"No momento de inspiração, os pensamentos de escritor fluem em sua mente, com a força de uma tempestade tropical, como se fossem os acordes mágicos de um violino, infinitos como a vastidão do oceano, belos como o sorriso de uma criança e, com a mesma voracidade, com que correm as pérolas de um colar que se quebra, e as esparrama pelo chão." Comendador José Araújo
domingo, 31 de agosto de 2008
CABIDE DOS SONHOS...
domingo, 10 de agosto de 2008
UMA JANELA PARA A ALMA...

Há muito tempo atrás, nascia bem no coração da capital paulista, mais precisamente no bairro do Brás, um menininho, que logo ao sair da maternidade foi levado para morar num lugar chamado Várzea do Palácio, onde hoje é o Parque Ecológico do Tietê, onde morava a família. Seus pais viviam e trabalhavam, numa Olaria, uma antiga fábrica de tijolos de barro, onde não havia luz elétrica, nem água encanada e vida de todos que lá viviam era muito rústica em todos os sentidos. Quase toda a alimentação que eles consumiam, era produzida no local, em hortas imensas onde eram plantados vários tipos de vegetais e havia criação de diversas espécies de aves e animais, para garantir o consumo de carnes para todos e as vacas que produziam leite suficiente para toda a comunidade. Havia muitos patos, gansos, galinhas, perus, cavalos, vacas, enfim eram muitos os animais que o cercavam e eram eles seus únicos divertimentos, sua única distração. Assim o tempo foi passando e aquele bebê foi crescendo, se tornando um garotinho e sempre rodeado pelos animais que aprendeu a amar, mas não recebia atenção dos pais como deveria. Sua mãe sempre muito atarefada, além de ajudar a amassar o barro com os pés o dia todo, ainda tinha que cuidar da casa, do marido, mal sentava ou deitava em algum lugar e já adormecia instantaneamente, pois sua vida era só de muito trabalho, muitos sacrifícios, nunca havia um momento de pausa, para descanso ou lazer.
Seu pai levantava às 4:00h da manhã para iniciar sua jornada no trabalho, precisava acender ou limpar a fornalha da velha Olaria para nova queima de tijolos. Ele nunca parava nem para almoçar, comia executando tarefas e neste ritmo, ia até às 10:00h da noite, sem parar e jamais tinha tempo para brincar, ou conversar com o garotinho, que já tinha então quatro anos de idade, aliás, isto nem lhe passava pela cabeça, pois ele achava que tinha outras coisas mais importantes, com o que se preocupar. A vida dura que eles levavam, gerava conflitos entre o casal e o garotinho ouvia assustado a seus pais falando em voz alta, ou gritando. Sua reação imediata quando isto acontecia, era esconder-se onde ele pudesse, até que tudo se acalmasse, pois tinha muito medo de tudo aquilo. Não podia compreender o porque das discussões que com o tempo se transformaram de agressões verbais para agressões físicas entre eles. Ao longo do tempo, seu pai que jamais havia falado com ele, nunca havia dito qualquer palavra que demonstrasse que gostava dele de alguma forma, começou a bater nele para repreende-lo, por quaisquer motivos e na maioria das vezes, ele nem mesmo sabia porque estava apanhando. As surras foram aumentando e se tornaram espancamentos, a violência era tanta, que o garotinho tremia da cabeça aos pés, quando percebia que seu pai estava chagando em casa. Seu terror crescia dia a dia e as violências eram cada vez mais freqüentes, mas o que mais doía nele, mais do que qualquer pancada, é que sua mãe não fazia nada para impedir seu pai de espanca-lo e isto, ele não conseguia compreender, ele tentava, mas era em vão e ai, sua dor e tristeza, pareciam que nunca iam ter fim.
Aos cinco anos de idade, o garotinho ganhou um gatinho, foi um presente de uma tia, que morava muito longe e trouxe o bichinho em uma de suas visitas à família. Logo na chagada, quando sua tia lhe entregou o bichinho, para admiração de todos, houve uma aceitação imediata e parecia que o gatinho procurava proteção nos braços do garotinho, parecia que ele sabia que nele, podia confiar a sua vida. O tempo foi passando e os dois foram crescendo juntos, não ficavam longe um do outro por muito tempo e parecia que um dependia do outro para viver. Os espancamentos continuavam e o martírio do garotinho, era infindável, era tanto, que por vezes ele pensava que a qualquer momento, ele iria ser morto, com um golpe fatal. Todas as vezes que o gatinho via o pai do garotinho chegando, seus pelos ficavam arrepiados e seu rabo ficava em pé como se soubesse que aquele homem representava perigo, que algo errado iria acontecer. Do nada, vinham as pancadas e muitas vezes, ele não sabia de onde elas vinham, ou o que o havia atingido, apenas sentia as dores em seu corpo, mas a dor maior era a que sentia em seu coraçãozinho magoado, com tanto sofrimento e tanto desprezo.
O garotinho e o gatinho ficaram cada vez mais amigos, fieis um ao outro e sempre que o pai batia no menino, o gatinho se aproximava, ficava olhando fixamente para o menino em prantos e em seguida miava, como se quisesse dizer que ele estava ali, compartilhando de sua dor, que ele se condoia com o sofrimento do seu amigo. Muitas vezes, o gatinho pulava para os braços dele e ficava roçando sua cabecinha no rostinho molhado de lágrimas, até que de alguma forma, o coração do garotinho percebesse que pelo menos alguém neste mundo, se importava com ele e ai, se acalmava um pouco, tinha algum alento em sua dor. Enraivecido com o comportamento do garotinho em relação ao gato, seu pai ameaçou várias vezes de matar o bichinho, coisa que levava o garoto ao pânico total, a ponto de pensar em fugir dali levando com ele seu único amigo, mesmo que fosse para morar no meio do mato, sem comida, sem casa, sem proteção, mas pelo menos, imaginava que poderia estar em segurança, salvando a vida de seu tão querido gatinho. Um dia, após levar uma surra muito grande, o menino perdeu os sentidos e ficou largado no chão da sala, como se fosse uma coisa qualquer, sem importância, seu sangue escorria de sua cabeça pela pancada violenta que havia levado e não havia ninguém para ajuda-lo, ninguém para socorre-lo. O gatinho que estava escondido embaixo da cama, quando percebeu que poderia sair em segurança, correu para onde estava caído o menino, roçou-se nele, miou varias vezes, mas não houve resposta.
O pobre animalzinho, de alguma forma, sentiu que algo estava muito errado e começou a miar, como se estivesse ficando louco, até que alguém incomodado com o barulho, foi ver o que estava acontecendo com o gato e encontrou o menino desacordado, e ai, pediu ajuda e o levaram ao hospital. Após dias nos hospital municipal, o menino se recuperou e voltou para casa. Durante o tempo em que ele esteve fora, o gatinho não saiu do lugar onde ele estava caído, ficava lá como se o esperasse, como se a qualquer momento, ele fosse entrar pela porta e ele pudesse correr, pular em seu colo, como sempre fazia. Quando o garoto entrou em casa, o gato correu e se atirou em seus braços, dando um pulo do chão, diretamente para peito do menino, que o abraçou e começou a chorar, pois ele sabia que o seu gatinho, além de ser seu único e fiel amigo, havia salvado sua vida e por isto, ele lhe seria grato, para o resto de seus dias. O pai do menino, ao ver a cena ficou enfurecido. Durante a madrugada, ele capturou o gatinho, colocou-o em um saco e o levou embora, para um bairro muito distante, de onde ele não poderia voltar sozinho. Quando o garoto acordou soube do fat, ele entrou em desespero, não podia de forma alguma entender, porque havia tanto mal no coração de seu pai e sua dor foi tanta, que nem mesmo conseguia chorar, apenas soluçava profundamente, incapaz de dizer, uma única palavra. Seu gatinho, seu amigo, aquele a quem ele devia a sua vida, o único que havia demonstrado amor e carinho por ele, tinha ido embora de uma vez por todas, para nunca mais voltar. Ele havia perdido algo que só havia encontrado nos olhos daquele animalzinho, algo que havia procurado em vão nas pessoas que o rodeavam, pois a dor que ele sentia por dentro era tão grande, que a única coisa que poderia ajuda-lo, seria encontrar nos olhos de alguém, uma janela para a alma.
As surras e espancamentos um dia pararam, o garotinho cresceu, superou muitas fases difíceis na vida, se transformou em um homem, aprendeu a viver, aprendeu a amar, compreender e perdoar as pessoas e eventualmente, encontrou uma pessoa que lhe abriu novamente a janela para a alma que desde aqueles tempos de menino, ele procurava, sem encontrar e aí, ele se casou, foi pai, viveu feliz com sua esposa e toda a sua família, mas ele jamais esqueceu, nem nunca se esquecerá, daquele que foi seu único e verdadeiro amigo daquela infância tão sofrida. Ele sempre carregou em seu coração, com muito amor, carinho e gratidão, aquele que conseguia enxergar através de seus olhinhos felinos, toda sua alma de criança, tão presa, profundamente ferida e magoada. Aquele gatinho, pequeno e indefeso como ele quando criança, em sua pureza de sentimentos, de amor simples, natural e incondicional, sem dúvida nenhuma, foi para ele, uma mensagem de Deus.
Nos pequenos olhinhos de um gato, um animal que a humanidade tão racional e cheia de sí, diz ser um ser irracional, quando mais precisava, o garotinho tão triste e infeliz, sempre encontrou, uma janela para a sua alma, tão ferida e magoada, para não morrer, de tanta dor.
Autor: José Aráujo
Fotografia: Meu gatinho - Fotógrafo: José Araújo