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domingo, 9 de maio de 2010

LÁGRIMAS DE DEUS NO CÉU DO SERTÃO...


O sol ardia e o calor era insuportável. Parecia que aquele dia estava sendo o mais quente do ano. A seca no interior do nordeste brasileiro era a pior das ultimas décadas. Severina com o olhar distante, dizia a si mesma que se não chovesse logo, não sobraria uma única alma viva para contar a historia de fome, de sede e de muito sofrimento naquele lugar. Não chovia há muito tempo. As cabras estavam morrendo e as poucas vacas que ainda estavam de pé, não produziam leite. Os animais estavam magros e fracos. As pessoas tentavam sobreviver e salvar seus filhos da morte certa como podiam. Os homens estavam sendo obrigados a caminhar longas distancias para conseguir trazer água, mas aos poucos, os outros vilarejos mais próximos tinham ficado sem um a gota de água se quer. As prefeituras tinham que enviar caminhões pipa com o liquido vital para matar a sede da população.

A coisa estava tão ruim que foi preciso fazer racionamento de água até mesmo dentro de casa. Quando o caminhão da prefeitura trazia água até cidadezinha mais próxima, Severina e seu marido Ericlênio iam buscar a fonte da vida em galões de alumínio que antes eram utilizados para carregar o leite das vacas para vender. Quando retornavam ao seu pequeno lar, o pouco de água que conseguiam trazer, era guardada num latão com tampa e que tinha uma torneira improvisada que seu marido colocou nele e, que eles deixavam debaixo de um cajueiro, o único lugar mais fresco que encontraram para que a água não se evaporasse com o calor. De qualquer forma, o cajueiro não ficava muito próximo à casa deles e era preciso uma boa caminhada para chegar lá. Não que fosse exageradamente longe, mas devido ao terreno irregular, da janela da cozinha só se podia ver os galhos mais altos da arvore. Naquele dia Severina achava que não iria suportar aquele calor.

Ela e sua família já tinham passado por maus bocados, mas aquela seca estava sendo demais para qualquer um. Sem chuva, sem mandiocas para fazer farinha, sem o leite das vacas, já havia quase nada para comer e principalmente, logo não haveria absolutamente nada para alimentar Minguinho, seu filho de apenas seis anos de idade, era o que mais lhe doía no coração. Ericlênio havia saído e ela estava na cozinha raspando um pedaço de rapadura para juntar com um resto de farinha de mandioca e dar ao seu pequeno filho. Olhando para fora ela parecia olhar, sem nada ver. Havia uma tristeza enorme naqueles olhos antes tão alegres e esperançosos. A seca no sertão era sempre implacável, mas agora, depois de tanto ouvir falar pelo rádio sobre o aumento da temperatura do planeta, Severina já estava acreditando que o fim de todos estava próximo.

Em dado momento algo chamou sua atenção e forçando um pouco a vista, ela viu seu pequeno filho caminhando em direção a onde estava o cajueiro. Ela não teria dado muita atenção ao fato dele estar andando pelos arredores, o que era usual, mas foi o jeito como ele estava caminhando que a deixou intrigada. Ela parecia estar indo até onde estava o cajueiro, mas indo com alguma missão a ser cumprida, não zanzando de lá para cá como era seus costume. O menino desapareceu das vistas de sua mãe, demorou um pouco a reaparecer, mas quando o fez, vinha andando com muito cuidado e ele vinha com suas mãos juntas, como se formando uma concha e ele trazia nelas algo que não dava para ver de longe. Severina ao vê-lo dirigir-se para os fundos da casa achou que poderia ter encontrado alguma coisa que o interessou e acabou por não se preocupar mais com o assunto.

Contudo, minutos depois lá ia ele de novo. Ao vê-lo andando desta vez, mais rápido e decidido na direção do cajueiro, ela resolveu averiguar melhor. De novo ele desapareceu de suas vistas, mas minutos depois ele vinha retornando e com suas mãos juntas, em forma de concha, trazia algo e seguia andando cuidadosamente na direção dos fundos da casa. “Este menino está aprontando alguma coisa!” Ela pensou. Com aquele calor miserável, se nem os animais mais fortes como os bois e as vacas estavam aguentando, como poderia um garotinho franzino e subnutrido como seu pequeno Minguinho sobreviver se abusasse muito de sua sorte? O que ela não esperava, era que iria aprender uma grande lição, testemunhando o único milagre que ela iria ver acontecer em sua vida.

Preocupada e curiosa, ela deixou o que estava fazendo e saiu discretamente pela porta dos fundos e sem que ele percebesse, ela o seguiu quando ele se dirigiu mais uma vez em direção ao cajueiro. Ao chegar lá, Severina viu quando ele se ajoelhou em frente ao tambor onde guardavam a pouca água que conseguiam e juntando as duas mãos, ele ficou aguardando a água cair nelas, gota por gota até que enchesse e depois, cuidadosamente ele se levantou, tentando manter o equilíbrio para não perder nem uma gotas e pôs-se a caminhar de volta para casa. Ela se escondeu bem para que ele não a visse e quando ele já estava ha alguma distancia, ela se aproximou do tambor e constatou que havia um pequeno vazamento água na torneira e o liquido precioso e vital se perdia gota por gota, sem parar. Severina virou-se e seguiu pequenino de volta para casa e como adulta, mais rápida do que ele, ela chegou primeiro cortando caminho para não ser vista e o esperou.

Quando ele chegou, foi direto para o quintal dos fundos e se dirigiu para onde havia o cercado onde ficavam as cabras, passou por baixo dele, se equilibrando com o maior cuidado e foi até onde haviam algumas cabras prostradas no chão, quase morrendo de fome e de sede e quando ela viu que ele ia passar junto ao velho bode, o mais bravo e perigoso que tinham e que ainda estava de pé e com forças suficientes para atacar Minguinho, seu coração quase parou. Se gritasse o bode poderia se assustar e ataca-lo, se ficasse quieta, talvez fosse pior, mas o que aconteceu a deixou sem ação. O velho bode olhou para o menino, balançou a cabeça devagar como se faz quando se concorda com alguma coisa, deixando-o passar e o acompanhou até onde estava um pequeno cabritinho. O pequenino era pele e osso e nem mais conseguia se levantar. Minguinho chegou perto dele, abaixou-se e com o maior cuidado aproximou suas mãos com a água que trazia nelas da boca do animalzinho. Sem forças nem para levantar direito a cabeça, com um tremendo esforço ele esticou sua pequena língua para tocar a água e Minguinho se abaixou o mais que podia para facilitar.

Presenciando aquela cena, os olhos de Severina encheram-se de agua. Lágrimas de pura emoção rolaram livremente sem seu rosto cansado e maltratado pela seca. Que ironia. Ela pensou. Não cai uma unica gota de chuva ha tanto tempo, mas bastou presenciar o que meu filho esta fazendo, para que elas aparecessem de dentro de mim. Quando o cabritinho conseguiu lamber toda a agua que havia em suas mãos, Minguinho se levantou e saiu correndo em direção a onde estava o tambor. Severina ainda emocionada o seguiu e aguardou seu retorno no meio do caminho, escondida atrás de uma grande rocha. Quando ele vinha voltando, ela saiu de seu esconderijo e se colocou em sua frente, impedindo sua passagem. Seu pequenino filho parou, levantou os olhos que encontraram os dela e eles se encheram de lágrimas. Com a voz embargada, Minguinho disse a ela que não estava desperdiçando água. Foi tudo que ele disse e começou a caminhar de novo. Ela saiu de seu caminho. Aquela era sua missão e ele a estava cumprindo. Severina não disse nada, apenas afastou-se e deixou passar.

Quando ele passou, ela o seguiu de volta acompanhando-o de perto. Ao vê-lo se ajoelhar ao lado de outro animalzinho caído no chão, tentando fazer com que ele bebesse a pouca água que tinha conseguido trazer na concha que ele fazia com suas pequenas mãos, mais uma vez e a emoção foi maior e as lágrimas caíram de seus olhos. Vendo aquele coração maior do que ele mesmo. Tão lindo e radiante que parecia ofuscar até mesmo a luz daquele sol que estava matando tudo e a todos naquele lugar, elas foram caindo, uma a uma e então, subitamente, ao caírem, outras gotas se juntaram a elas e outras mais se juntaram cada vez mais...

Estava chovendo! Mas como? Não havia sequer uma nuvem nos céus daquele deserto no sertão! Severina atônita olhava para o céu, enquanto seu filho e os poucos animais que ainda estavam de pé pulavam de alegria; recebendo as gotas de chuva como se fosse o maior presente que tivessem recebido em suas vidas. Lentamente, as gotas que vinham do nada foram molhando tudo naquele lugar. Era um milagre o que estava acontecendo. A vida finalmente estava sendo preservada.

A natureza se encarregaria de fazer germinar novamente as sementes das plantas que morreram e tudo voltaria ao normal. Depois daquele dia Severina sempre soube que provavelmente muitos iriam dizer que milagres não acontecem realmente, que tudo foi só coincidência. Afinal tem que chover em algum lugar e que naquele dia, a chuva sem nuvens deveria ter alguma explicação cientifica.

Mas ela decidiu que não iria discutir aquele assunto, nem ia tentar. Tudo que ela sabia, era que a chuva caiu sobre o deserto do sertão salvando o bem maior, a vida, exatamente como fez Minguinho, seu pequeno grande homem. Carregando em suas mãos aquela água que estava para ser desperdiçada, pingando da torneira e caindo na areia escaldante e que estavam sendo usadas por ele, carregando-a como ele podia, fazendo uma concha com as mãos, caminhando um longo percurso, após esperar que ela enchesse suas mãos, gota por gota, sem desistir, para salvar as vidas daqueles pobres animais.

Até hoje, quando ela se lembra daquele momento de suas vidas, em estado de extrema gratidão, Severina se ajoelha no chão e com as mãos levantadas em direção ao céu, com o coração batendo rápido de tanta emoção, sabe que aquela chuva que caiu naquele dia, vinda de lugar algum, sem uma nuvem no céu, só podia ser mesmo as lágrimas de Deus, caindo dos céus do sertão, enquanto ele chorava de emoção, de orgulho e satisfação, vendo cá embaixo, Minguinho, sua pequena grande criação, fazendo o que ele estava fazendo, cumprindo sua missão sem medir esforços, com toda a força de seu coração, em nome do amor.

Autor: José Araújo

domingo, 10 de janeiro de 2010

A ESPERA...




Num lugar distante, do outro lado do mundo, onde a neve, os ventos fortes e congelantes, associados ao frio cortante marcam seu reinado de forma penetrante, na mais alta das montanhas do lugar em um mosteiro milenar, um monge prepara um engradado feito de madeira, com pequenos buracos para respiração no qual ele vai enviar ao Brasil uma entrega muito especial.

Perto dele, uma ninhada de cachorrinhos brinca alegremente ao lado de sua mãe que esta deitada sobre algumas almofadas, preocupada com sua prole. Ao todo, ela deu a luz a oito cachorrinhos a pouco mais de um mês e o oitavo, mesmo sem saber, veio ao mundo com uma missão muito especial.

O monge ao terminar de arrumar o engradado, escreve num papel o endereço de para onde ele vai e aos cuidados de quem. Cautelosamente ele afixa o mesmo no engradado, procurando ver se estava bem preso, de forma que não se perca pelo caminho, assim ele pode ser entregue sem problema algum ao endereçado.

Com muito carinho, ele pega um dos cãezinhos, deixando que a mãe o cheire pela ultima vez e o coloca dentro do engradado, trancando-o com um cadeado, colocando a chave num envelope especial feito de plástico, prendendo-o no engradado como o fez com o endereçamento.

Lá fora os ventos não perdoam. Eles parecem querer carregar para longe tudo que se encontra à sua frente. Um cavalo montado por um mensageiro espera do outro lado do enorme portão do mosteiro. O monge protege bem o engradado com peles para que o cãozinho não morra de frio e com muita dificuldade abre a porta, dirige-se ao portão e o entrega ao mensageiro. Um último olhar para ver se esta tudo bem com o cãozinho e ele se despede do cavaleiro que aos poucos desaparece na tempestade de neve.

Assim começa esta historia emocionante que envolve um homem e um cão, onde a amizade sincera e verdadeira, o amor incondicional, a fidelidade e uma lealdade sem limites, muito além da imaginação pelos padrões de comportamento adotados por nós humanos nos dias de hoje, marcaram a existência de um cachorro muito especial.

Meses depois, após ter viajando muito a cavalo, ter viajado de trem centenas de quilômetros e atravessado oceanos em um navio cargueiro, finalmente, já com três meses de idade, o cãozinho chega ao porto do Rio de Janeiro. Durante toda a sua viagem, não houve uma só pessoa, que ao ler a etiqueta de endereçamento presa no engradado, não estranhasse um cãozinho sendo enviado de tão longe, para mais longe ainda. Todos que o viam, sempre se preocupavam com seu bem estar, alimentando-o como podiam e dando a ele água para beber sempre que possível, assim ele pode chegar bem, são e salvo ao Brasil.

Após o desembarque no porto, dentro de seu engradado ele foi entregue a uma empresa de transportes que se encarregaria de entregá-lo ao destinatário. Era uma sexta-feira, final de tarde e o motorista cansado de tanto trabalhar, acabou por resolver parar no meio do caminho para tomar uma cerveja e quando ele ia fazer o retorno para parar numa lanchonete de beira de estrada, o inesperado aconteceu. Um ônibus em alta velocidade atingiu a traseira da Van que transportava o cachorrinho e ela rodopiou na pista varias vezes antes de capotar. No auge do acidente, a porta traseira se abriu e carga se espalhou por todos os lados e com ela, o engradado que carregava o animalzinho caiu, sendo arremessado para longe, indo cair no meio do mato ao lado da rodovia. Com o choque, a tranca que estava presa pelo cadeado se quebrou e ele, meio atordoado, se viu livre no meio de lugar nenhum.

Assustado, ele começou a andar, subiu o barranco com dificuldade e chegou até o acostamento da via, olhou para os dois lados e se assustou com a quantidade de gente que havia parado para ver o acidente e com a fila de carros causada pelo congestionamento que havia se formado pelo que aconteceu. O pequenino ficou petrificado. Ele nunca tinha visto um carro, ou caminhão desde que nasceu. O que ele iria fazer agora? Para onde ele iria? Tudo que ele conhecia era o homem que o colocou no engradado e de passagem, todos os outros que de uma forma ou de outra cuidaram de seu bem estar durante a viagem. Entre gritos e muita discussão entre os dois motoristas que não morreram por milagre, ninguém notou que ali, bem ao lado deles havia um lindo cãozinho que tremia sem parar de tanto medo. Ele estava apavorado, inseguro, sem saber para que lado ir.

Ao lado da rodovia passava uma estrada de ferro, um trecho de uma das linhas da Central do Brasil. Em dado momento, ele ouviu o apito de trem que chamou sua atenção. Sem saber por que, ele seguiu caminhando rapidamente na direção de onde vinha aquele a som. Não demorou muito ele chegou até a escadaria que levava a uma estação que ficava nas proximidades. Nisto, já era noite, usando seu faro ele caminhou escada acima, tentando encontrar algum cheiro conhecido, mas nada encontrou. Não havia nada na plataforma. Nem uma alma viva estava lá para perceber sua presença. Triste e cansado, ele resolveu se deitar em cima de um dos bancos vazios onde os passageiros normalmente esperavam pelo trem. Mais de meia hora depois, ele já estava cochilando quando foi despertado pelo barulho do trem que estava chegando à estação. Mais uma vez ele começou a tremer. Aquele barulho enorme fazia até mesmo com que o banco de madeira onde ele estava deitado estremecesse. Era tudo tão assustador, tão ameaçado e não havia nenhum ser humano lá para ajudá-lo. De repente tudo mudou. Aquela coisa enorme, que soltava fumaça e apitava ferindo seus pequenos ouvidos abriu as portas e delas, uma multidão de gente começou a desembarcar.

Ele ficou em estado de alerta. Atento a tudo e a todos que passavam caminhando apressadamente pelo banco onde ele estava, resolveu pular no chão e seguir alguém. Instintivamente ele caminhava no meio daquela gente toda cheirando um por um. Ele, tão pequeno ainda, apenas uma bolinha de pelos, naquela noite escura e com a pouca iluminação da plataforma, quase não era percebido e os que se davam conta da presença dele nem ligavam. Caminhavam adiante sem dar a ele a menor atenção, afinal era apenas mais um cão como qualquer outro, numa cidade de animais abandonados e sem proteção.

Foi então que ele parou, sentou sobre suas patas traseiras e ficou apenas observando um por um. De repente, um par de pernas se deteve em sua frente e uma voz suave e carinhosa, numa língua que ele não compreendia começou a falar com ele. O cãozinho olhou para cima e um rosto amigável sorria para ele ao mesmo tempo em que fazia carinho em sua cabeça. De certa forma aliviado, ele não reagiu. Somente quando o homem se abaixou para vê-lo melhor ele deu um passo atrás. A voz daquele humano era tão calorosa e inspirava tanta confiança que ele resolveu se aproximar um pouco mais. O calor daquelas mãos era tão bom que ele não resistiu e se deixou ser acariciado. Preocupado com o destino do cãozinho, o homem o pegou no colo com dificuldade, pois carregava seu guarda-chuva e sua pasta contendo seu material de trabalho.

Enquanto ele caminhava em direção à sua casa, o bom homem se perguntava o que um cãozinho tão lindo como aquele estaria fazendo naquela estação de trem sem o seu dono. Ele era bonito demais e muito bem cuidado para ser um simples cachorro abandonado na rua. Alguém certamente o estaria procurando, mas quem? Onde? Isto certamente ele iria tentar descobrir. Para ele, todos os animais têm direito a ser bem cuidados como seres vivos que são. Carregado nos braços, sentindo o calor e as batidas do coração daquele humano, ele se sentiu seguro, protegido e num dado momento, para externar sua gratidão, ele lambeu o rosto de seu protetor. O homem sorriu, deixou que ele lambesse mais seu rosto e alegremente foi falando com ele. Sua voz era algo muito especial. Ela transmitia ao cãozinho muito carinho, muito amor e respeito. Naquele momento, ele sentiu bem dentro de seu pequeno coração, que mesmo sem entender uma única palavra do que o homem dizia, ele iria ficar com ele para todo o sempre. Ele estava feliz e aquele humano parecia estar também.

Ao chegar onde o homem morava, ele foi recebido pela esposa que ao ver o cãozinho em seu colo logo começou a falar alto e pelo que se podia sentir, não era nada bom. Agitado, o bom homem disse a ela que a permanência do cachorrinho seria só por uma noite e que pela manhã iria tentar encontrar seu dono para devolvê-lo. A reação dela foi dizer a ele que se ele quisesse que o pobre animal ficasse lá, ele deveria colocá-lo no quartinho dos fundos, mas nem pensar em entrar com ele em casa. Contrariado, mas sem ver outra solução, ele levou o cãozinho até onde sua esposa havia mandado colocá-lo, arrumou uma caixa de papelão, colocou dentro dela alguns panos para aquecer e deitou o animalzinho, gesticulando com a mão para que ele ficasse em silencio. Sua língua, ele não entendia, mas seus gestos eram universais. Ele já havia visto aqueles mesmos movimentos nas mãos do monge que ficou no lugar de onde ele veio.

Só, no escuro daquele quartinho, ele se lembrava vagamente de seus irmãos, de sua mãe e do lugar onde morava. Era tudo tão diferente. Naquele lugar aonde ele veio parar, não havia neve, nem vento. Fazia um calor constante e mesmo à noite era um contraste gritante comparado ao clima de sua terra natal. Após muito tempo ele adormeceu. Foi difícil pegar no sono porque ele sentia falta de ouvir aquela voz que o tratava com tanto carinho. Ele sentia falta do calor do corpo daquele homem e do toque de suas mãos. Seu ultimo pensamento, antes de adormecer, foi que daria tudo para estar lá, dentro daquela casa onde vivia aquele homem. Ele queria poder estar ao lado dele para poder sentir-se protegido e que aquele humano se preocupava com ele.

O sol já havia raiado quando ele acordou ouvindo vozes e quem estava falando, o fazia com um tom que não agradou aos seus ouvidos e ele ficou atento, ouvindo, procurando reconhecer no meio daquilo tudo aquela voz que tanto o acalmou. Uma pancada se fez ouvir. Era uma porta que havia sido fechada com força quando a mulher entrou em casa falando em voz alta que ele se virar e que dar um sumiço no animal. Ele não compreendeu o que ela disse, mas sentiu e aquilo lhe fez um mal enorme ao seu pequeno coração que começou a bater mais depressa. Era o medo e aquele sentimento ele já conhecia bem.

Ocorreu que o homem veio até o quartinho, abriu a porta devagar, olhou para ele e com o largo sorriso, cheio de bondade, disse a ele naquela mesma voz pela qual ele se apaixonou que iria trazer algo para ele comer gesticulando com as mãos. Ele compreendeu e começou a abanar seu rabinho alegremente. O homem disse que ele era um bom garoto e saiu. Quando ele voltou, trouxe uma vasilha com leite, alguns pedaços de pão que depositou na frente dele e passou a observá-lo comendo alegremente. Enquanto ele se alimentava, parava de vez em quando, olhava para o homem e abanava o rabo todo satisfeito. O homem emocionado, apenas sorria. O pequenino sabia que nunca mais iria esquecer aquele sorriso. Nele estava a representação de tudo que ele mais precisava agora.

O homem era professor de artes plásticas e dava aulas no centro do Rio de Janeiro. Todos os dias ele pegava o trem no mesmo horário pela manhã para ir trabalhar e sempre chegava no mesmo horário à tarde. Morar no subúrbio não era nada fácil, mas ele tinha quatro filhos e a esposa para cuidar. Não havia alternativa, a vida inteira ele trabalhou duro para sustentar a família e agora, mesmo já estando na faixa dos cinquenta, ele continuava a sua luta do dia a dia pelo ganha pão. Na verdade, a resistência de sua esposa em aceitar o cãozinho foi porque eles tinham uma cadelinha que viveu com eles muitos anos, mas ela ficou doente e morreu há pouco tempo atrás. Todos a adoravam e a esposa do professor que ficava em casa a maior parte do tempo era quem mais gostava da cachorrinha. Foi um choque e ela prometeu que nunca mais iriam ter outro cão.

As crianças, ou pelo menos eram chamadas assim, apesar de estarem todas criadas e cursando a faculdade, sempre diziam que a casa estava muito triste desde que Dérlica, a cachorrinha se foi.

O professor esperou o cachorrinho terminar de comer, fez sinal a ele para que ficasse quietinho, saiu e fechou a porta atrás de si. Inconformado, ele se levantou, foi até a porta que tinha uma fresta na madeira e ficou olhando o homem se distanciando até que saiu pelo portão e se foi. Triste, ele voltou para o lugar onde dormiu e se deitou. Foram horas intermináveis até que alguém aparecesse. O barulho da maçaneta sendo girada chamou sua atenção. Quando ela se abriu, ele não pode acreditar. Em vez de um sorriso amistoso, havia quatro! Todas aquelas pessoas falavam animadamente com ele e mesmo sem compreender, ele sentiu e entendeu. Logo depois uma voz pareceu estar chamando por eles em tom reprovador. De repente eles se foram e ele mais uma vez ficou só.

Os filhos do casal ficaram apaixonados pelo cãozinho e todos juntos foram até a mãe deles pedir que deixasse o bichinho ficar. A resposta foi não. Tristes, eles esperaram ansiosamente o pai chegar do trabalho e mal ele entrou em casa eles o abordaram fazendo todos os tipos de carinhos nele pedindo a ele que falasse com a mãe deles sobre o assunto. Eles queriam muito poder ficar com ele. Desde a morte de Dérlica a cadelinha, a casa ficou triste demais. Eles queriam que a alegria voltasse a viver naquela casa. O professor disse aos filhos que iria tentar, mas não poderia garantir nada se a mãe deles não quisesse. A ansiedade se instalou em seus corações. O cãozinho ainda não compreendia as palavras ditas por eles, mas ele as sentia e de alguma forma ele sabia o que estava acontecendo.

Enquanto sua esposa estava fazendo compras no supermercado, o professor foi até o quartinho, limpou as sujeiras feitas pelo cãozinho, o alimentou o melhor que pode, deu a ele uma vasilha de água e sorrindo como sempre, ele se foi. Quando ela chegou, ele pediu a ela que reconsiderasse sua decisão sobre o cachorrinho e ela foi taxativa, dizendo que não. Ele suplicou a ela para que pelo menos o deixasse ficar no quartinho até ele encontrar alguém que o quisesse adotar. Relutante, mas não querendo ser ditadora, ainda relutante ela concordou. Passaram-se dois dias e apesar dos esforços do professor, ninguém com quem ele conversou se habilitou a ficar com ele.

No terceiro dia, a esposa do professor estava lavando a louça na cozinha e pela janela ela o viu brincando com o cãozinho no quintal. Ele parecia uma criança. Deitava e rolava no chão com o bichinho e o cãozinho fazia de tudo para agradá-lo. Aos poucos, vendo aquela cena de alegria e descontração depois de tantos meses de tristeza no coração daquela família, ela se perguntou se aquele animalzinho não havia sido enviado a eles para trazer de volta a alegria que perderam quando Dérlica se foi.

Observando aqueles momentos repletos de alegria e descontração, ela não percebeu que sua filha mais velha estava ao seu lado assistindo tudo e com os olhos cheios de lágrimas. Quando ela percebeu, as duas se olharam, se abraçaram e deixaram as lagrimas de emoção fluir livremente de seus olhos. Mãe e filha choravam ao ver os dois brincando juntos como duas crianças e os dois se divertiam como nunca em suas vidas com uma bolinha de borracha que tinha sido da cadelinha que morreu. Eles sem dúvida nenhuma estavam unidos por um sentimento muito forte e este sentimento, não se restringia somente aos dois, ele se alastrava por toda a família como não poderia deixar de ser.

O telefone da cozinha tocou. A esposa do professor atendeu e era uma pessoa que tinha sido informada de que eles estavam doando um cãozinho. Com o telefone encostado ao ouvido, olhando aqueles dois meninos brincando na grama do quintal dos fundos, ela disse que sentia muito mesmo, mas o cãozinho já havia sido dado a alguém.

Para quem até então não tinha nome, naquele mesmo dia em meio a muita bagunça e alegria entre todos da família, mas principalmente no coração do professor, depois de terem sido colocados em votação vários nomes, ele ganhou por unanimidade o nome de Bob e daquele dia em diante, definitivamente Bob nasceu no seio daquela família que o acolheu de coração.

Com o passar do tempo, Bob foi crescendo, aprendendo a língua estranha que eles falavam e aos poucos ele já entendia tudo que todos diziam e ele estava feliz. Ele estava ao lado daquele homem que o encontrou na estação e que ele escolheu para ser seu amigo até o fim de seus dias. Que mais ele poderia querer? Bob trouxe de volta a vida ao seio daquela família. Ele passou a ser parte de suas vidas como Dérlica a cachorrinha um dia o foi. Mas ele era diferente e o tempo iria se encarregar de provar isto a todos.

Bob aprendeu a atender aos chamados da dona da casa, aos pedidos das crianças que não mais eram crianças, mas principalmente, aprendeu os horários em que seu melhor amigo saia para trabalhar e também a que horas ele voltava para casa. Um dia, ele viu quando o professor saiu para o trabalho fechando o portão de madeira atrás de si. Inconformado, Bob cavou com as patas um buraco por debaixo da cerca e fugiu atrás de seu dono. Ele precisava saber aonde ele ia todos os dias. Quando o trem chegou à estação e o professor estava prestes a embarcar, Bob apareceu. Naquele momento, atrasado para o trabalho, ele tentou fazer Bob voltar para casa sozinho, mas foi em vão. Ele ficou parado no lugar onde estava olhando nos olhos de seu melhor amigo. Emocionado, o professor resolveu levá-lo para casa e ao chegar lá, disse a ele que ficasse lá a sua espera, pois no final da tarde ele estaria de volta. Bob não demonstrou, mas entendeu.

No final do dia, quando o trem chegou à estação, da janela o professor pode ver Bob sentado sobre as patas traseiras em cima de um dos bancos de espera e ele estava em posição de alerta. Ele soube naquele instante que aquele cachorro que ninguém nunca soube de onde tinha vindo e que surgiu como milagre em sua vida o estava esperando e sorriu. Ao descer as escadas do vagão onde estava e percebendo que Bob o havia visto, ele o chamou, Bob pulou do banco onde estava e foi correndo ao seu encontro. Foi um encontro emocionante. O professor o abraçou e o beijou chamando-o de amigão. Uma cena tocante e incomum que trouxe lágrimas aos olhos de muitos passageiros mais sensíveis que presenciaram o carinho que havia entre os dois.

O tempo passou, Bob foi crescendo mais e mais, os filhos do professor se formaram, foram se casando e formando suas próprias famílias e ele acompanhou de perto tudo que aconteceu ao longo dos anos. Nas festas, Bob estava sempre presente e era a atenção de todos os convidados. Ele era educado, não fazia nada que não devesse fazer e quase nunca latia. Quando se manifestava, era com abanos de rabo, com lambidas amorosas e com olhares e gestos que todos compreendiam. Bob não parecia um cão. Ele parecia mais um anjo que tinha vindo do céu para cuidar de todos, mas principalmente do professor.

Todos os dias, ano após ano, Bob ia com o professor até a estação, esperava que ele tomasse o trem e depois voltava para casa. Todos na redondeza o conheciam e admiravam o carinho e amor que ele tinha pelo professor. Quase sempre ele ganhava de alguém um presente pelo caminho. Era um pedaço de carne, uma linguiça, um pão ou até mesmo comida. As pessoas passaram a amar Bob pelo que ele era e pelo que ele representava na vida do professor. Quando o trem chegava ao final da tarde, era sempre a mesma alegria no encontro dos dois. Era como se eles não se vissem há longo tempo e assim, com o calor da amizade, do amor, do carinho e absoluta devoção que havia entre eles, os anos foram se passando, os dois envelhecendo, os netos do professor chegaram e a vida seguiu seu rumo como tinha que ser. Nas horas de folga em finais de semana, os dois corriam pelos parques da redondeza, pelos campos de futebol onde a garotada jogava as peladas todos os dias. A alegria e a vontade de viver sempre fizeram parte da vida dos dois e ela se irradiava, envolvendo a todos os outros componentes da família e de todos os amigos e conhecidos.

Ao longo dos anos Bob nunca falhou em ir receber o professor na estação, mas num certo dia, quando o trem parou e ele foi desembarcar, procurou seu amigo ansiosamente com os olhos, mas foi em vão. Bob não apareceu. O professor perguntou a todos que conhecia se haviam visto seu cão, mas a resposta de todos foi não. Preocupado, ele se apressou para chegar em casa para saber o que tinha acontecido. Chegando lá ele procurou Bob pela casa toda. Perguntou à esposa se sabia do paradeiro do cão, mas ela disse que não. Bob nunca foi de latir, mas de repente, o professor ouviu seu latido vindo dos fundos da casa e com o coração batendo a mil por hora ele correu em sua direção.

Quando chegou perto do quartinho onde Bob ficava quando surgiu em suas vidas, ele percebeu que a porta estava bloqueada com uma infinidade de sacos de cimento que foram entregues naquela tarde e que por descuido dos entregadores não permitiram a saída de Bob de sua prisão. Quando ele conseguiu liberar a porta, Bob pulou em cima dele e o cobriu de lambidas. Quase era possível ouvir as batidas do coração dele de tanta excitação. Bob e o professor eram amigos, mas amigos de verdade e que fariam de tudo para estar ao lado um do outro.

Os anos se passam e certa manhã, quando o professor ia sair para trabalhar, Bob teve uma reação inesperada. Ele se colocou no caminho entre o professor e o portão que dava saída para a rua e começou a latir. Latir nunca foi sua especialidade, mas naquele dia além de latir ele dava voltas em torno de seu corpo na frente do professor, como se quisesse dizer a ele que não deveria ir. Ele compreendeu o que Bob queria dizer, mas disse a ele que estava atrasado e não poderia faltar ao serviço, principalmente naquele dia, pois era dia de prova de seus alunos. Bob não se conformou. Ao saírem para a rua como sempre o faziam em direção à estação, ele tentou fazer seu amigo parar e voltar para casa, mas não conseguiu. Ao chegarem à estação, o trem já estava para partir, o professor correu para subir no vagão e Bob muito nervoso e agitado latiu mais uma vez, como se suplicasse que ele não fosse. Os dois se olharam, o professor sorriu e aquele foi para Bob o mesmo sorriso que ele recebeu dele no dia em que o encontrou e seu coração bateu acelerado quando o trem partiu.

No final da tarde, quando Bob voltou à estação no mesmo horário de sempre para esperar pelo professor, o trem chegou, mas ele não desembarcou. Bob esperou o próximo trem, o próximo e até o ultimo, mas ele não chegou. Triste, com o a rabo entre as pernas, ele caminhou lentamente de volta para casa e quando lá chegou, não havia ninguém. Cansado de esperar e com fome, Bob deitou-se em frente à porta da sala e lá ele adormeceu.

No dia seguinte pela manha, um carro parou em frente à casa do professor e os filhos dele vieram ao encontro de Bob. Feliz por vê-los de novo ele se levantou abanando o rabo, mas ao invés de sorrisos, havia lágrimas escorrendo naqueles rostos onde ele sempre tinha visto sorrisos de alegria e felicidade. Ele não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que algo estava errado, mas fosse o que fosse, teria que ficar para depois, pois quando chegasse o final da tarde, ele estaria fielmente sentado no banco de madeira da estação à espera da volta de seu maior amigo.

O dia se passou, pessoas vestidas de preto entravam e saiam da casa do professor. O movimento e agitação era tão grande que se esqueceram de dar a ele o que comer e beber. Bob não estava preocupado com isto. Tudo que ele queria era estar com seu amigo. O portão estava trancado na hora costumeira de Bob sair para ir à estação. Desesperado por não ter ninguém mais em casa para soltá-lo ele não viu alternativa. Com o passar do tempo muitas coisas mudaram, o muro era alto com um portão de ferro e com pontas de lança em cima dele e se Bob tentasse pular e errasse o pulo, talvez fosse seu fim. Ele já sabia disto, pois tinha visto um ladrão ficar preso lá quando estava tentando fugir ao invadir a casa pela madrugada. Risco? Quem na vida não corre riscos? Porque ele deveria pensar primeiro nele e depois em seu amigo? Decidido, Bob caminhou até o fundo do quintal. De lá, ele calculou a velocidade e altura do pulo para chegar ao lado de fora e começou a correr. A velocidade foi aumentando a cada pisada que ele dava no chão, até que em determinado momento, Bob deu um impulso para cima e para frente e o enorme cão voou por cima do muro, como num filme rodado em slow motion, com sua barriga passando a milímetros das pontas de lança.

O pouso do outro lado não poderia ter sido melhor. Ele caiu em cima de um monte de areia que o professor tinha mandado descarregar em frente ao muro para começar uma reforma nos fundos. Bob mal aterrissou e já disparou a toda velocidade em direção à estação. Estava quase na hora do trem chegar e ele não poderia desapontar seu amigo. Ele não via a hora de ver novamente aquele sorriso que tanto amava. Lamber aquele rosto para ele sempre foi o maior premio de sua vida. O trem tinha acabado de parar na estação quando Bob chegou. Com as orelhas em pé, sentado sobre as patas traseiras no mesmo banco de sempre, ele esperou, mas seu amigo não chegou.

Somente quando o ultimo trem passou foi que ele voltou para casa. Ao chegar lá o portão estava aberto. Ele entrou, foi até a porta, tentou abri-la na esperança de seu amigo estar lá, latiu, mas não houve resposta. No dia seguinte, a esposa do professor parecia muito triste e os filhos dele já não mais estavam lá. Um homem esquisito apareceu, apontando para todos os lados da casa, como se ela fosse dele e Bob não gostou do que sentiu. Uma semana se passou, todos os dias ele ia até a estação esperar seu amigo, mas ele nunca mais voltou. Bob nunca compreendeu, mas nunca iria desistir de rever aquele homem que ele amava tanto.

Num domingo, um caminhão encostou em frente à casa onde moravam e muitos homens começaram a retirar as coisas de dentro dela e foi então que ele compreendeu. Iriam embora dali sem o seu amigo! Isto ele não iria deixar acontecer! Como um raio, Bob saiu correndo pelo portão que estava aberto e foi direto para a estação. Quando lá chegou foi recebido pelo rapaz que vendia pipocas que perguntou a ele o que estava fazendo por lá. Ele ouviu, mas não compreendeu. Era muito cedo ainda, mas ele iria ficar lá até a hora de seu amigo chegar. Ir embora com a esposa dele, não era aquilo que coração dizia a ele para fazer e lá ele ficou, até o ultimo trem passar. De novo ele não chegou, mas Bob não iria desistir. Um dia ele iria voltar e mesmo que isto levasse uma vida inteira, ele iria esperar seu amigo.

Todos os dias, infalivelmente, no mesmo horário, Bob chegava à estação e só ia embora quando passava o ultimo trem. A estas alturas ele dormia embaixo de viadutos para se proteger do frio ou da chuva, mas com alimentação ele nunca teve problemas. Pessoas que conheciam a ele e ao professor, emocionadas faziam questão de alimentá-lo e cuidar para que não faltasse nada para comer. Ninguém compreendia aquela atitude dele. Como um cão poderia ser tão fiel e devotado a ponto de esperar tanto tempo pela volta de seu dono que já havia morrido há quase dez anos atrás.

Certo dia, a esposa do professor voltou ao bairro para matar as saudades. Dez anos tinham se passado desde a morte do professor que teve um ataque repentino de coração e faleceu em sala de aula. Foi por esta razão que ele não voltou, mas Bob não sabia disto e para a surpresa dela, quando passou em frente à estação, lá estava ele. Velho, pelos grisalhos, olhos cansados, mas sentado sobre as patas traseiras no mesmo banco de sempre à espera de seu amigo.

Ela não se conteve. Com lágrimas correndo livremente em seu rosto, ela aproximou-se de Bob, acariciou sua cabeça, ele voltou-se para ela por alguns segundos e novamente olhou na direção de onde viria o trem. Com voz embargada, ele disse a ele que também sentia muita falta do professor e compreendia muito bem a dor da separação. Abraçada a Bob, ela pediu a ele permissão para esperar ao lado dele pelo próximo trem. Ele se virou para ela, como se compreendesse o que ela havia dito, lambeu seu rosto e lado a lado eles ficaram lá à espera do trem.

Passou o primeiro trem, o segundo e como sempre, o ultimo trem passou e o professor não chegou. Bob parecia cansado, exausto e ela também. Ele se levantou e caminhando devagar ele se foi sem olhar para trás. Ela compreendeu e seguiu seu caminho. Ao chegar à casa de seus filhos, soube que durante todos os anos que se passaram, Bob não havia falhado um só dia em estar presente à chegada do trem na estação e que só ia embora para o seu canto quanto o ultimo trem passava. Os netos do professor já estavam grandinhos e todos eles amavam ouvir as estórias sobre Bob e seu avô. Para eles Bob era um exemplo de lealdade, de fidelidade e de amigo.

Mais alguns meses se passaram, até que numa noite de muita chuva no Rio de Janeiro, Bob, mais cansado do que nunca em sua vida, dirigiu-se mais uma vez para a estação. Ele sabia de alguma forma que seu amigo jamais o deixaria. Que um dia ele voltaria para ele e quando isto acontecesse, seria o dia mais feliz de sua vida desde que ele se foi. Aqueles pensamentos deram forças a ele para chegar até o banco na estação e com muita dificuldade, ele conseguiu subir nele e lá ele ficou. Chegou o primeiro trem, mais outro e mais outro, o tempo só estava ficando pior e a chuva estava cada vez mais forte, ventava muito, mas Bob não iria sair de lá até o ultimo trem chegar.

O ultimo trem chegou. Poucos passageiros desceram. Já era de madrugada e com aquele tempo ruim poucos se arriscavam a andar pelas ruas naquelas condições. O professor mais uma vez não chegou. Naquele dia ele não se levantou para ir embora como fazia todos aos dias ao longo dos anos. Seu corpo estava pesado. Ele não tinha forças para se levantar. Um sono enorme foi tomando conta de Bob e ele mal conseguia manter seus olhos abertos. Aos poucos, ele foi cedendo àquele sono que o estava dominando e foi cerrando lentamente seus olhos. Mesmo antes que eles estivessem totalmente fechados, tudo foi escurecendo à sua volta. Ele se lembrou de quando era pequeno, quando o professor o colocou no quartinho dos fundos por ordem de sua esposa e do medo que tinha de ficar só. Lembrou-se da alegria que sentia quando pela manhã seu amigo abria a porta e com um sorriso lindo estampado no rosto fazia com todo seu medo e insegurança se dissipassem como mágica.

Finalmente tudo ficou escuro. Bob não abriu mais os olhos. Aos poucos, uma luz infinita foi surgindo ao longe no meio de toda aquela escuridão. Ela foi se aproximando e iluminando tudo à volta dele e de dentro dela, uma voz se fez ouvir. "Bob! Voltei amigão!” Bob abriu os olhos, mas ele não estava acreditando no que ouviu. Tentando enxergar melhor o que havia no meio daquela luz intensa que brilhava à sua frente, Bob reconheceu o professor. Com aquele mesmo sorriso de sempre, com a mesma voz suave e carinhosa ele havia dito a ele que tinha voltado! Bob não sentia mais cansaço. Não sentia eu corpo pesado. Ele se levantou com a mesma agilidade e vitalidade que tinha quando era jovem e correu em direção à luz onde encontrou finalmente seu amigo.

Os dois se abraçaram como nunca, Bob lambeu o rosto de seu amigo como sempre o fez, com amor, com carinho. Ele recebeu muitos afagos, muitas palavras de amor e amizade. Bob pulava de alegria e o professor sorria observando feliz o seu melhor amigo. Ainda era noite para todas as outras pessoas e animais na cidade, mas para eles não. O sol brilhava nos céus do Rio de Janeiro a primavera havia transformado a cidade num jardim multicolorido sem igual. Despreocupados, os dois saíram correndo pelas praças e pelos parques da cidade, exatamente como faziam antes do professor partir. Agora eles estavam vivendo no paraíso. O que importava para os dois é que eles estavam alegres, livres, leves e soltos, mas o mais importante de tudo e o que Bob sempre desejou do mais fundo de seu coração, eles estavam juntos de novo e, desta vez, para sempre...

Às vezes, vale à pena esperar...

Autor: José Araújo




sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O MISTÉRIO DESVENDADO...



Desde os primórdios dos tempos, no inicio das Eras, o Grande Criador ensinou à Bruxas o conhecimento de todos os segredos do Universo. Elas foram instruídas sobre o que deveriam fazer para completar o circulo das artes, das estações do ano e como se comunicar com o espirito do planeta. Ele o fez porque nós humanos nos esquecemos de tudo que ele tinha nos ensinado quando nos criou.

Elas aprenderam a falar com os espíritos dos mortos, a honrar seus ancestrais e a preparar cuidadosamente e cautelosamente a sucessão das professoras na arte da bruxaria. Ele também ensinou a elas a arte de como focar a mente com força suficiente para lançar um feitiço. No cérebro de cada Bruxa, Ele deixou gravado o mapa que leva aos padrões de todas as energias do sistema solar para que elas possam lançar seus feitiços em qualquer circunstâncias, seja debaixo das estrelas, à luz da Lua, ou sob a Luz do sol escaldante do deserto. O Grande Criador ensinou a elas o segredo dos quatro elementos da natureza, aprenderam a falar com os espíritos do ar, do fogo, da agua e da terra e com isto, elas aprenderam também a se comunicar com o reino animal e vegetal. Com o poder destes conhecimentos, Ele ensinou a elas a magia do tempo e a arte de curar com a energia das plantas e, mais do que tudo, elas aprenderam a proteger a si mesmas e se tornaram mestras na arte de sobreviver. A cada Bruxa foi dado o conhecimento dos ritos da purificação e a habilidade de usar este conhecimento para aperfeiçoar cada nova linhagem de sua própria espécie.

Contudo, Ele criou para elas o Sagrado Quadrado das Bruxas, uma regra composta pela conjugação dos verbos, saber, desejar, atrever e silenciar, porque Ele, tinha plena consciência de que nem todos os seres humanos comuns dariam boas vindas a seres tão especiais e que eram portadores da magia e do amor. Uma vez tendo completado seu projeto na criação das Bruxas, Ele as enviou a todas as culturas existentes no mundo. Em cada canto do planeta, em cada tribo de humanos na Terra, nasceu um ser que carregava consigo a determinação de cumprir a missão lhe fora confiada pelo Divino. Desta maneira, elas passaram a ser conhecidas por muitos nomes, foram chamadas de muitas outras coisas, em muitas raças, em muitas linguas, mas em segredo, no fundo de suas almas, Bruxas elas continuaram a ser. Acima de tudo, de qualquer coisa, elas tinham que levar adiante, geração após geração, a mensagem de que Ele existe.

Mesmo com o incansável, árduo e dedicado trabalho do povo da magia, o perfeito amor e a perfeita crença não acontecem facilmente. Muitas religiões surgiriam entre os homens na face da terra para reverenciar O Grande Criador. Cada qual achava que adorando a Ele da maneira como o faziam, iria trazer a eles todas as forças e riquezas de que precisavam. Desapontado com o comportamento das diversas religiões que surgiam, o Grande Criador abandonou cada uma delas, permitindo que seus seguidores perecessem, morrendo e retornando ao pó de onde vieram e, aos poucos, cada raça ia desaparecendo, sobrando muito poucos para contar a historia. Nações que preferiram se destruir entre sí, matando uns aos outros, deixando muitos dos seus adoecerem espalhando as doenças ruins pelo mundo, fazendo com que o desespero e a tristeza ganhassem a luta contra o amor e a solidariedade. Os homens se esqueceram de que o poder interior de cada um de nós é infinitamente maior do aquele que achamos que temos quando ganhamos uma batalha contra o inimigo.

Que inimigo? Nós mesmos?

Uma raça tão descrente, tão irracional, tão materialista e com a mente cega, incapaz de raciocinar e discernir entre o bem e o mal, não iria acreditar nas Bruxas se elas lhes dissessem que eram do bem e que foram enviadas pelo Grande Criador.

Na verdade, eles não acreditaram.

Eles as queimaram.

Então, com o passar dos séculos, dos milênios, tendo sofrido as injustiças cometidas em grandes tribunais criados pelos homens que se diziam tementes a um ser superior, as Bruxas se transformaram em crianças escondidas, conduzindo seus rituais em segredo para não cair nas mãos assassinas de homens assustados, por não compreenderem o que testemunhavam. Elas temiam se tornar mais uma vez as vitimas dos povos ao redor do planeta e suas respectivas crenças e religiões. Com o passar dos tempos, quando o mundo foi ficando cada vez mais na escuridão causada pelo ódio criado pelos homens, o Gênio do Mal levantou-se de seu sono nas profundezas da terra, cuspindo fogo em forma de lavas de vulcões ha muito adormecidos e que entraram em erupção em cada canto do planeta, cobrindo a terra com uma intensa energia negativa que estava levando a humanidade ao caos, ao dia do julgamento final. Foi então, que o Grande Criador sussurrou no ouvido de cada Bruxa ao redor do planeta, dizendo que elas deveriam se juntar e absorver em seus corpos a energia positiva da luz do luar e a força renovadora dos raios do sol, o que lhes dariam a força que precisavam para vencer o Gênio do Mal.

Assim foi feito.

De cada esconderijo, de cada lugar de onde menos se possa imaginar que estaria se escondendo uma Bruxa, elas foram surgindo. Num ponto da cidade, a Babá carinhosamente colocou o bebe em seu berço, disse a ele algumas palavras, quase que sussurrando em seus ouvidos, pediu à faxineira que cuidasse dele e saiu, uma enfermeira que cuidava de um paciente numa UTI, arrumou cuidadosamente o travesseiro dele, pediu a uma colega de trabalho que se encarregasse de cuidar dele até ela voltar, pegou a bolsa no vestiário, foi até o elevador e apertou o botão de chamada. Mal ela o fez e a porta se abriu. O elevador desceu até o térreo, a porta se abriu, mas dele, não saiu ninguem. O condutor de uma da composições do Metrô ao chegar ao Terminal Corinthians Itaquera, sendo substituido por outro, foi até a escada rolante e desceu. O colega de trabalho que o esperava próximo às catracas, esperou alguns instantes, mas ninguem apareceu. Ele sumiu sem deixar vestigios. Um advogado que estava preparando uma petição para protocolar um prazo fatal no Fórum João Mendes, deixou sua sala, foi até a recepção dizendo que iria tomar um café do outro lado da rua e se foi. Ele não retornou. Uma dona de casa que havia terminado de preparar com carinho o jantar para o marido que logo iria chegar, desligou o fogão, tirou o avental, pegou sua bolsa e saiu.

Quando ele chegou minutos depois, não havia nenhuma pista de onde ela poderia ter ido. Nem ao menos um bilhete ela deixou e se foi. Um professor que estava dando aulas para uma classe de alunos na faixa de sete a nove anos de idade, pediu licença a eles, dizendo que iria até a diretoria e retornava logo, saiu, pediu a uma colega substituta que cuidasse da classe porque não estava se sentindo muito bem e se foi. Ele não voltou. Um mendigo que esquentava seu café em uma fogueira improvisada debaixo de uma ponte, na região do bairro do Carrão, de repente deixou a lata com o liquido precioso no chão, entrou numa brecha no muro de concreto que sustentava a ponte por baixo e desapareceu. Os outros mendigos que lá estavam tentaram encontrá-lo mas foi em vão. Ele sumiu. Do outro lado da cidade, num convento, uma freira fazia suas orações quando de-repente se levantou do banco em que estava sentada na capela, seguiu em direção a uma das colunas, passou por detrás dela, mas não surgiu do outro lado. Em todo o planeta, pessoas de todos os tipos, de todas as classes sociais, de todas as profissões misteriosamente estavam desaparecendo de suas casas, de seus locais de trabalho, dos locais onde costumeiramente eram vistas.

Uma a uma, mulheres, homens e crianças, aos poucos, foram levitando, subindo em direção ao firmamento com o auxilio de seus poderes, e lá no alto, elas foram se unindo, e elas eram tantas, que não demorou muito tinham completado um circulo em volta do planeta juntando suas mãos. O que aconteceu, foi mesmo pura magia. De olhos fechados, com a mente aberta para receber as energias da luz da Lua e do Sol, seu poder foi crescendo, crescendo, e então, chegou o grande momento: Quando seus corpos e mentes estavam totalmente carregadas da mais pura energia divina, um clarão se fez emanar de seus corpos que haviam formado um cinturão em volta da Terra. Gradativamente, ele foi se espalhando por todo o planeta e o mal, que se alimentava da escuridão causada pelos homens com o culto do ódio e da destruição, foi derrotado e retornou às profundezas da terra onde era seu lugar.

Satisfeito com suas mais devotas, fieis e obedientes criações, Ele disse a elas que a Lua e o Sol foram as mais perfeitas ferramentas que ele usou no momento da Grande Criação e que, enquanto eles brilhassem no firmamento, elas poderiam energizar seus corpos e mentes sempre que fosse preciso, caso tivessem que lutar de novo na pior das guerras. A guerra do bem contra o mal. No rosto e no olhar de cada bruxa, o brilho da fé e da crença de que Ele esta acima de tudo era evidente. Desde então, mais do que nunca em toda a historia da humanidade e do aparecimento da Bruxas na face da terra, cada uma delas, bem dentro de seu coração, sabe que enquanto a Lua e o Sol existirem, sempre que olharem para cima, em direção ao firmamento, terão mais do que nunca, a certeza de que o Grande Criador existe e está dentro de cada um de nós. Que não há nada neste mundo, ou em nós, que não seja parte integrante de sua criação.

O ser humano que se diz racional, o mesmo ser que matou na fogueira uma infinidade de seus semelhantes, quando seus próprios crimes eram piores do aquilo de que ele acusava as bruxas, quando se vê diante de algo que ele não pode ou não quer compreender é arrebatado pelo desejo insano de destruir aquilo que lhe é desconhecido. Na verdade, ele teme a descoberta daquilo que ele considera estranho e anormal. Prefere viver entre os padrões que ele mesmo cria, para se sentir em segurança. Se esquece, ou prefere fazer de conta que não sabe do fato de que usamos apenas 10% de nossa capacidade mental e que entre a realidade, a fantasia e a ficção que habitam sua mente, sempre há uma ligação. Se estão lá, é por alguma razão e a resposta para isto, só pode ser dada pelo Grande Criador.

Aqui, o mistério da existência das Bruxas foi desvendado. Não importa o nome que dão a Ele ou a elas por este mundo afora, seja qual for a religião, Ele é um só e esta em todo lugar, Ele é único e é o Grande Criador. Se as Bruxas existem, se elas são do bem ou do mal, não cabe a nós decidirmos esta questão. Elas são obras daquele que nos criou e se Ele as colocou aqui por nossa causa, não cabe a nós questionar.

Se você acredita ou não, a opção é sua. Contudo, preste muita atenção. Em em qualquer lugar, a qualquer momento, uma Bruxa pode estar presente em sua vida de alguma forma sem despertar a menor suspeita.

Lembre-se de que por nossa causa, por nossas atitudes irresponsáveis ao caça-las, torturá-las e queima-las cruelmente, para encobrir nossos próprios erros, elas se tornaram mestras na arte de se esconder para sobreviver.

Se em algum momento, você achar que viu algo de estranho em alguem, um brilho diferente no olhar, um sorriso encantador, ou até mesmo, quando surgido do nada, alguem aparecer na sua vida para te ajudar, não se assuste, não tenha receio, não tome nenhuma atitude negativa contra este alguem pelo fato de que não o conhece e por ter medo de quem ele possa ser. Não cometa o mesmo erro julgando precipitadamente como fizeram nossos antepassados.

Apenas abra seu coração e sua mente. Aceite o bem que ele ou ela esteja querendo fazer a você, afinal, pode ser uma delas, que foi enviada por Ele, no momento em que você estiver prestes a perder a pior de totas as batalhas.

A luta que por vezes travamos em nosso interior, a luta do bem, contra o mal...

Autor: José Araújo

domingo, 6 de dezembro de 2009

A DECISÃO



Final de tarde de uma quarta feira com muita chuva em São Paulo. A cidade havia acordado naquele dia com os noticiários da TV mostrando os alagamentos em vários pontos da capital paulistana. Por consequencia do mau tempo, o aeroporto de Congonhas estava cheio. Muitos voos atrasados, alguns cancelados, outros transferidos para o aeroporto internacional de Guarulhos. As filas no Check-In estavam enormes e as pessoas nervosas no meio de um turbilhão de gente falando ao mesmo tempo.

No meio daquilo tudo estava Daniel. Naquele dia, ele tinha ido buscar seu amigo Gustavo que iria chegar de viagem. Ele estava vindo do Rio de Janeiro para passar alguns dias na casa de Daniel. Gustavo estava de férias e como não se viam há quase um ano, resolveu matar as saudades do amigo. Enquanto esperava a chegada do voo em que ele viria e que nem mesmo tinha previsão da hora de chegada, naquela loucura causada pelo mau tempo, ele resolveu andar um pouco para esticar as pernas. Ele já tinha estado sentado por muito tempo e no meio de tanta gente, quem levantava, perdia o lugar e sendo assim, só se levantou quando estava cansado de ficar sentado.

Andando pelas dependências do aeroporto, ele se distraiu um pouco olhando as vitrinas das lojas, depois foi para a praça de alimentação, tomou um café e assim, o tempo foi passando, mas nada do avião que traria Gustavo pousar. Após algum tempo ele resolveu voltar para a área de desembarque. Ao chegar lá, ele percebeu pelo volume de gente que esperava a chegada de alguém, que depois de mais de uma hora dele ter ido caminhar não havia pousado nenhum avião. Por instantes, ele pensou em ir ao balcão de atendimento da companhia aérea e perguntar se o pouso havia sido transferido para Guarulhos, mas quando ia se dirigir para lá, algumas pessoas começaram a sair pelo portão de desembarque. A saída era lenta e pelo volume de pessoas, era de dois ou mais voos que haviam finalmente pousado.

Naquele lugar, cheio de gente ansiosa e nervosa pelas circunstâncias em que se encontravam devido às chuvas na capital paulistana, num determinado momento, algo inusitado e inesperado aconteceu que mudou sua vida para sempre. Foi uma destas coisas que acontecem sem que a gente espere e que muitos de nós, só tem conhecimento delas por ouvir outras pessoas falarem a respeito. Ele estava lá, em frente ao portão de desembarque, olhando ansioso para ver se enxergava o amigo, quando um homem de meia idade veio andando em sua direção sorrindo e carregando uma pequena mala de viagem.

Por alguns instantes, ele pensou que era alguém que conhecia mas de quem não se lembrava no momento e, quando pensou em retribuir o sorriso, ouviu uma voz de criança gritar: "Papai!"

Um tanto encabulado, Daniel virou-se discretamente na direção de onde veio a voz e viu um garotinho que provavelmente tinha uns cinco anos de idade e ao lado dele, outro garoto de nove anos mais ou menos e também uma jovem senhora que carregava uma linda menininha no colo, que no máximo, deveria ter um ano e meio de idade. Era a família dele, Daniel logo percebeu.

Ao se aproximar de sua família, ele colocou a mala no chão, abaixou-se, abraçou e beijou seu filho mais novo de uma forma tão carinhosa que Daniel se emocionou. Quando se separaram, ele segurou o rosto do menino com as duas mãos e disse a ele que era muito bom vê-lo de novo e que o amava muito. O menino sorriu timidamente e colocando suas mãos nos ombros do pai e disse a ele que o amava também.

O homem se levantou e então, seus olhos encontraram os do garoto mais velho e os dois sorriram um para o outro, de uma forma muito especial. Eram sorrisos de alegria, de felicidade, de carinho e amor. Ao aproximar-se de seu filho maior, eles se abraçaram muito e foi um abraço longo. Daqueles que quando duas pessoas se gostam verdadeiramente, elas não querem que ele se acabe, que dure uma eternidade.

Depois de terminado o momento especial do abraço, o homem passou a mão nos cabelos do garoto e disse a ele que já estava se tornando um homenzinho, que o amava demais e os dois se abraçaram novamente e foi o mais carinhoso abraço que Daniel já tinha presenciado em sua vida. O garoto não disse nada. Não havia necessidade de palavras.

Enquanto aquelas cenas do mais puro amor entre pai e filhos acontecia, a pequenina que estava no colo da mãe estava excitada, sem desviar os olhos do que estava acontecendo e não parava de gesticular seus pequenos braços na direção de seu papai. Quando ele se aproximou delas, com o mais belo sorriso estampado no rosto, ele a chamou de sua menininha e logo foi pegando-a no colo, beijando seu rostinho, enquanto ela procurava com as duas mãozinhas acariciar o rosto de seu papai.

Poucos instantes depois da magia do reencontro entre ela e o pai, a pequenina simplesmente se aconchegou no peito dele, encostou sua cabeça em seus ombros e lá ela ficou. Inerte, apenas aproveitando o inigualável calor do amor de um pai carinhoso e atencioso. Naquele instante, a emoção foi mais forte e Daniel não resistiu a uma lágrima que teimou em rolar de seus olhos. Para ele, aquelas cenas de amor entre família, não era uma coisa comum. Eles eram na expressão da palavra uma família feliz, que se amava muito!

Após um bom tempo, ele entregou sua filhinha ao menino mais velho e disse a ele que havia deixado o melhor por ultimo. Sorrindo carinhosamente, se dirigiu à sua esposa, dizendo que a amava muito e a abraçou e beijou como se fossem rescem casados, ainda em Lua de Mel, mas, certamente não eram. As crianças eram a prova disto. Por um longo tempo, o casal ficou se olhando nos olhos e naquele momento, Daniel pode ver que em seus olhares havia um brilho mais do que especial, o brilho do amor verdadeiro e incondicional. Ele literalmente se arrepiou.

Um tanto confuso, Daniel percebeu o quanto aquela cena de família o havia tocado. Aquela demonstração de amor puro e verdadeiro que acontecia a questão de passos de onde ele estava, em certo momento, o fez sentir-se desconfortável. Era como se ele estivesse invadindo um verdadeiro santuário, ou descobrindo algo realmente sagrado. Sem perceber, ele ouviu sua própria voz perguntando ao homem a quanto tempo eles eram casados.

O homem respondeu que estavam juntos há quinze anos, mas casados, há onze e, ao dizer isto, seu sorriso de contentamento não poderia ser maior enquanto contemplava maravilhado o sorriso doce de sua esposa que o abraçava com amor.

Atônito, Daniel se ouviu perguntando ao homem há quanto tempo ele estava viajando e a resposta... o fez estremecer. Com a maior naturalidade, ele respondeu ainda compartilhando seu sorriso com toda a sua família, que estava fora de casa há treis longos dias.

Mentalmente Daniel exclamou: "Treis dias????"

Verdadeiramente ele estava em estado de choque! Por tudo que ele viu entre os membros daquela família, a tão poucos passos de onde ele estava, ele tinha absoluta certeza de que aquele homem estava longe de casa a semanas. Meses talvez! Exatamente como quando somos pegos de surpresa por alguma coisa inédita e inesperada nos acontece, a expressão do rosto dele o traiu e ele sabia disto. Esperando sair daquela situação embaraçosa, de uma forma gentil e talvez graciosa, Daniel disse ao homem que esperava que quando se casasse, ele e sua esposa fossem ainda tão apaixonados um pelo outro após quinze anos de vida a dois.

Ao ouvi-lo dizer isto, o homem de repente parou de sorrir. Lentamente, ele se aproximou e olhando bem no fundo dos olhos de Daniel, com uma intensidade tão grande que atingiu até mesmo o mais fundo de sua alma, disse algo que o transformou em outra pessoa. Foram poucas palavras, mas de um poder imenso, capaz de mover e remover as montanhas mais altas e os abismos mais profundos, barreiras que muitas vezes criamos em nossas mentes para nos impedir de alcançar nossas metas, nossos sonhos e que nos impedem de sermos felizes.

Ele disse: "Não espere meu amigo... DECIDA!

Numa fração de segundos, aquele sorriso largo e maravilhoso de felicidade retornou aos lábios daquele homem e, apertando fortemente a mão de Daniel, ele disse: "DEUS O ABENÇOE!"

Após dizer isto, ele se virou, acenou mais uma vez e juntos, todos abraçados, ele e sua família se foram rumo ao mundo que ele escolheu para si e para as pessoas que ele mais amava na vida, o mundo da felicidade. Daniel ainda estava observando aquela família feliz se distanciando, quando Gustavo se aproximou dele e perguntou curioso, o que ele estava enxergando ao longe e com aquele ar de curiosidade, tão aparente em seu rosto.

Daniel, sem tirar os olhos do lugar onde eles estavam, sem ao menos perceber que estava falando com seu amigo que havia acabado de chegar, respondeu em voz firme e com uma determinação, que nem ele mesmo sabia que existia dentro de si:

ESTOU ENXERGANDO MEU FUTURO!

Autor: José Araújo