
"No momento de inspiração, os pensamentos de escritor fluem em sua mente, com a força de uma tempestade tropical, como se fossem os acordes mágicos de um violino, infinitos como a vastidão do oceano, belos como o sorriso de uma criança e, com a mesma voracidade, com que correm as pérolas de um colar que se quebra, e as esparrama pelo chão." Comendador José Araújo
sábado, 31 de janeiro de 2009
O ESTRANHO DENTRO DE NÓS...

domingo, 25 de janeiro de 2009
AMOR, ESTRANHO AMOR...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
PROMESSA CUMPRIDA

Aquela foi a ligação que ela esperava que nunca tivesse que acontecer. Não daquele jeito. Eram seis horas da manhã e ela ainda estava acordada, quando o celular tocou. João, o pai que ela tanto amava, estava internado no Hospital do Coração esperando por um transplante e ela estava hospedada na casa de amigos nas proximidades do hospital. Ele tinha tido recentemente muitas complicações e não estava nada bem, assim, uma ligação àquelas horas da madrugada, só poderia significar uma coisa. Ele havia partido. Márcia havia se divorciado a questão de quatro anos atrás e quando finalmente se viu livre para seguir seu destino, tudo que ela mais queria era reencontrar o seu pai. João a havia abandonado aos cuidados de sua pobre mãe quando ela tinha somente seis anos de vida. Foram tempos muito difíceis para ela que sempre o amou de todo coração. Ele partiu sem se despedir e nunca mais as procurou. A vida inteira ela sentiu no peito a dor da saudade e da ausência dele. Ela cresceu, se tornou uma mulher adulta, mas as lembranças dos tempos felizes em que ele passou ao lado dela nunca saíram de sua mente, nem de seu coração. Ela sempre dizia a todos que a maior felicidade que ela poderia ter, era poder reencontra-lo e finalmente poder abraça-lo, como fazia quando criança. A carência sempre a acompanhou e ela apesar de ter tido muitos momentos felizes na vida, jamais esqueceu de seu amor pelo pai. Márcia perguntava a todos que o haviam conhecido, se não tinham pelo menos uma pista do paradeiro dele, mas a resposta invariavelmente, era não.
Certo dia, conversando com uma tia, ela lhe contou que alguns parentes dele eram da cidade de Batatais e naquele exato momento, ela decidiu que era exatamente para lá que ela iria partir. A viagem de ônibus foi cansativa. Após longas horas sentada num banco desconfortável, finalmente ela chegou ao seu destino. Lá mesmo na rodoviária, ela começou a indagar se alguém por acaso conhecia seu pai. Não foi preciso perguntar muito porque em cidades pequenas, todo mundo conhece todo mundo. O dono de uma lanchonete lhe deu o endereço, dizendo que a rua ficava logo após a igreja matriz e que a casa onde ele morava, não tinha como errar. Era a única da rua, toda pintada de branco, com portas e janelas azuis. Disse também, que não seria preciso pegar nenhuma condução porque era perto demais. Como em todos os lugares pequenos, perto não era exatamente a palavra adequada para descrever distancia a ser percorrida. Após andar muito, debaixo de um sol escaldante, até que enfim ela viu a torre da igreja e suspirou aliviada. Afinal, ela já deveria ter andado quilômetros a fio para chegar até lá. Quando ela passou em frente à matriz, ela observou a beleza da arquitetura barroca e as escadarias pintadas de branco estavam tão limpas e cuidadas, que pareciam ser feitas de papel. Caminhando mais um pouco, ela chegou na esquina e lá viu escrito na placa o nome da rua que haviam lhe indicado. Naquele momento, suas pernas bambearam e seu coração balançou. Ela devia estar a poucos passos de finalmente reencontrar o seu pai.
Contudo, dentro de seu peito, ela sentia uma espécie de angustia que ela não compreendia. Porque ela estaria se sentindo assim? Já estava tão perto de realizar o seu sonho. Talvez fosse pelo medo de se decepcionar. De não encontra-lo, ou pior, dele nem sequer se lembrar dela e não lhe dar boas vindas. Respirando fundo, ela resolveu continuar. Dobrou a esquina e andando mais alguns metros, ela avistou uma casinha branca, com as portas e janelas pintadas de azul, exatamente como o homem tinha lhe dito. Do lado de fora havia muitas plantas. No fundo de suas memórias, ela se lembrou que seu pai adorava plantas e flores. Perto da janela havia uma roseira carregada de botões. Eram rosas amarelas e algumas até já estavam abertas, exalando um perfume delicioso no ar. Tremula ela se aproximou do portão. Criou coragem e bateu palmas, mas foi em vão. Ninguém atendeu. A vizinha ouvindo as palmas de Márcia, apareceu na janela e perguntou por quem ela procurava. Com a voz embargada, ela disse que procurava pelo Sr. João e que era a filha dele e que ha não o via. A velha senhora sorriu e pediu para ela dar a voltar e entrar em sua casa. Sabendo da hospitalidade das pessoas do interior ela não hesitou. A vizinha que se chamava Dona Maria, a recebeu como se fosse intima da família. Márcia recebeu um abraço tão gostoso dela, que quase não acreditou que aquilo estava acontecendo, pois de onde ele veio uma atitude como aquela não era uma coisa comum. Depois de entrar e se sentar, elas conversaram muito e ela soube que seu pai estava internado na Santa Casa de Misericórdia, o melhor hospital do lugar. Soube também que ele estava sofrendo de uma doença grave no coração e que os médicos locais não lhe deram muito tempo de vida. Dona Maria contou a ela que foi amiga da esposa de seu pai. Que ela havia falecido há muitos anos atrás e desde então ele não mais se cuidou. O tempo foi passando e ele desgostoso da vida, acabou por se tornar um alcoólatra.
Engordou demais e todas as complicações da obesidade e dos maus hábitos alimentares, tinham definitivamente acabado com sua saúde. Em um ano, ele chegou a ter três ataques do coração. Mesmo assim, ele ainda era capaz de comer um leitão inteiro se assim o deixassem, enquanto esperava assar uma fornada de pão de queijo. Em muitas ocasiões ele teve que ser carregado para casa, de tão bêbado que estava. Ao lado de um barril de Chope ele se acomodava e ficava lá até ver sair dele a ultima gota do que ele mais gostava de beber. Doente, sem ter quem cuidasse dele, com todo o estrago que ele mesmo havia feito ao seu organismo, ele finalmente se entregou à doença. Do bombeiro local que antes pesava 120kilos de puro músculo e força, só restaram 50 kilos de ossos e pele. Uma pena, Dona Maria dizia. Márcia chorava em silencio. Suas lágrimas pareciam feitas de ácido. Elas queimavam seu rosto enquanto escorriam lentamente. Depois de muito tempo, após ter bebido um copo de água com açúcar dado a pela boa senhora, ela se recuperou parcialmente e pediu que ela lhe desse o endereço da Santa Casa. Ao sair, elas se abraçaram como se fossem amigas de longa data e ela agradeceu de todo coração, tudo que havia feito por ela. Dona Maria continuou acenando até que Márcia virou a esquina. A passos largos, ela se dirigiu para lá. Ao chegar, meio sem jeito de falar o que tinha ido fazer, ela foi recebida com toda a atenção pela recepcionista. Mais à vontade depois da grata recepção, ela perguntou sobre o Sr. João. O velhinho da casa branca, com as portas e janelas pintadas de azul.
A moça que a atendeu deu-lhe um sorriso e sem fazer maiores perguntas a levou para onde ele estava. Ela ficou imaginando quantas pessoas iam visitá-lo naquele lugar. Numa cidade grande, isto nunca teria acontecido. Ela pensou. Por medidas de segurança, teriam pedido que ela se identificasse e informasse qual o grau de parentesco dela com o paciente. Mas pensando bem, lá naquele lugar, tão longe da violência das cidades grandes, a vida das pessoas era outra. A confiança no ser humano, ainda não havia desaparecido. Ao chegar na porta do quarto, ela se despediu de Márcia e disse para não se demorar. Pé, antepé, ela entrou. Seu pai estava adormecido. Talvez até mesmo pelos efeitos dos remédios, mas deu para ver ao que ele tinha sido reduzido. Ela sentou-se ao lado dela na cama e pôs-se a acariciar seus cabelos brancos. Finalmente, ali estava ele. Seu velho e querido pai. O homem de quem ela se lembrava, cheio de vida, com muita saúde e que brincava com ela no quintal nos melhores anos de sua vida. A dor que ela sentiu naquele momento ao vê-lo daquele jeito, talvez tenha sido maior do que a da perda, quando ele partiu. Ela não guardava rancor. Ela sentia uma mágoa que sempre a acompanhou desde que ele partiu, mas o amor que ela sentia por ele, era muito maior do que qualquer sentimento ruim. De repente ele se mexeu. Ela afastou sua mão para não acorda-lo, mas seus olhos foram se abrindo lentamente. A principio pareceu que ele não a via.
Mas aos poucos, uma luz intensa surgiu de seus olhos cansados e foi seguida por lágrimas de emoção que rolaram livremente. Chorando e sorrindo ao mesmo tempo, ele fez um esforço enorme e estendeu seus braços na direção de Márcia e ela correspondeu. Foi um momento de muita emoção. Um reencontro ha tanto esperado por ela. Não daquela forma, mas talvez se fosse em outras circunstancias, não tivesse sido um momento como aquele que aconteceu entre os dois. Ela, com todo cuidado, com seus braços em torno daquele corpo frágil, e agora tão pequeno, só pensava em não machuca-lo ainda mais. Eles choraram bastante abraçados, e tempos depois as palavras naturalmente foram surgindo. O mais incrível para ela foi que quando ele partiu, ela era tão pequenina, mas com um simples olhar ele a reconheceu. O tempo daquela visita inesperada estava acabando e a enfermeira responsável entrou no quarto para pedir que ela se fosse. Seu pai olhava para ela como se estivesse vendo um milagre acontecer. Com a voz fraca e muito baixa, ele disse à enfermeira que aquela era a sua filha. A moça olhou para ela e deu um sorriso aprovador. Segurando a mão de Márcia, ela pediu que a seguisse, mas antes, permitiu que voltasse para junto de seu pai e lhe desse um beijo de despedida. Quando estavam saindo do quarto, ela olhou bem dentro dos olhos de seu velho e disse para ele não se preocupar. Daquele dia em diante, ele não mais estaria só. Ele sorriu e fez um gesto com as mãos querendo dizer que estava tudo bem. As duas foram para a recepção e Márcia pediu para falar com o médico de plantão. Ela precisava saber tudo sobre a real condição de saúde de seu pai.
Em seu coração, bem lá dentro, ela jurou que nunca mais o deixaria e que iria fazer de tudo para que ele se recuperasse, afinal, ele ainda estava vivo e a esperança nunca morre no coração de quem tem fé. Dr. Amadeu, um profissional competente, disse a ela, que os recursos naquela cidade eram mínimos e para se ter certeza absoluta do que ainda poderia ser feito por ele, era preciso que fosse levado a São Paulo. Lá, no Hospital do Coração, ele poderia fazer todos os exames necessários para se fazer um diagnóstico correto. Ele complementou, que não poderiam esperar mais tempo, porque a cada dia, a tendência era de seu quadro se agravar. Márcia não pensou duas vezes. Ligou para os amigos na capital paulista e conseguiu que uma unidade móvel de UTI fosse busca-lo em Batatais. Assim foi. Não demorou muito para que ele já estivesse internado naquele grande hospital paulista, sob os cuidados dos melhores especialistas que existiam, e foi lá, que após longos exames, noites e noites de insônia para Márcia, chegou-se à conclusão, de que a única salvação para ele seria mesmo um transplante de coração. Apreensiva, ela indagou das possibilidades de se conseguir um doador, mas resposta não foi exatamente o que ela esperava ouvir. Todos eram categóricos em dizer que as chances eram mínimas. Que a população não se registrava como doadores voluntários em caso de morte e que um doador naquele momento, era uma chance em um milhão. Ela se desesperou. Já tinham chegado tão longe e agora, as esperanças eram tão escassas. Ela pedia em suas orações que Deus encontrasse uma saída.
Não era justo que depois daquele tão esperando reencontro, a qualquer momento, houvesse uma despedida final. João ficou internado por semanas a fio. Com muitos cuidados e com o amor de sua amada filha, ele melhorou a ponto de receber autorização para ir para casa e receber os tratamentos necessários durante a espera pelo doador. No dia em que ele recebeu a alta condicional para ir para casa, foi uma alegria total. Ele estava animado e excitado pela idéia de estar com sua filha na mesma casa, sob o mesmo teto, e poder compartilhar com ela momentos comuns, mas tão esperados pelos dois. Logo durante a primeira semana, ele melhorou a olhos vistos e parecia se recuperar mais e mais a cada dia. Na terceira semana até já havia engordado cinco kilos e o apetite havia voltado quase como era antes. Márcia sempre preocupada com o bem estar dele, cuidava para que sua alimentação fosse balanceada, sem muito sal e temperos fortes nem pensar. Ele parecia cada vez mais feliz com a companhia da filha e ela estava radiante com a presença do pai em seu dia a dia. Aos poucos eles foram se conhecendo melhor. Eles descobriram o quanto eles tinham em comum. Que tinham gostos muito parecidos e que tinham a mesma paixão pela cozinha. O tempo passava em não havia noticias sobre um doador, mas parecia que o reencontro dos dois havia operado um milagre em João. Passaram-se três meses e eles até já estavam cozinhando juntos. Enquanto ela picava cebolas, cheiro verde e descascava alho, ele amaciava os bifes na pia da cozinha. Ele demonstrou uma habilidade imensa ao pilotar o fogão como ele dizia. Quando a comida estava pronta, os dois sentavam-se à mesa, almoçavam conversando e sorrindo.
Ela contava a ele sobre sua vida de casada e ele falava de sua falecida esposa. Só ficava mesmo um tanto triste, quando estava falando dela. Em questão de segundos, o humor dele voltava e no fim acabavam os dois na pia lavando as louças sorrindo. Ela lavava e ele secava. Era a vida que tanto ela quanto ele sonhavam há tempos. Enquanto ele enxugava os pratos, às vezes ele dava tapinhas no ombro dela quando ela dizia algo que ele aprovava. Isto era comum e ela adorava isto nele. Seu pai também gostava de ficar mexendo com os passarinhos que pousavam nos galhos da goiabeira do lado de fora da janela da cozinha. Uma vida, simples, comum e com muito amor, foi o que eles viveram naquele curto período de tempo. Mas a vida é cheia de surpresas, mesmo aquelas que de certa forma já são esperadas nos pegam desprevenidos e um dia, ao se levantar e ir acorda-lo para o café, Márcia o encontrou caído ao lado de sua cama. Ela se desesperou porque ele estava inconsciente e o medo de perde-lo, tomou conta de seu coração. A ambulância veio e o levou imediatamente ao hospital. Ele acordou no final da tarde daquele dia e Márcia estava ao seu lado. Quando ele abriu os olhos e a viu seus olhos sorriram. Ela o beijou e disse para ele parar de assusta-la, caso contrário ela ia ter um troço e ele iria acabar ficando sem ela de uma vez. João a olhou bem no fundo dos olhos e disse com muito amor, que ele nunca mais a iria deixar só. Disse que acontecesse o que viesse a acontecer, de alguma forma ele estaria ao lado dela, e ao terminar de falar, ele fechou os olhos e daquele momento em diante, o resto de seus dias neste mundo foi numa UTI.
Quando ele partiu, ainda à espera de um doador, Márcia nem ao menos estava ao seu lado, para lhe dizer adeus. Só soube de sua morte, quando o celular tocou naquela manhã, há muito tempo atrás. Durante as duas primeiras semanas após a sua morte, ela teve que resolver uma série de assuntos burocráticos, comuns quando morre alguém. Neste período, sua mente estava ocupada demais para pensar nele o tempo todo. Contudo, quando acabaram se as obrigações de praxe, sua vida voltou ao normal. Ela arrumou um emprego e trabalhava sempre até mais tarde, para não ter que voltar para casa e ficar em completa solidão. Os dias foram passando e meses depois, quando ia chegando o final da tarde e ela se lembrava que tinha que voltar para casa, seu coração parecia que ia sair pela boca. Aquela solidão a estava deixando maluca aos poucos. Era questão de tempo para ela ficar totalmente pirada. Os amigos lhe diziam, que ela tinha que arrumar um animalzinho de estimação, mas ela sempre se recusou sequer a pensar no assunto. Depois de muita insistência por parte dos amigos e colegas de trabalho, ela aceitou ir almoçar na casa de um deles. Ao chegar lá, logo que ela entrou na sala, deu de cara com seis gatinhos rajados de branco com amarelo que quando a viram, saíram correndo para se esconder. Todos, menos um. Aquele que havia ficado onde estava quando ela entrou, esperou que ela se sentasse no sofá e correu pulando em seu colo, depois em seu ombro fazendo com seu pequeno rostinho carinhos no rosto dela.
Ela sorriu. Aquela era a primeira vez depois que seu pai partiu que Márcia sorria. Fui escolhida. Ela pensou. Todos ficaram admirados com a atitude do gatinho que nunca a havia visto e acabaram por convence-la a leva-lo para casa. Daquele dia em diante a vida dela mudou. Todos os dias ela não via a hora de poder voltar para casa para cuidar daquela bolinha de pelos brancos e amarelos. Quando ela chagava em casa, mal abria a porta e ele vinha correndo ao encontro dela, roçando seu corpinho em suas pernas e enquanto ela não o pegava no colo, ele não sossegava. Tiquinho foi o nome que ele recebeu. Aquele gatinho tão pequenino e carinhoso, não demorou muito para se tornar um gatão enorme. Ele era tão fofo que os vizinhos o apelidaram de Garfield, mas para ela, o Tiquinho que ganhou seu coração, agora era o seu grande Ticão. Diferentemente de outros gatos do tipo dele, Ticão era inteligente, brincalhão e parecia compreender tudo que ela dizia. Quando acabava a ração de sua vasilha, ele sabia como fazer com que ela o acompanhasse até a prateleira onde estava guardada a ração e então, ela sabia exatamente o que devia fazer. Muitas e muitas vezes, ela assistiu um filme inteiro sem se levantar do lugar porque Ticão estava adormecido em seu colo. Quando ela se sentava para ler um livro, ele tinha que ler também, aliás, não era bem ler. Era dormir. Porque bastava ele pular no colo dela e se ajeitar, adormecia profundamente. Parecia que em seu colo ele se sentia seguro e protegido. Quando lhe dava na telha, Ticão a seguia por todo lugar. Para falar a verdade, parecia mesmo um verdadeiro grude aos olhos dos outros, mas Márcia adorava aquilo.
Os dois eram inseparáveis e ao lado de Ticão, Márcia encontrou momentos de muita paz e alegria. O aparecimento dele em sua vida tinha sido providencial. Num belo dia, ela estava em sua cozinha antiquada e fora de moda preparando o almoço quando sentiu no ombro um tapinha. Era o mesmo tapa que ela recebia de seu amado pai como gesto de aprovação. Virando-se para trás na esperança de ver seu pai ao seu lado, ela deu de cara com o Ticão. Ele havia subido em cima da mesa e ainda estava com a patinha levantada no ar e em seu olhar havia um amor imenso que a encheu de emoção. Com os olhos rasos dágua, ela passou a mão na cabeça dele ele fez uma expressão de satisfação, que derreteu seu coração. Logo após ele pulou para a pia e da pia para a janela e como seu velho pai, ficou mexendo com os passarinhos na goiabeira lá fora. Vendo aquela cena, lembrando do imenso amor que ela viu nos olhos daquele gato, Márcia não pode deixar de pensar em seu pai. Mas quem teria ensinado Ticão a dar aquele tapinha em seu ombro? Porque aquela sensação tão familiar que tomou conta dela quando o sentiu? Seja como for, aquele gato tinha algo incomum. A maneira como ele a tratava enchia seu coração de alegria. Quando ela estava em casa, toda a atenção de Ticão era para ela. Se ela fosse para a cozinha mexer na pia, ele dava um jeito de ficar ao seu lado. Quando ela ia dormir, ele se deitava ao lado de sua cama e muitas vezes ele subia após ela adormecer e se aproximava devagarzinho do rosto de Márcia, e fazia um carinho nela com a cabeça. Às vezes, ela fingia que dormia só para sentir o carinho de Ticão.
Desde aquele dia em que ele lhe deu aquele tapinha no ombro igualzinho ao que ela recebia de seu pai, ela não pode deixar de relembrar da promessa que ele lhe fez pouco tempo antes de partir. Os anos se passaram. Márcia se casou novamente. Logo vieram os filhos e Ticão acompanhou boa parte do crescimento deles. Ele adorava as crianças. Elas faziam o que queriam com ele, mas ele nunca reclamou. Quando ela olhava para o comportamento de Ticão para com as crianças, o carinho que ele tinha por elas, a lembrança das palavras de seu pai lhe vinha à mente. Como tudo na vida, tudo tem um inicio e um fim. Ticão eventualmente um dia partiu. Velho e cansado como estava o pai dela quando se foi, mas no seu olhar de felino, havia tanto amor por ela e pelas crianças, o que Márcia nunca vai esquecer. Um ano depois, as crianças insistiram para ter outro gatinho e foi a vez de Floquinho entrar para a família. A historia toda se repetiu. Ele logo cresceu e se tornou Floco, e não muito tempo depois, ele estava tão grande, gordo e forte, que acabou por ser chamado de Flocão. Hoje, é ele quem de vez enquanto dá um tapinha no ombro de Márcia, que sente a mesma sensação que sentiu, na primeira vez em que Ticão fez aquilo com ela. Quando isto acontece, seu coração se enche de emoção. Às vezes, ela chega a pensar que de alguma forma, alguém lá em cima não queria que ela esquecesse de alguma coisa, mas afinal, da maneira como tudo aconteceu, do jeito que aqueles felinos sempre demonstraram por ela tanto amor, fazendo-a sempre lembrar de seu velho pai, como ela poderia esquecer?
Seja como for, de uma coisa ela tem absoluta certeza. A promessa que ele lhe fez poucos dias antes de partir, ele cumpriu...
Autor: José Araújo
Fotografia: José Araújo – Fotógrafo: Daniel Off
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
ANTOLOGIA ENIGMAS DO AMOR

Queridos amigos e leitores, comunico a todos que recebi hoje a confirmação de que mais um de meus contos será publicado em outra antologia em São Paulo.
Será uma publicação da EDITORA SCORTECCI em homenagem ao dias dos namorados, cujo titulo será ENIGMAS DO AMOR.
O conto de minha autoria que fará parte desta antologia, fala do amor em uma de suas inúmeras facetas, e por uma feliz coincidência, tem o mesmo título que o livro que é "ENIGMAS DO AMOR."
Esta publicação já esta em fase de diagramação e será lançada no mês de junho de 2009.
Aguardem a data e local de lançamento!
José Araújo - autor e escritor paulista
domingo, 11 de janeiro de 2009
O SEGREDO DO CRISTAL...

O céu estava azul e o sol brilhava em todo o seu esplendor matutino daquele dia, ha muito tempo atrás. Era sempre assim em todas as manhãs de primavera no continente da Atlântida. Lindas flores espalhadas pelos campos exalavam seu perfume, tendo como cenário de fundo, as quedas dágua que desciam as montanhas. Gotas dispersadas pelo ar próximo às cachoeiras, formavam uma neblina suave que servia como berço para um lindo arco-íris. Diadora passeava descalça pela grama molhada pelo orvalho da noite, numa das margens de um riacho, onde peixes multicoloridos nadavam de lá para cá, como se estivessem dançando, alegres, livres, sem a preocupação de serem pegos por ela. Suas vestes eram feitas de um tecido branco, leve e esvoaçante. Seus cabelos loiros soltos ao vento, brilhavam como fios de ouro à luz do sol. No meio de tanta beleza, ela entoava uma doce canção que era ouvida ao longe por seu amado Ashnan, que fazia parte da guarda do Templo dos Cristais. Enquanto ele cumpria seu dever, apreciava a paisagem magnífica em volta do lugar em que eram guardados a sete chaves, os segredos dos poderes dos cristais. Ele amou Diadora desde o primeiro dia em que a viu. Como era bom ouvir as músicas cantaroladas por ela e poder sentir o doce perfume das flores pela manhã. Contudo, aquele seria um dia muito especial.
Um dos membros do Conselho dos Doze viria falar ao povo sobre as profecias de que tanto se falava. Muitos não viam a hora de ouvi-lo, pois era conhecido, mesmo pelos mais jovens, que o dia em que a profecia iria se cumprir estava próximo. Mesmo isto tendo lhes sido ensinado pelos mais velhos, ninguém esperava que fosse tão próximo. Naquele lindo dia de primavera, o discurso que se ouviu surpreendeu a todos, sem exceção. Segundo as palavras do Sacerdote, toda a população do continente deveria deixar sua amada Atlântida nos próximos 10 anos, e até lá, todas as medidas que tivessem que ser tomadas para se prepararem para partir, poderiam ser elaboradas e executadas com calma, sem correria, para não correrem os riscos de tomarem medidas precipitadas e se arrependerem amargamente depois. O poderoso Conselho dos Doze estava totalmente dividido. Grande parte concordava em comunicar aos distritos pelos quais eram responsáveis a mensagem das profecias, contudo, não tinham certeza da eminência dos acontecimentos, ou da veracidade dos fatos.
Infelizmente, somente o Grande Comandante, sua Família e os mais conscientes do Norte e do Sul acreditavam piamente nas palavras do Sacerdote. Naquele período, a Atlântida já estava caindo em decadência de seu poder, de sua cultura e arquitetura. Não havia mais contatos diretos com a Grande Irmandade de Seres Iluminados, composta por extra-terrestes. Os anos se passaram e poucos se prepararam para abandonar sua nação. O supremo Sacerdote vendo a lentidão da população de Atlântida, resolveu ele mesmo ir a todos os distritos para tentar abrir as mentes dos atlantes, o que mesmo para ele com todos os poderes que tinha e que foram herdados dos seus ancestrais, seria uma tarefa árdua e cansativa. Um bom tempo depois que ele partiu para suas longas viagens pelo continente, não mais se ouviu falar dele. Parecia que de alguma forma, ele tinha desaparecido no ar. Ashnan se recorda hoje em seus sonhos, mesmo sem ter consciência disto, de cada detalhe daquela manhã há 700.000 anos atrás. No cais do maior porto de Atlântida uma infinidade de barcos, pequenos, médios e grandes, carregados de pessoas e suprimentos traziam um movimento intenso ao lugar.
Ashnan estava junto com outros jovens num pequeno barco movido à vela, trazendo provisões do Norte para os que eram do Sul e iriam partir. Eles seriam o primeiro grupo a abandonar a Atlântida, um lugar que antes havia sido ponto de encontro de nações de extraterrestres, vindos de todos os cantos do cosmos. Assim que seu barco entrou na grande baia, Ashnan vislumbrou as fortalezas de pedra, os castelos residenciais cercados por muralhas revestidas de ouro puro, construídas por seres gigantes e com tecnologia dos extraterrestres. Ele olhava triste para aquelas construções absolutamente fantásticas e sua mente trabalhava num ritmo desenfreado, tentando compreender como tudo aquilo havia sido construído. Era tudo tão fabuloso! As imensas coberturas eram cercadas por floreiras repletas de flores de todas as cores, perfumando o ambientes internos com seu aroma, que penetrava pelas enormes janelas abertas o tempo todo. A arte do povo de Atlântida era algo de espetacular. Magníficos mosaicos de enormes proporções podiam ser vistos nas paredes em todo lugar. A arquitetura era algo que causava fascinação a todos que a conheciam por causa dos edifícios verdadeiramente maciços e de proporções que no mínimo, poderiam ser chamadas de gigantescas.
Todas as casas eram edificadas, umas separadas das outras. Em espaços regulares e bem projetados. Sempre havia um pátio central e no meio dele, havia uma fonte que jorrava águas cristalinas e sonoras, dando ao ambiente muita paz. Grandes Templos com câmaras imensas abrigavam neste período de decadência daquela que já havia sido chamada de a cidade dos portões de ouro, o cerimonial das imagens, que ficava a sob responsabilidade e organização, a cargo dos grandes sacerdotes. Naquela época cultuava-se o Sol e o Fogo. Terraços imensos serviam como observatórios das atividades celestes e em cada um deles, havia um enorme disco feito de ouro maciço, que era chamado de Disco Solar. Ao lado barco de Ashnan, cruzou um outro menor carregado de suprimentos e comandado por um homem do Sul. Ele acenava alegremente dizendo num outro dialeto também compreendido pelos Atlantes, que estava chegando finalmente a hora da partida. Observando-o com muita atenção, Ashnan imaginou que com certeza, pelo sorriso estampado em seu rosto, aquele homem de pele avermelhada, iria com sua família neste grupo.
Seus cabelos pretos e olhos verdes, contrastando fortemente com a cor de sua pele, o diferenciavam do povo do Norte que variava da cor branca até a cor moreno-claro e em sua maioria, com olhos azuis. Por tudo que ele havia ouvido dos anciãos e grandes mestres de Atlântida, ele pensava em como sua nação havia mudado tanto. As crianças não eram mais sadias como antes. Nasciam cada vez mais fracas e menores. Grande parte da população atlante já era composta por mestiços. Muitos tinham tido filhos com mulheres estrangeiras que trouxeram para a Atlântida, vindas de todas as partes do mundo. Em seu coração, Ashnan sentia que gostaria de ter nascido há muito tempo atrás. Quando existia um reino animal muito especial em Atlântida, mas aquele realmente tinha sido um tempo diferente. Todos os animais sem exceção, conviviam em perfeita harmonia. Uma época em que não se comia uma vida para poder sustentar outra. Todos os animais eram alimentados pela energia do amor, da fé e do poder dos cristais, que por sua própria natureza, eram diferentes dos atuais. Se um novo animal surgisse na Atlântida e fosse carnívoro, lá ele não era mais.
Os próprios Atlantes quando se alimentavam, não era para alimentar a vida, pois havia em cada planta, cada flor ou fruto, uma fonte de uma vibração energética diferente. Ao ingeri-los as pessoas eram energizadas naturalmente e tinham sua própria energia equilibrada. Ashnan teria feito cursos de transmutação alquímica que eram freqüentados outrora por todas as crianças, desde a mais tenra idade. Teria participado dos cursos de desenvolvimento das faculdades psíquicas e aprenderia a usar sua energia mental, associada aos poderes inigualáveis dos mais puros cristais. De qualquer forma, mesmo em seu tempo, ele havia aprendido tantas coisas boas, como a mutação genética das plantas. O cruzamento de ervas especiais com o trigo, cujo resultado eram aveia e outros cereais com poderes energéticos fantásticos. Ashnan conheceu tantos animais estranhos em suas viagens de preparação para a partida, que ele jamais imaginou que pudessem existir. O tempo naquela época não era diferente do de hoje e passava rápido demais. Chegava a hora da partida para aqueles que acreditaram no Sacerdote e se colocaram a serviço do Supremo Comandante para ajudar nos preparativos para a grande fuga.
Ao cair da noite, sob um céu estrelado e com a Lua cheia clareando a todos, ao redor de uma fogueira, os grandes sábios comentavam suas as visões sobre do futuro para aquela terra imensa onde viviam. Um deles disse que havia tido uma visão especial. Nela, ele pode ver claramente uma jovem alta, morena e de cabelos pretos e lisos, com um vestido branco, usando também um manto verde e nele, estava bordado o símbolo dourado do sol. Ela olhava para ele sorrindo e apontando para o Norte. Ao redor da jovem, ele viu animais de várias espécies, inclusive alguns que ele nunca tinha visto. Eles estavam calmamente acomodados ao lado dela, como se a esperassem para continuar a caminhada. Ao ouvirem a narrativa do sábio, todos concordaram que o tempo das grandes mudanças estava mais próximo do que imaginavam, já que a descrição dele sobre a jovem, trazia aos anciãos que lá estavam, a lembrança dos tempos de convívio com os Mestres da Irmandade Estelar que eram todos muito jovens e tinham o poder de falar com os animais. Foi assim que o primeiro grupo tomou a decisão de seguir para o Norte. Meses depois, o segundo grupo partiu para um local desconhecido.
Aos poucos, grupos de familiares abandonavam a as terras da Atlântida, espalhando-se por todos os cantos do mundo, e todos eles, passavam inevitavelmente por muitas dificuldades e obstáculos em seu caminho. Fato este, que tornava impossível uma saída rápida de lá. Dentre os vários problemas, estava a confusão gerada e instalada por aqueles que se recusavam a ir embora. Isto, porque não acreditavam nas visões dos sábios, ou porque o que realmente eles queriam, era tomar posse das terras abandonadas e das imensas riquezas materiais, que iriam ser deixadas para trás. A grande população de Atlântida estava dividida. À medida em que se aproximava a tão falada data das transformações, muito ódio e rancor surgiram de todos os lados entre os vários grupos de diferentes opiniões que surgiram no país. O medo pairava no ar. A sensação de catástrofe inevitável e iminente se fazia presente em todos os corações. Era para todos como se algo muito ruim fosse acontecer. Mesmo os mais cépticos, que apesar das evidências se negavam a admitir, esta sensação não os deixava em paz. O Grande Comandante havia visitado todas as cidades e povoados, assim como aldeias infinitamente distantes.
Nestas últimas, mais perto da vida selvagem, até os animais já haviam abandonado as florestas. A insegurança e o misterioso sentimento de que uma desgraça estava para chegar que assolava os corações dos humanos, já havia chegado nos reinos animal e vegetal. No último ano, uma praga incontrolável tinha atingido as plantações e destruído grandes colheitas. Áreas antes férteis tornaram-se pântanos e gases que exalavam um mau cheiro insuportável saia por debaixo de pedras em todos os cantos. As abelhas foram as primeiras a desaparecer. Muitos outros também sumiram como que por encanto e não era possível vê-los em lugar algum. Nos velhos caminhos que conduziam à Grande Pirâmide onde ficava o Templo da Cura, fendas enormes impediam o acesso até lá. O tempo ia passando e muitos outros sinais de alerta eram dados pela natureza. A agitação dos elementais era agora uma constante. Terremotos, invasões de água aconteciam em vários lugares. Os animais e pássaros da região que ainda permaneciam lá, tinham comportamentos estranhos. Muitos invadiam as cidades, vilas e vilarejos para fazerem seus ninhos em lugares fora do comum.
Era chegada a hora de sair o ultimo barco dos que resolveram abandonar a Atlântida em busca da sobrevivência. Aqueles que haviam resolvido ficar estavam um pouco assustados, mas estavam adorando a idéia de tomar o poder tão logo O Grande Comandante partisse para sempre. Eles não viam a hora de poder se apropriar de toda tecnologia, que em suas mentes iria lhes conferir força e poder insuperável. Não era segredo que na grande pirâmide que havia sido usada pelos antigos quando havia intercâmbio com os extraterrestres, estavam guardadas poderosas armas e maquinas voadoras que foram desenvolvidas com a mais alta tecnologia, utilizando a técnica de associação do poder dos cristais de quartzo, com o poder psíquico dos atlantes. Tal tecnologia e poder, depois que os Extraterrestres se foram da Terra, ficou sob a guarda dos grandes Comandantes, que geração após geração, cuidavam de manter a segurança daqueles objetos de guerra e de transporte, como cuidavam de suas próprias vidas. Eles sabiam que se caíssem em mãos erradas, poderia ser o fim do planeta Terra. Para Ashnan era chegada a hora de embarcar. O ultimo barco iria partir. A vida no continente seguia seu rumo. A natureza através de terríveis tempestades, vendavais e erupções vulcânicas que se seguiam, confirmavam o que havia sido dito pelos sábios e sacerdotes. Era a realidade nua e crua, se mostrando sem dó nem perdão.
Os Atlantes, vegetarianos por natureza, comendo apenas frutas, grãos, legumes e verduras em geral, não contavam com um grande estoque de alimentos. Quase tudo foi perdido na última colheita, por causa de pragas e das forças naturais que assolavam o país. Ainda assim, uma quantidade enorme de cidadãos resolveu não partir. Finalmente o barco em que estava Ashnan e sua família partiu. Seu destino, o desconhecido. Sabia-se através daqueles que tinham o poder da visão, que seguir na direção sul, seria muito perigoso. Tremores eram sentidos, fracos ainda, mas constantes, acompanhados de ondas imensas que ameaçavam as embarcações e as vidas de seus tripulantes. Mesmo assim eles partiram naquela direção. Muitos dias se foram e através de comentários dos tripulantes de barcos mais velozes que o deles, soube-se do afundamento das terras do leste da Atlântida que a ligavam ao continente europeu.
Em seus pensamentos, Ashnan visualizava a civilização que ele mal pode conhecer e que estava ficando cada vez mais longe, e logo iria desaparecer para sempre. Extremamente cansado e com fome, ele foi enfraquecendo aos poucos. Se ele fosse um de seus ancestrais, teria se alimentado da luz do sol. Teria absorvido energia suficiente para poder se desmaterializar ali e reaparecer onde quisesse. Mas ele não era. Ashnan era apenas um dos filhos da Atlântida em decadência que ele conheceu. Ele tinha em sua mente os mesmos poderes que seus ancestrais, mas para usa-los, ele precisava ter estudado na escola da Grande Pirâmide, onde teria aprendido a controlar e liberar os outros 90% de sua capacidade mental, e associa-la aos poderes dos cristais de quartzo, podendo assim, fazer o que quisesse, quando fosse necessário. Nem ele, nem os outros ocupantes do barco, no meio daquele oceano sem fim, tinham a menor esperança de chegar a algum lugar sãos e salvos. Ele estava com febre e em seu delírio, ele perguntava onde estava Diadora, a jovem que cantava aquelas lindas canções tendo como cenário a natureza esplendorosa de sua amada Atlântida. Ele falava também do Templo dos Cristais.
Sua preocupação era de que aqueles que tinham ficado pudessem ter tomado para si o poder e ter colocado as mãos no grande legado de seus ancestrais que antes dos ultimos acontecimentos, ele ajudava a guardar. Um legado do qual, desde pequeno, Ashnan havia ouvido falar. Eram imensas máquinas voadoras em forma de discos, armas portáteis que eram capazes de levantar, mover, cortar, esculpir e até mesmo derreter blocos de pedra gigantescos. Lá havia também um tesouro incalculável composto por obras de arte e cultura, além de relatos minuciosos sobre a fundação de Atlântida com o auxilio dos extraterrestres. Ashnan se recuperava por breves períodos de tempo mas depois recaia. Enquanto estava lúcido, ele ouvia daqueles que ainda tinham o poder extraordinário da videncia, que a catástrofe agora já assolava a grande cidade de Atlântida e que as terras do leste e do oeste, já haviam desaparecido no fundo do mar. Mais um dia se passou e um dos anciões informou que a natureza agora estava usando de todas as suas forças para aniquilar a capital. Ashnan, fraco e com febre, mais uma vez perdeu os sentidos.
Quando ele acordou, lhe contaram que havia chegado o momento final de seu país. Uma catástrofe de proporções nunca vista atingiu a Atlântida por um dia e uma noite e ela finalmente desapareceu no fundo do mar. Lhe contaram também, que um dos anciões que tinha o poder de ver o presente em locais dos mais distantes, disse que quando chegou a hora derradeira, uma frota de naves interestelares desceu à terra para resgatar aqueles que ainda eram puros de alma e coração e que não tinham conseguido partir por algum motivo. Que o grande Sacerdote foi resgatado pela nave mãe que desceu envolta por uma luz tão intensa, que impedia aos olhos de reconhecer suas formas. E como uma bola imensa de luz, tão rápido como ela desceu, ela partiu. O coração de Ashnan doía por causa de Diadora que sendo filha do Grande Sacerdote, tinha ficado ao lado dele, até os momentos finais. Com muito esforço, ele perguntou a um dos anciões, se ele sabia do que havia acontecido com ela, e ele lhe disse, que no ultimo instante, ela não conseguiu alcançar a mão de seu pai que a chamava para ir com ele, ficando para trás. Disse ainda, que apavorada, ela correu para dentro do Templo dos Cristais e depois disto, ele não sabia mais dizer o que aconteceu. Triste e abatido, ele carregava no peito a dor da perda definitiva, do seu grande amor.
Os dias se passaram e em uma certa manhã, eles acordaram com a mais bela visão. Bem à sua frente, havia terra firme e saindo dela, um enorme rio que desaguava no mar. Os tripulantes lançaram ancoras e se puseram a explorar o lugar. Ficaram tão encantados, que resolveram seguir rio acima. Ele era tão largo, que quando se estava navegando nele, em certos pontos, não era possível enxergar a outra margem. Ashnan depois de alimentado com as frutas naturais da região, bebendo água de coco que ele até então não conhecia, foi melhorando gradativamente, até que recuperou sua saúde e pode admirar com sentimento a maravilha daquele lugar que por algum motivo, ele resolveu chamar de Amazônia. A vida seguiu seu rumo e os sobreviventes de Atlântida que se dispersaram por varias regiões do mundo, foram gradativamente auxiliados pelos extraterrestes, a construir novas nações. Em cada uma delas, sempre era construída uma réplica de alguma grande obra arquitetônica de sua amada Atlântida, que se foi para não voltar.
Hoje ficamos abismados com as pirâmides do Egito, com as maravilhosas edificações feitas pelos Incas e pelos Maias, com a cidade perdida de Machu-Pichu e pensamos como era possível de serem feitas com tamanha precisão há tanto tempo atrás. A resposta para esta pergunta afundou com a Atlântida de Ashnan. O continente perdido que um dia foi berço de tamanha tecnologia, que possibilitava até mesmo intercâmbio com os povos oriundos de outros planetas, vindos de galáxias das mais distantes, e que desapareceu sob as águas do oceano, deixando como registros, apenas as lendas contadas pelos viajantes. Ashnan viveu nela e quando chegou a hora, ele partiu sem destino certo, assim como tantos outros, que auxiliados pelos extraterrestres, construíram em outras terras, as Pirâmides do Egito, a grande esfinge e todas as outras maravilhas arquitetônicas, que até hoje podem ser vistas em muitos lugares do planeta. Os sobreviventes da Atlântida deixaram para nós nestes lugares, registrados em forma de arquitetura, a prova de sua existência e também de seu contato com os seres vindos do céu.
São Paulo, janeiro de 2009. A mãe de Heitor tinha ganhado de presente um cristal que segundo a pessoa que lhe presenteou, tinha poderes especiais. A família dele sempre teve seu lado esotérico e adoravam colecionar esculturas que representavam deuses Incas e Maias. Haviam visitado Machu Pichu onde se sentiram como se estivessem em casa. Era algo que não tinha explicação lógica para ninguém. Eles apenas gostavam e se interessavam em saber tudo que podiam sobre as origens de lugares como aquele. Uns tempos depois, uma amiga viu o cristal em sua casa e lhe disse que tinha certeza de que aquele era o mesmo que havia sido dela e do qual ela se livrou, doando a alguém porque ele tinha uma estranha energia, que a fazia sentir-se mal. Disse também, que soube que a pedra passava de mão em mão, sem nunca ficar definitivamente com a pessoa que a possuísse, pelo mesmo motivo. Certo dia, a mãe de Heitor estava na cozinha e num determinado momento, começou a sentir-se mal. O cristal que ela havia ganhado estava em cima da mesa da cozinha. Ela tinha resolvido lavá-lo para que sua pureza ficasse mais aparente e quanto ela lavava os pratos, sem que ela visse, ele começou a emitir uma estranha luz. Mesmo estando incomodada com o que estava sentindo e lembrando das coisas que sua amiga havia lhe dito sobre o cristal, ela continuou seu trabalho.
De repente, ela ouviu uma voz feminina que parecia estar vindo de longe. Ela suplicava por ajuda. Precisava ser libertada de alguma coisa que a prendia. A suplica era tão veemente, que ela passou a se sentir mais incomodada ainda. Quando ela virou-se para o lugar onde estava o cristal, ela quase desmaiou. Dentro dele, estava uma linda jovem. Suas vestes eram feitas de um tecido branco, leve e esvoaçante. Seus cabelos loiros e soltos brilhavam como fios de ouro quando expostos à luz do sol. A jovem pediu a ela que não se assustasse. Que não tivesse medo. Disse entre lágrimas, que estava dentro daquele cristal, desde que seu país foi engolido pelas águas do mar. Sem compreender o porque, apesar de pensar que estava ficando louca, a mãe de Heitor lhe perguntou quase gaguejando, como foi que ela tinha ido parar dentro daquele cristal. A moça lhe disse, que quando uma grande catástrofe atingiu seu país, ela não conseguindo acompanhar seu pai na fuga, tinha entrado no Templo dos Cristais para se proteger, e de repente, foi absorvida pela pedra, ficando presa nela por uma eternidade. A mãe do rapaz já havia lido a respeito do continente perdido de Atlântida e compreendeu imediatamente o que havia ocorrido.
Ela sabia que os Atlantes se transportavam de um lugar para o outro utilizando as câmaras de cristal, onde com seus poderes psíquicos associados aos poderes dos cristais de quartzo, desmaterializavam-se num lugar e materializavam-se em outro. Ela tinha certeza de que no momento da grande e ultima catástrofe que se abateu sobre a Atlântida, a jovem acabou sendo absorvida em forma de energia pela pedra, que a encerrou lá para sempre. Ainda chorando, a jovem disse que seu nome era Diadora e que somente um descendente real dos Atlantes, poderia ter forças psíquicas o suficiente para liberta-la de sua prisão. Naquele instante, Heitor entrou na cozinha e se deparou com a cena, que o deixou boquiaberto. Diadora reconheceu em Heitor seu amado Ashnan e enquanto ele procurava se recuperar da surpresa, ela lhe dizia com o coração repleto de alegria, que ele havia sido o grande amor de sua vida na Atlântida, e que bem lá no fundo de sua alma, se ele realmente quisesse, poderia relembrar os tempos em que ela cantarolava lindas canções para alegrar seu coração. A mãe de Heitor sempre acreditou em coisas paranormais, e para ela, naquele exato momento, estava acontecendo ali, bem na cozinha de sua casa, um reencontro de um grande amor do passado.
Heitor ouviu calado tudo que a jovem lhe disse e em certo momento, ele fechou os olhos. Foi como se ele estivesse entrando em um transe profundo. Imagens começaram a surgir em sua mente. Ele as via detalhe por detalhe. Era como se estivesse vivendo naquela paisagem espetacular. Heitor viu e ouviu a mesma jovem que estava agora dentro do cristal, cantando uma linda canção. Ele sentiu bem dentro de si uma força imensa que parecia com o que acontece quando um vulcão vai entrar em erupção. Sua mãe que estava ao seu lado viu quando a aura em torno do corpo de Heitor começou a se tornar visível. Ela foi aumentando de intensidade, até que sua luz envolveu completamente o ambiente onde estavam. Diadora dentro do cristal, de braços abertos e olhos fechados, parecia absorver aquela energia mágica e cheia de luz. Num estalo, o cristal de partiu. De dentro dele, saiu um raio de luz que se posicionou bem em frente a Heitor. Aquela linda jovem, sua amada Diadora, com suas vestes que eram feitas de um tecido branco, leve e esvoaçante. Com seus cabelos loiros soltos brilhando como fios de ouro quando expostas à luz do sol, materializou-se na frente dele. Enquanto ela o observava, a aura de Heitor foi diminuindo seu brilho, até não mais ser vista e quando ele abriu os olhos, seus olhares se encontraram e seus lábios em silencio, lentamente foram se aproximando.
Um beijo longo, saudoso e apaixonado aconteceu. A emoção havia tomado o peito da mãe de Heitor e as lágrimas rolavam livremente em sua face. Ela antes tinha dúvidas, mas agora não mais. Ela e todos os seus, eram atlantes. Em outras vidas eles conheceram a exuberância e a magia daquele continente único que um dia foi um lugar de muita paz, de muito amor. Onde o ódio, a inveja, o rancor e maldade não existiram por séculos a fio, mas uma grande parte dos Atlantes, se deixou contaminar por sentimentos negativos. Eles começaram a adotar a inversão como regra de vida. Passaram a achar que tudo que era ruim, era o melhor para eles. As conseqüências foram trágicas para eles e para os outros que não pensavam assim. Nem mesmo a terra conseguiu suportar o peso de tantos sentimentos ruins, e afundou no mar, carregando com ela, todos aqueles que traziam em suas mentes os pensamentos ruins e também aqueles que sem culpa, pagaram pelos erros dos outros.
Felizmente, a mãe de Heitor pensou.
Muitos de nós conseguimos de alguma forma fugir antes que fossemos engolidos pelo mar e cá estamos, espalhados pelo mundo, e ainda hoje, somos prova viva de que fomos um dia, uma grande nação. Um povo que chegou ao mais alto patamar de desenvolvimento tecnológico e psíquico. Uma gente que tinha como aliados os homens que vinham do céu. Heitor abraçado a Diadora, agora sabia que seu verdadeiro nome era Ashnan. Daquele dia em diante, eles nunca mais se separaram. Ele mostrou a Diadora o novo mundo em que ela ia viver. Ela registrava em sua mente, cada detalhe do que ele descrevia e mostrava a ela. Tendo vivido as conseqüências da decadência de Atlântida, Diadora não demorou muito para compreender, que a sociedade à qual ela estava sendo apresentada, estava a caminho de um fim parecido com o que eliminou da face da Terra a sua casa, o seu lar. Os meios de comunicação só noticiavam guerras e desgraças ao redor do mundo. Terremotos varriam cidades do mapa. Furacões açoitavam e destruíam tudo que encontravam em seu caminho. Ela viu horrorizada na TV, uma reportagem sobre um Tsunami que a fez lembrar-se da maneira como a Atlântida pereceu. Não se ouvia nenhuma noticia boa.
O grande sucesso do momento eram as desgraças. As tragédias. As pessoas deste novo mundo não eram sensíveis. A avareza, a inveja, o ódio e o rancor reinavam nos corações dos mais fracos. O amor entre maioria das pessoas dependia de suas posses. De seus tesouros materiais. Perplexa com as mudanças que houve na humanidade, ela decidiu que os dois iriam unir forças para reencontrar seu povo há tanto tempo disperso pelo mundo, e tentar a todo custo, juntá-los para que pudessem num grande mutirão, fazer com que a humanidade compreendesse que a cada dia, ela dava um passo a mais para a destruição não só de seus países, mas do planeta também. E assim foi. Diadora e Ashnan hoje peregrinam pelo mundo desde seu reencontro, se uniram a ONGS que lutam pela salvação da natureza, do meio ambiente, dos animais e do planeta que um dia abrigou a civilização mais avançada que houve, e que pelos mesmos motivos atuais, desapareceu sem deixar rastros.
Um dia, muitos antes do reencontro com Diadora, Ashnan leu escrito em algum lugar, algo que chamou muito a sua atenção, e que dizia:
Se você sente que tem um interesse fora do comum por conhecer mais sobre a Atlântida, então você já esteve lá.
Se você sente dentro de si, uma grande responsabilidade pela humanidade, sua alma pode estar sentindo que tem algum débito não pago no tempo em que viveu na Atlântida e que precisa ser pago.
Se você se sente inseguro e confuso sobre o rumo de sua vida, então você viveu na Atlântida no tempo em que muitas almas inocentes foram subjugadas.
Se de algum modo, você se sente ligado ou ao menos interessado em extraterrestres e viagens intergalácticas, você é um Atlante."
Agora, ao lado de sua amada Diadora, ele compreende o significado daquelas palavras que tanto o tocaram.
Ashnan e Diadora reencontraram-se por uma obra do destino. Ele conseguiu fugir a tempo de não afundar com seu país e chegou a outras terras a duras penas, onde deu continuidade à vida e à nação Atlante. Mesmo com outros nomes, seus povos deixaram marcas visíveis de seus contatos com os extraterrestres em vários pontos da Terra. Ela passou séculos presa no cristal que a absorveu no momento final da Atlântida, tendo ao longo dos séculos passado por uma quantidade infinita de mãos, sem parar em lugar algum. O cristal tornou-se para muitos, uma pedra misteriosa, que carregava dentro de si um grande segredo, até que um dia, finalmente ele veio parar na casa de Heitor, quando até que enfim Diadora reencontrou o seu Ashnan. Ele vivia agora em outro corpo, com outra forma, com outro nome, mas em essência, um verdadeiro atlante, e o mais importante, o seu grande amor.
Autor: José Araújo
Fotografia: Cristal de Quartzo - Fotógrafo: José Araújo