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domingo, 28 de junho de 2009

RE - APRENDENDO A VIVER...



Paris. Tudo começou num dia qualquer do mês de agosto, há não muito tempo atrás. Sua vida antes vazia e sem graça começou a mudar como que por encanto, desde o dia em que chegou à cidade luz.

Sucesso, realização profissional, dinheiro, status, estabilidade financeira. Ele achava que tinha tudo que precisava na vida e era no trabalho duro e constante, que Gabriel achava que um dia iria encontrar finalmente a tão sonhada felicidade, mas dentro dele, mesmo que ele não admitisse isto, nem para ele mesmo, havia um enorme vazio que ele não sabia como preencher.

Por vezes vagamos por caminhos errados à procura de sermos felizes. Andamos longas distancias. Tropeçamos em tantas pedras. Escorregamos e quase caímos em despenhadeiros profundos sem ter noção do perigo que corremos. Perdemos tanto tempo seguindo mapas ou indicações de outras pessoas sobre onde poderíamos encontrar a tal felicidade sem sucesso, quando tudo que tínhamos a fazer era ouvir a voz de nossos corações, mas infelizmente, nem sempre a coisa funciona assim. Alguns têm sorte de acordar a tempo para a vida e vivê-la em toda a sua plenitude, outros se vão, sem viver.

2005. Em viagem de negócios, lá estava ele, hospedado no "Le Montmartre Hotel", quarto 36, no 3º andar do estonteante edifício de estilo romanesco, todo pintado de branco, o que lhe conferia uma aura de paz e tranqüilidade. A única coisa que o estava incomodando era que seu Blackberry, como sempre, não parava de tocar. A todo instante ele tinha que checar sua caixa de e-mails para ficar ciente das possíveis alterações quanto à reunião que iria acontecer naquele dia. O sol tinha acabado de acordar de seu descanso noturno e Gabriel também. A vida francesa o cativou logo pela manhã quando um cheiro forte, agradável e envolvente o acordou. Era o aroma das baguetes frescas que tinham acabado de sair de uma fornada na padaria do outro lado da rua. O quarto que estava meio sem vida, desde que ele chegou na noite anterior, de repente ressuscitou com o cheiro que preencheu o ambiente de canto a canto. O azul claro das paredes, com as janelas abertas, pareciam se fundir com o azul do céu limpo e claro que havia lá fora. Tudo, sem exceção, lhe dava uma sensação de que nada poderia ser mais harmonioso, mas o alerta de seu Blackberry soou de novo indicando nova mensagem de texto. Ele resolveu ler depois.

Uma simples batida na porta de seu quarto sem que ele esperasse, e seu dia começou perfeito.

-"Le petit dejeneur est servi".

A voz era de uma jovem, que soou um pouco estranha. Talvez por estar um pouco incomodada pelo fato de estar trabalhando tão cedo, quando o sol mostrava seus primeiros raios na capital francesa. Gabriel percebeu em sua voz um certo sotaque brasileiro e curioso para ver quem era, ele foi atender. Quando abriu a porta a jovem já se dirigia a outro quarto com o carrinho e ele até achou que ela caminhava de uma maneira engraçada. Enquanto ela se afastava o salto de seu sapato fazia um leve barulho no assoalho de madeira ao longo corredor. Quando ele olhou para baixo, bem em frente aos seus pés havia uma magnífica bandeja de prata, repleta de delicias francesas esperava que fosse apanhada e levada para dentro.

Por incrível que lhe parecesse, de cada pedaço de seu café da manhã subia uma leve fumaça que pareceu enfeitiça-lo pelo aroma maravilhoso. Encantado, Gabriel sonhava acordado. Ele via em sua mente as cenas de filmes antigos sobre Paris, como o La Vie Parisiene que assistiu quando ainda era muito jovem. Croissants quentinhos o estavam chamando pelo nome para serem comidos. O café então, este preenchia o quarto, de canto a canto com seu aroma incrivelmente delicioso. As baguetes que o acordaram logo cedo, estavam bem em sua frente. Quase que implorando a ele para serem mordidas. Depois de consumir quase tudo que lhe foi servido, ele finalmente leu a mensagem recebida e ficou sabendo que sua reunião tinha mudado de horário. Ela seria realizada no período da tarde e sendo assim, depois de longos anos sem alguns momentos de folga, ele resolveu que iria sair para uma caminhada e encarar o dia maravilhoso de sol que fazia em Paris.

O hotel onde ele estava parecia estar aninhado aos pés do Monmartre. Ainda era muito cedo quando ele o deixou. Mal saiu para rua e já pode ouvir as pessoas caminhando e conversando na praça quase em frente ao edifício. De repente, acomodados em círculos, como numa galeria a céu aberto, os lendários artistas de Montmartre estavam lá, bem na sua frente. Todos eles pareciam prontos para vender com alguma peça de arte um pedaço de suas almas, pois tudo que faziam tinha sempre partes delas. Eram tantas e tão belas peças em meio a tantas artes diferentes, que ele ficou extasiado diante de tantas cores mixadas em telas de todos os tamanhos e formas. Atônito com tanta beleza, ele observava tudo com extrema atenção. Era quase impossível ver como as mãos ágeis daqueles artistas desenhavam círculos e linhas perfeitas. Eles conseguiam dar vida e forma a coisas que para Gabriel não tinham nada de interessante. Davam a tudo em que tocavam com sua arte, um significado em meio a cores e formas. Gabriel percebeu que cada pessoa que passava em frente às obras de arte ficava absorta em pensamentos. Era como se a arte daqueles artistas os levassem a uma outra dimensão, onde tudo que estivesse à sua volta além daqueles objetos não significasse mais nada. Fascinado ele se lembrava de que nunca em sua vida tinha sequer parado para admirar a beleza de uma flor.

Os artistas pareciam estar todos em outro mundo. Tudo que lhes importava era criar e dar formas à sua imaginação. Envolvendo o ambiente mágico daquela galeria a céu aberto, havia uma música que parecia tocar a alma de todos que estavam lá com seus acordes. Ele ficou um longo tempo admirando apaixonado aqueles homens e mulheres que faziam de sua própria vida, uma obra de arte. Quanta coisa linda ele deixou de ver e conhecer em sua vida tão corrida e sem tempo para nada, muito menos para sí mesmo e para aqueles que o amavam. Um tempo depois, quando resolveu sair da praça, um outro estágio daquele mundo mágico e encantador surgiu bem à sua frente. Uma velha senhora estava em pé no meio de uma multidão que a rodeava. Ela tocava algo que parecia ser um antigo instrumento tradicional da musica francesa. Desconhecido para Gabriel, ele era algo que lembrava muito uma sanfona nordestina, mas com formas muito diferentes. Ela tocava sem parar fazendo soar em cada canto do lugar, uma estranha, mas encantadora canção que arrebatava a atenção e o coração de todos que por lá passavam.

Quando chegou a Paris na noite anterior, ele estava sem a menor inspiração. Tudo que ele sabia é que estava lá, como esteve em muitos outros países apenas por obrigação. Tinha um dever a cumprir e nada mais. O que ele queria, era acabar logo com o que tinha ido fazer e poder voltar para o Rio de Janeiro, onde seu trabalho o esperava e havia muito a ser feito. Ele não parava nunca. Já havia morado em São Paulo e em tantas outras capitais do Brasil. Viver em cidades grandes e barulhentas já era rotina em sua vida. Paz, sossego e inspiração, eram coisas com que ele nem se preocupava, ou pelo menos achava que não. Gabriel não tinha ido procurar inspiração em Paris, mas foi lá que aos poucos, sua vida mudou e tudo aconteceu de uma forma que ele nunca poderia imaginar. Mais à frente, sem estar preparado para tal, outra surpresa surgiu em seu caminho. Depois de andar alguns quarteirões apreciando os cafés, padarias e bares locais, com pessoas elegantemente sentadas em cadeiras nas calçadas, conversando e saboreando as delicias locais, lá estava ela: Dominando tudo à sua volta com sua glória, atraindo multidões com sua magnificência. De um branco celestial, com seus mínimos detalhes tão perfeitos, que nem pareciam ser reais. Com sua estrutura prevalecendo sobre qualquer outra nas proximidades, causando espanto e admiração por sua grandeza e beleza. "La Basilique du Sacre-Coeur de Monmartre". Uma das mais magníficas visões de arte arquitetônica de todos os tempos.

Ao aproximar-se dela, Gabriel se emocionou ao ler as simples palavras que estavam gravadas numa pedra e seu coração se encheu de paz, de fé e da crença de que Deus existe e está em todo lugar. Fazia muito tempo que ele não de lembrava de nosso criador. Era católico, mas não frequentava igrejas. Para ele, santuários como aquele não passavam de construções monumentais, mas as frases lá escritas que eram uma mensagem de boas vindas a todos que por ela passassem, tocaram profundamente o seu coração. Por várias vezes ele as leu antes de resolver seguir caminho. Gravadas na pedra elas diziam:

Seja bem vindo!

Peregrinos, visitantes ou apenas caminhantes;

Aqui, Deus lhe dá as boas vindas, e sentido à sua vida!

Aqui, Deus espera por você, para lhe oferecer todo seu amor!

Com lágrimas nos olhos, ainda muito emocionado, sentindo no peito uma paz que nunca sentiu, em dado momento sua atenção foi desviada para uma velha senhora que estava sentada nas escadarias de mármore perolado da igreja. Ela tinha as mãos mais velhas que ele já tinha visto em toda a sua vida, mas elas se moviam com uma agilidade e rapidez incrível, tricotando um casaco para o pequeno príncipe que estava sentado ao seu lado. Numa questão de segundos, Gabriel viu unir-se diante dele duas gerações tão diferentes. O pequeno anjo que estava com a cabeça encostada no ombro da velha mulher, tinha cabelos loiros e cacheados, que o faziam lembrar um querubim. Foi mais um momento da mais pura emoção. Ele pode ler nos olhos do garotinho que ele sabia que ainda havia muito trabalho a ser feito, mas estava lá, sorrindo de vez em quando enquanto deslizava seus dedinhos sobre a parte do casaco que já estava feita. Seus olhos brilhavam de emoção e excitação. Certamente ele estava ansioso pelo resultado final.

Gabriel pode enxergar no olhar e no sorriso do garotinho a alegria e felicidade dele, quando seu casaco estivesse pronto e pudesse ser vestido. Aquela foi mais uma cena que o tocou profundamente como ele nunca achou que poderia acontecer. Gabriel se esqueceu do motivo pelo qual tinha ido a Paris. Aos poucos sem mesmo saber que estava acontecendo, ele estava re-aprendendo a viver, a dar valor às pequenas grandes coisas da vida. Envolto pela magia da cidade luz, sem acreditar que estava tendo aqueles pensamentos, ele sonhava em um dia poder mudar-se para lá e viver uma outra vida. A vida simples e absolutamente mágica que ele havia descoberto naquelas poucas horas, caminhando pelo bairro de Montmartre desde que saiu do hotel após o seu café da manhã.

Seu Blackberry tocou mais uma vez. Contudo, outra vez o cheiro de baguetes frescas vindo agora de outra padaria nas redondezas foi mais forte e desviou sua atenção do celular. Ele não atendeu à ligação. Gabriel sacudiu a cabeça e riu de si mesmo. Ele não estava acreditando no que estava acontecendo com ele naquele lugar. Como poderia ele, um homem de negócios, que não tinha nem tempo para respirar, sonhar em se libertar de todas as suas responsabilidades, de todos os seus compromissos inadiáveis e suas obrigações forçadas pelas engrenagens desumanas do mundo dos negócios? Desde que se entendeu por gente e começou a trabalhar, sua vida nunca mais foi dele. Sempre viveu uma vida inteira dedicada a fazer o que os outros queriam que ele fizesse. Afinal, no mundo dos negócios, os anseios e desejos do ser humano não importam. Nele, cada membro da dita sociedade dos homens é um objeto que após ter sido usado até o desgaste total, é substituído por outro que por sua vez também é considerado de utilidade para o sistema enquanto estiver produzindo. Quando não tiver mais condições físicas ou psicológicas para continuar, é deixado de lado, sem ao menos receber uma explicação justa e honesta do porque. Depois de ter pego um taxi em Montmartre indo em direção ao Champ de Mars, passando pelos Champs Elyseés, ao virar uma esquina, perto da Place du Trocadéro, ele pediu ao motorista para parar.

Caminhando devagar, conhecendo e admirando tudo à sua volta, ao virar uma esquina, os murmúrios de uma multidão ao longe o fez seguir em sua direção. Mesmo receoso sobre o que iria encontrar, sua curiosidade era muito forte para que ele deixasse de ir até onde estavam aquelas pessoas que faziam todo aquele barulho. Ao virar outra esquina, sua atenção foi atraída para o seu lado esquerdo e ao se virar, ele não pode acreditar no que estava vendo. No meio de uma verdadeira massa de pessoas, dedos apontavam para cima, flashes de câmeras eram disparados, um atrás do outro, vozes de homens, mulheres e crianças em todas as línguas, se misturavam no ar pronunciando palavras de exclamação e admiração que eram ouvidas por toda parte. Era como se uma grande celebridade estivesse diante deles. Uma verdadeira multidão de pessoas estava olhando admirada para aquele símbolo, para aquela estrela sem igual.

Gabriel ficou perplexo. Trezentos e vinte e quatro metros de ferro envelhecido, ainda tão longe dele, mas aos olhos de sua mente tão palpáveis. Colossal, inspiradora, esplêndida, um dos pouquíssimos monumentos reconhecidos por todos ao redor do mundo. Mudo, sem pronunciar uma única palavra, ele não pode deixar de compará-la com uma rainha que estava em pé naquele lugar, olhando lá de cima seus súditos cá embaixo. Vendo a Torre Eiffel predominando os Champs de Mars, com toda a sua magnificência e grandeza, convivendo lado a lado até mesmo com uma pequena flor, que à sua maneira, era tão ou mais bela do que a própria torre, fez com que Gabriel tomasse uma decisão que mudaria sua vida para sempre.

Naquela tarde ele não compareceu à reunião de negócios que tinham marcado para ele no Hotel de Ville em Marais. Os executivos que o aguardaram por mais de 2 horas, nervosos e impacientes, desistiram de esperar e indignados com a ausência de Gabriel, foram embora para seus hotéis, prometendo que aquilo não iria ficar assim.

Naquela tarde seu Blackberry bateu o record de avisos de mensagens e toques de ligações. Gabriel não atendeu.

Enquanto aqueles homens de negócios, tanto os clientes de sua empresa, quanto seus colegas de trabalho tinham fortes dores de cabeça, até azia e mal estar pelo que tinha acontecido, Gabriel percorria todos os lugares da cidade e nem sentiu o tempo passar. Partindo de onde estava, aos pés da Torre Eiffel, com a ajuda de um taxista cheio de gentilezas e atenções, ele rumou para St Germain, conheceu o Quartier Latin, onde era difícil encontrar alguém que falasse francês. Conheceu o Paláis de Justice e depois passeou de Bateau Mouche pelo rio Sena. Mais no final da tarde, ainda com um céu azul anil, sentindo-se mais leve do que nunca, ele foi para o Marais e de lá seguiu rumo a St Martin onde jantou às margens do canal. Já era tarde da noite quando ele voltou ao Montmartre Hotel e mesmo àquelas horas, seu Blackberry não parava de tocar.

Após uma agradável noite de sono, como ha muito ele não tinha, mais uma vez ele acordou pela manhã com o cheiro das baguetes frescas da padaria do outro lado da rua. Gabriel levantou-se, tomou um banho demorado ouvindo musicas de Piaf que sempre curtiu e depois tomou seu café da manhã com todo o prazer, degustando cada pedacinho de seu croissant fresquinho, coisa que antes ele não fazia porque não tinha tempo para isto. Sua vida tinha mudado. Ele já não era o mesmo desde sua primeira manhã em Paris.

Seu Blackberry tocou. Na telinha uma mensagem de texto apareceu. Reunião importante. Rio de Janeiro. Amanhã. 19 horas. Hotel Copacabana Pálace. Gabriel leu a mensagem, olhou para cidade lá fora, olhou de novo para o seu Blackberry, levantou-se e foi até a porta do banheiro, deu uma parada pensativo, mas logo entrou nele por uns instantes. Depois de dar descarga no vaso sanitário ele saiu voltando para o quarto onde arrumou as malas para partir.

Galeão, Rio de Janeiro. Ao se aproximar do aeroporto, da janela do avião, a imagem do Cristo Redentor, com os braços abertos pareciam ser um convite para um abraço carinhoso. Pouco depois o vôo vindo da França havia pousado e os passageiros começaram a desembarcar. Um grupo de executivos o aguardava na saída dos passageiros com ansiedade e nervosismo. Gabriel era o homem chave para o fechamento de um grande contrato naquele dia, mas o que ele não sabia era que o grupo empresarial para quem trabalhava tinha um plano para demiti-lo logo após efetivada a transação para que seu cargo fosse ocupado por outra pessoa, mais jovem, inexperiente, mas amigo do filho do Diretor Presidente. Após a assinatura do tão desejado contrato, que segundo o cliente, só seria assinado com a presença de Gabriel, ele receberia o famoso bilhete azul e sua carreira no mundo dos negócios, aos 45 anos, teria um triste fim.

Muitas pessoas saiam pelo setor de desembarque e o grupo de executivos estava cada vez mais ansioso pela saída de Gabriel. Eles esperavam que ele já estivesse pronto para a reunião que seria dentro de meia hora. De repente um sorriso se abriu nos lábios de todos que o esperavam. Mal ele se aproximou do grupo e dois homens o agarraram puxando-o pelo braço para que fossem rapidamente para o carro que já os esperava com o motor ligado. Num movimento inesperado, Gabriel se livrou de todos que atônitos o olhavam sem saber o que pensar, nem o que dizer. Um deles perguntou se ele estava ficando louco, mas tudo que ele fez foi sorrir. De repente ele começou a rir com vontade e o som de suas gargalhadas contagiou a todas as pessoas que estavam naquela ala do aeroporto que começaram a rir junto com ele, mesmo sem saber porque ele estava rindo. Não demorou muito e uma multidão não parava mais de rir. Para desespero daqueles que esperavam por Gabriel, o setor de desembarque explodiu em gargalhadas. Em dado momento, ele parou de rir e quando ele o fez, todos pararam também.

Mais sério do que nunca, lentamente ele se dirigiu para onde estava reunido o grupo de executivos. Ao chegar bem perto deles, ele parou. Seu semblante se transformou. Com um sorriso largo, encarando de frente, a todos eles, Gabriel desfez o nó da gravata, desabotoou as mangas e o colarinho da camisa, e após dar um suspiro profundo em sinal de alívio, disse a eles, com voz firme, em claro e bom tom, que louco ele já tinha sido antes, mas daquele momento em diante, não mais. Sem dizer mais uma única palavra, ele virou-se e foi embora, deixando para trás, um grupo indignado de homens bem vestidos, engravatados e prontos para uma reunião de negócios, onde seriam usados como tantos outros sempre o foram, até enquanto servissem aos interesses da empresa em que trabalhavam, numa cadeia sem fim.

Paris. "Le Montmartre Hotel", quarto 36, no 3º andar do estonteante edifício de estilo romanesco. Na noite do dia em que Gabriel partiu de volta para o Brasil, a arrumadeira que também fazia a faxina no hotel terminou de arrumar a cama e preparar o quarto para receber um novo hóspede na manhã do dia seguinte. Como de costume, ela entrou no banheiro que seria o ultimo lugar a ser limpo. Ao levantar a tampa do vaso sanitário para fazer a higienização, ela se espantou com o que viu. Dentro dele, havia um Blackberry, e ao que tudo indicava, alguém o tinha jogado lá propositalmente naquele mesmo dia. A jovem pegou uma luva, colocou em suas mãos e pegou o aparelho que já não valia mais nada. Olhando-o de perto, ela deu um sorriso e balançou a cabeça, como se estivesse se questionando, quem em sã consciência teria feito aquilo. Depois caminhou até onde estava o cesto de lixo e o atirou dentro dele, seguindo rumo a outro quarto do hotel para continuar seu trabalho.

Rio de Janeiro, Corcovado. Gabriel de bermuda e camiseta regata, usando sandálias Havaianas estava aos pés do Cristo Redentor. Tantas outras vezes ele esteve lá com clientes sem dar à estátua a devida atenção. De repente, ele sentiu uma vontade irresistível de abrir seus braços, igual ao Cristo e sem pensar no que os outros iriam dizer, ele o fez e se sentiu muito bem. Ele estava feliz. Livre para ser ele mesmo, livre para fazer o que bem entendesse. Livre para viver a sua própria vida, sem ter que representar sentimentos que não sentia, sem ter que fazer só o que os outros queriam ou ordenavam que ele fizesse. Naquele instante, carregado de energias positivas recebidas no alto do Corcovado, ele se lembrou das frases gravadas na pedra na Basílica do Sagrado Coração de Montmartre.

Mais uma vez seus olhos se encheram de lágrimas e seu peito de uma profunda emoção. Finalmente, depois de quase uma vida inteira, ele re-aprendeu a viver. Gabriel compreendeu que não importa qual seja a nossa religião, ou status social em que vivemos, é na fé, na crença em Deus e na beleza da vida, que encontramos a nossa liberdade e o verdadeiro e único sentido de nossas vidas.

Autor: José Araújo

domingo, 21 de junho de 2009

ANIMAIS RACIONAIS



Os primeiros sinais de claridade começavam a aparecer. O sol já atravessava timidamente com seus raios o denso nevoeiro no bosque de Eucaliptos que ficava próximo à nossa casa. Um novo dia de um mês de um setembro qualquer, que ficou perdido no tempo há muitos anos atrás estava nascendo. Enquanto a cerração ainda cobria toda a várzea onde nós morávamos, mal dava para se enxergar pouco à frente de nós enquanto caminhávamos em direção à margem do rio Tietê. Tínhamos que atravessar de canoa para o outro lado, com o auxílio de um canoeira, coisa que fazíamos todos os dias, sem nunca falhar. Aquela era a minha rotina diária por todo o período escolar.

Subi na canoa e quando saímos de nosso lado da margem e chegamos ao meio do rio, não se via terra para qualquer lado que se olhasse, somente a densa cerração causada pelas matas e pelas águas do rio e das lagoas adjacentes, porém nosso canoeiro, seu Chico, experiente como era, podia atravessar o Tiete em qualquer tempo e como ele sempre dizia, até de olhos fechados e assim, desde que eu me entendi por gente, tinha plena confiança naquele mineiro de Bom Despacho, que nos tratava a com muito respeito e cuidado.

Eu entrava na escola às sete horas e para chegar lá havia uma longa caminhada que durava mais de uma hora, andando pelo meio do mato, muitas vezes enxergando apenas onde pisava, beirando por vezes a rodovia, outras a estrada de ferro quando chovia demais e passando por entre industrias que começavam a se instalar na cidade de Guarulhos, beirando a Rodovia Presidente Dutra, que na época tinha apenas duas pistas, ladeadas por lagoas e brejos traiçoeiros que sempre tiravam as vidas daqueles que sofriam acidentes de transito na rodovia e tinham seus veículos atirados em suas águas e lamas, que sem dó nem piedade os sugavam para suas profundezas para nunca mais voltar.

No começo, minha mãe me levava desde a travessia do rio e da rodovia, até a porta da escola e depois ia me buscar, mas isto não durou muito tempo. E eu tinha que ir e vir sozinho, só tendo a ajuda de um adulto nas travessias do rio.

Eu tinha medo no começo, mas com o passar do tempo fui me acostumando e em determinado momento, já não representava mais nenhum desafio ou risco para mim, pelo menos era o que eu pensava.

Naquela manhã de setembro, quando sai de casa rumo à escola, nem de longe poderia imaginar que a rotina diária seria rompida com um acontecimento que marcou minha infância e que com certeza irei relembrar dos fatos que se seguiram, até o fim de meus dias.

Havia uma fábrica de tintas pela qual eu passava e geralmente meu trajeto era por trás dela, beirando os muros num estreito caminho que separava a construção do mato cerrado e naquele dia, de longe ouvi gritos de homens dizendo algo que eu não conseguia entender.

Quando fui me aproximando, vi que havia vários deles em cima do muro da fábrica que por sinal era bem alto e todos estavam atirando pedras em alguma coisa bem no lugar em que eu teria que passar.

Aproximei-me devagar e os homens perceberam minha presença, mas mesmo assim continuavam a jogar pedras e foi então que eu vi, lá bem no meio do caminho, todo encolhido e ferido, um pequeno ratinho, indefeso, à mercê da maldade daqueles homens que pareciam ter prazer no que estavam fazendo. Era como se estivessem disputando para ver quem mataria primeiro o pobre bichinho.

Naquele instante, percebendo o fim iminente do ratinho, uma coragem imensa me invadiu. A despeito do que poderia acontecer comigo com eles jogando pedras lá de cima, corri em direção ao pobre animalzinho, enquanto eles gritavam, para que eu saísse da frente, por que se não o fizesse, eles iria atirar pedras em mim também.

Não senti medo de nada. Nunca tive tanta coragem em minha vida. A única coisa que me importava naquele instante era salvar a vida do ratinho. Eu precisava salvar o pequenino e levá-lo para bem longe do alcance daqueles desalmados.

Sob gritos de ameaças, de ser xingado com muitos palavrões e até mesmo tendo recebido algumas pedradas, peguei o pobrezinho e sai correndo pelo meio do mato, protegendo o pequeno corpinho entre minhas mãos e enquanto corria, só pensava no bem estar do ratinho. Lembro de não ter sequer olhado para trás. Eu corria com ele em minhas mãos desesperadamente, sem mesmo saber exatamente para onde estava correndo, pois nunca havia me atrevido a entrar naquele matagal.

Após muito correr em voltas, acabei saindo de novo em meu caminho, bem longe daquele muro. Foi ai que parei para ver o que poderia fazer por ele e logo percebi que haviam acertado uma pedra na cabeça do ratinho que o havia atordoado, por isto estava lá, parado e indefeso, sob a mira e a ira daquelas pessoas sem coração.

Os córregos eram comuns pelo caminho e mesmo fontes de águas cristalinas podiam ser encontradas às margens da estrada de ferro e foi numa delas que lavei a cabecinha dele. Enrolei-o em meu lenço e segui meu caminho rumo à escola. Enquanto caminhava eu ia imaginando em minha inocência, onde eu poderia esconde-lo até o final das aulas, pois tinha intenção de leva-lo para casa, pois no meio de tantos bichos que criávamos lá, de tantas espécies diferentes, um a mais, não poderia fazer diferença nenhuma.

Não conseguindo encontrar nada para poder protege-lo, muito menos um lugar seguro para colocá-lo, não tive opção a não ser ficar ali, na frente da escola com o ratinho dentro da minha mochila, rezando para que alguma solução surgisse por milagre. Foi então que vi um outro garoto mais velho que morava numa chácara, próximo à escola e então resolvi pedir a ele que guardasse o ratinho para mim, até que eu pudesse pegá-lo ao final das aulas.

Na minha ingenuidade de criança, pedi a ele que o fizesse e mais do que de imediato ele aceitou. Havia em seu rosto um sorriso que no momento não compreendi bem, mas não tive tempo nem malicia para levar aquilo em consideração.

Quando deu o sinal de saída da escola eu não via a hora de pegar o ratinho e levá-lo embora comigo. Eu queria cuidar dele, dar comida, tratar de seus ferimentos. Queria poder arrumar um lugarzinho em nosso quintal onde ele pudesse viver em paz. Qual não foi minha surpresa ao sair do portão da escola para a rua, quando vi uma roda de meninos grandes gritando agitados, “Mata, mata, mata!”...

Aquela cena com os meninos, mesmo de longe, instintivamente me fez lembrar dos homens lá naquele muro e imediatamente soube o que estava acontecendo. Era o ratinho que eles estavam matando!

Os meninos jogaram pedras no bichinho até estraçalhar seu corpinho frágil e indefeso. Não houve nada que eu pudesse fazer, a não ser chorar. Chorar a dor de ter confiado naquele menino a quem eu entreguei em confiança o pobre ratinho. Eu tinha acreditado plenamente em sua palavra.

Tudo que aconteceu naquele dia ficou marcado em minha mente desde então. Mesmo após tantos e tantos anos, ainda hoje, eu me pego a lembrar dos homens no muro, do ratinho e dos outros meninos que o mataram por puro prazer e dos meus sentimentos de revolta e repugnância pelas atitudes daquelas pessoas, tanto adultos, quanto crianças, que significaram tanto em minha vida.

Na vida, o ser humano age muitas vezes irracionalmente, de uma forma que nem mesmo os animais o fazem usando o instinto. Mesmo que a humanidade os chamem de animais irracionais, talvez agindo por instinto, matando apenas para se defender ou para se alimentar para sobreviver, eles sejam muito mais racionais que muitos seres que se dizem “humanos”.

O tempo passou, eu cresci, amadureci, os tempos são outros, mas o homem parece não ter evoluído. A cada dia ele parece regredir ainda mais e tenho visto tantos e tantos casos de seres humanos matando animais, até mesmo os mais inofensivos como pássaros, gatos, cachorros e o corte indiscriminado de imensas quantidades de árvores, apenas pelo prazer de matar, de tirar uma vida, não só por esporte ou dinheiro, o que já é inadmissível, mas por pura maldade, pelo simples prazer de destruir o maior bem que recebemos de Deus.

Viver e deixar viver, respeitando a vida de todos os seres, sejam humanos ou não, protegendo a fauna e a flora de nosso planeta contra nós mesmos, é a única maneira de garantirmos nossa existência futura na face da Terra.

O ratinho perdeu sua vida, partiu para sempre, mas deixou marcas profundas em minha personalidade, em minha vida. A dor da perda e a revolta pelo que meus colegas de escola fizeram com o pobre animalzinho serviram para mim com uma lição de vida.

Aprendi a ser cauteloso mesmo com os da minha própria espécie, pois por trás de um par de lindos olhos, ou de um lindo sorriso, pode haver um animal perigoso, um ser realmente irracional.

Autor: José Araújo

domingo, 24 de maio de 2009

LANÇAMENTO



SCORTECCI  EDITORA, LIVRARIA ASABEÇA E O ESCRITOR JOSÉ ARAÚJOCONVIDAM PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO ENIGMAS DO AMOR, UMA ANTOLOGIA SCORTECCI DE POESIAS, CONTOS E CRÔNICAS PARA OS CORAÇÕES APAIXONADOS.


DATA: 09 DE JUNHO DE 2009, TERÇA-FEIRA

HORÁRIO: DAS 18h30 às 21h00

 

LOCAL: LIVRARIA ASABEÇA

 

RUA DEPUTADO LACERDA FRANCO, Nº 187

PINHEIROS - SÃO PAULO - SP.

 

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O QUE VOCÊ QUER SER
QUANDO CRESCER?






"Não se pode deixar de sonhar. Se não tivermos sonhos, como vamos torná-los realidade?"
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José Araújo
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Luísa era casada há muitos anos, tinha dois filhos, Marisa sua filha de 20 anos e Joãozinho de apenas quatro anos de idade e eles eram a alegria do casal. Antes de se casar, ela trabalhava fora e estudava. Quando ela se casou não foi diferente até a chegada de sua primeira filha, mas quando ela completou seis anos de idade, ela resolveu por bem para de trabalhar e se dedicar ao lar, ao marido e sua filha. O tempo passou, sua vida era cuidar dos afazeres domésticos que tomavam seu dia inteiro e ela dividia seu tempo entre eles e cuidar de Marisa enquanto ainda era pequena. Seu marido trabalhava muito. O serviço dele exigia um período maior de sua ausência em casa e Luísa sentia-se por vezes, mesmo sem perceber, um tanto só e desmotivada, sentindo um vazio enorme dentro de si, coisa que por mais que ela tentasse, não conseguia descobrir exatamente o que causava aquela desagradável sensação. A rotina e monotonia em que vivia, mesmo sem que ela percebesse, a estava deixando transtornada ao longo dos anos sem ter noção disto. Apesar de cansada, física e emocionalmente, ela jamais se deixou esmorecer, nem transparecer o que a incomodava tão profundamente a ponto de não conseguir ter uma boa noite de sono.
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Quando Marisa tinha 16 anos, chegou Joãozinho. Ele veio para a alegria de todos na família. Depois que ele nasceu, Luísa teve carga dobrada de responsabilidades e deveres a cumprir. Ela sempre foi uma mãe e uma esposa exemplar, uma pessoa que não era capaz de colocar nenhum de seus interesses pessoais em primeiro lugar. Tudo que ela fazia era em prol unicamente de sua família. Assim, atendendo somente as necessidades dos outros, esquecendo-se das dela, como não poderia deixar de acontecer, com o passar dos anos, sua falta de motivação chegou a um ponto que ela acabou por achar, que viver aquela vida era seu destino, que ser uma boa mãe, esposa e dona de casa era só que ela podia fazer na vida e nada mais. Em seus pensamentos, para ela não havia outro futuro, a não ser terminar seus dias assim. Como ela, há milhões de pessoas neste mundo, homens e mulheres, que acham que a certa altura, tem que se conformar com a vida que se leva e deixar de lado os seus sonhos, seus anseios e aspirações. Perdem a noção do verdadeiro significado da palavra esperança e vão definhando por dentro e muitas vezes, quem está ao lado destas pessoas, mesmo notando diferenças de comportamentos nelas, não tem sensibilidade para compreender o que acontece em seus corações.
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Contudo, a vida é uma escola e muitas vezes nos surpreendemos com os professores que ela usa para nos ensinar a viver. Na manhã do dia das mães, Luísa tinha acabado de dar banho em Joãozinho, que na época estava com apenas quatro anos de idade. Enquanto ela o enxugava, ele não parava de falar enquanto fazia caretas por ela estar secando seus cabelos. Como todas as crianças na idade dele, de vez em quando ele a bombardeava com perguntas e muitas vezes ela era pega de surpresa pela questão e demorava um pouco a responder. Naquele dia muito especial ele lhe fez uma pergunta que iria mudar totalmente a sua vida. Em dado momento, ele segurou a mão dela para que parasse de esfregar a toalha em seus cabelos e olhando seriamente em seus olhos, ele perguntou o que ela queria ser quando crescesse. Meio que sem prestar a devida atenção à pergunta que ele tinha feito, Luísa imaginou que ele poderia estar querendo brincar de algum jogo de palavras e respondeu sem pensar, que gostaria que quando ela crescesse, pudesse ser uma mãe. Com um olhar reprovador, Joãozinho balançou a cabeça com um ar sério e disse que ela não podia.
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Quando ela perguntou por que não poderia, ele respondeu que era porque ela já era uma e refez a mesma pergunta de novo. Mãe, o que você quer ser quando crescer? Pela segunda vez ela respondeu a ele, dizendo que talvez ela pudesse ser uma esposa e uma boa dona de casa. De novo ele disse que ela não podia ser porque já era uma. Um tanto desconcertada, ela disse a seu pequeno filho que sendo assim, ela não tinha a menor idéia do que mais poderia ser. Foi então que ele colocou suas duas mãozinhas em seus ombros, e olhando bem dentro dos olhos dela, de uma maneira que nunca tinha feito antes e disse que era simples responder. Que ela deveria apenas dizer sinceramente, o que ela queria ser quando crescesse, porque ela poderia ser, qualquer coisa que ela quisesse ser. Com lágrimas nos olhos, emocionada pela experiência vivida naqueles poucos momentos, ela não conseguiu responder. Joãozinho já estava seco e vestido quando a conversa chegou e este ponto e quando viu que a mãe estava demorando muito a responder, saiu do banheiro sem olhar para trás dizendo que ir ver TV.
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Foi uma experiência que durou no máximo 5 minutos, mas tocou no mais fundo de seu ser e, isto aconteceu, por causa da maneira como ele lhe fez a pergunta. Pela esperança que ela viu claramente em seu olhar de que ela respondesse o que ele tanto queria ouvir. Parada, ainda com a toalha úmida em suas mãos, ela refletiu sobre sua vida, sobre a maneira como ela vivia, dedicando-se unicamente ao marido, aos filhos, à sua casa. Aquela pergunta feita de uma maneira tão simples e tão natural a fez enxergar que apesar da idade, a qualquer tempo, qualquer um de nós pode ser o que quiser. Naqueles momentos de reflexão, causada pela pergunta feita por um garotinho de quatro anos de idade, ela soube do fundo de seu coração, que apesar de até então ela ter se considerado uma mulher feliz pela vida que levava, com um marido honesto, que a amava do jeito dele, tendo filhos lindos, com saúde e que a amavam muito, ela tinha esquecido dela mesma. Que com a dificuldade da vida, com a luta para manter a casa em ordem, os filhos bem tratados e educados, ainda fazendo o que podia para que quando seu marido chegasse cansado do trabalho pudesse descansar em paz, ela se esqueceu de sonhar, de fazer planos para o futuro.
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Mas depois do que aconteceu, ela verdadeiramente passou a acreditar que ainda era tempo para ela ser o que quisesse ser sua vida. Nos pequeninos olhos de seu filho ela pode ver que seu futuro não estava resumido no que ela fazia, mesmo sendo com muito amor e carinho. Lá, naquele brilho de olhar, enquanto ele lhe fez aquela pergunta, ela pode ver que ainda podia sonhar e até mesmo tocar as estrelas do céu se assim fosse seu desejo. Luísa sentiu dentro de seu coração, que se ela quisesse, ela poderia mesmo ser ainda, qualquer coisa que desejasse. Uma cantora, uma atriz, uma expert em medicina nuclear, uma trapezista de circo. Qualquer coisa que ela quisesse de verdade. Era só querer e correr atrás da realização de seus sonhos. Finalmente, graças a Joãozinho e sua inocência, ela descobriu que por detrás de seu olhar carinhoso de mãe e esposa, ainda havia muitos sonhos e muita coisa para ser na vida, além de ser a mãe, esposa e dona de casa impecável que sempre foi.
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A beleza real daqueles momentos mágicos vividos ao lado de seu filho, seu pequeno professor, foi quando ela percebeu que ele, em toda a sua inocência e honestidade infantil, poderia ter feito a aquela mesma pergunta, a qualquer outra pessoa que estivesse com ele. Envolvida pelo encantamento da descoberta de que mesmo "crescida" ela ainda podia ser o que quisesse na vida, enquanto lágrimas da mais pura emoção corriam livres de seus olhos, ela disse a si mesma, que a velha mulher que um dia no futuro ela ainda ia ser, iria ser muito diferente da mulher que ela tinha sido até então. A outra mulher, a verdadeira Luísa, que estava apenas escondida por trás do olhar meigo e carinhoso de uma mãe, esposa e dona de casa, que acima de tudo era um ser humano que tinha sonhos e anseios de realização pessoal, estava apenas começando a sair de seu esconderijo naquele momento.
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Ela pegou a toalha, pendurou no suporte ao lado da pia do banheiro, parou em frente ao espelho, sorriu e perguntou a si mesma:
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E então Luísa? O que você quer ser quando crescer?
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Naquele dia das mães, apesar de ter recebido como sempre os presentes, beijos e abraços dos filhos, do marido e dos amigos, o maior presente que ela pode receber em toda a sua vida, foi aquela pergunta que Joãozinho lhe fez.
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Quando crescemos, muitas vezes nos deixamos levar pelas circunstâncias da vida, de tudo que nos rodeia, sejam responsabilidades ou obrigações e acabamos por esquecer que quando éramos pequenos, sempre havia alguém para nos fazer a mesma pergunta que Joãozinho fez à sua mãe. A grosso modo, ela até nos parece uma pergunta banal, tão comum, mas na verdade, mesmo esquecida em nossas mentes, ela esta presente em nosso subconsciente por toda a vida, à espera de que em algum momento como aquele em que ela viveu com seu filho, a gente acorde para a realidade de que sempre é tempo de sonhar, de correr atrás da realização de nossos sonhos, para que possamos alcançar nossa realização pessoal.
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Ser mãe é uma coisa mais do que especial, é uma dádiva de Deus, mas não se pode esquecer de que a qualquer tempo na vida, não importa qual seja a nossa idade, ou quais sejam as nossas responsabilidades, deveres ou obrigações, e até mesmo sob certas circunstâncias não muito favoráveis, ainda podemos ser na vida, tudo aquilo que quisermos ser.
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Autor: José Araújo

domingo, 26 de abril de 2009

O PATUA...




Alberto e Eloísa estavam ainda em Lua de Mel. Bem antes da data marcada para o seu casamento, eles haviam programado a viagem que ficaria para sempre em suas memórias. Escolheram o lugar, adquiriram um pacote numa agência de turismo que pagaram em 10 vezes sem juros e logo após o término da festa que foi realizada na Casa de Portugal, com todos os detalhes e requintes minuciosamente programados pelos dois, partiram para viagem de seus sonhos. Eles estavam muito felizes. O lugar era verdadeiramente paradisíaco. Eles escolheram ir para o litoral nordestino e melhor escolha não poderiam ter feito. Durante o dia, os passeios pelos pontos turísticos foram fenomenais. Quando estavam na praia, a visão era absolutamente fantástica. Um mar incrivelmente azul delineava ao longe o horizonte. O céu então nem se fala.
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Era uma imensidão azul, com pouquíssimas nuvens brancas que davam à paisagem uma imagem de muita paz e tranquilidade. O sol forte da região, bem diferente da região sudeste onde moravam, era amenizado o tempo todo por uma brisa refrescante que balançava as folhas dos coqueiros e era uma verdadeira benção naquele lugar. Ao longe, as Jangadas dos pescadores coloriam aquele cartão postal. Foram dias memoráveis que se passaram e eles nem sentiram o tempo passar. Tudo era tão agradável e tão deliciosamente novo para eles, que cada minuto escoava como as areias do mar que quando tentamos segura-las com as mãos, escorrem por entre nossos dedos sem parar. Tudo era maravilhoso. Tudo era perfeito. Mas quando foi chegando o dia de seu retorno a São Paulo, para definitivamente iniciarem sua vida de casados, uma preocupação começou a incomodá-los.
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Será que iriam ser sempre tão felizes como estavam? A vida de casados não se tornaria uma verdadeira rotina depois de algum tempo, acabando com a magia de sua união? Por mais que não quisessem, aquilo não saia de seus pensamentos. No dia marcado para o retorno, eles tinham que estar no aeroporto às 4hs da tarde. Levantaram muito cedo e foram caminhar na orla marítima, para se despedir daquele paraíso. Beberam água de coco, comeram cocadas pra lá de deliciosas, sentaram-se em cadeiras num quiosque a beira mar e ficaram algum tempo em silêncio. Era tudo tão lindo. Tudo tão divinamente especial. Cada segundo de sua permanência seria relembrado com muito carinho até o fim de seus dias. Pensando nisto, Eloísa que já havia falado sobre seus receios com Alberto, sugeriu que quando retornassem à capital paulista, fossem procurar um velho benzedor.
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Um conhecido e amigo da família que era muito respeitado e tido como um homem sábio. Desde pequena, ela era levada pelas mãos de sua mãe ao velho Mathias para ser benta, e de bucho virado ao mau olhado, ele sempre lhe trouxe a cura tão desejada para os males que a afligiam. Além de benzer, ele era muito bom em dar conselhos aos mais jovens e os mais velhos sabiam que tudo que ele dizia era a mais pura verdade. Um tanto relutante, Alberto acabou por concordar. No mesmo dia em que desembarcaram em Congonhas pela manhã, à tarde foram visitar o velho Mathias. Ao chegar lá, havia uma multidão para ser benta e outra para lhe pedir conselhos. Vendo aquela gente toda esperando para ser atendida, sem arredar pé do lugar, Alberto ficou mais confiante de que o que iriam fazer teria algum resultado positivo em suas vidas.
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Além de Eloísa, Alberto também não tinha deixado de pensar no futuro deles como marido e mulher. No mais fundo de seu coração ele queria que sempre fosse como estava sendo desde o dia de seu casamento. Passado muito tempo, já era de noitinha quando foram recebidos pelo benzedor. Após contarem a ele a sua preocupação, com um sorriso bondoso em seu rosto, ele disse aos dois com muita confiança no que esta dizendo, que eles teriam que fazer um patuá para cada um e andar com ele pendurado em seus pescoços por um cordão, de forma que ele ficasse em contato com sua pele e no meio de seus peitos, na altura do coração. Os dois se olharam sem saber do que ele estava falando. Nem ele, nem ela sabiam o que vinha a ser um "Patuá". Não foi preciso dizer nada ao velho Mathias, porque com sua profunda compreensão do ser humano, ele sabia que eles eram muitos jovens e não conheciam tal amuleto.
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Com toda a calma deste mundo, com seu jeito bondoso e receptivo, ele disse a eles que um Patuá era um pequeno amuleto feito de pano. Que era como um minúsculo travesseiro feito de tecido e que dentro dele eram costurados ingredientes especiais para proteção de quem o usasse, e o conteúdo, variava de acordo com a finalidade desejada. Eles sorriram e agradeceram a explicação e perguntaram o que os patuás que deveriam usar teriam que ter dentro deles para garantir que sua felicidade conjugal fosse eterna em suas vidas. Revolvendo uma pequena caixinha de areias que estava em cima de sua mesa, ele se concentrou e após algum tempo, disse que a única coisa que precisavam ter dentro de seus patuás, era um pequenino pedaço de tecido do mais fino algodão da roupa de um casal verdadeiramente feliz. Contudo, ele disse que teriam que viajar muito para encontrar as pessoas certas para que pudessem lhes pedir que lhe dessem o pequenino pedaço de tecido de tanto precisavam.
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Eloísa olhou para Alberto e disse ao velho Mathias que fariam de tudo para garantir a proteção e durabilidade de sua felicidade. Agradeceram imensamente o benzedor e voltaram para seu apartamento. Como ainda tinham duas semanas de férias antes de voltarem ao trabalho, teriam tempo suficiente para encontrar um verdadeiro casal feliz. Eles conheciam muitos casais na cidade grande, mas nenhum cem por cento feliz. Sempre faltava alguma coisa em suas vidas. Se não era uma coisa, era outra. Assim, eles resolveram aproveitar e ir para Minas Gerais. Lá poderiam visitar os parentes no campo que há muito não viam e aproveitariam para iniciar sua procura por lá. Talvez num lugar mais tranquilo como o campo, eles pudessem encontrar o tal ingrediente especial para fazer os seus Patuás. Na manhã em que chegaram em Belo Horizonte, deixaram as malas no hotel e foram caminhar às Margens da Lagoa da Pampulha. Lá eles viram um casal brincando com seus filhos e resolveram começar por eles a sua busca. Eles estavam todos bem vestidos. Pareciam estar em boas condições financeiras e tanto o marido, quanto a mulher, estavam usando peças de roupa feitas do mais fino e leve algodão, por causa do calor que fazia no lugar.
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Ao aproximar-se deles, Eloísa e Alberto puxaram conversa e após as devidas apresentações e uma agradável bate papo sobre a vida de casados, Alberto perguntou aos dois se mesmo depois de tanto tempo de casados eles ainda eram tão felizes como no começo. O marido sorriu olhando para a esposa e disse que sim. Que eles eram muito felizes na vida, a não ser por tantos filhos que tiveram, que lhes causavam tanta preocupação e ansiedade. Ouvindo a resposta, os dois souberam que o tão desejado ingrediente não seria encontrado ali. Continuaram a conversa por mais algum tempo e depois se despediram e voltaram ao hotel onde se hospedaram para ficar até o dia seguinte. Logo pela manhã, Alberto alugou um carro e partiram para o interior do estado na busca do que estavam procurando. O tão desejado ingrediente para o seu Patuá. Chegando à fazenda dos parentes, foram recebidos com uma verdadeira festança. A hospitalidade mineira se fez presente a cada instante.
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Antes de um almoço especial, com torresmo à pururuca, arroz branco, feijão e couve picada refogada, eles experimentaram caipirinha feita com pinga do alambique da família, e isto tudo, dentro de um verdadeiro requinte da cultura mineira. Passaram uma tarde magnífica onde puderam perceber que os casais da família eram todos muito felizes, mas mesmo sem lhes fazer a pergunta que queriam fazer, sobre a completa felicidade de cada um deles, havia sempre alguém que em conversa frisava que lá, todos eram muito felizes mesmo, a não ser algum pequeno senão. Sabendo que lá não encontrariam o casal verdadeiramente feliz, conversaram até altas horas da noite e quando sentiram o sono apertar, pediram licença aos seus anfitriões e foram para o quarto que a família tinha preparado especialmente para os dois. Tudo estava na mais perfeita ordem no ambiente simples, mas extremamente aconchegante da fazenda. Dormiram a noite inteira e foi a noite mais tranquila de sono que os dois tiveram desde o dia em que se casaram. Na manha seguinte, entre queijos, doce de leite e compotas de frutas feitas pelas mulheres da família, eles se fartaram de tanto comer. Fartura na mesa de mineiro, mesmo sendo de origem humilde e nos confins do interior, é uma coisa que não pode faltar.
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Os parentes deles fizeram de sua manhã um acontecimento especial. Trouxeram outros parentes de longe para vê-los. Eloísa conheceu primos que ela nem sabia que existiam e entre abraços e beijos emocionados o tempo passou tão depressa que já era quase a hora do almoço quando resolveram caminhar um pouco pelo lugar. Nas redondezas havia as casas dos colonos e talvez fosse lá que iriam encontrar o que vieram procurar. Fizeram sempre a mesma pergunta a tantos e tantos casais que conheceram que quase perderam a conta, mas em nenhum deles a resposta foi definitiva, sem que houvesse ao menos, um pequeno porém. Quando voltaram eram quase 3hs da tarde. Ninguém tinha almoçado à espera dos dois. Almoço de mineiro é às 11hs da manhã, mas em respeito ao jovem casal, mesmo com fome todo mundo esperou. Quando entraram no enorme quintal foram recebidos com a maior alegria. O almoço mais uma vez foi sensacional.
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Galinha ao molho pardo, mandioca cozida, linguiça frita feita por eles mesmos, com carne de porco de sua própria criação e depois a sobremesa. Esta então, fechou sua visita com chave de ouro para os dois. Doce de Cidra ralada, acompanhado por um queijo fresco tão leve e delicioso que não resistiram e pediram para repetir. Ao final da tarde eles partiram. Em sua programação, estava a visita a outras fazendas de parentes em outras cidades do interior do estado de Minas Gerais. Em cada uma delas, a historia de repetiu. A hospitalidade em todas as casas que visitaram foi simplesmente inacreditável para os padrões de paulistas que eram. Após ter conhecido lugares maravilhosos, pessoas encantadoras que tinham no olhar a alegria de viver uma vida simples e pacata no interior que chegou a emocioná-los várias vezes, mas eles já estavam se cansando de procurar o tão desejado ingrediente sem encontrar. Finalmente, eles foram para a última cidade por onde passariam antes de voltar.
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Ao chegar lá, passaram pela praça da matriz e a igrejinha era tão branca e limpa, que nem parecia ser real. A praça em volta da Igreja era muito bem cuidada. Era domingo e aquele lugar era o preferido dos casais de namorados que estavam sentados nos bancos trocando juras de amor. Em alguns pontos da praça, havia pequenas mesas preparadas para jogo de dominó ou xadrez. Senhores usando chapéus de palha conversavam animadamente enquanto jogavam. Eles eram felizes. Havia isto bem claro em seus olhares e sorrisos de gente simples e humilde. Eloísa e Alberto vendo tudo aquilo, tão diferente da loucura das cidades grandes, mais uma vez não conseguiram se controlar e seus olhos se encheram de lágrimas da mais pura emoção. Aquilo sim era vida. Não os atropelos, os assaltos, as brigas de transito e as doenças comuns das grandes metrópoles, como a angústia crônica, a solidão e a tão em moda síndrome do pânico que se apossava dos mais fracos mentalmente, fazendo de suas vidas um suplício de medo e insegurança. Isto sem falar, que ir parar no divã de um analista era tão comum como procurar um dentista.
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Era tanto, que algumas pessoas já acostumadas a se deitar num divã, diziam que quem não tinha um analista, não poderia ser considerada uma pessoa normal. Ainda emocionados, seguiram por uma pequena estrada de terra batida que era ladeada por pastos imensos e de tão verdes, faziam até com que os dois não acreditassem no que estavam vendo. Vacas, bois e bezerros pastavam calmamente. Homens vestidos a caráter, usando suas roupas de vaqueiros, cuidavam do rebanho ao longe em cima de seus cavalos. Aquilo era uma imagem que só tinham visto em filmes e novelas pela TV. Nascidos e criados da cidade grande, apesar de bem educados por suas famílias, eles tinham características urbanas inconfundíveis aos olhos das pessoas do interior, mas que para aquela gente simples e humilde em nada diminuía seu valor como seres humanos que eram. Ao passar por uma cerca, viram um homem pastoreando enorme rebanho de carneiros. Ele estava sentado numa pedra no meio do pasto e seu cão estava cavando em volta de um enorme Cupinzeiro com o maior interesse no que iria encontrar.
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Ao longe na estrada, eles puderam ver que uma mulher carregando uma criança no colo e levando outra pela mão, vinha trazendo pendurado no pescoço o que lá chamam de embornal e ele parecia cheio. Quando ela se aproximou da porteira que dava acesso ao pasto, o homem se levantou rapidamente, e foi em sua direção. O garotinho que estava no colo da mãe, logo que viu o pai levantou os bracinhos para que ele o pegasse, o que ele fez com todo amor. Abraçou e beijou a esposa, pegou o pequenino no colo e beijou o outro garotinho maior que a estas alturas já estava sendo lambido pelo cachorro que até tinha se esquecido do tesouro que procurava cavando na terra e fazia uma festa sem igual. Pulando, latindo a abanando o rabo ele parecia querer mostrar a todos que ele estava feliz com sua chegada. Eloísa e Alberto ficaram parados. Sentados nos bancos em seu carro, quase que como se estivessem hipnotizados, eles admiravam tudo silenciosamente.
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Maravilhados com e cena, eles não perdiam um só detalhe daquele encontro de família. Finalmente! Os dois pensaram e disseram ao mesmo tempo. Lá estava um casal verdadeiramente feliz! A mulher pegou de dentro do embornal uma vasilha que se parecia com um caldeirão com tampa e estendeu um pano no chão chamando o marido para almoçar. Feliz com a graça que Deus havia lhe dado, de ter uma mulher maravilhosa e filhos lindos e com saúde ele sentou-se sorrindo, pegou um prato de alumínio e começou a se servir. Enquanto isto, o garotinho menor estava sentado no chão brincando com uma pequena flor em suas mãos. O outro ao lado do cachorro, corria pelos campos em meio aos carneiros enquanto a mãe zelosa não os perdia de vista um só minuto sequer. Aquilo sim era uma família feliz. Alegres por terem finalmente encontrado o casal perfeito para pedir a eles o mais desejado ingrediente, eles saíram do carro e se aproximaram da cerca que os separava daquela família feliz.
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Meio sem jeito de atrapalhar o almoço do homem que deveria estar faminto, Alberto chamou a sua atenção batendo palmas como se estivesse na porta da casa daquela família sem igual. Os meninos curiosos, logo chamaram a atenção dos pais. Após dividir com as crianças e o cachorro o que sua mulher havia trazido, não havia sobrado muito e ele tinha acabado de comer o pouco que restou. Com um sorriso amistoso, ele se aproximou de onde eles estavam e perguntou quem eram e de onde tinham vindo. Dai por diante a conversa foi longe. Eles conheceram o pai, a mãe, as crianças e até o cachorro que se apaixonou por Eloísa. Depois de aproveitarem aqueles momentos mágicos vividos ao lado daquela família, eles não viam a hora de pedir a eles o que tinham vindo procurar. Em dado momento, Alberto achou melhor ser sincero e contou ao casal o porquê deles estarem viajando ao interior e o que eles estavam procurando. Eles ficaram espantados, sem saber o que pensar. Nunca na vida deles, tinham ouvido nada igual. Alberto perguntou ao casal se na verdade eles eram mesmo tão felizes como aparentavam naquele lugar. A resposta foi simples como a vida deles no interior.
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- Uai Sô! Graças ao Bom Deus, nóis somu sim sinhô!
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Quando Eloísa ia pedir ao casal um pedacinho de qualquer peça de roupa que eles tivessem, que fosse do mais puro algodão como instruiu o velho Mathias, antes que ela falasse, o marido disse aos dois, que eles lhe dariam não só um pedaço da roupa de algodão, mas a peça inteira e de bom coração, mas infelizmente, eles não tinham nenhuma. Tudo que eles tinham, eram roupas iguais às que estavam usando, feitas de sacos alvejados de mantimentos e nada mais. Felizes por terem presenciado toda aquela felicidade em família, mas desapontados por não terem encontrado o que tinham ido procurar, eles se despediram do casal, deram beijos nas crianças que lhes retribuíram com sorrisos tão lindos quanto os raios do sol numa manhã de verão. Fizeram a volta com seu carro e voltaram por onde tinham chegado àquele lugar mágico, em meio a lugar nenhum. Eles haviam desistido de procurar. Estavam desapontados, tristes e com receio de que nunca pudessem viver eternamente felizes como desejavam.
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A viagem foi fantástica, as experiências de vida que eles tiveram pelos caminhos por onde passaram foram muitas, mas a obsessão por encontrar o que tinham ido procurar, não deixou que se lembrassem dos grandes ensinamentos que a escola da vida tinha proporcionado a eles naqueles poucos dias, no interior incrivelmente maravilhoso e mágico das Minas Gerais. De volta a São Paulo, inconformados por não terem encontrado o único ingrediente indicado pelo valho Mathias, resolveram procura-lo de novo e dizer que o que ele fez não tinha sido justo. Que ele havia brincado com seus mais profundos sentimentos indicando um ingrediente impossível de encontrar para fazer o Patuá que iria garantir a eles pelo resto de suas a vidas, a tão desejada felicidade. Após ouvir os dois sem dizer uma única palavra, mesmo Alberto tendo sido um tanto grosseiro em dado momento da conversa, ele esperou que acabassem de falar e quando pararam, ele sorriu e perguntou aos dois, se realmente não haviam aprendido nada durante sua peregrinação à procura do pedacinho do mais puro algodão da roupa de um verdadeiro casal feliz.
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Encabulado pela forma calma e tranquila com que o velho estava falando com eles, mesmo depois de Alberto ter dito a ele algumas palavras rudes, o jovem parou por alguns instantes para pensar e refletir e se lembrou naquele momento, de todos os casais que tinham conhecido pelo caminho e disse que tinha aprendido uma coisa, da qual jamais iria se esquecer. Com um nó na garganta ele disse ao velho Mathias, que aprendeu de uma vez por todas, que contentamento, é uma rara benção neste mundo e muito difícil de se encontrar. Eloísa por sua vez, disse que tinha aprendido que para ser contente com a vida que se leva, não é preciso mais nada além de estar contente com o que temos, graças às bênçãos de Deus. Quando ela terminou de falar, uma grande emoção já havia tomado conta de seu coração. Com lágrimas nos olhos, ela olhou para Alberto bem dentro de seus olhos, sorriu e estendeu a ele a sua mão. De mãos dadas, os dois trocaram olhares de profunda adoração. O velho Mathias contente com o resultado da missão que ele deu aos dois, colocou sua mão sobre as mãos do jovem casal e disse:
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-Em seus corações vocês encontraram o verdadeiro Patuá. Guardem bem este tesouro enquanto viverem e jamais o espírito maléfico do descontentamento, terá poder algum sobre vocês.
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Autor: José Araújo