
"No momento de inspiração, os pensamentos de escritor fluem em sua mente, com a força de uma tempestade tropical, como se fossem os acordes mágicos de um violino, infinitos como a vastidão do oceano, belos como o sorriso de uma criança e, com a mesma voracidade, com que correm as pérolas de um colar que se quebra, e as esparrama pelo chão." Comendador José Araújo
domingo, 30 de março de 2008
PERGUNTAS E RESPOSTAS...

domingo, 23 de março de 2008
CISNE BRANCO...

domingo, 16 de março de 2008
CAMINHOS DO CORAÇÃO...

Maíra tinha acabado de chegar em casa do trabalho, estava cansada após um dia exaustivo, onde o stress se apoderou dela naquele dia como se quisesse destruí-la, aniquila-la sem dó nem compaixão.
A torneira da pia da cozinha jorra água em suas mãos e no prato que ela esta lavando e enquanto isto, Maíra murmura algumas palavras, palavras que só a água da torneira pode compreender e ao lado da pia, em cima do fogão, uma chaleira cheia ferve borbulhando e algumas gotas escapam pelo bico dela e caem diretamente nas chamas vorazes, transformando-se imediantamente em vapor e desaparecendo no ar, mas antes de desaparecerem, parecem querer dizer alguma coisa a Maíra, mas tudo que se houve é um longo hissssssssss...
Naquele momento Maíra queria ser uma daquelas gotas que caíram do bico da chaleira, ela queria desaparecer no ar porque não mais suportava a vida que estava levando há quatro anos, era demais para que ela pudesse agüentar e tudo que ela queria era paz, era fechar os olhos e votar no tempo quando era feliz com seu marido, sonhar com aqueles momentos lindos vividos com seu amor e nunca mais acordar.
Ela se casou com Eduardo por amor e ele existia em ambos quando resolveram que queriam viver uma vida a dois, compartilhando tudo, todos os momentos de suas vidas, fossem eles bons ou ruins.
No inicio de sua vida de casada, seu lar era o seu paraíso, os dois trabalhavam e à noite chegavam praticamente juntos em casa e dividiam todas as tarefas do lar com alegria, com paixão, eles tinham muitos sonhos para futuro do casal e a melhor maneira de alcança-los seria lutar sempre juntos e um dia poder dizer que conseguiram realiza-los por esforço dos dois e todos os dias eles faziam amor, um amor gostoso que tomava conta do corpo e da alma deles e que os unia mais e mais com o passar do tempo.
Maíra era Analista de Sistemas e Eduardo um Arquiteto conceituado em São Paulo onde os dois nasceram, se criaram e se tornaram adultos, aprendendo com suas famílias o valor da honestidade, da sinceridade, do respeito pelo nosso semelhante e como não poderia ser diferente, eram amados por todos os parentes, amigos e colegas de trabalho.
Já haviam conseguido um grande progresso, pois quando se casaram eles foram morar num apartamento alugado e em dois anos de luta, conseguiram comprar e mobiliar uma casa que era só deles e era exatamente como sonharam ser, detalhe por detalhe.
Foi então que o destino pregou ao casal uma daquelas peças que ninguém espera e suas vidas deram uma guinada de 180 graus e tudo de repente estava de ponta cabeça, fora de seu devido lugar.
Eduardo sofreu um acidente durante o trabalho em uma das obras pelas quais era responsável, caiu não se sabe como do terceiro andar do edifício e só não morreu porque o tombo foi amenizado por um toldo da varanda do primeiro andar, mas a queda causou grandes estragos em seu corpo e após acordar no hospital apara onde foi levado, não sentiu mais nada da metade de seu corpo para baixo e após longo período de tratamento e exames exaustivos os médicos chegaram à conclusão de que ele ficaria definitivamente inválido, da cintura até a ponta de seus pés.
O choque foi grande, Maíra e Eduardo entraram em desespero, foi difícil agüentar a barra, mas o amor que os unia, só fez aumentar e dia após dia, a vida foi ensinando aos dois qual o caminho a seguir e assim foi.
Contudo, Maíra tinha 32 anos de idade, uma jovem e sedutora mulher que arrancava suspiros dos colegas de trabalho e dos homens em qualquer lugar e sua beleza era tanta que muitos se declaravam a ela mesmo sabendo que era uma mulher casada.
O tempo foi passando, com o marido impotente não faziam mais amor, não havia mais aquela entrega mutua de corpo e alma e Eduardo ao contrário de Maíra parecia não sofrer tanto com isto e quando alguém fazia uma brincadeira de mau gosto a respeito do assunto ele ria e repicava com outra piada.
Maíra era diferente de Eduardo neste ponto, sua jovialidade fazia com que seu corpo gritasse por amor, por calor, pelas caricias das mãos de um homem gentil, educado e carinhoso como Eduardo sempre foi.
O tempo se encarregou de deixa-la transtornada pela falta se sexo, pela falta de receber e dar prazer e amor, não só físico, mas tambem psicológico e seu relógio biológico gritava alto e em bom tom, bem lá, dentro de sua cabeça que ela precisava ser amada, que precisava fazer amor.
Aos poucos ela foi se transformando, já não sorria mais, só vivia calada, chorava pelos cantos às escondidas para que Eduardo não percebesse nada, mas foi tudo em vão e ao contrario do que ela pensava, seu marido estava muito consciente do que estava acontecendo com ela e ele sofria, tanto ou mais do que ela, porque ele sabia que nunca mais iria ser capaz de se deitar com sua esposa e fazer amor, como acontece naturalmente com aqueles que se amam, coisas de homem e mulher.
A coisa foi tão longe que ela perdia a paciência por qualquer motivo, fosse em casa, no trabalho ou na rua, já havia arrumado um ouvinte invisivel ao qual confidenciava numa lingua estranha todos os seus sentimentos e sua vida estava dia a dia, se tornando tão amarga quanto o fel e todos aqueles que a conheciam, percebiam claramente que aquela linda flor que Maíra um dia foi, aos poucos ia murchando, como uma rosa que morre quando colocada fora de um vaso, sem receber a água, seu alimento da vida, fazendo com que dela só sobre o caule e os espinhos.
Eduardo que sofria calado, um homem que um dia foi perfeito e viril, um homem que amava sua mulher mais do que qualquer coisa na vida, percebia mais do que ninguém o mal que afetava sua mulher, um mal que a fazia arder em chamas na cama à noite, a ponto de encharcar sua camisola e os lençóis da cama, era como se um fogo feroz e traiçoeiro a fizesse queimar em vida e era assim mesmo que Maíra se sentia, queimada viva, dia após dia, noite após noite.
Ela nunca teve coragem de falar nada para Marido, porque achava que aquilo iria feri-lo demais e ele já sofria tanto com as circunstancias em que se encontrava.
Eduardo que já não suportava ver seu amor sofrendo daquele jeito, pensava e pedia a Deus para lhe mostrar o caminho para poder ajuda-la, impedindo que aquela flor murchasse por inteiro, era preciso devolver a ela a alegria de viver, o direito de ser e se sentir mulher, de ser amada como tal.
Certo dia ele se lembrou que Mauro, seu melhor amigo, havia disputado com ele o amor de Maíra e que ele teve sorte de ganhar o amor dela e sair vitorioso na competição, mas isto não foi motivo para que uma amizade antiga morresse e Mauro mesmo ferido, vendo seu amor rejeitado, não deixou de lado sua amizade com Eduardo e a vida seguiu seu rumo e até aquele momento, Eduardo sabia que Mauro nunca quis se casar com outra pessoa e sabia que seu amor por Maíra não havia morrido e foi então que ele teve uma idéia que fez com que seu coração batesse mas rápido de tanta emoção.
Eduardo ligou para Mauro, pediu que ele viesse almoçar com ele e abriu seu coração para o amigo, pedindo que ele salvasse sua mulher do fogo eterno que a consumia e disse com todas as letras, que se algum outro homem tivesse que tocar o corpo de sua mulher, que este homem fosse escolhido por ele, que fosse seu melhor amigo e que este homem sentisse por ela um amor verdadeiro.
Mauro ficou estarrecido com a proposta, sua índole não permitia que aceitasse tal idéia, quis recusar definitivamente, mas Eduardo lhe implorou, disse a ele que o amor que sentia pela esposa era maior de que qualquer outro sentimento humano, que seu amor tinha mais força do que os sentimentos negativos de sua masculinidade e sentimentos feridos, que não iria morrer por causa disto, sofrer sim e muito, mas por uma boa causa, para salvar o amor de sua vida da loucura total.
O amigo não teve outra opção se não aceitar o que ele lhe implorava em prantos e no dia seguinte, convidou Maíra para jantar e ela como sempre acontecia quando precisava chegar mais tarde em casa, ligou para Eduardo e lhe contou sobre o convite e ele, mais do que depressa a incentivou, dizendo que ela não saia mais há anos, que precisava se divertir um pouco e assim mesmo relutante, ela aceitou.
Durante o jantar Maíra que tinha por Mauro uma profunda amizade e confiança, em dado momento confidenciou muito do que sentia a ele que gentilmente se prontificou a lhe dar os ombros para chorar, disse que ouviria tudo que ela quisesse dizer, mas que o restaurante não era lugar para isto e lhe propôs irem ao apartamento dele e assim o fizeram, logo que acabaram de jantar.
De papo em papo, com um bom vinho e horas de confidencias, Maíra já estava mais descarregada, mas solta, pois havia muito tempo que precisava desabafar mas não tinha com quem.
Em determinado momento Mauro se aproximou dela e a beijou de leve nos lábios, com muito carinho e naquele momento, a brasa que estava ainda queimando dentro dela logo se transformou em chamas e como ele a amava, foi uma entrega mutua, sem medos, sem receios, sem remorsos, foi um momento mágico, que fez com que tudo mais à volta deles não mais tivesse importância e entre beijos, caricias e gemidos de prazer, se fez o amor, um amor tão profundo e sereno que pareciam ter transcendido as barreiras do tempo e do espaço e assim, pela madrugada eles dormiram afinal, abraçados, como dois seres que tiveram saciada uma sede imensa, após terem feito uma longa travessia de deserto longo e traiçoeiro.
Maíra acordou primeiro que Mauro, ficou apavorada quando percebeu o que havia ocorrido entre eles, não queria acreditar no que tinha sido capaz de fazer, na traição que havia cometido contra seu marido, o homem que a amava de todo coração e então ela começou a soluçar desesperadamente como se um peso imenso tivesse sido colocado sobre sua consciência esmagando-a por completo.
Mauro vendo-a desesperada, não viu outra saída se não contar a ela o que seu marido havia lhe implorado que fizesse e quando ele terminou, ela não sabia o que pensar, ficou pasma, estática, foi como se naquele exato momento, masi uma vez, o tempo e o espaço não tivessem nenhuma relação entre si e foi então que lá do fundo de seu coração, veio a resposta para a pergunta que ela se fez quando quando soube sobre o pedido desesperado de seu marido.
A primeira coisa que ela se perguntou foi o porque daquilo tudo, qual teria sido o motivo pelo qual seu marido tomou a atitude que tomou e o que seu coração lhe deu como resposta, foi o mesmo que muitos de nós recebemos algumas vezes na vida, quando alguém que nos ama faz coisas extraordinárias que ninguém mais o faria...
Eduardo deu ao amigo a única coisa que ele realmente venerava em sua vida, deu a ele sua mulher, deu a ele aquele corpo que havia sido só seu, doeu muito, seu coração sangrou, mas por um bom motivo, ele salvou sua flor de murchar até morrer, lhe devolveu a vida e mais uma vez, por ironia do destino, ele partiu deste mundo, partiu ao encontro da luz divina, foi encontrar a verdadeira paz lá no céu, nos braços do pai...
O coração encontra caminhos estranhos a muitos de nós, só ele é capaz de encontrar o caminho certo para nos provar a existencia do amor verdadeiro dentro dele, podem haver momentos e circunstancias diferentes onde ele precisa nos fazer acreditar em sua palavra, podem até variar de acordo com diferentes pontos de vista de cada um de nós, mas os caminhos que ele nos indica durante nossa jornada por este plano astral, só ele conhece, mais ninguem...
Texto: Jose Araujo