
Eu simplesmente não acredito que você esta fazendo isto comigo mãe!
Gritava Daniel para sua mãe que o chamava da janela de seu apartamento, na Rua Frei Caneca, a uma quadra da Avenida Paulista, a mais paulista de todas as avenidas. Ele estava na frente do edifício onde morava e pulava em um pé só, tentando calçar uma sandália havaiana, para poder subir e ir se arrumar para um encontro indesejado. Sua mãe uma mulher esclarecida e muito especial, sempre soube de sua opção sexual e quando ele entrou em casa, ela disse sorrindo num tom de brincadeira, que ele não precisava ficar nervoso. Sair com um rapaz para tomar um lanche, não queria dizer que eles tinham que se casar. Daniel sorriu para ela e disse que ela não existia. Três semanas antes, sua mãe reencontrou uma família amiga, que eles não viam há muito anos. Eles foram vizinhos até que Daniel completou seu décimo aniversário e então, eles se mudaram para o interior do estado e acabaram por perder o contato, mas agora, estavam de volta a São Paulo e desta vez para ficar. Por uma destas coincidências da vida, a família amiga tinha um filho, apenas dois anos mais velho que Daniel. Na tentativa de recuperar o tempo perdido com a distancia, a mãe dele em conjunto com a mãe do outro garoto que se chamava Alexandre, combinaram um passeio deles ao Shopping Frei Caneca, sem consultar aos dois. Seria um encontro para que a velha amizade de seus filhos fosse reatada, além do mais, Alexandre era muito reservado e sendo praticamente novo na capital paulista, precisava de um empurrão para se enturmar novamente. Eles se encontrariam na casa de Daniel e de lá iriam para o Shopping. Daniel havia ficado furioso com sua mãe por ter combinado tudo sem dizer nada. Ele se lembrava de Alexandre como um garoto chato, barrigudo e com aparelho nos dentes, o que fazia da imagem em sua lembrança ainda pior.
Alguem lhe contou que quando ele nasceu, Alexandre fez questão de escolher o presente que sua mãe iria dar a Daniel como lembrança e ele, todo orgulhoso e cheio de si, escolheu um patinho de borracha, daqueles que se põe na banheira para o bebê brincar enquanto toma seu banho. Mas ele não escolheu qualquer um. Ele escolheu um patinho azul que tinha um Arco Iris pintado em suas costas. Enquanto Daniel escovava seus dentes, ele se recordava de um velho álbum de fotografias de sua infância. Nele, havia uma foto antiga onde ele e Alexandre estavam sentados num banco, em frente à Paróquia do Divino Espirito Santo, que ficava na rua de sua casa, enquanto aguardavam outros amigos de seus pais chegarem, para a missa dominical. A velha fotografia, mostrava Alexandre com o braço em volta do pescoço de Daniel, que timidamente olhava para o chão, mas Alexandre não. Ele olhava diretamente para a câmera fotográfica, com um sorriso largo nos lábios e um brilho intenso em seu olhar. Naquela época, os dois estudavam na mesma escola e quando se encontravam pelos corredores, Daniel fazia de tudo para passar despercebido aos olhos de Alexandre, mas era sempre em vão. Ele sempre dava um jeito de se aproximar. Nem que fosse apenas para dizer um oi. Debaixo do chuveiro, enquanto Daniel deixava a agua correr livremente sobre seu corpo, ele se perguntava, como e porque, ele acabou se deixando levar pelo arranjo de sua mãe. Já fora do chuveiro, ele se enxugava rapidamente, mas na esperança de que Alexandre não viesse, afinal, eles não tinham nada em comum. Um era engenheiro eletrônico, supostamente Hétero, o outro um professor de música e Gay assumido. Do que eles poderiam falar no encontro? Como Daniel, sendo um professor de música, poderia enturmar um engenheiro eletrônico com seus amigos que eram ligados ao mesmo ramo de sua profissão e que também compartilhavam na maioria de sua opção sexual? - Em que furada eu fui deixar me meter! Disse Daniel em voz alta.
Ele saiu do banheiro e foi para seu quarto, e enquanto trocava de roupa, a campainha tocou. Em silencio, por uma fresta na porta entreaberta, ele ouviu quando sua mãe recebeu Alexandre, como se fosse alguem da família que ela não via há muito tempo. Ela o abraçou e beijou no rosto, dizendo que estava muito feliz de reve-lo depois de tanto tempo. Ele acanhado, agradeceu seu carinho e sua atenção. Os dois se dirigiram para a cozinha, aliás, a cozinha era só para pessoas íntimas da casa e Daniel não entendeu a atitude de sua mãe. Não podendo ouvir mais nada, ele começou se trocar, mas algo dentro dele rezava para que ele não fosse obrigado a sair com Alexandre. Desde pequeno, pelo que se lembrava, ele sentia uma sensação desagradável quando estava perto dele. Enquanto Daniel calçava o tênis, seu celular tocou. Era seu amigo mais chegado, perguntando se ele já havia se encontrado com o tal "cara" de quem ele havia falado. Ele disse que não. Disse ao amigo que o "cara" estava ainda na cozinha com sua mãe e que iria até lá em poucos instantes e precisava desligar. Antes de terminar a conversa, ele pediu ao seu amigo para lhe fazer um favor. Daniel e Alexandre iriam até o Shopping Frei Caneca, para tomar um lanche na praça de alimentação. Isto seria mais ou menos dentro de uma meia hora. Pediu ao amigo que os encontrasse lá e inventasse qualquer mentira. Qualquer coisa para que ele pudesse deixar Alexandre o mais rápido possível. Tudo ficou combinado. Afinal, para seu amigo mais chegado, aquilo era apenas mais um jogo, pois os dois se livravam mutuamente de grandes "furadas" quando necessário. Daniel acabou de se vestir e ao caminhar pelo corredor que dava para a cozinha, parecia que seus Tenis eram de cimento. Ele estava sem a menor vontade de se encontrar com Alexandre. Ao se aproximar, ia ouvindo a voz de sua mãe muito alegre e tagarela tecendo elogios a Alexandre.
Como poderia ela gostar de um "garoto" como ele. Feio, chato e ainda por cima, barrigudo, convencido e antipático? Ao entrar na cozinha, foi impossível não notar a presença de Alexandre. Ele estava sentado na mesa da cozinha, de frente para sua mãe. Ele tinha uma postura impecável. Ombros largos, braços peludos e musculosos. Sua pele bronzeada, seu cabelo impecavelmente cortado e penteado. Alexandre usava uma barba muito bem cuidada e a moldura que ela e seu cabelos pretos e cacheados davam ao seu rosto, faziam dele a imagem de um Deus grego. E que olhos azuis mais lindos ele tinha! Não é possível! Pensou Daniel. Onde foi parar aquele garoto de quem ele se lembrava? Aquele homem à sua frente, com porte atlético e que devia ter 1,80 de altura, não poderia de forma alguma ser moleque chato. Ele se levantou da cadeira onde estava sentado para cumprimentar Daniel, apertou sua mão e sorriu para ele mostrando seus dentes magníficos. Daniel ficou boquiaberto com a perfeição de seu sorriso! Aquilo só poderia ser o resultado de anos de uso de aparelho corretor. Ao toque da mão de Alexandre, Daniel estremeceu. Uma energia elétrica preencheu todo o ambiente. Ele ficou sem palavras. Apenas sorriu para Alexandre enquanto aqueles olhos azuis cintilavam ao olhar para ele. - É muito bom reencontrar você meu amigo! Disse o rapaz. Muito nervoso, Daniel disse que o prazer era todo dele, mas pediu licença logo em seguida, dizendo que havia esquecido algo ligado, e saiu correndo em direção ao seu quarto. Em segundos, ele entrou nele e foi direto para o seu banheiro. Lá ele se trancou. Daniel estava ofegante. Seu coração batia milhares de vezes por minuto. Parecia que ia sair por sua garganta. A adrenalina que corria em seu corpo parecia queimar suas orelhas. Ele estava excitado como nunca esteve na vida. Sua mente teimava em afirmar que aquele "cara" na cozinha, não era o garoto de quem ele se lembrava. Ele era um homem muito bonito, simpático, educado, com um charme, que ele nunca tinha visto em um homem, e mais ainda. Era muito sensual. De virar a cabeça de qualquer um. As mãos de Daniel estavam tremendo de emoção. Desordenadamente, ele começou a vasculhar suas gavetas, à procura de outra roupa para vestir. De repente ,ele parou e pensou consigo mesmo, que aquilo, não seria uma atitude inteligente. Que seria óbvio demais para Alexandre ,se ele reaparecesse na cozinha com outra roupa.
Daniel resolveu voltar para onde eles estavam, mas agora, seus pés já não pareciam usar Tenis de cimento. Muito pelo contrário! Ele caminhava a passos largos em direção à cozinha e cheio de excitação. Ele mal podia respirar pois a imagem de Alexandre agora impregnava sua mente. Ela o fazia imaginar coisas cada vez mais excitantes. Ao entrar na cozinha, Alexandre já se despedia de sua mãe e eles foram em direção ao hall do elevador. Quando ele se abriu, Alexandre colocou sua mão nas costas de Daniel para que ele entrasse primeiro e ele estremeceu. Ao chegarem no estacionamento no subsolo, eles entraram no carro e ficaram lá. Parados. Um olhando longamente para o outro. Não foi preciso nenhuma explicação. Seus olhares disseram um ao outro, o que precisavam saber. Em meio ao silêncio que dava vazão ás vozes de seus corações, um beijo longo e apaixonado aconteceu e eles apenas se entregaram ao momento, sentindo seus corações batendo em disparada em seus peitos. Após um longo tempo, entre troca de carícias, beijos e abraços, quando finalmente começaram a conversar, parecia que os assuntos não iriam mais se esgotar. Ele não pararam de falar por um longo tempo, relembrando historias de sua infância e riram muito. Principalmente, da época em que Daniel ficava nervoso com a presença de Alexandre. Quando ficavam sem falar um com o outro, por algum desentendimento, era Alexandre quem primeiro procurava conversa novamente. Daniel descobriu que por trás daquele charme sedutor e encantador, não havia apenas um homem sensual. Ele era muito mais do que ele pode imaginar. Alexandre era inteligente,íntegro, um homem com a cabeça feita, que conhecia os fatos da vida e sabia muito bem lidar com eles em todos os aspectos. Por fim, eles compreenderam que tinham muito em comum e que sua conexão, era uma coisa muito mais profunda do que a historia de vida na infância que eles compartilhavam.
O amigo de Daniel ao chegar no Shopping, subiu as escadas até a praça de alimentação várias vezes sem encontrar os dois. Depois de quase três horas, após andar bastante, ele resolveu passar mais uma vez pela praça de alimentação, e foi então que de longe ele os viu. Observando mais atentamente, ele percebeu que o comportamento de Daniel não era o de quem estava chateado, ou inconfortável. Ele parecia mais feliz do que nunca. Era como se aquele não fosse o Daniel que ele havia conhecido, pois ele apesar de ser bem humorado, trazia no olhar uma tristeza que era impossível de se esconder, mesmo estando sorrindo. Ao aproximar-se dos dois, se apresentou a Alexandre e pediu licença para falar com Daniel por um minuto, pois precisava falar algo serio e particular com o amigo. Alexandre com toda gentileza e educação, disse que iria ao banheiro e o dois ficaram a sós. O amigo de Daniel, pronto para lhe salvar de mais um encontro às cegas, perguntou como andavam as coisas e Daniel disse que melhor não poderiam estar. Inconformado, ele disse a Daniel para pensar direito, afinal, ele nem conhecia o "cara". Foi então que Daniel lhe disse que na verdade ele o conhecia por toda a sua vida. Que achava que se as coisas continuassem como estavam caminhando, eles iriam acabar ficando juntos um dia. Um ano depois, eles se mudaram para um apartamento na Rua Frei Caneca, bem perto do condomínio em que Daniel tinha morado com sua mãe. Anos depois, em cima de um aparador na sala de estar, haviam fotografias da comemoração que os amigos fizeram para eles, quando resolveram ir morar juntos e um pouco acima, pendurada na parede, uma velha foto mostrava Alexandre e Daniel sentados no banco em frente à igreja. Alexandre com o braço em volta do pescoço de Daniel, sorrindo para a câmera, com um brilho intenso em seu olhar, enquanto Daniel timidamente olhava para o chão. Toda a vez que Daniel passava em frente ao aparador, lá estava Alexandre, sorrindo para ele na fotografia pendurada na parede. Depois de longos e longos anos de uma vida a dois, de muita cumplicidade, amando-se sempre como se fosse a primeira vez, Daniel às vezes se perguntava, se desde aquela época, aquele garoto de quem ele se lembrava com tanta antipatia e que tanto o incomodava em sua infância, já sabia de tudo que iria acontecer entre os dois.
Talvez a resposta para sua pergunta, estivesse no patinho de borracha que ele ganhou de Alexandre quando nasceu. Ele era todo azul, com um lindo arco-íris pintado em suas costas. A vida é cheia de surpresas. Ela não proíbe, nem força a ninguém a amar ou deixar de amar alguem. Tudo que aconteceu com Daniel e Alexandre, só foi possível porque a vida tem regras que ninguém pode quebrar, e uma delas, talvez a mais importante, surgiu em suas vidas, de uma maneira incomum. Ela diz que qualquer emoção que possamos sentir, desde que ela seja sincera, acontece absolutamente de forma involuntária. Não podemos força-la, ou evita-la. Tudo que tiver que ser, será. Pode até tardar, mas um dia vai acontecer. Daniel e Alexandre, não escolheram sentir o que sentiam um pelo outro. Eles encontraram o amor num lugar onde jamais esperavam encontrar em suas vidas. Um amor que aconteceu como tinha que ser, e foi vivido num lugar, que para eles sempre foi muito mais do que especial, pois foi naquela rua que eles nasceram. Tudo aconteceu na Rua Frei Caneca, bem no coração de São Paulo, a cidade que acolhe de braços abertos todas as raças, todas as religiões, todas as crenças e que sabe admirar e apreciar como Alexandre e Daniel, todas as cores do arco-íris. Poderia ter acontecido em qualquer outro lugar do mundo, mas tinha que ser em São Paulo, porque afinal das contas, foi nesta cidade que todas as coisas boas aconteceram nas vidas de Daniel e Alexandre. Passear de mãos dadas no calçadão da Avenida Paulista, ir ao cinema, ao Shopping caminhando abraçados, demonstrar publicamente seus sentimentos e serem respeitados por isto, não acontece em qualquer lugar, mas aqui eles tiveram este direito garantido. A felicidade dos dois foi o resultado das opções que eles fizeram na vida. Eles optaram por viver em São Paulo e optaram por ser felizes, e o foram. Ser feliz definitivamente é uma opção. O resto, é resto e ponto final.
Quando Daniel tinha 16 anos, ele escreveu um texto que foi escrito com todo seu sentimento, com toda a sua indignação de um jovem adolescente, pelo preconceito que sentia por parte de algumas pessoas, e nele, ele dizia:
"Se as Rosas podem ser amarelas, vermelhas, brancas e ainda assim, continuam a ser Rosas, se os nossos cabelos podem ser pretos, loiros ou castanhos e ainda assim, continuam a ser cabelos, se os nossos olhos podem ser castanhos, pretos, azuis ou verdes, e ainda assim, continuam sendo olhos, então, por que as pessoas não podem ser especiais, diferentes, únicas, originais, e ainda assim, continuar a ser pessoas e ser respeitadas como seres humanos? Se as Rosas podem ser amarelas, vermelhas, brancas e ainda assim, continuam a ser Rosas, por que é que eu tenho que ser do jeito que as outras pessoas querem que eu seja?"
Desde muito jovem, muitas vezes podaram as penas de suas asas para que ele não pudesse mais voar, mas ele amadureceu com o tempo e com o sofrimento. Aprendeu que o importante para a mente e para o coração é ser autêntico, ser verdadeiro. Não se deixou prender dentro de sí mesmo pelas regras criadas pela dita sociedade dos homens. Daniel acreditou no poder da fé em Deus que um dia seria feliz, e ele foi. Quando as penas de suas asas cresceram novamente, e ele pode finalmente voar, ele foi em direção ao lugar onde poderia encontrar juntas, todas as cores do Arco-Íris.
Dedicatória:
Dedico este conto, a todos os meus leitores e amigos, que como eu, aboliram de seus dicionários as palavras, orgulho, preconceito e discriminação. A todos aqueles que aprenderam a viver e deixar viver, e em especial, aos que ouviram seus corações e optaram decidir por vontade própria, que ao invés de preferir o Azul, ou o Rosa individualmente, iriam escolher e gostar de algo diferente. Que iriam gostar, de todas as cores do arco-íris.
Autor: José Araújo
Fotografia: Noite na Avenida Paulista
Fotógrafo: José Araújo