Páginas

sábado, 29 de maio de 2010

UM ESCRITOR NA PRISÃO



Tarde sombria na capital paulistana. São Paulo da garoa há muito já havia perdido este título, mas naquela tarde de quarta-feira as condições climáticas pareciam querer relembrar os velhos tempos. Isabella caminhava pensativa pela calçada. Ela estava bem agasalhada, mas mesmo assim, sentia arrepios. Seu coração batia acelerado. Sua mente lhe dizia para não seguir em frente. Naquele dia ela tinha um compromisso que não gostaria de ter marcado. Após caminhar um pouco, logo após sair da estação do metro, ela se viu andando ao lado de um muro alto, com cerca elétrica instalada em cima dele. Mesmo sendo alto, de onde ela estava já era possível avistar as paredes cinzentas de um prédio sombrio. Por toda a sua vida, as pessoas lhe disseram que quem vivia nele era a escória da humanidade. Ela sempre acreditou. Certamente, seu mal estar e sua insegurança ao comparecer ao compromisso se devesse a esta crença, mas naquele momento; ela não queria pensar nisto.
Tudo que Isabella sabia era que tinha um dever a ser cumprido e mesmo estando assustada, receosa, ela iria enfrentar a situação e tentar sair-se bem, da maneira que fosse possível. Finalmente ela chegou ao portão de entrada daquele lugar. À primeira vista, o grande portão de ferro lhe pareceu ainda mais assustador do que nas fotos que havia visto nas manchetes de jornais. Depois de ter sido recebida por dois seguranças e ter sido revistada de forma desagradável por uma mulher usando um uniforme, ela teve que tirar seu casaco e sua blusa de frio e vestir uma espécie de jaleco, o que a fez sentir-se ainda pior. Do lado de fora do enorme edifício com janelas reforçadas com barras de ferro, o mau cheiro e a umidade lá presentes, a faziam imaginar o que a esperava do lado de dentro.
Após estar pronta, ela foi conduzida a um auditório dotado de uma mesa e dezenas de cadeiras de plástico colocadas lado a lado, por toda a extensão do lugar. A mesa era branca e as cadeiras eram azuis. As paredes pintadas de branco, em contraste com as cores dos móveis a fizeram lembrar de um pronto socorro montado em caráter de emergência, numa situação de guerra. Isabella já tinha assistido filmes sobre guerras e catástrofes. Coisas assim eram comuns nos cenários de muitos deles. Só, naquele enorme salão, ela não pode deixar de pensar no que a esperava pela frente, mas certamente, dentre todos os seus temores e suas mais remotas expectativas ou possibilidades, ela nunca poderia imaginar o que realmente a esperava naquele lugar.
Um mês antes, um dos professores de sua faculdade deu um trabalho individual à classe e foi ai que começou esta historia, que até aquele momento, só causou a ela dores de cabeça, desassossego e mal estar.
A cada aluno foi conferido uma missão.
A dela seria fazer um workshop de literatura. Até aí tudo bem, mas o trabalho deveria ser feito numa penitenciaria. Quando ela ouviu o professor detalhar sua missão, ela não pode acreditar. Cansada, exausta de tanto trabalhar e estudar à noite, vivendo numa cidade onde a violência esta presente no dia a dia, aquele trabalho tinha sido a pior coisa que lhe podia acontecer.
Isabella não era de desistir de seus objetivos e, mesmo tendo que fazer algo que ela nunca pensou em ter que fazer durante toda a sua vida, lá estava ela. Sentada na cadeira por detrás da mesa, de onde ela teria que se dirigir a marginais, assassinos e fora da lei, ela tremia. Tinha sido difícil conseguir autorização da direção da penitenciaria para fazer o trabalho junto aos presos, mas depois de muito argumentar e com a ajuda do pai de um dos seus colegas de classe, que conhecia o diretor, finalmente ela estava lá. Todas as quartas-feiras, por três semanas, ela teria duas horas em companhia dos presos para fazer seu trabalho. Na penitenciaria workshops não eram obrigatórios aos presos e o comparecimento deles dependia de inscrição voluntária.
A principio, bem dentro de seu coração, ela esperou que não houvesse nenhum interessado em participar, mas para sua maior surpresa, uma semana depois de abertas as inscrições não havia mais vagas. Sabendo disso, ela não pode compreender exatamente qual o interesse daqueles homens. Marginais e fora da lei. Como poderiam eles se interessar por literatura? A pergunta ainda martelava sua mente enquanto estava sentada naquela mesa. O silêncio aterrador do ambiente, a cada segundo de espera, maltratava Isabella.
Um barulho a fez voltar-se para porta de entrada do salão. Dois seguranças a abriram e se posicionaram. Um de cada lado. Tremula, ela viu quando o primeiro dos inscritos entrou. Sem olhar em sua direção ele procurou uma cadeira e nela se sentou. Assim foi com todos os demais. Em poucos instantes, ela se viu sendo examinada de cima para baixo por todos aqueles homens. Eles a olhavam com desejo. Naquele instante, ela se sentiu literalmente nua. Um calor subiu-lhe a face enquanto ela preparava o material para iniciar o trabalho. Foi então que o ultimo inscrito chegou.
Quando ele entrou e virou-se em sua direção, seus olhos se encontraram. Subitamente, ela pode sentir naquele olhar algo diferente. Ele não a olhava como os outros. Naqueles olhos havia um tristeza profunda. Era um rapaz. Deveria ter uns vinte e dois anos de idade, mas aparentava muito mais. Silenciosamente, ele caminhou de cabeça baixa até o fundo do salão e sentou-se numa cadeira da ultima fileira nos fundos, onde não havia mais ninguém.
Os demais participantes conversavam e gesticulavam entre eles. Ela soube pelos risos maliciosos de cada um, que o assunto não era outro se não ela mesma. Uma angustia ainda maior tomou conta de seu peito. Estava cada vez mais difícil suportar aquela situação. Ela não sabia o que esperar daqueles homens. Tudo que ela sabia e tinha ouvido falar, era que prisioneiros como eles, sem contato com uma mulher por tanto tempo, seriam capazes de fazer qualquer coisa. Seu medo a fazia imaginar cenas horrendas. Ela se via nas mãos sujas daqueles homens sendo agarrada a força, tão rapidamente, que os seguranças que estavam na porta nem teriam tempo de evitar o pior.
Em dado momento, ela disse a si mesma que tudo fosse de acordo com a vontade de Deus.
Isabella terminou de separar o material para o workshop, levantou-se de sua cadeira e com a voz demonstrando sua insegurança, ela se apresentou.
Ela disse aos presos que estava lá para dar a eles a oportunidade de estar mais em contato com a literatura e que todas as quartas feiras, durante um mês, ela viria à penitenciária para que juntos, pudessem compartilhar a magia de escrever. A reação de quase todos foi dar risadinhas e tecer algumas piadinhas de mau gosto sobre tudo o que ela falou.
Dotada de uma força que nem ela mesma sabia que havia em seu interior, ela disse a eles, com muito mais confiança, que ela estava trazendo a eles a possibilidade de se descobrirem, de conhecer a si mesmos através da escrita. Disse que naquele mundo onde eles viviam tudo era proibido, mas ninguém poderia proibi-los de escrever. Aquela era a chance de cada um deles de poder se expressar livremente, sem receios, sem represálias, pois tudo aquilo que escrevessem, só ela iria ler. Explicou também, que era aluna de uma faculdade e que tinha recebido de seu professor de literatura aquela missão como trabalho para a prova final do semestre. Alguns se entreolharam, fizeram alguns comentários e de alguma forma que ela não pode compreender, nomearam um dos presos para falar com ela em nome de todos.
Assustada, ela ficou observando tremula enquanto um dos homens, o mais velho de todos, se aproximou, tirou o boné e disse a ela que haviam decidido por unanimidade cooperar, dando a ela a chance de concluir seu trabalho e dar a eles alguns momentos de paz no meio daquele inferno que viviam.
Ela nem pode acreditar.
Para ela, aqueles homens eram ignorantes, violentos e não esperava nada de positivo por parte deles. Muito menos cooperação. Sorrindo com delicadeza, o velho prisioneiro voltou para seu lugar e esperou. Sem ainda estar acreditando no que estava acontecendo, ela explicou a todos, mais calma naquele momento, que gostaria que cada um escrevesse, nas quatro folhas de papel que iria distribuir eles, aquilo que bem entendessem. Que gostaria que deixassem suas mentes livres. Que ao escrever, se deixassem levar pelas asas da imaginação. Que se transportassem daquele lugar onde viviam para um novo mundo. Um mundo tão distante e inatingível para eles. O mundo da liberdade.
Ao ouvi-la falar, alguns levantaram as mãos para perguntar se realmente poderiam escrever o que quisessem e se não seriam repreendidos depois por isto. Isabella garantiu a todos que não. Tudo que eles escrevessem ali seria um segredo entre ela e cada um. Aqueles homens que sempre tiveram sua liberdade de expressão roubada deles de forma brutal, se olharam, sem acreditar. Em silencio, ela passou por entre as cadeiras distribuindo o material. Em cada cadeira havia um suporte onde eles poderiam apoiar as folhas e escrever confortavelmente. De posse de lápis e papel, todos a olhavam com atenção. Naquele momento já não havia naqueles rostos a malicia e maldade que ela viu em seus olhos quando chegaram. O retardatário, aquele que chegou por ultimo no inicio da reunião, não se manifestou. Ele ficou calado desde que chegou e ao que parecia, não tinha a menor intenção de dizer qualquer coisa. Ela resolveu não interferir.
Em dado momento ela disse que poderiam começar a escrever. Que teriam uma hora para escrever sobre qualquer coisa que quisessem e depois, deveriam entregar a ela seus textos que seriam apreciados e posteriormente ela iria chamar cada autor para ler em voz alta para que todos pudessem ouvir. Iniciado o trabalho, ela criou coragem e começou a caminhar por entre as cadeiras. Todos estavam absortos em pensamentos e escrevendo. Menos um. Aquele homem de olhar triste que chegou depois de todos os outros, não estava escrevendo. Ele apenas estava de cabeça baixa, segurando o lápis e as folhas de papel em suas mãos. Visivelmente, ele não tinha a intenção de escrever. Em dado momento, ele levantou a cabeça e Isabella estava ao seu lado. Ele corou e baixou a cabeça. Ela não pode deixar de sentir pena daquele homem. Por que ele agia tão diferente dos demais. Por que ele aparentava sofrer tanto a ponto de deixar transparecer seu sofrimento em seu olhar. Com sua voz suave, ela perguntou baixinho se ele não gostava ou se não sabia e escrever. Tudo era possível. Ela pensou.
Sem levantar a cabeça ele respondeu em voz baixa que sabia ler e escrever, mas não via motivos para escrever. Naquela afirmação, ela viu que a coisa era muito mais profunda do que ela poderia imaginar. Ela abaixou-se ao lado dele, levantou sua cabeça com a mão e olhando em seus olhos, Isabella disse a ele que deveria tentar. Que o segredo era escrever o que ele estava sentindo. Sem esconder nada. Sem pensar em consequências. Apenas escrever o que tivesse vontade, pois na literatura, a gente encontra a liberdade. É possível viajar sem sair do lugar. Se ele realmente quisesse, poderia criar um mundo novo, sem paredes, sem grades, um mundo onde ele e as letras viveriam livres, sem fronteiras. Enquanto ela falava, aquele jovem prisioneiro olhava sem seus olhos sem piscar. Ela sentiu que estava de alguma forma rompendo as barreiras que ele havia criado para se isolar. Isabella se levantou, voltou para sua mesa e de lá, ficou observando o resto do grupo compenetrado em seu trabalho. Ao término do tempo estipulado, todos entregaram a ela seus textos. Menos o jovem e solitário prisioneiro que continuava sentado na ultima fileira, sem se mover.
Ela recebeu os textos de todos e agradeceu. Pediu que se sentassem e se levantou. Caminhando devagar ela se aproximou do rapaz. Enquanto ela se aproximava, ele desviou seu olhar para que não tivesse que encarar Isabella. Quando ela chegou até ele, viu que as folhas continuavam em branco. Elas estavam intactas. Exatamente como quando ela as entregou a ele. Ela não pode se conter. Perguntou a ele seu nome e ele respondeu baixinho que era João. Com voz compassada e calma, ela disse ao rapaz que ele não era obrigado a escrever, mas haveria ainda outra oportunidade na próxima semana e, que ela gostaria muito mesmo de poder ler algo escrito por ele. Que tinha certeza absoluta, que fosse o que fosse, seria muito bom. Ele esboçou um sorriso. Ela correspondeu e voltou para sua mesa. Dirigindo-se a todos, ela disse que levaria para casa seus textos e na próxima aula, pediria a cada um para ler o seu. A grande maioria pareceu ficar excitada com a ideia e se levantaram conversando animadamente entre eles sobre o assunto. O jovem silencioso e solitário se levantou, olhou para ela, sorriu timidamente e se foi. Naquele dia Isabella voltou para casa com outra visão daquele mundo que ela acabara de conhecer.
Sua primeira impressão daqueles homens foi dissipada pela aceitação mutua. Eles a receberam. Ela os aceitou. Ela quase não dormiu pensando em tudo que ela presenciou naquele salão. Relembrava os rostos de cada um. O brilho nos olhares sob a perspectiva de poderem se expressar livremente através da literatura. Para eles, era como se de repente, ganhassem a tão desejada liberdade! Uma semana se passou. No dia do próximo evento, ela chegou mais cedo. Aproveitou para falar com a assistente social e perguntar sobre João. O que ela soube explicou tudo. A senhora Nair, a assistente social da prisão, disse que desde que foi preso e veio parar naquele lugar, nunca tinha sido visto conversando com outros presos. Parecia às vezes, que ele vivia fechado em seu próprio mundo. Que não tinha a menor vontade de se expor. Ela agradeceu as informações, explicou seus motivos por se interessar pelo rapaz e se foi.
Na hora marcada todos estavam presentes. Até mesmo João. Os demais até brincaram com ele dizendo que tinha dormido lá para não se atrasar. Ele não respondeu. Apenas sorriu, tímido como sempre, baixou a cabeça e ficou em silencio. Isabella entregou os textos de todos. Disse que havia corrigido alguns erros de ortografia, mas que num âmbito global, todos estavam excelentes. A galera vibrou. Então, ela chamou primeiro que iria ler seu texto. O aplauso foi geral. O velho presidiário que havia transmitido a ela a decisão de todos em cooperar foi o escolhido. Com orgulho e sentimento, ele leu a mais bela poesia que Isabella havia ouvido nos últimos tempos. Enquanto ele lia e gesticulava, lágrimas da mais profunda emoção brotaram de seus olhos e rolavam livremente por seu rosto marcado pelo tempo e pelo sofrimento. Isabella não resistiu.
Ela deixou que a emoção tomasse conta de seu coração e quando percebeu, estava abraçando aquele velho homem com carinho e cumprimentando-o pela sensibilidade. A plateia vibrou. Um após o outro leu seu texto na frente dos colegas. A atenção de todos estava naquele que lia. Parecia que estavam enfeitiçados pelo momento que viviam. O jovem solitário e triste, observava tudo em silencio profundo. De longe, Isabella pode perceber que ele também estava emocionado. Uma lágrima furtiva e solitária como ele, teimava em rolar em sua face cansada e sofrida.
Após a leitura e animação do momento, ela disse a todos que iriam ter a chance de escrever mais alguma coisa naquela tarde e, que na próxima aula iriam poder ler. O aplauso foi geral! A excitação de todos era visível. Em cada rosto a alegria de poder se expressar, de poder colocar no papel em forma de palavras seus sentimentos, era algo que ela nunca poderia pensar que iria encontrar naquele lugar. Todos receberam suas folhas e lápis. Ela nem precisou dizer para que começassem a escrever, pois todos ao receber seu material iniciaram seu texto. Para surpresa de Isabela, João também.
Sem demonstrar que havia percebido, ela começou a caminhar entre as cadeiras observando o trabalho de cada um. Quando chegou perto dele, João cobriu com a mão o que tinha escrito, olhou para ela e sorriu. Ela compreendeu e se afastou. Ela sabia que o que quer que ele estivesse escrevendo, seria muito mais do que especial. Pacientemente, ela esperou que todos acabassem e entregassem seu trabalho. Ao terminar de juntar todos, menos o de João que não entregou o dele, ela disse a todos que estavam liberados e que os veria na próxima quarta-feira. Aqueles homens não eram mais os mesmos que entraram naquele salão no primeiro dia. Eles se levantaram de suas cadeiras com educação. Se despediram dela desejando boa noite e a maioria expressou a ela o desejo de que a próxima reunião chegasse logo. Mais uma vez, ela voltou para casa pensativa, mas naquele dia, ela estava se sentindo feliz.
Através da literatura, ela tinha levado àquele mundo insano e violento em que viviam, um pouco de alegria, felicidade e descontração. Estava sendo incrível e muito gratificante ver a evolução daqueles homens em apenas duas aulas e, seu coração já começava a se apertar pensando no ultimo dia em que os visse. Outra semana passou. Chegou do dia de vê-los pela ultima vez. Alegre pela mensagem de paz, amor e liberdade que ela levou a eles através da literatura, ela ainda sentia falta de pode ter conseguido algum progresso com João, mas o tempo havia acabado. Ele não havia se interessado o bastante para entregar a ela o que quer que tinha resolvido escrever afinal. Ao entrar no salão, todos já a esperavam. Eles não só a esperavam como haviam lhe preparado uma surpresa.
A penitenciaria tinha cursos de artesanato para os presos e eles haviam se unido para fazer um presente muito especial. Fizeram com palitos de sorvete o mais belo vaso de flores que ela já tinha visto e, junto com ele, veio um coração. Era uma almofada vermelha em forma de coração e nela estava escrito: “Um escritor é livre até mesmo para voar, além das nuvens, além das estrelas, rumo aos seus sonhos e aos de outras pessoas”. Isabella desabou. Sorrindo e chorando ao mesmo tempo, ela agradeceu a todos de coração. Recebeu abraços carinhosos e respeitosos de todos eles. Ao terminar a sessão de cumprimentos e toda a agitação, ela percebeu que todos ficaram sem silêncio. Ao olhar na direção para onde todos estavam olhando, ela viu João. Em pé onde estava, ele segurava entre suas mãos, como se segura um pássaro preso entre elas, uma folha de papel. Ele a olhava sorrindo.
Era um sorriso tão lindo, tão especial, que parecia mais o de um anjo. Daquela expressão de tristeza e de velhice precoce que havia antes em seu rosto, nada mais existia. Ele parecia ser o homem mais feliz da face da terra. Ainda em silencio, ele se aproximou lentamente de onde ela estava. Ao chegar bem perto, com voz embargada ele disse que fazia questão de ler o texto que havia escrito na aula anterior e, que ele seria como um presente dele para ela, como despedida. Isabella balançou a cabeça afirmativamente ainda sorrindo. João então começou a ler enquanto seus colegas e ela o escutavam em silêncio total.
Em meu mundo, de onde eu vim, nunca ninguém se dispôs a me ouvir. Muito pelo contrário. Desde criança me ensinaram que eu deveria ficar calado. Me fizeram acreditar, que nada do que eu dizia tinha algum valor ou sentido, então eu me calei. Vivi a minha adolescência, cheio de dúvidas, sem ter coragem de perguntar a alguém. Me fizeram crer, que ninguém estava disposto a me ouvir. Que eu não tinha nenhum conteúdo e o melhor que eu podia fazer, era silenciar. Sofri longos anos a solidão e a dor de não ter alguém para me escutar. Eu precisava falar. Ninguém quis me ouvir. Chorei tantas noites, rezando e pedindo ao Pai todo poderoso, que fizesse um milagre algum dia e enviasse alguém que me libertasse desta maldição. Que me dissesse, que podia falar e que iria me ouvir, mas foi em vão. O tempo passou, fui envolvido por más companhias e acabei vindo parar nesta prisão injustamente. Fui preso no lugar do verdadeiro causador de um desastre, que feriu muitas pessoas num acidente de ônibus. Não era eu. O criminoso que estava ao meu lado, quando tudo aconteceu, fugiu e todas as evidencias estavam contra mim. Queria poder falar. Tentar me defender. Mais um vez na vida, não me ouviram. Apenas me julgaram.
Eu continuei em silencio. Guardei em meu peito todos os meus sentimentos. Minha revolta. Eu quis morrer. Mas de repente, vinda do nada, uma mulher que eu nunca vi na vida, entra na prisão, invade meu coração com seu jeito suave e compreensivo. Me diz que eu posso falar. Que ninguém vai me proibir ou me castigar por isto. Que posso ser livre para voar. Que através da escrita, eu posso dizer tudo que eu sinto. Tudo que tenho guardado e preso a vida toda dentro de meu peito. Me diz também, que a literatura pode me fazer sair deste lugar. Que posso atravessar paredes, criar outros mundos. Que posso até mesmo, viver outras vidas, criar outras vidas. Que posso ser eu mesmo, ou qualquer coisa que eu quiser. Quando eu iria imaginar, que a minha liberdade estava o tempo todo ao meu lado? Que o portal mágico para ela estava em uma folha de papel e, que a chave era um simples lápis? Obrigado Dona Isabella! A senhora me libertou. Permitiu que eu acordasse a tempo de não cair de uma vez por todas, no abismo sem fundo da depressão!
Agora eu sei meu Deus, que você realmente usa formas inesperadas para nos fazer compreender muitas coisas na vida! Desta vez, você trouxe para dentro do inferno em que vivíamos nesta prisão, um anjo da literatura e eu estou livre afinal!
Enquanto todos os presos e Isabella, emocionados, ouviam João ler seu texto, em dado momento, quando ele levantou as mãos para o alto, segurando aquela folha tremula de papel, por um breve instante, todos tiveram a impressão de que aquilo que ele segurava, não era uma folha de papel. Que na verdade, ele estava segurando uma pomba branca. A pomba da paz, do espírito santo. Pronta para ser libertada de suas mãos e estar livre para voar quando ele a soltasse. Completando a magia do momento, a luz de um holofote pousou sobre as mãos de João, como se fosse a luz divina, abençoando aquela pomba da paz. Lagrimas corriam livremente dos olhos de todos os presentes naquele salão.
Isabella não pode deixar de imaginar, como seria lindo se aquela pomba voasse mesmo. Se ela pudesse dar a volta ao redor do mundo, levando uma mensagem muito especial a todos os humanos. A mensagem de que a verdadeira liberdade, a verdadeira paz, esta no conhecimento e que este conhecimento, só pode ser adquirido quando nos entregamos à magia e ao encanto da literatura.
Quando tudo acabou, quando todos se despediram demoradamente, cada um voltou para sua cela e Isabella voltou para o seu apartamento, mas daquele dia em diante, a vida de nenhum deles foi a mesma. Ela concluiu seu trabalho com louvor. O professor ficou impressionado com tudo que leu e passou a incumbir mais seus alunos de trabalhos como aqueles em diversas outras áreas. Isabella passou a receber cartas periódicas de todos aqueles homens que vivenciaram com ela aquela experiência inesquecível e que foi para ela, um presente de valor incalculável, mas o maior presente que ela poderia ter recebido, veio dois anos depois, numa caixa de papelão entregue via Sedex. Pequena. Parecia uma caixa de chocolates, ou alguma embalagem dos artesanatos feitos na prisão, mas dentro dela, havia um livro e quando ela leu o título e o nome do autor, seu coração disparou e lágrimas sentidas, da mais pura emoção, rolaram lentamente de seus olhos naquele momento tão especial.
O título do livro era “Um Escritor na Prisão.”
E o autor... era o João...


Autor: José Araújo





































sexta-feira, 21 de maio de 2010

JOSÉ ARAÚJO PARTICIPA DA ANTOLOGIA ESPECIAL BIENAL DE MINAS GERAIS 2010 - ALL PRINT EDITORA COM LANÇAMENTO NO EXPOMINAS DIA 23 AS 16 HORAS






A Antologia Especial Bienal do Livro de Minas 2010, terá a participação do escritor José Araújo com o conto "O Grande Concurso".
De fundo relexivo, o conto do escritor paulista faz uma alegoria entre as leis dos homens e as Leis de Deus.
Seus contos, onde os personagens vivem situações do cotidiano de todos nós, sempre terminam com uma profunda reflexão.

A trama vivida pelos personagens do conto se passa num famoso Shopping de São Paulo onde se realiza um grande concurso.Para ganhar o tão sonhado premio, um carro zero e importado, é preciso que se faça a coisa mais inacreditável que alguem possa fazer. Contudo, os concorrentes não contavam com o fato de que:
"Lei é Lei e tem que ser obedecida em qualquer situação, mesmo que para isto, seja preciso que se faça, a coisa mais inacreditável que alguém possa fazer."

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O ESCRITOR JOSÉ ARAÚJO AUTOGRAFA SEU LIVRO "POR UM MUNDO MELHOR" DIA 21 DE MAIO, ÀS 19 HORAS, NA BIENAL DE MINAS GERAIS 2010 STAND M09 USINA DE LETRAS


Depois do sucesso de vendas na Bienal do Livro do Rio de Janeiro em setembro de 2009, depois de ter encantado os paulistanos com seu estilo único de escrever contos, que são um bálsamo para o coração do leitor, o escritor José Araújo chega a Minas Gerais, terra de seus pais e de toda a sua família, que na sua maioria são das cidades de Passos de Minas, Bom Despacho e Belo Horizonte.

José Araújo traz em sua bagagem 56 anos de experiência de vida e muitos “causos” para contar através de seus contos baseados em acontecimentos do dia a dia, que o autor transforma de forma mágica e cativante, em emocionantes estórias que levam o leitor à reflexão e refletindo, muitas vezes ele se vê nitidamente nas situações vividas pelos personagens.

Seu livro Por um Mundo Melhor – Contos para Reflexão, foi escrito para leitores de todas as idades, para todos os sexos e tem encantado milhares de pessoas pelo Brasil afora, que em muitos casos, o adotaram como livro de cabeceira. Aquele livro que a gente quer ter sempre por perto para que possamos abri-lo em momentos difíceis em busca de paz, de fé, de esperança de uma vida melhor, com paz, amor, coragem e muita determinação. Isto explica o sucesso deste autor. Ele traz de volta o romantismo do passado, mas abordando de forma contemporânea os problemas que nos afligem no dia a dia. Ler este livro, nos faz acordar para a realidade de que para sermos felizes, precisamos correr atrás da realização de nossos sonhos e, por consequencia, fazendo deste mundo, um lugar melhor para se viver.

Não perca a oportunidade de conhecer este autor e sua obra na Bienal de Minas Gerais de 2010 em Belo Horizonte!

Dia 21 de maio às 19 horas, no Expominas, estande M09, da Usina de Letras Editora, o escritor José Araújo estará autografando para o público mineiro este livro que pode mudar sua vida para melhor, com o estímulo de positividade, bons sentimentos e muitas emoções.

Expominas, estande M09, Avenida Amazonas 6030, Bairro da Gameleira, Belo Horizonte, Minas Gerais.

domingo, 9 de maio de 2010

LÁGRIMAS DE DEUS NO CÉU DO SERTÃO...


O sol ardia e o calor era insuportável. Parecia que aquele dia estava sendo o mais quente do ano. A seca no interior do nordeste brasileiro era a pior das ultimas décadas. Severina com o olhar distante, dizia a si mesma que se não chovesse logo, não sobraria uma única alma viva para contar a historia de fome, de sede e de muito sofrimento naquele lugar. Não chovia há muito tempo. As cabras estavam morrendo e as poucas vacas que ainda estavam de pé, não produziam leite. Os animais estavam magros e fracos. As pessoas tentavam sobreviver e salvar seus filhos da morte certa como podiam. Os homens estavam sendo obrigados a caminhar longas distancias para conseguir trazer água, mas aos poucos, os outros vilarejos mais próximos tinham ficado sem um a gota de água se quer. As prefeituras tinham que enviar caminhões pipa com o liquido vital para matar a sede da população.

A coisa estava tão ruim que foi preciso fazer racionamento de água até mesmo dentro de casa. Quando o caminhão da prefeitura trazia água até cidadezinha mais próxima, Severina e seu marido Ericlênio iam buscar a fonte da vida em galões de alumínio que antes eram utilizados para carregar o leite das vacas para vender. Quando retornavam ao seu pequeno lar, o pouco de água que conseguiam trazer, era guardada num latão com tampa e que tinha uma torneira improvisada que seu marido colocou nele e, que eles deixavam debaixo de um cajueiro, o único lugar mais fresco que encontraram para que a água não se evaporasse com o calor. De qualquer forma, o cajueiro não ficava muito próximo à casa deles e era preciso uma boa caminhada para chegar lá. Não que fosse exageradamente longe, mas devido ao terreno irregular, da janela da cozinha só se podia ver os galhos mais altos da arvore. Naquele dia Severina achava que não iria suportar aquele calor.

Ela e sua família já tinham passado por maus bocados, mas aquela seca estava sendo demais para qualquer um. Sem chuva, sem mandiocas para fazer farinha, sem o leite das vacas, já havia quase nada para comer e principalmente, logo não haveria absolutamente nada para alimentar Minguinho, seu filho de apenas seis anos de idade, era o que mais lhe doía no coração. Ericlênio havia saído e ela estava na cozinha raspando um pedaço de rapadura para juntar com um resto de farinha de mandioca e dar ao seu pequeno filho. Olhando para fora ela parecia olhar, sem nada ver. Havia uma tristeza enorme naqueles olhos antes tão alegres e esperançosos. A seca no sertão era sempre implacável, mas agora, depois de tanto ouvir falar pelo rádio sobre o aumento da temperatura do planeta, Severina já estava acreditando que o fim de todos estava próximo.

Em dado momento algo chamou sua atenção e forçando um pouco a vista, ela viu seu pequeno filho caminhando em direção a onde estava o cajueiro. Ela não teria dado muita atenção ao fato dele estar andando pelos arredores, o que era usual, mas foi o jeito como ele estava caminhando que a deixou intrigada. Ela parecia estar indo até onde estava o cajueiro, mas indo com alguma missão a ser cumprida, não zanzando de lá para cá como era seus costume. O menino desapareceu das vistas de sua mãe, demorou um pouco a reaparecer, mas quando o fez, vinha andando com muito cuidado e ele vinha com suas mãos juntas, como se formando uma concha e ele trazia nelas algo que não dava para ver de longe. Severina ao vê-lo dirigir-se para os fundos da casa achou que poderia ter encontrado alguma coisa que o interessou e acabou por não se preocupar mais com o assunto.

Contudo, minutos depois lá ia ele de novo. Ao vê-lo andando desta vez, mais rápido e decidido na direção do cajueiro, ela resolveu averiguar melhor. De novo ele desapareceu de suas vistas, mas minutos depois ele vinha retornando e com suas mãos juntas, em forma de concha, trazia algo e seguia andando cuidadosamente na direção dos fundos da casa. “Este menino está aprontando alguma coisa!” Ela pensou. Com aquele calor miserável, se nem os animais mais fortes como os bois e as vacas estavam aguentando, como poderia um garotinho franzino e subnutrido como seu pequeno Minguinho sobreviver se abusasse muito de sua sorte? O que ela não esperava, era que iria aprender uma grande lição, testemunhando o único milagre que ela iria ver acontecer em sua vida.

Preocupada e curiosa, ela deixou o que estava fazendo e saiu discretamente pela porta dos fundos e sem que ele percebesse, ela o seguiu quando ele se dirigiu mais uma vez em direção ao cajueiro. Ao chegar lá, Severina viu quando ele se ajoelhou em frente ao tambor onde guardavam a pouca água que conseguiam e juntando as duas mãos, ele ficou aguardando a água cair nelas, gota por gota até que enchesse e depois, cuidadosamente ele se levantou, tentando manter o equilíbrio para não perder nem uma gotas e pôs-se a caminhar de volta para casa. Ela se escondeu bem para que ele não a visse e quando ele já estava ha alguma distancia, ela se aproximou do tambor e constatou que havia um pequeno vazamento água na torneira e o liquido precioso e vital se perdia gota por gota, sem parar. Severina virou-se e seguiu pequenino de volta para casa e como adulta, mais rápida do que ele, ela chegou primeiro cortando caminho para não ser vista e o esperou.

Quando ele chegou, foi direto para o quintal dos fundos e se dirigiu para onde havia o cercado onde ficavam as cabras, passou por baixo dele, se equilibrando com o maior cuidado e foi até onde haviam algumas cabras prostradas no chão, quase morrendo de fome e de sede e quando ela viu que ele ia passar junto ao velho bode, o mais bravo e perigoso que tinham e que ainda estava de pé e com forças suficientes para atacar Minguinho, seu coração quase parou. Se gritasse o bode poderia se assustar e ataca-lo, se ficasse quieta, talvez fosse pior, mas o que aconteceu a deixou sem ação. O velho bode olhou para o menino, balançou a cabeça devagar como se faz quando se concorda com alguma coisa, deixando-o passar e o acompanhou até onde estava um pequeno cabritinho. O pequenino era pele e osso e nem mais conseguia se levantar. Minguinho chegou perto dele, abaixou-se e com o maior cuidado aproximou suas mãos com a água que trazia nelas da boca do animalzinho. Sem forças nem para levantar direito a cabeça, com um tremendo esforço ele esticou sua pequena língua para tocar a água e Minguinho se abaixou o mais que podia para facilitar.

Presenciando aquela cena, os olhos de Severina encheram-se de agua. Lágrimas de pura emoção rolaram livremente sem seu rosto cansado e maltratado pela seca. Que ironia. Ela pensou. Não cai uma unica gota de chuva ha tanto tempo, mas bastou presenciar o que meu filho esta fazendo, para que elas aparecessem de dentro de mim. Quando o cabritinho conseguiu lamber toda a agua que havia em suas mãos, Minguinho se levantou e saiu correndo em direção a onde estava o tambor. Severina ainda emocionada o seguiu e aguardou seu retorno no meio do caminho, escondida atrás de uma grande rocha. Quando ele vinha voltando, ela saiu de seu esconderijo e se colocou em sua frente, impedindo sua passagem. Seu pequenino filho parou, levantou os olhos que encontraram os dela e eles se encheram de lágrimas. Com a voz embargada, Minguinho disse a ela que não estava desperdiçando água. Foi tudo que ele disse e começou a caminhar de novo. Ela saiu de seu caminho. Aquela era sua missão e ele a estava cumprindo. Severina não disse nada, apenas afastou-se e deixou passar.

Quando ele passou, ela o seguiu de volta acompanhando-o de perto. Ao vê-lo se ajoelhar ao lado de outro animalzinho caído no chão, tentando fazer com que ele bebesse a pouca água que tinha conseguido trazer na concha que ele fazia com suas pequenas mãos, mais uma vez e a emoção foi maior e as lágrimas caíram de seus olhos. Vendo aquele coração maior do que ele mesmo. Tão lindo e radiante que parecia ofuscar até mesmo a luz daquele sol que estava matando tudo e a todos naquele lugar, elas foram caindo, uma a uma e então, subitamente, ao caírem, outras gotas se juntaram a elas e outras mais se juntaram cada vez mais...

Estava chovendo! Mas como? Não havia sequer uma nuvem nos céus daquele deserto no sertão! Severina atônita olhava para o céu, enquanto seu filho e os poucos animais que ainda estavam de pé pulavam de alegria; recebendo as gotas de chuva como se fosse o maior presente que tivessem recebido em suas vidas. Lentamente, as gotas que vinham do nada foram molhando tudo naquele lugar. Era um milagre o que estava acontecendo. A vida finalmente estava sendo preservada.

A natureza se encarregaria de fazer germinar novamente as sementes das plantas que morreram e tudo voltaria ao normal. Depois daquele dia Severina sempre soube que provavelmente muitos iriam dizer que milagres não acontecem realmente, que tudo foi só coincidência. Afinal tem que chover em algum lugar e que naquele dia, a chuva sem nuvens deveria ter alguma explicação cientifica.

Mas ela decidiu que não iria discutir aquele assunto, nem ia tentar. Tudo que ela sabia, era que a chuva caiu sobre o deserto do sertão salvando o bem maior, a vida, exatamente como fez Minguinho, seu pequeno grande homem. Carregando em suas mãos aquela água que estava para ser desperdiçada, pingando da torneira e caindo na areia escaldante e que estavam sendo usadas por ele, carregando-a como ele podia, fazendo uma concha com as mãos, caminhando um longo percurso, após esperar que ela enchesse suas mãos, gota por gota, sem desistir, para salvar as vidas daqueles pobres animais.

Até hoje, quando ela se lembra daquele momento de suas vidas, em estado de extrema gratidão, Severina se ajoelha no chão e com as mãos levantadas em direção ao céu, com o coração batendo rápido de tanta emoção, sabe que aquela chuva que caiu naquele dia, vinda de lugar algum, sem uma nuvem no céu, só podia ser mesmo as lágrimas de Deus, caindo dos céus do sertão, enquanto ele chorava de emoção, de orgulho e satisfação, vendo cá embaixo, Minguinho, sua pequena grande criação, fazendo o que ele estava fazendo, cumprindo sua missão sem medir esforços, com toda a força de seu coração, em nome do amor.

Autor: José Araújo

domingo, 10 de janeiro de 2010

A ESPERA...




Num lugar distante, do outro lado do mundo, onde a neve, os ventos fortes e congelantes, associados ao frio cortante marcam seu reinado de forma penetrante, na mais alta das montanhas do lugar em um mosteiro milenar, um monge prepara um engradado feito de madeira, com pequenos buracos para respiração no qual ele vai enviar ao Brasil uma entrega muito especial.

Perto dele, uma ninhada de cachorrinhos brinca alegremente ao lado de sua mãe que esta deitada sobre algumas almofadas, preocupada com sua prole. Ao todo, ela deu a luz a oito cachorrinhos a pouco mais de um mês e o oitavo, mesmo sem saber, veio ao mundo com uma missão muito especial.

O monge ao terminar de arrumar o engradado, escreve num papel o endereço de para onde ele vai e aos cuidados de quem. Cautelosamente ele afixa o mesmo no engradado, procurando ver se estava bem preso, de forma que não se perca pelo caminho, assim ele pode ser entregue sem problema algum ao endereçado.

Com muito carinho, ele pega um dos cãezinhos, deixando que a mãe o cheire pela ultima vez e o coloca dentro do engradado, trancando-o com um cadeado, colocando a chave num envelope especial feito de plástico, prendendo-o no engradado como o fez com o endereçamento.

Lá fora os ventos não perdoam. Eles parecem querer carregar para longe tudo que se encontra à sua frente. Um cavalo montado por um mensageiro espera do outro lado do enorme portão do mosteiro. O monge protege bem o engradado com peles para que o cãozinho não morra de frio e com muita dificuldade abre a porta, dirige-se ao portão e o entrega ao mensageiro. Um último olhar para ver se esta tudo bem com o cãozinho e ele se despede do cavaleiro que aos poucos desaparece na tempestade de neve.

Assim começa esta historia emocionante que envolve um homem e um cão, onde a amizade sincera e verdadeira, o amor incondicional, a fidelidade e uma lealdade sem limites, muito além da imaginação pelos padrões de comportamento adotados por nós humanos nos dias de hoje, marcaram a existência de um cachorro muito especial.

Meses depois, após ter viajando muito a cavalo, ter viajado de trem centenas de quilômetros e atravessado oceanos em um navio cargueiro, finalmente, já com três meses de idade, o cãozinho chega ao porto do Rio de Janeiro. Durante toda a sua viagem, não houve uma só pessoa, que ao ler a etiqueta de endereçamento presa no engradado, não estranhasse um cãozinho sendo enviado de tão longe, para mais longe ainda. Todos que o viam, sempre se preocupavam com seu bem estar, alimentando-o como podiam e dando a ele água para beber sempre que possível, assim ele pode chegar bem, são e salvo ao Brasil.

Após o desembarque no porto, dentro de seu engradado ele foi entregue a uma empresa de transportes que se encarregaria de entregá-lo ao destinatário. Era uma sexta-feira, final de tarde e o motorista cansado de tanto trabalhar, acabou por resolver parar no meio do caminho para tomar uma cerveja e quando ele ia fazer o retorno para parar numa lanchonete de beira de estrada, o inesperado aconteceu. Um ônibus em alta velocidade atingiu a traseira da Van que transportava o cachorrinho e ela rodopiou na pista varias vezes antes de capotar. No auge do acidente, a porta traseira se abriu e carga se espalhou por todos os lados e com ela, o engradado que carregava o animalzinho caiu, sendo arremessado para longe, indo cair no meio do mato ao lado da rodovia. Com o choque, a tranca que estava presa pelo cadeado se quebrou e ele, meio atordoado, se viu livre no meio de lugar nenhum.

Assustado, ele começou a andar, subiu o barranco com dificuldade e chegou até o acostamento da via, olhou para os dois lados e se assustou com a quantidade de gente que havia parado para ver o acidente e com a fila de carros causada pelo congestionamento que havia se formado pelo que aconteceu. O pequenino ficou petrificado. Ele nunca tinha visto um carro, ou caminhão desde que nasceu. O que ele iria fazer agora? Para onde ele iria? Tudo que ele conhecia era o homem que o colocou no engradado e de passagem, todos os outros que de uma forma ou de outra cuidaram de seu bem estar durante a viagem. Entre gritos e muita discussão entre os dois motoristas que não morreram por milagre, ninguém notou que ali, bem ao lado deles havia um lindo cãozinho que tremia sem parar de tanto medo. Ele estava apavorado, inseguro, sem saber para que lado ir.

Ao lado da rodovia passava uma estrada de ferro, um trecho de uma das linhas da Central do Brasil. Em dado momento, ele ouviu o apito de trem que chamou sua atenção. Sem saber por que, ele seguiu caminhando rapidamente na direção de onde vinha aquele a som. Não demorou muito ele chegou até a escadaria que levava a uma estação que ficava nas proximidades. Nisto, já era noite, usando seu faro ele caminhou escada acima, tentando encontrar algum cheiro conhecido, mas nada encontrou. Não havia nada na plataforma. Nem uma alma viva estava lá para perceber sua presença. Triste e cansado, ele resolveu se deitar em cima de um dos bancos vazios onde os passageiros normalmente esperavam pelo trem. Mais de meia hora depois, ele já estava cochilando quando foi despertado pelo barulho do trem que estava chegando à estação. Mais uma vez ele começou a tremer. Aquele barulho enorme fazia até mesmo com que o banco de madeira onde ele estava deitado estremecesse. Era tudo tão assustador, tão ameaçado e não havia nenhum ser humano lá para ajudá-lo. De repente tudo mudou. Aquela coisa enorme, que soltava fumaça e apitava ferindo seus pequenos ouvidos abriu as portas e delas, uma multidão de gente começou a desembarcar.

Ele ficou em estado de alerta. Atento a tudo e a todos que passavam caminhando apressadamente pelo banco onde ele estava, resolveu pular no chão e seguir alguém. Instintivamente ele caminhava no meio daquela gente toda cheirando um por um. Ele, tão pequeno ainda, apenas uma bolinha de pelos, naquela noite escura e com a pouca iluminação da plataforma, quase não era percebido e os que se davam conta da presença dele nem ligavam. Caminhavam adiante sem dar a ele a menor atenção, afinal era apenas mais um cão como qualquer outro, numa cidade de animais abandonados e sem proteção.

Foi então que ele parou, sentou sobre suas patas traseiras e ficou apenas observando um por um. De repente, um par de pernas se deteve em sua frente e uma voz suave e carinhosa, numa língua que ele não compreendia começou a falar com ele. O cãozinho olhou para cima e um rosto amigável sorria para ele ao mesmo tempo em que fazia carinho em sua cabeça. De certa forma aliviado, ele não reagiu. Somente quando o homem se abaixou para vê-lo melhor ele deu um passo atrás. A voz daquele humano era tão calorosa e inspirava tanta confiança que ele resolveu se aproximar um pouco mais. O calor daquelas mãos era tão bom que ele não resistiu e se deixou ser acariciado. Preocupado com o destino do cãozinho, o homem o pegou no colo com dificuldade, pois carregava seu guarda-chuva e sua pasta contendo seu material de trabalho.

Enquanto ele caminhava em direção à sua casa, o bom homem se perguntava o que um cãozinho tão lindo como aquele estaria fazendo naquela estação de trem sem o seu dono. Ele era bonito demais e muito bem cuidado para ser um simples cachorro abandonado na rua. Alguém certamente o estaria procurando, mas quem? Onde? Isto certamente ele iria tentar descobrir. Para ele, todos os animais têm direito a ser bem cuidados como seres vivos que são. Carregado nos braços, sentindo o calor e as batidas do coração daquele humano, ele se sentiu seguro, protegido e num dado momento, para externar sua gratidão, ele lambeu o rosto de seu protetor. O homem sorriu, deixou que ele lambesse mais seu rosto e alegremente foi falando com ele. Sua voz era algo muito especial. Ela transmitia ao cãozinho muito carinho, muito amor e respeito. Naquele momento, ele sentiu bem dentro de seu pequeno coração, que mesmo sem entender uma única palavra do que o homem dizia, ele iria ficar com ele para todo o sempre. Ele estava feliz e aquele humano parecia estar também.

Ao chegar onde o homem morava, ele foi recebido pela esposa que ao ver o cãozinho em seu colo logo começou a falar alto e pelo que se podia sentir, não era nada bom. Agitado, o bom homem disse a ela que a permanência do cachorrinho seria só por uma noite e que pela manhã iria tentar encontrar seu dono para devolvê-lo. A reação dela foi dizer a ele que se ele quisesse que o pobre animal ficasse lá, ele deveria colocá-lo no quartinho dos fundos, mas nem pensar em entrar com ele em casa. Contrariado, mas sem ver outra solução, ele levou o cãozinho até onde sua esposa havia mandado colocá-lo, arrumou uma caixa de papelão, colocou dentro dela alguns panos para aquecer e deitou o animalzinho, gesticulando com a mão para que ele ficasse em silencio. Sua língua, ele não entendia, mas seus gestos eram universais. Ele já havia visto aqueles mesmos movimentos nas mãos do monge que ficou no lugar de onde ele veio.

Só, no escuro daquele quartinho, ele se lembrava vagamente de seus irmãos, de sua mãe e do lugar onde morava. Era tudo tão diferente. Naquele lugar aonde ele veio parar, não havia neve, nem vento. Fazia um calor constante e mesmo à noite era um contraste gritante comparado ao clima de sua terra natal. Após muito tempo ele adormeceu. Foi difícil pegar no sono porque ele sentia falta de ouvir aquela voz que o tratava com tanto carinho. Ele sentia falta do calor do corpo daquele homem e do toque de suas mãos. Seu ultimo pensamento, antes de adormecer, foi que daria tudo para estar lá, dentro daquela casa onde vivia aquele homem. Ele queria poder estar ao lado dele para poder sentir-se protegido e que aquele humano se preocupava com ele.

O sol já havia raiado quando ele acordou ouvindo vozes e quem estava falando, o fazia com um tom que não agradou aos seus ouvidos e ele ficou atento, ouvindo, procurando reconhecer no meio daquilo tudo aquela voz que tanto o acalmou. Uma pancada se fez ouvir. Era uma porta que havia sido fechada com força quando a mulher entrou em casa falando em voz alta que ele se virar e que dar um sumiço no animal. Ele não compreendeu o que ela disse, mas sentiu e aquilo lhe fez um mal enorme ao seu pequeno coração que começou a bater mais depressa. Era o medo e aquele sentimento ele já conhecia bem.

Ocorreu que o homem veio até o quartinho, abriu a porta devagar, olhou para ele e com o largo sorriso, cheio de bondade, disse a ele naquela mesma voz pela qual ele se apaixonou que iria trazer algo para ele comer gesticulando com as mãos. Ele compreendeu e começou a abanar seu rabinho alegremente. O homem disse que ele era um bom garoto e saiu. Quando ele voltou, trouxe uma vasilha com leite, alguns pedaços de pão que depositou na frente dele e passou a observá-lo comendo alegremente. Enquanto ele se alimentava, parava de vez em quando, olhava para o homem e abanava o rabo todo satisfeito. O homem emocionado, apenas sorria. O pequenino sabia que nunca mais iria esquecer aquele sorriso. Nele estava a representação de tudo que ele mais precisava agora.

O homem era professor de artes plásticas e dava aulas no centro do Rio de Janeiro. Todos os dias ele pegava o trem no mesmo horário pela manhã para ir trabalhar e sempre chegava no mesmo horário à tarde. Morar no subúrbio não era nada fácil, mas ele tinha quatro filhos e a esposa para cuidar. Não havia alternativa, a vida inteira ele trabalhou duro para sustentar a família e agora, mesmo já estando na faixa dos cinquenta, ele continuava a sua luta do dia a dia pelo ganha pão. Na verdade, a resistência de sua esposa em aceitar o cãozinho foi porque eles tinham uma cadelinha que viveu com eles muitos anos, mas ela ficou doente e morreu há pouco tempo atrás. Todos a adoravam e a esposa do professor que ficava em casa a maior parte do tempo era quem mais gostava da cachorrinha. Foi um choque e ela prometeu que nunca mais iriam ter outro cão.

As crianças, ou pelo menos eram chamadas assim, apesar de estarem todas criadas e cursando a faculdade, sempre diziam que a casa estava muito triste desde que Dérlica, a cachorrinha se foi.

O professor esperou o cachorrinho terminar de comer, fez sinal a ele para que ficasse quietinho, saiu e fechou a porta atrás de si. Inconformado, ele se levantou, foi até a porta que tinha uma fresta na madeira e ficou olhando o homem se distanciando até que saiu pelo portão e se foi. Triste, ele voltou para o lugar onde dormiu e se deitou. Foram horas intermináveis até que alguém aparecesse. O barulho da maçaneta sendo girada chamou sua atenção. Quando ela se abriu, ele não pode acreditar. Em vez de um sorriso amistoso, havia quatro! Todas aquelas pessoas falavam animadamente com ele e mesmo sem compreender, ele sentiu e entendeu. Logo depois uma voz pareceu estar chamando por eles em tom reprovador. De repente eles se foram e ele mais uma vez ficou só.

Os filhos do casal ficaram apaixonados pelo cãozinho e todos juntos foram até a mãe deles pedir que deixasse o bichinho ficar. A resposta foi não. Tristes, eles esperaram ansiosamente o pai chegar do trabalho e mal ele entrou em casa eles o abordaram fazendo todos os tipos de carinhos nele pedindo a ele que falasse com a mãe deles sobre o assunto. Eles queriam muito poder ficar com ele. Desde a morte de Dérlica a cadelinha, a casa ficou triste demais. Eles queriam que a alegria voltasse a viver naquela casa. O professor disse aos filhos que iria tentar, mas não poderia garantir nada se a mãe deles não quisesse. A ansiedade se instalou em seus corações. O cãozinho ainda não compreendia as palavras ditas por eles, mas ele as sentia e de alguma forma ele sabia o que estava acontecendo.

Enquanto sua esposa estava fazendo compras no supermercado, o professor foi até o quartinho, limpou as sujeiras feitas pelo cãozinho, o alimentou o melhor que pode, deu a ele uma vasilha de água e sorrindo como sempre, ele se foi. Quando ela chegou, ele pediu a ela que reconsiderasse sua decisão sobre o cachorrinho e ela foi taxativa, dizendo que não. Ele suplicou a ela para que pelo menos o deixasse ficar no quartinho até ele encontrar alguém que o quisesse adotar. Relutante, mas não querendo ser ditadora, ainda relutante ela concordou. Passaram-se dois dias e apesar dos esforços do professor, ninguém com quem ele conversou se habilitou a ficar com ele.

No terceiro dia, a esposa do professor estava lavando a louça na cozinha e pela janela ela o viu brincando com o cãozinho no quintal. Ele parecia uma criança. Deitava e rolava no chão com o bichinho e o cãozinho fazia de tudo para agradá-lo. Aos poucos, vendo aquela cena de alegria e descontração depois de tantos meses de tristeza no coração daquela família, ela se perguntou se aquele animalzinho não havia sido enviado a eles para trazer de volta a alegria que perderam quando Dérlica se foi.

Observando aqueles momentos repletos de alegria e descontração, ela não percebeu que sua filha mais velha estava ao seu lado assistindo tudo e com os olhos cheios de lágrimas. Quando ela percebeu, as duas se olharam, se abraçaram e deixaram as lagrimas de emoção fluir livremente de seus olhos. Mãe e filha choravam ao ver os dois brincando juntos como duas crianças e os dois se divertiam como nunca em suas vidas com uma bolinha de borracha que tinha sido da cadelinha que morreu. Eles sem dúvida nenhuma estavam unidos por um sentimento muito forte e este sentimento, não se restringia somente aos dois, ele se alastrava por toda a família como não poderia deixar de ser.

O telefone da cozinha tocou. A esposa do professor atendeu e era uma pessoa que tinha sido informada de que eles estavam doando um cãozinho. Com o telefone encostado ao ouvido, olhando aqueles dois meninos brincando na grama do quintal dos fundos, ela disse que sentia muito mesmo, mas o cãozinho já havia sido dado a alguém.

Para quem até então não tinha nome, naquele mesmo dia em meio a muita bagunça e alegria entre todos da família, mas principalmente no coração do professor, depois de terem sido colocados em votação vários nomes, ele ganhou por unanimidade o nome de Bob e daquele dia em diante, definitivamente Bob nasceu no seio daquela família que o acolheu de coração.

Com o passar do tempo, Bob foi crescendo, aprendendo a língua estranha que eles falavam e aos poucos ele já entendia tudo que todos diziam e ele estava feliz. Ele estava ao lado daquele homem que o encontrou na estação e que ele escolheu para ser seu amigo até o fim de seus dias. Que mais ele poderia querer? Bob trouxe de volta a vida ao seio daquela família. Ele passou a ser parte de suas vidas como Dérlica a cachorrinha um dia o foi. Mas ele era diferente e o tempo iria se encarregar de provar isto a todos.

Bob aprendeu a atender aos chamados da dona da casa, aos pedidos das crianças que não mais eram crianças, mas principalmente, aprendeu os horários em que seu melhor amigo saia para trabalhar e também a que horas ele voltava para casa. Um dia, ele viu quando o professor saiu para o trabalho fechando o portão de madeira atrás de si. Inconformado, Bob cavou com as patas um buraco por debaixo da cerca e fugiu atrás de seu dono. Ele precisava saber aonde ele ia todos os dias. Quando o trem chegou à estação e o professor estava prestes a embarcar, Bob apareceu. Naquele momento, atrasado para o trabalho, ele tentou fazer Bob voltar para casa sozinho, mas foi em vão. Ele ficou parado no lugar onde estava olhando nos olhos de seu melhor amigo. Emocionado, o professor resolveu levá-lo para casa e ao chegar lá, disse a ele que ficasse lá a sua espera, pois no final da tarde ele estaria de volta. Bob não demonstrou, mas entendeu.

No final do dia, quando o trem chegou à estação, da janela o professor pode ver Bob sentado sobre as patas traseiras em cima de um dos bancos de espera e ele estava em posição de alerta. Ele soube naquele instante que aquele cachorro que ninguém nunca soube de onde tinha vindo e que surgiu como milagre em sua vida o estava esperando e sorriu. Ao descer as escadas do vagão onde estava e percebendo que Bob o havia visto, ele o chamou, Bob pulou do banco onde estava e foi correndo ao seu encontro. Foi um encontro emocionante. O professor o abraçou e o beijou chamando-o de amigão. Uma cena tocante e incomum que trouxe lágrimas aos olhos de muitos passageiros mais sensíveis que presenciaram o carinho que havia entre os dois.

O tempo passou, Bob foi crescendo mais e mais, os filhos do professor se formaram, foram se casando e formando suas próprias famílias e ele acompanhou de perto tudo que aconteceu ao longo dos anos. Nas festas, Bob estava sempre presente e era a atenção de todos os convidados. Ele era educado, não fazia nada que não devesse fazer e quase nunca latia. Quando se manifestava, era com abanos de rabo, com lambidas amorosas e com olhares e gestos que todos compreendiam. Bob não parecia um cão. Ele parecia mais um anjo que tinha vindo do céu para cuidar de todos, mas principalmente do professor.

Todos os dias, ano após ano, Bob ia com o professor até a estação, esperava que ele tomasse o trem e depois voltava para casa. Todos na redondeza o conheciam e admiravam o carinho e amor que ele tinha pelo professor. Quase sempre ele ganhava de alguém um presente pelo caminho. Era um pedaço de carne, uma linguiça, um pão ou até mesmo comida. As pessoas passaram a amar Bob pelo que ele era e pelo que ele representava na vida do professor. Quando o trem chegava ao final da tarde, era sempre a mesma alegria no encontro dos dois. Era como se eles não se vissem há longo tempo e assim, com o calor da amizade, do amor, do carinho e absoluta devoção que havia entre eles, os anos foram se passando, os dois envelhecendo, os netos do professor chegaram e a vida seguiu seu rumo como tinha que ser. Nas horas de folga em finais de semana, os dois corriam pelos parques da redondeza, pelos campos de futebol onde a garotada jogava as peladas todos os dias. A alegria e a vontade de viver sempre fizeram parte da vida dos dois e ela se irradiava, envolvendo a todos os outros componentes da família e de todos os amigos e conhecidos.

Ao longo dos anos Bob nunca falhou em ir receber o professor na estação, mas num certo dia, quando o trem parou e ele foi desembarcar, procurou seu amigo ansiosamente com os olhos, mas foi em vão. Bob não apareceu. O professor perguntou a todos que conhecia se haviam visto seu cão, mas a resposta de todos foi não. Preocupado, ele se apressou para chegar em casa para saber o que tinha acontecido. Chegando lá ele procurou Bob pela casa toda. Perguntou à esposa se sabia do paradeiro do cão, mas ela disse que não. Bob nunca foi de latir, mas de repente, o professor ouviu seu latido vindo dos fundos da casa e com o coração batendo a mil por hora ele correu em sua direção.

Quando chegou perto do quartinho onde Bob ficava quando surgiu em suas vidas, ele percebeu que a porta estava bloqueada com uma infinidade de sacos de cimento que foram entregues naquela tarde e que por descuido dos entregadores não permitiram a saída de Bob de sua prisão. Quando ele conseguiu liberar a porta, Bob pulou em cima dele e o cobriu de lambidas. Quase era possível ouvir as batidas do coração dele de tanta excitação. Bob e o professor eram amigos, mas amigos de verdade e que fariam de tudo para estar ao lado um do outro.

Os anos se passam e certa manhã, quando o professor ia sair para trabalhar, Bob teve uma reação inesperada. Ele se colocou no caminho entre o professor e o portão que dava saída para a rua e começou a latir. Latir nunca foi sua especialidade, mas naquele dia além de latir ele dava voltas em torno de seu corpo na frente do professor, como se quisesse dizer a ele que não deveria ir. Ele compreendeu o que Bob queria dizer, mas disse a ele que estava atrasado e não poderia faltar ao serviço, principalmente naquele dia, pois era dia de prova de seus alunos. Bob não se conformou. Ao saírem para a rua como sempre o faziam em direção à estação, ele tentou fazer seu amigo parar e voltar para casa, mas não conseguiu. Ao chegarem à estação, o trem já estava para partir, o professor correu para subir no vagão e Bob muito nervoso e agitado latiu mais uma vez, como se suplicasse que ele não fosse. Os dois se olharam, o professor sorriu e aquele foi para Bob o mesmo sorriso que ele recebeu dele no dia em que o encontrou e seu coração bateu acelerado quando o trem partiu.

No final da tarde, quando Bob voltou à estação no mesmo horário de sempre para esperar pelo professor, o trem chegou, mas ele não desembarcou. Bob esperou o próximo trem, o próximo e até o ultimo, mas ele não chegou. Triste, com o a rabo entre as pernas, ele caminhou lentamente de volta para casa e quando lá chegou, não havia ninguém. Cansado de esperar e com fome, Bob deitou-se em frente à porta da sala e lá ele adormeceu.

No dia seguinte pela manha, um carro parou em frente à casa do professor e os filhos dele vieram ao encontro de Bob. Feliz por vê-los de novo ele se levantou abanando o rabo, mas ao invés de sorrisos, havia lágrimas escorrendo naqueles rostos onde ele sempre tinha visto sorrisos de alegria e felicidade. Ele não entendia o que estava acontecendo, mas sabia que algo estava errado, mas fosse o que fosse, teria que ficar para depois, pois quando chegasse o final da tarde, ele estaria fielmente sentado no banco de madeira da estação à espera da volta de seu maior amigo.

O dia se passou, pessoas vestidas de preto entravam e saiam da casa do professor. O movimento e agitação era tão grande que se esqueceram de dar a ele o que comer e beber. Bob não estava preocupado com isto. Tudo que ele queria era estar com seu amigo. O portão estava trancado na hora costumeira de Bob sair para ir à estação. Desesperado por não ter ninguém mais em casa para soltá-lo ele não viu alternativa. Com o passar do tempo muitas coisas mudaram, o muro era alto com um portão de ferro e com pontas de lança em cima dele e se Bob tentasse pular e errasse o pulo, talvez fosse seu fim. Ele já sabia disto, pois tinha visto um ladrão ficar preso lá quando estava tentando fugir ao invadir a casa pela madrugada. Risco? Quem na vida não corre riscos? Porque ele deveria pensar primeiro nele e depois em seu amigo? Decidido, Bob caminhou até o fundo do quintal. De lá, ele calculou a velocidade e altura do pulo para chegar ao lado de fora e começou a correr. A velocidade foi aumentando a cada pisada que ele dava no chão, até que em determinado momento, Bob deu um impulso para cima e para frente e o enorme cão voou por cima do muro, como num filme rodado em slow motion, com sua barriga passando a milímetros das pontas de lança.

O pouso do outro lado não poderia ter sido melhor. Ele caiu em cima de um monte de areia que o professor tinha mandado descarregar em frente ao muro para começar uma reforma nos fundos. Bob mal aterrissou e já disparou a toda velocidade em direção à estação. Estava quase na hora do trem chegar e ele não poderia desapontar seu amigo. Ele não via a hora de ver novamente aquele sorriso que tanto amava. Lamber aquele rosto para ele sempre foi o maior premio de sua vida. O trem tinha acabado de parar na estação quando Bob chegou. Com as orelhas em pé, sentado sobre as patas traseiras no mesmo banco de sempre, ele esperou, mas seu amigo não chegou.

Somente quando o ultimo trem passou foi que ele voltou para casa. Ao chegar lá o portão estava aberto. Ele entrou, foi até a porta, tentou abri-la na esperança de seu amigo estar lá, latiu, mas não houve resposta. No dia seguinte, a esposa do professor parecia muito triste e os filhos dele já não mais estavam lá. Um homem esquisito apareceu, apontando para todos os lados da casa, como se ela fosse dele e Bob não gostou do que sentiu. Uma semana se passou, todos os dias ele ia até a estação esperar seu amigo, mas ele nunca mais voltou. Bob nunca compreendeu, mas nunca iria desistir de rever aquele homem que ele amava tanto.

Num domingo, um caminhão encostou em frente à casa onde moravam e muitos homens começaram a retirar as coisas de dentro dela e foi então que ele compreendeu. Iriam embora dali sem o seu amigo! Isto ele não iria deixar acontecer! Como um raio, Bob saiu correndo pelo portão que estava aberto e foi direto para a estação. Quando lá chegou foi recebido pelo rapaz que vendia pipocas que perguntou a ele o que estava fazendo por lá. Ele ouviu, mas não compreendeu. Era muito cedo ainda, mas ele iria ficar lá até a hora de seu amigo chegar. Ir embora com a esposa dele, não era aquilo que coração dizia a ele para fazer e lá ele ficou, até o ultimo trem passar. De novo ele não chegou, mas Bob não iria desistir. Um dia ele iria voltar e mesmo que isto levasse uma vida inteira, ele iria esperar seu amigo.

Todos os dias, infalivelmente, no mesmo horário, Bob chegava à estação e só ia embora quando passava o ultimo trem. A estas alturas ele dormia embaixo de viadutos para se proteger do frio ou da chuva, mas com alimentação ele nunca teve problemas. Pessoas que conheciam a ele e ao professor, emocionadas faziam questão de alimentá-lo e cuidar para que não faltasse nada para comer. Ninguém compreendia aquela atitude dele. Como um cão poderia ser tão fiel e devotado a ponto de esperar tanto tempo pela volta de seu dono que já havia morrido há quase dez anos atrás.

Certo dia, a esposa do professor voltou ao bairro para matar as saudades. Dez anos tinham se passado desde a morte do professor que teve um ataque repentino de coração e faleceu em sala de aula. Foi por esta razão que ele não voltou, mas Bob não sabia disto e para a surpresa dela, quando passou em frente à estação, lá estava ele. Velho, pelos grisalhos, olhos cansados, mas sentado sobre as patas traseiras no mesmo banco de sempre à espera de seu amigo.

Ela não se conteve. Com lágrimas correndo livremente em seu rosto, ela aproximou-se de Bob, acariciou sua cabeça, ele voltou-se para ela por alguns segundos e novamente olhou na direção de onde viria o trem. Com voz embargada, ele disse a ele que também sentia muita falta do professor e compreendia muito bem a dor da separação. Abraçada a Bob, ela pediu a ele permissão para esperar ao lado dele pelo próximo trem. Ele se virou para ela, como se compreendesse o que ela havia dito, lambeu seu rosto e lado a lado eles ficaram lá à espera do trem.

Passou o primeiro trem, o segundo e como sempre, o ultimo trem passou e o professor não chegou. Bob parecia cansado, exausto e ela também. Ele se levantou e caminhando devagar ele se foi sem olhar para trás. Ela compreendeu e seguiu seu caminho. Ao chegar à casa de seus filhos, soube que durante todos os anos que se passaram, Bob não havia falhado um só dia em estar presente à chegada do trem na estação e que só ia embora para o seu canto quanto o ultimo trem passava. Os netos do professor já estavam grandinhos e todos eles amavam ouvir as estórias sobre Bob e seu avô. Para eles Bob era um exemplo de lealdade, de fidelidade e de amigo.

Mais alguns meses se passaram, até que numa noite de muita chuva no Rio de Janeiro, Bob, mais cansado do que nunca em sua vida, dirigiu-se mais uma vez para a estação. Ele sabia de alguma forma que seu amigo jamais o deixaria. Que um dia ele voltaria para ele e quando isto acontecesse, seria o dia mais feliz de sua vida desde que ele se foi. Aqueles pensamentos deram forças a ele para chegar até o banco na estação e com muita dificuldade, ele conseguiu subir nele e lá ele ficou. Chegou o primeiro trem, mais outro e mais outro, o tempo só estava ficando pior e a chuva estava cada vez mais forte, ventava muito, mas Bob não iria sair de lá até o ultimo trem chegar.

O ultimo trem chegou. Poucos passageiros desceram. Já era de madrugada e com aquele tempo ruim poucos se arriscavam a andar pelas ruas naquelas condições. O professor mais uma vez não chegou. Naquele dia ele não se levantou para ir embora como fazia todos aos dias ao longo dos anos. Seu corpo estava pesado. Ele não tinha forças para se levantar. Um sono enorme foi tomando conta de Bob e ele mal conseguia manter seus olhos abertos. Aos poucos, ele foi cedendo àquele sono que o estava dominando e foi cerrando lentamente seus olhos. Mesmo antes que eles estivessem totalmente fechados, tudo foi escurecendo à sua volta. Ele se lembrou de quando era pequeno, quando o professor o colocou no quartinho dos fundos por ordem de sua esposa e do medo que tinha de ficar só. Lembrou-se da alegria que sentia quando pela manhã seu amigo abria a porta e com um sorriso lindo estampado no rosto fazia com todo seu medo e insegurança se dissipassem como mágica.

Finalmente tudo ficou escuro. Bob não abriu mais os olhos. Aos poucos, uma luz infinita foi surgindo ao longe no meio de toda aquela escuridão. Ela foi se aproximando e iluminando tudo à volta dele e de dentro dela, uma voz se fez ouvir. "Bob! Voltei amigão!” Bob abriu os olhos, mas ele não estava acreditando no que ouviu. Tentando enxergar melhor o que havia no meio daquela luz intensa que brilhava à sua frente, Bob reconheceu o professor. Com aquele mesmo sorriso de sempre, com a mesma voz suave e carinhosa ele havia dito a ele que tinha voltado! Bob não sentia mais cansaço. Não sentia eu corpo pesado. Ele se levantou com a mesma agilidade e vitalidade que tinha quando era jovem e correu em direção à luz onde encontrou finalmente seu amigo.

Os dois se abraçaram como nunca, Bob lambeu o rosto de seu amigo como sempre o fez, com amor, com carinho. Ele recebeu muitos afagos, muitas palavras de amor e amizade. Bob pulava de alegria e o professor sorria observando feliz o seu melhor amigo. Ainda era noite para todas as outras pessoas e animais na cidade, mas para eles não. O sol brilhava nos céus do Rio de Janeiro a primavera havia transformado a cidade num jardim multicolorido sem igual. Despreocupados, os dois saíram correndo pelas praças e pelos parques da cidade, exatamente como faziam antes do professor partir. Agora eles estavam vivendo no paraíso. O que importava para os dois é que eles estavam alegres, livres, leves e soltos, mas o mais importante de tudo e o que Bob sempre desejou do mais fundo de seu coração, eles estavam juntos de novo e, desta vez, para sempre...

Às vezes, vale à pena esperar...

Autor: José Araújo