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sexta-feira, 7 de setembro de 2007

MEU CORAÇÃO CONTINUOU BATENDO...


Sempre que ouço a musica tema do filme Titanic,” My heart will go on”, sua imagem toma conta de minha mente e a lembrança de um passado distante me faz viajar no tempo, me faz ir para onde aconteceram os melhores momentos de nossas vidas, são memórias que sobreviveram à passagem dos anos e dos acontecimentos que se sucederam em minha vida e sei que serão perpetuadas em meu coração e as levarei comigo pela eternidade.

Quando estávamos juntos, éramos como duas crianças, corríamos e brincávamos como tal e riamos de tudo que acontecia em nossas vidas, até mesmo quando aconteciam coisas não muito agradáveis, elas deixavam de ter importância, porque nós transformávamos o infortúnio em piadas e o resultado era que geralmente caiamos na gargalhada com as coisas que inventávamos para superar as situações difíceis.

Às vezes estávamos andando pelas calçadas e um de nós tropeçava e o resultado era sempre um só, nossas gargalhadas chamavam a atenção daqueles que passavam por nós e na maioria das vezes, conseguíamos contagiar estas pessoas que se punham a rir conosco, mesmo sem saber exatamente do que estavam rindo, mas o faziam por causa de nossa espontaneidade, de nosso jeito alegre e feliz de viver e a felicidade, assim como a alegria contagia a quem esta à nossa volta nestes momentos de liberdade total de ser e viver.

Um simples passeio no parque para nós era uma verdadeira festa, achávamos sempre algo diferente que a maioria não via, mas nós enxergávamos porque estávamos juntos e éramos como um só.

Era um Ibisco laranja com listras brancas em vez vermelhas, era um cisne branco no lago que tinha a ponta de seu bico na cor preto azulado, nada passava desapercebido por nós, um canto de um sabiá era motivo para pararmos debaixo da arvore onde ele estava pousado e sentarmos lá por um longo tempo, lado a lado como se estivéssemos em transe, não ouvíamos mais nada além do canto do sabiá.

Por outras vezes de manhã rumo ao trabalho, no tumulto do metro de São Paulo, brincávamos de esconder no meio da multidão e quando um de nós achava o outro, fazíamos uma verdadeira e autentica brincadeira de pega-pega e quando alguém pegava o outro nos beijávamos e nos abraçávamos como se não houvessem ninguém na plataforma.

Quantas vezes algumas senhoras de idade ficaram bravas conosco, reclamando de nosso comportamento em público, ou do barulho que a gente fazia com nossas gargalhadas que vinham do fundo de nossas almas, porque éramos felizes e por isto não levávamos em consideração a torcida contra e continuávamos nosso jogo para ganhar.

Me lembro do jeito que você passava as mãos em meu rosto e me dizia que eu parecia um anjo, me beijava a ponta do nariz e sussurrava em meus ouvidos o que queria fazer comigo naquele momento.

Éramos muito felizes, tanto que o tempo parecia não existir para nós, nunca estávamos atrasados para nada, sempre tínhamos tempo para um beijo, um carinho, uma palavra doce que nos acariciava a alma e massageava nossos corações.

Quantas e quantas pessoas achavam que a gente não existia e diziam que éramos de outro planeta, porque ninguém que elas conheciam agia do jeito que nos agíamos, mas era engano deles, éramos muito reais, principalmente um para o outro, desde a primeira vez que nos encontramos.

Nosso primeiro encontro em si já foi uma piada, que nos rendeu boas risadas graças ao nosso espírito, pois se fossem outras pessoas a reação teria sido outra bem diferente.

Eu estava descendo uma escada rolante e você estava à minha frente e eu tinha mania de não segurar no corrimão e naquele dia ela parou de repente e eu desequilibrado, tentei me segurar mas desabei sobre você, por sorte estávamos já no fim da decida e o resultado da queda foi que eu acabei sentado em seu colo e nisto, nos olhamos seriamente por alguns instantes e começamos a rir, sim a rir, mas rir de chorar, eu no seu colo e você me segurando como se segura uma criança colo.

Os seguranças vieram correndo nos ajudar e enquanto eles nos auxiliavam a nos levantar continuávamos rindo e todas as pessoas que haviam parado para ver o que estava acontecendo riam junto conosco, até mesmo os seguranças riram com vontade por causa de nós dois.
São coisas como estas que te enraizaram em meu coração e as lembranças que você deixou, o tempo não apaga, a memória pode até enfraquecer com ele, mas o coração as guardara intactas para sempre, porque nós dois juntos fizemos acontecer conosco tudo que aconteceu e do jeito que aconteceu.

E em pensar que viemos de mundos tão diferentes, de famílias com costumes e educações totalmente diversas, para as pessoas comuns não poderíamos nem sequer ser amigos, pois um não condizia o ambiente de vida do outro, até mesmo o nível social era diferente, mas o que elas não sabiam é que de alguma forma havíamos sido feitos um para o outro e que não importava onde cada um de nós estivesse, um dia, inevitavelmente iríamos nos encontrar e quando isto acontecesse, faríamos o mundo ver e ouvir coisas que a maioria acreditava que não pudesse existir e nós definitivamente o fizemos.

Mas a vida é cheia de surpresas e após anos de alegria de viver e amar livremente, sem preconceitos, sem nos deixarmos ser guiados pelas normas de comportamento da dita sociedade, vivendo nosso amor abertamente, sem dar ouvidos a opiniões contrarias à nossa felicidade a doença veio e você foi partindo lentamente, definhando fisicamente, morrendo aos poucos e me matando aos poucos, até que atravessou a ultima fronteira rumo ao plano superior, mas até em seu ultimo momento de vida nesta terra, você nunca perdeu seu espírito de luz e apesar das dores causadas por sua enfermidade, você sempre conseguia me fazer sorrir, mesmo com o coração sangrando, mas eu o fazia porque você sempre foi irresistível quando o assunto era alto astral.

Quando você partiu eu pensei que partiria junto com você, não podia conceber a vida nesta terra sem sua presença, sua alegria, seu amor, parecia que nada mais tinha importância, que tudo havia perdido aquela cor que só nós enxergávamos quando estávamos juntos.

Tive a impressão de que assim como o seu, meu coração também iria parar de bater naquele momento, mas estava enganado, ele continuou a bater e eu tive que continuar a viver, tive que aprender a superar a dor de sua ausência, tive que caminhar em frente e um dia eu encontrei um novo alguém que me deu amor, carinho, respeito e me valorizou ao máximo me fazendo feliz de uma outra forma, mas amor como o que eu sinto por você, sim, digo sinto porque ainda te amo, não vai acontecer de novo, porque eu nunca deixei nem vou deixar de te amar e sei que muitas pessoas jamais vivenciarão a felicidade que vivemos juntos, porque infelizmente se deixam levar pelas convenções sociais, que as impedem de serem elas mesmas.

Você se foi, mas meu coração continuou batendo em ritmo compassado, devagar e sempre, carregando nele...


Você!


Às vezes a gente perde a presença física da pessoa a quem amamos, porque ela parte para outro plano, mas a vida ganha um novo sentido, porque compreendemos e que a morte não é o fim de nossas lembranças aqui na terra, que só depende de nós, sermos lembrados, ou não, quando tambem tivermos atravessado a ponte, no final de nossa jornada por este plano astral.

Autor: Jose Araujo

UM AMIGO, UM AMANTE, UMA PAIXÃO...




Acabei de acordar e não sei porque não consigo me lembrar em que dia da semana estamos, nem mesmo tenho noção de que horas são, mas uma irresistível vontade de sorrir toma conta de mim.
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Afasto as cobertas, desço da cama devagar para não fazer nenhum movimento brusco ou barulho para deixar minha esposa dormir em paz, afinal para ela nunca é dia de folga, trabalha 365 dias por ano sem direito a férias, folgas ou licença premio, ela merece pelo menos dormir em paz e descansar.
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Saio do quarto e sigo pelo corredor até o banheiro e pelo caminho vou me espreguiçando deliciosamente para alongar os músculos e relaxar enquanto que ao mesmo tempo uma musica toca em minha mente, clara, nítida e inconscientemente, começo a canta-la e uma paz que parece preencher minha alma e traz a lembrança de você meu amigo.
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Chego em frente ao espelho, estou ainda com a cara meio amassada mas sorrio para mim mesmo lembrando de você, sentindo sua falta, lembrando de tudo que aconteceu entre nós, dos momentos felizes que vivemos juntos, de todas as aventuras em que nos metemos e da forma como nos safamos de muitas encrencas que surgiram em nosso caminho.
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Não me sinto triste, olho meu cabelo pelo espelho enquanto escovo os dentes e ele esta todo arrepiado, parece que sou um adolescente me aprontando para sair com os amigos, não consigo deixar de rir de mim mesmo, que figura logo cedo!
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Faço meu gargarejo matinal e o som é algo diferente hoje, é como quando estávamos juntos, como quando compartilhávamos de tudo de todos os momentos, até os mais íntimos como este, estou com saudades mesmo, penso comigo.
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Preparo meu creme de barbear e nele vejo as espumas que nos envolviam enquanto tomávamos banho juntos, lembro de como eu ensaboava você com todo carinho em cada cantinho, até aqueles mais escondidinhos lembra?
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Faço minha barba e enquanto a lamina desliza pelo meu rosto, vejo pelo espelho não só meu reflexo, mas o seu também meu amigo e te vejo exatamente como você era, seu olhos me olhando com aquele carinho e amor que você sempre fez questão de demonstrar por mim.
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Lembro das noites escuras em que você me levava pelas ruas encontrando com a luz de seu olhar o caminho seguro para chegar ao nosso destino, sempre me assegurando que ao seu lado eu estaria sempre seguro, que você me protegeria das intempéries e dificuldades que se colocassem em nossa frente.
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Ah, meu amigo ! Como você me fez feliz, como vivemos uma vida a dois em perfeita comunhão de sentimentos, com tanta afinidade, com tanta compreensão, com tanto amor!
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Como era bom meu querido amigo, como era gratificante saber que onde eu precisasse você estaria me esperando, com aquele seu aconchego característico me assegurando que você era só meu, que eu poderia contar com você para qualquer ocasião.
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Termino de fazer a barba e vou para o chuveiro, a água esta morna e deliciosa, espalho o sabonete liquido pelo meu corpo, esfrego cuidadosamente cada cantinho, sentindo a esponja em minha pele imagino como você se sentia quando meu fazia a mesma coisa em seu corpo, quais eram suas sensações físicas quando minhas mãos deslizavam sobre seu corpo, espalhando o sabonete liquido, me preocupando em não deixar nenhum espaço onde eu não tivesse tocado para espalhar o liquido.
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Fiquei excitado lembrando de quando saiamos para namorar juntos e quantas vezes transamos a três meu querido, do êxtase a que chagávamos os três ao mesmo tempo quando fazíamos amor daquela forma como só nós três sabíamos como fazer.
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Fecho o registro do chuveiro, pego a toalha, começo a me enxugar enquanto imagino que você amigo, sabe muito bem o quanto você foi importante em minha vida e eu na sua, por tudo que vivemos juntos, pelo quanto crescemos e amadurecemos juntos, pelo quanto nos amamos, você era meu eu era seu e tenho certeza de que nunca nenhum de nós dois duvidou disto.
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Saio do banheiro e volto para o quarto, preciso me trocar, abro o guarda-roupas e não sei o que usar, lembro de quando você influenciava minha decisão de como me vestir para sair, sorrio para mim mesmo, lembro olhando a imagem do meu corpo nu pelo espelho, vejo as marcas do tempo, penso em você meu querido, como gostaria de voltar a trás, numa viagem mágica pelo tempo e poder estar com você novamente.
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Pego um óleo na penteadeira e começo a passar pelo meu corpo, sinto tua presença no ar como se você estivesse ali, me observando e esperando que passasse algo em sua pele para que ficasse protegida do calor do sol que faz lá fora, exatamente com eu fazia quando vivíamos juntos, com prazer, com amor, com paixão.
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Como fomos felizes, como nos doamos um ao outro no período em que ficamos juntos!
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Pego uma camisa branca do jeito que eu gosto, com mangas curtas e bem larga, uma calça jeans, uma cueca branca do tipo boxer e um par de meias brancas, coloco sobre a cadeira e fico imaginando, quanta diferença!
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Em nosso tempo juntos, eu vivia com roupas multi-coloridas, cabelão comprido, sandálias de couro e muitos adereços pelo corpo e cada vez que eu me olhava no reflexo dos seus olhos eu tinha mais certeza de que um dia eu faria a diferença neste mundo porque você sempre estaria ao meu lado, me apoiando em todas as minhas atitudes, me encorajando como sempre a seguir adiante, ultrapassando todas as barreiras que surgissem.
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Acabo de me vestir, estou feliz, sinto você comigo, no meu peito meu amigo, no meu coração, em minha alma, sorrio de novo para mim mesmo, aprovando o que vejo na imagem refletida no espelho, sabendo do que o que sou hoje devo muito a você, ao nosso relacionamento.
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Pego minha bolsa tira colo, coloco no ombro, olho minha esposa dormindo, me lembro que preciso ir trabalhar, que é segunda feira, que muita responsabilidade me aguarda, mas eu continuo sorrindo, continuo feliz, pois estamos juntos meu amigo, mesmo que não seja fisicamente, mas sempre juntos, pela alma, pelo coração.
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Dou um beijo nela sem acorda-la, saio do quarto sigo para a porta de saída para o estacionamento e por um breve instante tenho esperança de te encontrar na saída me esperando como sempre fazia, pronto para me levar a qualquer lugar.
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Pego as chaves, abro o portão, você não esta lá, em seu lugar um sujeito muito metido, arrogante, com cara de gringo, que me olha com desdém, como se quisesse dizer que não sou bom o suficiente para ele, que só me suporta porque não tem outra opção, o sentimento é recíproco , saímos para a rua calados, seguimos pelo caminho para o trabalho no meio de tantos e tantos outros na mesma condição, suportando uns aos outros por não ter opção, de repente vejo você meu amigo em meio a um transito infernal, calmo tranquilo, esperando que tudo volte ao normal para seguir caminho, meu coração salta, minha alma canta, você ainda existe e esta vivo!
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Talvez por isto eu tenha acordado hoje, meio fora de mim, sem saber nada sobre minha localização no tempo, meio avoado, mas com uma vontade imensa de sorrir de viver a vida, talvez porque bem lá dentro de meu coração eu soubesse que iria de te ver novamente.
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Você não envelheceu meu amigo, o cara com quem você vive hoje, cuida de você exatamente como eu cuidava, você parece ter parado no tempo, o mesmo jeitão simples e despojado, o mesmo ar doce e meigo, aquele mesmo sujeito por quem um dia me apaixonei e por quem eu fiz tantas loucuras por amor!
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Ainda te amo meu amigo FUSCA, sempre vou te amar!
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Autor: José Araújo




quarta-feira, 5 de setembro de 2007

ENIGMAS DO AMOR...


Hoje há algo estranho dentro de mim, sinto como se faltasse algo que me é necessário já faz muito tempo, mas só agora me dei conta disto e não consigo descobrir exatamente o que vem a ser.

São 09:00s da manhã, acabei de me levantar, tomei um banho, preparei um Iogurte batido com morangos e ao invés de sentar me à mesa para o café da manhã, resolvi ir para a varanda sentar na cadeira de madeira e ficar olhando o mar, apreciando o movimento das ondas e a linha do horizonte, perfeitamente nítida entre o verde das águas do mar e o azul de um céu totalmente limpo e iluminado pelo sol que aquece as areias da praia, fazendo com que seus raios as façam parecer um imenso tapete branco ao longo de toda sua extensão.

É definitivamente uma visão paradisíaca, não há nada no momento com que eu tenha que me preocupar, não há compromissos a cumprir, nada com que eu possa me estressar, mas sentado ali, vendo toda esta beleza ao som das gaivotas, o sentimento de que me falta alguma coisa é insistente e isto definitivamente me incomoda.

Decido não pensar mais nisto, procuro concentrar minha atenção no que esta à minha volta, no que acontece ao longo da praia e de repente sinto um cheiro familiar, mas incomum para uma varanda de casa de praia, onde o cheiro deveria prevalecer seria o do mar tomando conta de nossos sentidos, mas não, o cheiro que parece entrar em minha alma é o de Orégano, exótico, delicioso, envolvente, que parece querer tirar minha atenção do ambiente ao meu redor.

Assim como ele veio, ele se foi e volto a sentir o cheiro da brisa marinha que me faz bem, me acalma profundamente, me faz sentir novamente parte da natureza, do meio ambiente, em comunhão com o cosmos, parte integrante do universo, mas o sentimento de que me falta algo, ainda me incomoda.

Olho para um determinado ponto da praia e vejo que um jovem casal montou uma barraca e estão tomando banho no mar, alegres e sorridentes, entre beijos e abraços, numa alegria que de alguma forma mexe comigo.

Após algum tempo dentro da água, eles resolvem sair e dirigem-se para a barraca, abraçados e de repente o rapaz pega a moça no colo e a leva para dentro da barraca, fechando o zíper assim que entram nela.

Esta cena me toca e sinto uma curiosidade imensa de ver o que acontece lá dentro toma conta de mim, mas tento não pensar nisto, para não lembrar que já faz muito tempo que não sinto o calor de um corpo colado ao meu, que não tenho tido a chance de amar alguém, que já quase esqueci o que significa, querer desesperadamente fazer amor com alguém, sentindo a cada toque um arrepio e entre gemidos de prazer, sentir o coração bater mais rápido, me fazendo perder o fôlego de tanto desejo.

É claro que sei exatamente o que estão fazendo lá dentro penso comigo e tento apagar estes pensamentos de minha mente, mas de repente, mais uma vez sinto o cheiro envolvente de Orégano no ar, penso até que estou ficando maluco, perdendo o senso ou coisa parecida, mas gosto do cheiro que toma conta de meu ser, que insiste em se fazer presente sem ter a menor condição de ser real, pois não tenho nada em casa com esta erva e não há nenhum pé de Orégano a quilômetros de distancia.

Já como que enfeitiçado pelo aroma, me entrego a apreciar o cheiro forte mas extremamente agradável de Orégano e fechando os olhos recosto minha cabeça na cadeira e me deixo ser levado pelas ondas da imaginação.

Como que por encanto, imagens vão surgindo em minha memória e as lembranças vão retornado, trazendo você de volta do passado e com você também seu sorriso, sua força de atração e sensualidade, sua alegria de viver, seu poder de decidir o que você realmente queria da vida, as coisas que queria ter e sempre conseguia com sua auto confiança a toda prova, tanto que me fiz de difícil no começo, mas você me ganhou e me deu todo o amor e carinho que sempre sonhei, proporcionando-me pelo tempo que vivemos juntos os melhores momentos de minha vida, você me amou como ninguém jamais o fez e provavelmente nunca o fará, de uma forma que me fazia entrar em erupção a sentir de sua parte um simples olhar, um olhar que me fazia queimar em vida, me fazia entrar em ebulição, sentimentos e anseios que só eram saciados quando nos entregávamos um ao outro de corpo e alma.

Então, junto com as imagens e lembranças de momentos especiais lá estava também o cheiro inconfundível de Orégano, aquele condimento que você usava quando decidia que ia fazer algo para a gente comer e quando me dava por conta, você já estava com a bandeja na cama com algo delicioso, preparado por você com todo carinho e com toda a sua arte culinária que você herdou de seus antepassados Italianos e mal acabávamos de comer, fazíamos amor, envoltos no cheiro de Orégano, que se misturava com o cheiro de amor que emanava de nossos corpos e transcendia o ambiente, fazendo parte de nós mesmos.

Momentos muito especiais que estavam adormecidos em minha mente voltaram com a força de um vulcão e as lavas da paixão e desejo me fazem vibrar, abro meus olhos lentamente, procuro na orla uma minúscula possibilidade de não estar sonhando, de você estar ainda em minha vida, ao meu lado, de estar me fazendo sentir que vale a pena viver.

Porém pouca mudança houve em tudo ao meu redor enquanto estava de olhos fechados, o sol subiu mais um pouco, o calor aumentou, há mais pessoas ao longo da praia o que fez com que o casal da barraca fosse embora, deixando para trás um turbilhão de vozes e risos e gritos de alegria das crianças que brincam na areia, indo procurar um lugar mais discreto para ficarem juntos, de um jeito que eu sei muito bem como eles gostariam de estar.

Algumas gaivotas sobrevoam a praia já cheia de gente e não se atrevem a pousar, mas não desistem de fazer suas revoadas periódicas, quase como se estivessem querendo dizer a todos que a praia é delas que os serem humanos não passam de intrusos.

Insisto na procura, mas não vejo sequer traços de sua presença, de suas coisas, de tudo que representava você, nada, absolutamente nada e agora mais do que nunca, sei exatamente o que é aquele sentimento de falta que tem me incomodado a tempos, agora sei o porque do vazio que sempre pareceu estar em meu coração, da minha incapacidade de preenche-lo, para acabar com este meu mal estar constante e mais do que tudo agora entendo o porque do cheiro persistente de Orégano no ar.

Tudo muda na vida, tudo passa com o tempo, mas existem algumas coisas que nos acompanham pela eternidade, coisas que se enraízam em nossas almas e que se tornam pontos de referencia para nossos mais íntimos anseios e desejos, assim, mesmo que saibamos que muitas coisas não voltam, que não podem ser reprisadas em nossas vidas as guardamos lá, bem no fundinho de nossos corações, na esperança de sermos felizes novamente.

Levanto-me da cadeira, resolvo que preciso me exercitar, que preciso mudar meu rumo, que a vida continua e que preciso seguir em frente, continuar minha caminhada e vou andar ao longo da praia, mas no meu caminho, por ironia do destino, um novo olhar se esbarra com o meu e não sei porque, instantaneamente sinto aquele cheiro de novo, o cheiro de Orégano no ar...

Autor: Jose Araujo

ESPERANDO POR VOCÊ...


Hoje me deparei comigo mesmo a indagar de quem foi a culpa de eu te amar tanto assim, quem ou o que, teria sido responsável por uma paixão assim como a que sinto por você meu amor.

Sigo à procura através de inúmeras hipóteses, mas a cada segundo que passa torna-se mais difícil encontrar a resposta.

Teria sido por culpa da Primavera que enche os campos de flores, transformando tudo num mundo de cores e perfumes, fazendo com que os animais façam dela a estação do amor?

Seria por acaso culpa da brisa que afaga os galhos das arvores, acariciando as folhas num suave vai e vem, num movimento mágico que nos leva a meditar sobre tudo que nos rodeia e a profundidade de nossa existência?

Não sei dizer, porem chego a crer que o culpado foi o Verão que aquece a tudo e a todos com a ajuda do astro rei, fazendo com que até mesmo os corações mais duros se emocionem com o sol, que irradia sua luz e calor, fazendo possível a vida em nosso planeta, um lugar carente de carinho, amor, amizade, compreensão e afeto e quando o Verão o aquece, a vida acontece, nas praias, nos campos, onde quer que ele se faça presente e mesmo atuando de formas diferentes dependendo do lugar onde ele alcance, ele é efetivo na preservação da vida, do amor, da luz.

Ou quem sabe o culpado seria o Outono que com seus ventos mais fortes carrega consigo as folhas mortas que caem dos galhos da arvores e são levadas para longe, para lugares onde possam servir de alimento para a terra, num ciclo eterno de renovação através da morte, permitindo que o milagre da vida possa continuar a existir e que dele possamos sempre fazer parte não é mesmo ?

Talvez não, talvez o culpado tenha sido o inverno que cobre os campos e lagos com uma névoa fina, fazendo com que o ar fique frio, que as plantas se retraiam temporariamente neste período, dificultando a alimentação de muitos animais, mas fazendo com que as aves façam anualmente uma viagem, para bem longe, para lugares onde possam encontrar alimentos, calor, que possam fazer amor, procriando e preservando suas espécies instintivamente, mas com prazer e alegria de estarem vivos.

É difícil dizer de quem efetivamente foi a culpa, mas ainda cogito em outros suspeitos e ainda há muita razão para desconfiar de outros que possam ser culpados.

Teria então sido por causa da Lua, que em noites claras ilumina os campos fazendo com que pareçam estar cobertos por uma chuva de prata, trazendo com sua luz a ternura e o amor para os momentos mais intimos dos namorados?

De certa forma, chego a pensar também que foi por culpa das sombras das arvores que dão abrigo àqueles que caminham longas distancias e precisam de um lugar fresco para descansar, um lugar onde possam dormir ouvindo os pássaros cantarem e os grilos emitindo seus sons que nos trazem paz e meditação, porque não ?

É realmente engraçado como fico confuso para encontrar esta explicação que tanto procuro, pois, quando vejo o movimento das ondas beijando eternamente as areias das praias, num vai e vem que lembra os movimentos do amor, não consigo deixar de pensar que elas possam ter sido as culpadas por eu te amar tanto assim.

Contudo, no meio de tantas conjecturas, em meio a tantas duvidas e suspeitos, ao ver uma tarde ensolarada de primavera, onde o sol brilha suavemente, cobrindo tudo com sua luz e seu calor ameno, tendo como plano de fundo um céu de extremo azul, com uma bandeira nacional, tremulando no alto, ao compasso de uma brisa suave, como aconteceu no dia em que nos encontramos pela primeira, perecendo estar comemorando nosso encontro, aí sim, quase chego ao final de minha procura, de minha busca do culpado pelo meu amor por você, mas ainda não, ainda não sei com certeza se esta seria a verdadeira razão.

Lembro de seus beijos, seus abraços, seus toques que me levam à loucura, do calor de teu corpo junto ao meu, da maneira que você me olha nos olhos quando estou sobre você em nossos momentos de amor, de como nos encaixamos, como nos completamos em todos os sentidos, fazendo com que nossos lados racionais e emocionais percam a razão de existir, fazendo com que todas as regras criadas pela sociedade já não mais sejam um peso que paira sobre nossas cabeças, pois em nosso momento de amor, só o que nos importa é amar, simplesmente, naturalmente como estava escrito em algum lugar que assim deveria ser e nestas lembranças de nós dois juntos perco a noção da procura, dos suspeitos por terem me levado a te amar tanto assim, porque nestes momentos de recordação, sinto em mim uma imensa falta de ar, sim, porque estou longe de você e eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia.

Já cansado de tanto procurar, de tanto indagar pelo culpado ou responsável por tudo isto que esta acontecendo conosco, pelo amor intenso e profundo que sinto por você, pela ternura e carinho infinitos que você me desperta, Deus em sua eterna sabedoria, me diz, lá no fundo do meu coração, que a resposta é, pura e simplesmente, porque a natureza, assim como eu, estava o tempo todo esperando por você...

Te amo, simplesmente, naturalmente e ponto final.


Autor: Jose Araujo

O SOM DO SILÊNCIO...


O silêncio tem um poder enorme sobre nós, porém poucos, tem consciência desta realidade, talvez mesmo, durante uma existência inteira, algumas pessoas não aprendam o que o silêncio pode fazer com o futuro e talvez até com uma vida toda .
Apesar do nome, o silêncio não é mudo, muito pelo contrário ele fala, sim ele fala, através de sentimentos e sensações e pode fazer muito mais barulho do que todos os sons da natureza poderiam fazer juntos.


Ele tem varias facetas, age de formas diferentes, em locais diferentes, em situações das mais diversas, influindo constantemente no comportamento do ser humano, fazendo com que coisas ruins aconteçam, mas também fazendo com que coisas maravilhosas, somente sonhadas, se tornem realidade.

Podemos passar muito tempo, listando tudo que pode vir junto com o silêncio, quando ele aparece ou quando o chamamos, assim vou falar de algumas situações onde o silêncio impera, citando apenas alguns exemplos do poder que tem o som do silêncio.

O relacionamento de duas pessoas que vivem uma vida em comum pode ser destruído, se entre eles não houver diálogo, se os dois não conversarem bastante, para que os dois ouçam as opiniões um do outro, para que um possa saber o que se passa no coração do outro, para que possam conhecer causas, para que possam discutir questões, chegar a um consenso, claro, sempre respeitando o direito do parceiro de opinar ou se manifestar sobre qualquer assunto, não importando qual seja ele.

Se no silêncio imperar neste caso, toda uma vida a dois pode terminar em um instante, ou pior e mais comum, pode terminar lenta e dolorosamente e tristemente, aos poucos, desgastando-se, dia a pós dia, até chegar a um fim muito triste e ainda acontece de muitos levarem uma vida inteira, para descobrir quando já é tarde demais que tudo acabou.

O silêncio é tão complexo e tão versátil que por outro lado, que num relacionamento, se o silêncio imperar em determinados momentos, ele pode proporcionar momentos lindos numa vida a dois, pois ele pode expressar e significar muito amor, muita paz, muita compreensão se os dois estiverem realmente amando um ao outro.

Quando duas pessoas apaixonadas se abraçam ou se beijam, não há nada melhor do que o silêncio entre um olhar e outro, entre um toque de pele e uma sensação de vazio no estomago e a cumplicidade pode ser tamanha que silencia até mesmo o próprio silêncio.

Quando almas gêmeas se encontram, em muitas situações o silêncio tem seu lugar garantido, pois não há necessidade de usar palavras para se dizer o que se sente, pois o próprio corpo fala por elas, com voz do silêncio imperando entre os sentidos.

O silêncio também, pode trazer muita tristeza, muita dor no coração dos apaixonados, casais de namorados, amantes, daqueles que vivem uma vida a dois, no momento em que um espera ouvir do outro que se é amado e isto não acontece, fazendo com que se guardem mágoas, que podem perdurar por muito tempo, até mesmo durante toda a vida, toda uma existência.

Ele pode também fazer sofrer alguém que precisa ouvir uma palavra de amor, uma palavra amiga, uma palavra de compreensão, um conselho, ou mesmo uma simples opinião, mas nunca tem do parceiro a atenção que necessita e geralmente isto acontece nos momentos em que mais precisamos.

O silêncio tem poder de matar, pois quando um ser humano é preso em cárcere fechado, sem esperança de contato com outras pessoas, sem som, esta pessoa chega à insanidade, quebrando o silêncio para falar consigo mesma ou com pessoas imaginárias, esquecendo o significado da palavra razão.

Ele tem o poder da vida e da morte, como quando alguém esta com uma crise de enxaqueca, que precisa ficar em silêncio profundo para se acalmar e relaxar, para que a dor insuportável ceda lentamente, assim como quando as pessoas que precisam fazer terapia do sono, para se tratar de distúrbios mais complicados de origem psicológica, tendo que usar o subterfúgio do estado de sonolência profunda, em silêncio total, para se recuperar dos males causados muitas vezes até mesmo pelo próprio silêncio de si próprio ou de alguém que se ama.

O silêncio tem um poder enorme sobre nós humanos e pode trazer muita paz, muito auto conhecimento, quando em uma meditação se fica é ausente qualquer som artificial, apenas ouvindo o som silencioso da natureza, que fala através de movimentos, de sensações, de estímulos, chegando mesmo a ser possível se quebrar este silêncio para ouvir a voz do próprio coração, libertando o espírito do corpo material elevando-o aos céus, em busca de seu desenvolvimento, em busca de absorver as energias do universo.

Ele pode significar muitas coisas em nossas vidas, assim como amor, carinho, respeito, compreensão, ódio, raiva, indiferença, inveja, traição entre muitos outros sentimentos que nos afetam de modo geral e assim como ele poder nos fazer querer vivem intensamente ele pode nos fazer querer deixar de viver por falta de motivação emocional.

De qualquer forma, não poderíamos viver sem o silêncio, mas também com certeza poderíamos viver com a presença constante dele em nossas vidas.

Particularmente, a forma de silêncio que eu mais detesto que mais me maltrata e me aniquila, é precisar falar, expor meus sentimentos e pensamentos e não ouvir uma palavra como resposta aos meus apelos emocionais e sentimentais, recebendo apenas o silêncio em troca, fazendo com que eu me sinta ignorado, incompreendido e não amado.

O silêncio, tem muitas formas, muitos sons, muitas cores, mas ele é sem duvida nenhuma, aquele que mais tem influência sobre nós todos, em todos os campos de nossas vidas, só nos resta aprender a forma correta de se usar esta poderosa ferramenta de comunicação que Deus nos deu, compreendendo que com ele podemos dar vida ao nosso semelhante, mas também podemos ceifar-lhes esta mesma vida, se o usarmos de forma errada.

Entre todos os nossos sentidos, não há nada mais forte e poderoso do que o som do silêncio e antes que eu cometa algum erro ficando em silencio no momento em que você mais precisa me ouvir, causando em seu ser, em sua alma, uma overdose de sofrimentos e distúrbios provocados pelo barulho insuportável do meu silêncio, quero te dizer que tanto em silêncio absoluto de palavras, como em tudo que meu olhar lhe diz em alto e bom som quando estamos juntos, que meu corpo estará sempre gritando com a voz eloqüente e avassaladora do silêncio, que eu te amo, de verdade, com toda a força de meu ser e que só quero viver e respirar você...


Autor: Jose Araujo

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

AS MARGARIDAS...



“Elas já abriram?” Perguntava minha tia, cheia de esperanças à minha mãe.
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“Ainda não Biluca.” Respondia ela, com toda a paciência deste mundo, como se ela estivesse falando comigo, quando eu era bem pequeno.
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Pela posição dela na cabeceira da cama de minha Tia, eu podia ver seu sorriso silencioso, enquanto ela continuava a tricotar e eu sabia que ela estava sorrindo por causa da pergunta que Tia Biluca havia feito, pois era uma pergunta muito comum de se ouvir dela naquela época do ano.
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Nas ultimas semanas de sua doença, minha Tia continuava a viver para ver florir as margaridas de seu canteiro no quintal dos fundos da casa dela.
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Às vezes eu ainda penso que a única razão por ela não ter sucumbido mais cedo ao câncer que a levou deste mundo, foi para poder ver pela ultima vez as margaridas que ela tanto adorava abertas em flor.
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Eu não compreendia o porque daquela paixão pelas margaridas de seu quintal, pois havia outras flores que de longe eram muito mais belas que as margaridas.
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Eu sentia uma vontade enorme de saber porque ela era tão apegada a elas, mas a presença dos adultos me inibia, eu tinha receio de me repreenderem por perguntar, mas eu sentia que precisava saber assim que tivesse chance de ficar a sós com ela.
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Eu achava que aquela coisa que ela sentia pelas margaridas, era muito parecido com coisas que criancinhas sentem pelos seus brinquedos, ao mesmo tempo diferente, mas ainda assim algo infantil, era para mim difícil explicar e me fazia refletir a respeito e eu cheguei à conclusão de que todos nós chegamos a este mundo como crianças e partimos dele do mesmo jeito.
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Um dia, numa visita à casa dela, enquanto minha mãe foi até a cozinha buscar chá para Tia Biluca, eu aproveitei para perguntar sobre as margaridas, ela parecia tão fraca que eu me arrependi de perguntar, pois responder poderia ser um esforço grande demais para ela.
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Mas ao ouvir minha pergunta, seu rosto se iluminou e ela respirou fundo e lentamente começou a falar, com um voz quase inaudível, tanto que tive que me aproximar o mais que pude para ouvir.
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Zezinho, meu sobrinho querido, quando eu e seu Tio Oswaldo nos casamos, nesta mesma época do ano, as margaridas estavam em flor e eu as usei em meus cabelos na cerimônia de nosso casamento, seu Tio as adorava e todos os anos a gente as plantava em nosso quintal do fundos e por algum milagre ou misterioso capricho da natureza, elas sempre floresciam na data do aniversário de nosso casamento.
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Depois que seu tio faleceu eu senti terrivelmente sua falta e tudo que me sobrou foram as margaridas que ele tanto amava e quando elas se abriam, eu me sentia mais perto dele novamente e isto me acalmava a dor no coração e preenchia um pouco do vazio na alma que ele me deixou com sua partida.
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As margaridas me salvaram a vida varias vezes nestes anos todos, pois na época de nosso aniversário de casamento eu queria morrer para ir para o céu ficar juntinho dele.
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E então ela terminou de me contar sua historia, lentamente fechou seus olhos e calmamente entrou em sono profundo e eu não me atrevi a falar mais nada, mas dentro de meu coração eu estava extasiado com sua historia de amor pelo meu tio e o papel que as margaridas tiveram na vida dos dois.
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Fomos embora deixando Tia Biluca aos cuidados de suas filhas mais velhas e quando voltamos no dia seguinte, ela já não tinha mais forças para falar, não mais podia receber outras visitas a não ser minha mãe que era sua irmã mais nova e a sua preferida.
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Lembro-me, de que minha mãe precisava de alguém para desabafar e como não tinha esta chance com meu pai, ela desabafou comigo e tenho certeza de que se sua dor não fosse tão grande pelo que acontecia com minha tia, ela jamais teria me exposto a tal sofrimento, contando-me o que realmente ocorria com a saúde de tia Biluca.
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Ela me disse que muitas vezes ela havia desejado que minha tia tivesse se deixado ir para não vê-la sofrer mais com tanta dor, e era tanto sofrimento e que muitas vezes ela queria chorar, mas não o fazia pelo meu bem, para que eu não sofresse por antecipação.
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Enquanto eu esperava minha mãe sair do quarto de tia Biluca, eu podia imagina-la sentada à cabeceira de sua cama, segurando sua mão com carinho, como se a encorajando a não lutar mais e partir e aquilo me dava um aperto no coração.
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Para me distrair, comecei a mexer nos livros da estante e achei um álbum antigo de fotografias, comecei a folhear as páginas e logo percebi que era o álbum de casamento de Tia Biluca com Tio Oswaldo e a data impressa em ouro na capa dele dizia, 26 de março de 1954, a data do meu nascimento.
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Eu estava encantado com as fotos, eu reconheci tia Biluca instantaneamente, linda, jovem, encantadora, com um sorriso que parecia iluminar o sol e em seus cabelos, as margaridas que a faziam parecer um anjo, toda vestida de branco, com as flores na cabeça e então eu pude perceber pela primeira vez na minha vida a verdadeira beleza das pequenas margaridas.
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Depois de algum tempo fomos embora e na manhã seguinte, quando o telefone tocou e minha mãe foi atender, de alguma forma eu sabia, minha tia tinha partido, dia 26 de março, na data de aniversário de seu casamento e quando mamãe confirmou o que eu já sabia, nos arrumamos e fomos para a casa de minha tia, onde todos os seus filhos e amigos já estavam reunidos para se despedirem dela pela ultima vez.
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Quando lá chegamos, minha mãe abriu o portão da frente, entramos e eu corri para o quintal dos fundos e a imagem das margaridas em flor foram embaçadas pelas minhas lágrimas, pois elas haviam florido da noite para o dia e eu fiquei muito triste porque este ano, na data do aniversário de seu casamento, ela não conseguiu ver as margaridas em flor, mas meu coração, com toda a força de seus sentimentos, me disse que a despeito de minha tristeza, eu deveria sorrir, porque este ano, dia 26 de março, data de aniversário de seu casamento, eles estavam celebrando juntos lá no céu, vendo lá de cima, cá embaixo na terra, as margaridas em flor.
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A natureza nos dá sinais claros de que todos nós fazemos parte de um todo, que todas as nossas ações e sentimentos, são percebidas e captadas por ela e que sua reação para conosco, depende de nossas ações e pensamentos em relação a ela, cabe a nós refletirmos e abrir tanto nossos ouvidos para ouvi-la, quanto nossos olhos, para verdadeiramente enxergar seus sinais, que estão o tempo todo à nossa frente, nos dizendo que o amor é a ligação entre tudo e todos, sem exceção.
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Autor: José Araújo