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domingo, 11 de maio de 2008

PADRÕES...


Ano de 1969, madrugada de domingo e eu não conseguia dormir, tamanha minha excitação, eu ia ver o mar pela primeira vez!

Nossa viagem iria começar às 04:00s e eu não via a hora de partir, eu havia me deitado na véspera e fiquei o tempo todo olhando para os ponteiros do relógio, como se quisesse com a força do pensamento fazer o tempo passar mais depressa e a ansiedade me consumia.

Só sei que dormi talvez no máximo umas duas horas naquela noite e quando chegou a hora de partir, meu coração batia mais rápido e era como se eu estivesse sendo levado para receber um prêmio, há muito desejado.

Naquela época as viagens não eram tão confortáveis e tão rápidas como hoje, mas ir num ônibus de excursão, tinha vantagens que nos de trajeto convencionais não estavam disponíveis.

Me lembro que durante a descida da serra de São Paulo para o litoral paramos três vezes e as paisagens que pudemos admirar, eram de fazer qualquer ficar pasmo com a exuberância da natureza da mata atlântica.

Eram cachoeiras que despejavam suas águas a dezenas de metros acima no topo das montanhas, fazendo com que as águas se dissipassem durante a queda, transformando-se em gotas que formavam uma chuva quente e deliciosa quando chegava a nós cá em baixo onde estávamos parados.

A mata, com suas plantas molhadas pelas gotas de água caídas das cachoeiras exalava um perfume fantástico, que era um misto de cheiro de madeira molhada com cheiro de ervas e flores silvestres, era para mim um sonho sendo vivido ali naquele exato momento.

Levamos três horas para chegar ao litoral e durante este tempo de viagem, aproveitamos o máximo que pudemos nas paradas que fizemos pelo caminho.

Nosso destino era a cidade de Itanhaem, mais precisamente a Praia dos Sonhos onde chegamos às 07:00s e quando o ônibus se aproximou da orla marítima e o mar se tornou visível, não posso descrever exatamente o que senti, pois foi uma mistura de tudo, êxtase, excitação, alegria, encantamento, medo, paixão à primeira vista, respeito e contemplação da imensidão do que significa estar vivo.

Nossa parada era um Hotel que ficava do lado direito da Praia dos Sonhos, bem em cima dos rochedos e foi lá que descemos do ônibus e eu sem poder me conter, fui correndo para a areia da praia, já com os pé nos chão, para sentir o prazer de ter os grãos infinitamente pequenos sob meus pés, causando aquela sensação de grandeza de enormidade de ser gente, de estar vivo e fazendo parte integrante da natureza.

Todos os outros garotos que foram na excursão, mais do que depressa foram colocar seus trajes de banho e caíram na água imediatamente, porém eu não.

Rodeando o Hotel, haviam rochedos estonteantes para mim e o som do mar arrebentando-se nas pedras, me atraiu mais do que ir para a água com os outros e fui andar pelas pedras e admirar a força e a imensidão do mar em toda sua magnitude.

Eu era muito jovem, mas tinha algo que me diferenciava dos outros garotos da minha idade, eu já pensava muito e aprender sobre o mundo e as coisas que o compunham, eram mais que um prazer.

Fiquei nas pedras muito tempo, horas mesmo, observando as ondas e seus padrões, queria compreender como e porque elas se formavam e porque sempre se arrebentavam nas pedras ou morriam nas areias da praia, só queria entender para poder aprender e poder compreender a voz do mar.

Neste ponto, falar sobre a voz do mar é algo que pode parecer incompreensível para alguns, mas para mim, desde o primeiro momento em que ouvi o som do mar, pude sentir no mais profundo intimo de meu ser, que ele estava falando, sim falando em sua própria linguagem, em seu próprio idioma, que ele estava vivo, que era forte e poderoso, que poderia ser muito bom, mas muito cruel também, dependendo de como ele fosse tratado, que ele é um ser vivo como qualquer outro, que sente dor, alegria, tristeza, paz, tranqüilidade ou no extremo oposto, a mais completa fúria e revolta quando é agredido.

Observando as ondas e seus padrões, estudando-os pude compreender como agiam e quais os fatores que traziam alterações em seu comportamento e foi como se o mar, ele mesmo falasse dentro de minha cabeça, que eu era parte dele mesmo, que mesmo nunca tendo estado perto dele nos meus quinze anos de vida eu sempre havia sido parte dele, talvez até mesmo por toda uma eternidade.

Padrões na vida e na natureza são comuns, mas os padrões também podem sofrer alterações e o mar, é a maior prova de que nunca se pode confiar totalmente em padrões, que nunca se pode confiar cegamente em coisas que são comuns e constantes em nossas vidas, que elas podem mudar, assim como o mar muda os padrões de seu comportamento, quando a natureza e as circunstancias ao seu redor o obrigam a mudar a direção e a intensidade das ondas, causando em determinadas situações, imensas arrebentações tão violentas, que destroem tudo que encontram pela frente.

Assim como o mar, nossa vida pessoal é cheia de padrões, de situações que são tão costumeiras e continuas que muitas vezes confiamos demasiadamente em suas constâncias e acabamos sofrendo muito com as alterações repentinas que ocorrem, sem que estejamos preparados para isto.

É comum e muito confortável confiar num padrão de comportamento para com as pessoas que amamos e esta confiança, pode ser a causa de muitas tristezas que sofremos e mesmo sem saber nós somos os causadores destas mudanças, que tanto nos afetam.

Assim como o mar sofre alterações em todo o seu ser durante uma tempestade, alterando os padrões das ondas que se comportam totalmente diferentes de quando o céu esta limpo e o vento sopra suavemente, nossas vidas também são afetadas pelas mudanças repentinas dos padrões que nos são tão comuns.

O mar tem seus padrões criados pela natureza e mesmo assim, eles podem ser alterados de acordo com as circunstancias que se apresentam ao longo dos tempos, porém, nós seres humanos criamos nossos próprios padrões e muito convenientemente acreditamos que eles serão eternos e não nos preocupamos com as circunstancias em que vivemos, nem como nos comportamos em relação às pessoas que amamos, crendo piamente nos padrões que nós mesmo criamos e é ai que muitas vezes perdemos na vida pessoas que verdadeiramente amamos, por não nos preocuparmos com as mudanças dos padrões que criamos.

Ele de alguma forma faz parte de mim, de minha alma e ele sempre me ensina com sua voz que ecoa dentro de minha mente, desde o primeiro momento em que o vi, como se telepáticamente ele se comunicasse comigo desde então, me dizendo que na vida, um marinheiro pode escolher o vento que pode levar seu barco a um porto seguro, mas o vento pode ter em mente sua própria direção, escolhendo rotas diferentes da que estão na mente do marinheiro e no final, ao invés de aportar num porto seguro, seu navio entra em tempestades violentas e pode naufragar levando com ele, marinheiros e tripulantes, sem dó nem perdão.

O mar me ensinou que não podemos confiar cegamente em padrões que nós mesmos criamos em nossas vidas, pois padrões também mudam, assim como pode mudar o vento que o marinheiro escolhe, levando seu barco a um destino desconhecido, onde só Deus sabe o que pode o espera, as consequencias negativas do que pode haver lá, podem ser irreversíveis.


Autor:Jose Araujo

Fotografia: Jose Araujo -Título: Beach Boy (Acervo particular 2007)



5 comentários:

Bruno disse...

oi papai eu achei sua historia muito interessante sobre um menino que ficava varias e varias horas olhando as ondas se quebrando nas rochas
GOSTEI MESMO DO SEU TEXTO
beijos

Anônimo disse...

Padrões de comportamento são vários, sinceridade em algum desses comportamentos??? Quase nenhuma. Pessoas tendem a seguir cliches, moda, e se esquecem de q ser verdadeiro, ter seus próprios pensamentos e sentimentos são o q realmente conta na vida real.

Rose.

Nadja disse...

Oi maninho
Sempre observei o mar e suas nuances, ele apesar de muito traçoeiro me transmite paz e o som que emite é algo incomparável. Vc descreve muito bem as suas variações, se ficarmos horas olhando, veremos que nunca uma onda chega igual a anterior, dependendo do vento tanto está sereno como irado.
Assim é nossa vida, nada é padronizado, temos as nossas marolas e às vezes, tsunamis que chegam sem que estejamos preparados para recebe-los.
Amo a sua maneira de narrar com detalhes tudo aquilo que sente quando escreve, já te falei e volto a repetir, seu texto parece ter som, eu consigo ouvir sua narrativa e fico feliz com a sua majestade como escritor.
Bjkas meu rei querido, perfeito como sempre.

mdb disse...

Jose o mar é mesmo possuidor de um magnetismo que nos atrai,sinto também o som como seu próprio idioma. Meu prazer é sentar à tarde no pôr do sol e ficar ouvindo o mar. Sou capaz até de dormir com o som magnífico das ondas.Mas o mar me dá medo com seus padrões, não sabemos como estará amanhã.

Quanto ao marinheiro eu tenho um aqui em minha casa que uma vez ao mês, vai enfrentar o mar e seu padrão e fico aqui em terra esperando a volta no outro dia. É um pescador de mar e só pesca durante à noite e nessas horas o mar é traiçoeiro e meu filho já enfrentou muitos padrões como mudanças, chegando a pensar que não voltaria mais para o continente. Só que a atração que sente pelo mar não o faz desistir.
Tem certos padrões que são lógicos mas outros é pura competição de modas e tipos, dessa eu quero distância.Meus padrões eu mesmo os faço.

Jose me deu saudade do mar está chegando época boa de visitá-lo.
Perfeito meu escritor preferido.Marilene Dias.

Família disse...

Meu grande amigo , veja como vc conssegue captar os movimentos do mar com os das pessoas, meu caro se vc fizer as comparações vai ver como são parecidos. foi isto que este conto lindo maravilhoso que me retrocedeu aos anos 60 para a descida nos feriados para Itanhanhem. O menino vendo o mar eu começei a pessar como parecemos com ele. Quantas vezes nos revoltamos como a revolta do mar quantas vezes estamos calmos ,como as calmarias dele. Na vida quantas ondas grandes e pequenas enfrentamos como as do mar? E as ressacas? Uns de bebidas mas a maioria é resaca da vida, que estamos transbordando de problemas ou de estarmos cheios desta vida, a beleza, quantas vezes nos sentimos alegres e belos? O que vc acha? disto? Ou foi esta a menssagem que vc meu querido quiz passar? Parabéns mais uma vêz vc é D+++++++++. Gostei muito. Um grande abraço NINISA