jogar pedras e foi então que eu vi, lá bem no meio do caminho, todo encolhido e ferido, um pequeno ratinho, indefeso, à mercê da maldade daqueles homens que pareciam ter prazer no que estavam fazendo. Era como se estivessem disputando para ver quem mataria primeiro o pobre bichinho.

Naquele instante, percebendo o fim iminente do ratinho, uma coragem imensa me invadiu. A despeito do que poderia acontecer comigo com eles jogando pedras lá de cima, corri em direção ao pobre animalzinho, enquanto eles gritavam, para que eu saísse da frente, por que se não o fizesse, eles iria atirar pedras em mim também.

Não senti medo de nada. Nunca tive tanta coragem em minha vida. A única coisa que me importava naquele instante era salvar a vida do ratinho. Eu precisava salvar o pequenino e levá-lo para bem longe do alcance daqueles desalmados.

Sob gritos de ameaças, de ser xingado com muitos palavrões e até mesmo tendo recebido algumas pedradas, peguei o pobrezinho e sai correndo pelo meio do mato, protegendo o pequeno corpinho entre minhas mãos e enquanto corria, só pensava no bem estar do ratinho. Lembro de não ter sequer olhado para trás. Eu corria com ele em minhas mãos desesperadamente, sem mesmo saber exatamente para onde estava correndo, pois nunca havia me atrevido a entrar naquele matagal.

Após muito correr em voltas, acabei saindo de novo em meu caminho, bem longe daquele muro. Foi ai que parei para ver o que poderia fazer por ele e logo percebi que haviam acertado uma pedra na cabeça do ratinho que o havia atordoado, por isto estava lá, parado e indefeso, sob a mira e a ira daquelas pessoas sem coração.

Os córregos eram comuns pelo caminho e mesmo fontes de águas cristalinas podiam ser encontradas às margens da estrada de ferro e foi numa delas que lavei a cabecinha dele. Enrolei-o em meu lenço e segui meu caminho rumo à escola. Enquanto caminhava eu ia imaginando em minha inocência, onde eu poderia esconde-lo até o final das aulas, pois tinha intenção de leva-lo para casa, pois no meio de tantos bichos que criávamos lá, de tantas espécies diferentes, um a mais, não poderia fazer diferença nenhuma.

Não conseguindo encontrar nada para poder protege-lo, muito menos um lugar seguro para colocá-lo, não tive opção a não ser ficar ali, na frente da escola com o ratinho dentro da minha mochila, rezando para que alguma solução surgisse por milagre. Foi então que vi um outro garoto mais velho que morava numa chácara, próximo à escola e então resolvi pedir a ele que guardasse o ratinho para mim, até que eu pudesse pegá-lo ao final das aulas.

Na minha ingenuidade de criança, pedi a ele que o fizesse e mais do que de imediato ele aceitou. Havia em seu rosto um sorriso que no momento não compreendi bem, mas não tive tempo nem malicia para levar aquilo em consideração.

Quando deu o sinal de saída da escola eu não via a hora de pegar o ratinho e levá-lo embora comigo. Eu queria cuidar dele, dar comida, tratar de seus ferimentos. Queria poder arrumar um lugarzinho em nosso quintal onde ele pudesse viver em paz. Qual não foi minha surpresa ao sair do portão da escola para a rua, quando vi uma roda de meninos grandes gritando agitados, “Mata, mata, mata!”...

Aquela cena com os meninos, mesmo de longe, instintivamente me fez lembrar dos homens lá naquele muro e imediatamente soube o que estava acontecendo. Era o ratinho que eles estavam matando!

Os meninos jogaram pedras no bichinho até estraçalhar seu corpinho frágil e indefeso. Não houve nada que eu pudesse fazer, a não ser chorar. Chorar a dor de ter confiado naquele menino a quem eu entreguei em confiança o pobre ratinho. Eu tinha acreditado plenamente em sua palavra.

Tudo que aconteceu naquele dia ficou marcado em minha mente desde então. Mesmo após tantos e tantos anos, ainda hoje, eu me pego a lembrar dos homens no muro, do ratinho e dos outros meninos que o mataram por puro prazer e dos meus sentimentos de revolta e repugnância pelas atitudes daquelas pessoas, tanto adultos, quanto crianças, que significaram tanto em minha vida.

Na vida, o ser humano age muitas vezes irracionalmente, de uma forma que nem mesmo os animais o fazem usando o instinto. Mesmo que a humanidade os chamem de animais irracionais, talvez agindo por instinto, matando apenas para se defender ou para se alimentar para sobreviver, eles sejam muito mais racionais que muitos seres que se dizem “humanos”.

O tempo passou, eu cresci, amadureci, os tempos são outros, mas o homem parece não ter evoluído. A cada dia ele parece regredir ainda mais e tenho visto tantos e tantos casos de seres humanos matando animais, até mesmo os mais inofensivos como pássaros, gatos, cachorros e o corte indiscriminado de imensas quantidades de árvores, apenas pelo prazer de matar, de tirar uma vida, não só por esporte ou dinheiro, o que já é inadmissível, mas por pura maldade, pelo simples prazer de destruir o maior bem que recebemos de Deus.

Viver e deixar viver, respeitando a vida de todos os seres, sejam humanos ou não, protegendo a fauna e a flora de nosso planeta contra nós mesmos, é a única maneira de garantirmos nossa existência futura na face da Terra.

O ratinho perdeu sua vida, partiu para sempre, mas deixou marcas profundas em minha personalidade, em minha vida. A dor da perda e a revolta pelo que meus colegas de escola fizeram com o pobre animalzinho serviram para mim com uma lição de vida.

Aprendi a ser cauteloso mesmo com os da minha própria espécie, pois por trás de um par de lindos olhos, ou de um lindo sorriso, pode haver um animal perigoso, um ser realmente irracional.

Autor: José Araújo