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sábado, 3 de janeiro de 2009

UMA VIAGEM AO FUTURO...




São Paulo, 31 de dezembro de 2014.
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Já era quase meia noite. Faltavam apenas cinco minutos para a virada de ano, e Edivaldo como sempre, havia saído tarde de seu trabalho. Dia após dia ele trabalhava duro como garçom no restaurante de um conceituado Hotel da capital paulista, isto, desde que chegou a São Paulo. Vindo do nordeste brasileiro para tentar uma vida melhor na maior metrópole do país, ele se esforçava o máximo que podia para progredir às custas de seu trabalho. Era comum ele passar as viradas de ano na rua, dentro do metro ou de algum ônibus voltando para casa, pois seu trabalho exigia muito dele, ainda mais nas épocas de festas. Ele ainda tinha uma vantagem sobre seus outros colegas de profissão. Sempre foi liberado para sair mais cedo do trabalho, afinal ele era muito esforçado. Entrava muito cedo e saia tarde todos os dias, mas mesmo saindo mais cedo que os outros, nunca conseguia chegar em casa a tempo para festejar com a família o Natal ou o Ano Novo. O gerente do restaurante, desde o inicio, gostou do jeito simples e bem educado de Edivaldo. Ao contrario dos demais, ele era sensível, tinha muito bom gosto e sabia como se portar em qualquer lugar. Uma pessoa que veio de família humilde, sem condições de lhe proporcionar bons estudos. Contudo, ele era diferente.
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Desde muito novo, quando aprendeu a ler, começou a estudar com afinco. Ele se tornou um autodidata. Sabia de tudo um pouco e em alguns assuntos, ele se aprofundava mais. Com 28 anos de idade, ele já havia aprendido a falar três idiomas que dominava com fluência. No ramo em que ele trabalhava, ainda mais na área dos jardins, ser poliglota era indispensável, principalmente em épocas especiais, onde os turistas invadiam a cidade. Um rapaz como ele, com boa aparência, educado, inteligente e ainda por cima poliglota, foi um verdadeiro achado para a empresa em que ele trabalhava. Ele sempre foi um homem que nunca reclamou de salários ou horários. Trabalhava constantemente e com afinco. Às vezes até sete dias por semana. Nunca desanimou nem por um instante. Tudo que ele queria, era poder garantir o sustento e algum conforto para sua jovem esposa e seu pequeno filho. Além de fazer de tudo para dar o melhor que podia para eles, ainda mandava algum dinheiro para seus velhos pais no nordeste. Naquela noite em especial, ele estava muito cansado. Com o passar dos anos, com sua inteligência aguçada e sensibilidade intensa, ele prestava muita atenção no comportamento das outras pessoas. A psicologia era uma das coisas que mais o atraia. Em determinados momentos, quando chegavam as festividades de Natal e Ano Novo, o que mais lhe chamava a atenção, era a maneira como as pessoas encaravam estas épocas.
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Cada qual agia de uma forma. Uns poucos eram pessoas de fé e acreditavam num mundo melhor, com mais amor, mais respeito, mais solidariedade para todos sem exceção. Estes se cumprimentavam ardorosamente e se abraçavam trocando votos de prosperidade, saúde, amor e fé no coração. O que mais lhe chamava a atenção era que a maioria, nem sequer se cumprimentavam. Elas evitavam demonstrações de carinho através de contato físico. Demonstrar amor para eles, nem pensar! Ano após ano, aquilo preocupava seu coração sensível e ele ficava imaginando, aonde a raça humana iria parar agindo daquela forma. Como de costume, ele entrou na estação Paraíso do metro. Ele sentia como sempre uma tristeza enorme por não poder estar com sua família, fosse no Natal ou Ano Novo, e uma angustia apertava seu peito naquela noite, de uma forma que ele nunca havia sentido antes em sua vida. A Avenida Paulista estava prestes a comemorar mais uma virada e ano sensacional com muitos shows e a grande queima de fogos à meia noite. Havia muita gente na plataforma e tudo que ele queria, era poder se sentar quando entrasse no metro. Trabalhando em pé o dia todo, indo e lá para cá, atendendo a todo tipo de pessoas e mesmo sendo por vezes humilhado por alguns, ele sempre procurava manter seu controle. Ele acreditava piamente que era seu dever de pessoa educada e crente em Deus, que fizessem o que fizessem para tira-lo do sério, ele tinha que se manter inalterado. Em sua mente, um homem inteligente não se deixa abalar pelo mau comportamento alheio.
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Violência para ele era sinal de espírito fraco. Não representava de forma alguma, demonstração de força, ou poder. Após esperar poucos minutos, a composição chegou. Havia uma multidão na estação Paraíso que se dirigia à Avenida Paulista para as comemorações da virada de ano. De alguma forma, quando as portas do metro se abriram, ninguém entrou no último vagão. Ele estava completamente vazio, mas todos se dirigiram para os outros vagões. Edivaldo meio atordoado de cansaço, não pensou duas vezes. Mesmo sem compreender o motivo pelo qual aquela multidão não quis embarcar naquele vagão, ele entrou e se sentou. Seus pés doíam. Seu corpo todo estava sentindo o peso do cansaço. Seu destino era a estação Vila Madalena, e de lá, teria que pegar um ônibus que o levaria até seu bairro, que ficava a quase uma hora de distancia. Pensando em sua família, no carinho e amor que eles compartilhavam juntos, ele pedia a Deus que um dia ele pudesse passar uma noite de Ano Novo com eles. Sonhava em abraça-los com todo amor quando chegasse a meia noite. Do fundo de seu coração, ele desejava que o Ano Novo fosse melhor para todos, que a vida lhes trouxesse paz, amor, saúde e prosperidade. Não só para ele e sua família, mas para a humanidade em geral. Em seu coração bondoso, ele gostaria que as pessoas ficassem mais próximas umas das outras. Que se doassem um pouco mais. Que elas compreendessem o valor de um abraço, de um beijo, de um carinho. Que seus corações se abrissem para a fé. Que elas acreditassem mais na existência de Deus e que se deixassem inundar pela crença de que ele existe e esta presente em todo lugar.
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Lá, sentado naquele vagão, sozinho, sem absolutamente ninguém além dele, Edivaldo se encostou ao banco e relaxou as pernas esticando-as para frente. Normalmente, ele não conseguiria nem mesmo se movimentar direito devido ao volume de passageiros, mas naquela noite, misteriosamente, o vagão havia de alguma forma sido reservado especialmente para ele. Naquele trajeto diário, ele conhecia todos os detalhes dos túneis do metro. Muitas vezes ele observou as luzes de sinalização de distância entre uma estação e outra que havia dentro deles. Ele gostava de olhar pela janela grande e retangular, as luzes em tons esverdeados, os monitores que lá havia. Suas telas em verdes, colocadas distantes umas das outras em espaços alternados e calculados, por vezes lhe pareciam estar correndo para trás, conforme o movimento do trem. Sem pensar no que estava prestes acontecer na majestosa avenida que estava bem em cima de sua cabeça, ele encostou a cabeça no vidro e enquanto o metro seguia em frente numa velocidade crescente, ele passou a observar atentamente os monitores verdes nas paredes do túnel. Seus os olhos estavam pesados de sono. Ele mal conseguia mantê-los abertos. As luzes deles agora passavam por ele numa velocidade que ele começava a achar que estava além do normal. Parecia que aquela visão o estava hipnotizando. Elas foram passando cada vez mais rápido, até que em um momento, suas luzes se fundiram, transformando-se em um único fio de luz esverdeada, que não parecia ter fim. Edivaldo foi sentindo que seu corpo já não mais respondia à sua mente, e mesmo sem querer, ele adormeceu.
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Algum tempo depois ele acordou. Ainda meio zonzo, sem distinguir exatamente onde estava. De repente, ele mal pode acreditar no que estava vendo. O vagão em que ele estava não parecia mais o mesmo. No lugar dos bancos duros fixados no chão, havia almofadas transparentes e flutuantes, e ele estava sentado em uma delas. No lugar das janelas grandes e retangulares, havia painéis digitais. Em toda a parede do vagão havia um imenso monitor digital de altíssima qualidade que mostrava imagens que ele nunca havia visto em sua vida. Como nos pequenos monitores digitais espalhados nos vagões do metro de que pegava todos os dias, aquele imenso painel digital mostrava todos os tipos de informação. Pasmo e maravilhado com o que via, ele se pôs a assistir o que estava passando e aos poucos, ele foi acreditando que estavam passando algum filme de ficção. Nas imagens que ele via, as pessoas que eram mostradas usavam roupas estranhas. Elas mais pareciam seres de outro planeta, do que humanos. Enormes letreiros de publicidade faziam propaganda de um lugar que se chamava Unidade de Reprodução Humana do Paraíso. Sem ao menos piscar, ele lia as palavras e digeria as informações de uma forma tão rápida, que ele achou que estava sonhando. Um ser estranho que ele não soube dizer se era homem, ou mulher, dizia com uma face sem expressão, que naquele dia, a aquisição de um novo filho estava sendo facilitada em suaves prestações.
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Que o parcelamento poderia ser feito, através dos chips de crédito, implantados sobre a pele daqueles seres, que ele quase não conseguia reconhecer como sendo humanos como ele. A figura que fazia a propaganda falava com sua voz metálica e sem expressão, que agora era possível se personalizar o filho que fosse adquirido sem nenhum acréscimo. Que era possível escolher qualquer modelo de acessório e montar um filho, do jeito que quisesse. Imagens de vários modelos de filhos eram mostradas. Umas após as outras elas desfilavam diante de seus olhos e ele estava horrorizado com as aparências daqueles pequenos seres. Havia cabelos, orelhas, narizes, bocas, ou olhos de todos os formatos. De todas as cores. A maioria e ao que parecia, as que mais faziam sucesso, eram aquelas cuja pele, era prateada e que usavam roupas transparentes, o bastante para ser ver que não havia órgãos sexuais em seus corpos. Todos mais pareciam com manequins de loja, do que seres humanos. O coração de Edivaldo batia cada vez mais rápido. Sua mente brilhante aos poucos foi se ajustando à realidade em que ele estava vivendo. Ele, de alguma forma compreendeu que por causa de algum distúrbio temporal ele havia se movido entre aquilo que chamamos de espaço-tempo e foi transportado a outra época no futuro. Seus pensamentos se desencadeavam em uma sequência precisa. Era como a queda de uma infinidade de peças de dominós, uma empurrando a outra, na mesma direção.
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Na tela agora ele via as imagens de outra Unidade de Reprodução Humana, mas desta vez, com o nome de Trianon. Estava sendo anunciava uma grande liquidação de peças e sobressalentes, para as unidades humanas dentro do prazo de validade, valendo até o ultimo minuto do ano. Edivaldo ao ouvir a expressão prazo de validade, concentrou sua atenção no que dizia a propaganda. Aquele era o dia da grande venda de lançamento das novas unidades Alpha PII. Elas vinham com garantia estendida da fábrica que ficava na base marciana de Taurus IV. Seu prazo de validade poderia ser escolhido pelo comprador, podendo variar entre 15 e 30 anos, ao contrário das ultrapassadas unidades humanas chamadas Luna X, que tinham um prazo único de validade de 50 anos.
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O ser estranho que falava sobre a nova unidade, argumentava que agora, em menos tempo, era possível trocar a unidade velha, por uma novíssima e repleta de novos recursos. Estava claro para ele, seja qual fosse o ano em que ele se encontrava, o ser humano era descartável. Não havia mais amor, não havia mais apego sentimental. As pessoas eram feitas em linha de produção e saiam de fábrica, com um prazo de validade. Elas não mais podiam envelhecer e aprender vivendo. Quando eram montadas nas Unidades de Reprodução Humana, já saiam de lá com uma memória pré-instalada. Eram entregues aos felizes compradores com o conteúdo e a capacidade intelectual que escolhessem. O pânico foi tomando conta de Edivaldo.
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Então era naquilo que o ser humano havia se tornado?
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As pessoas agora, simplesmente chamadas de unidades, adquiriam outras unidades com as características e prazos de validade que escolhessem. Se não estivessem contentes com o produto, bastava trocar por um novo, enviando o indesejável para lugares chamados de Unidades de Desativação, que coincidentemente estavam sendo mostradas naquele instante nas imagens da tela na parede, daquele vagão do futuro. Enquanto ele pensava no quanto a humanidade havia perdido ao longo dos séculos, numa das imagens mostradas das unidades em oferta, ele pode ver com extrema precisão através do vídeo digital de alta resolução, ano, data de fabricação e data de validade, gravada em baixo relevo, na nuca de um deles, e lá estava escrito:
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Data de fabricação: 31/12/3008
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Data de validade: 31/12/3038
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Edivaldo suava gelado e um arrepio subiu pela sua nunca o fazendo estremecer.
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Sua respiração estava cada vez mais difícil. Era terrível tudo aquilo que ele estava vendo, e pior era imaginar como um homem inteligente o faria, as terríveis as consequências de tudo aquilo que ele estava presenciando.
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As pessoas, as unidades, não nasciam, elas eram fabricadas, montadas de acordo com o desejo de outras unidades. Elas não morriam, eram desativadas. Tudo ficou pior quando ele viu outro ser estranho, desta vez de pele de cor dourada, anunciado a grande cerimônia de desativação que iria acontecer naquela noite. Exatamente às 00h00as do dia 01 de janeiro de 3009, quando as obsoletas unidades fabricadas há 50 anos seriam desativadas, tendo vencido naquele dia seu prazo de validade, dando lugar a outras mais modernas e mais funcionais.
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Na tela, ele pode ver as imagens da grande desativação que ocorreu na virada do ano anterior. Edivaldo, boquiaberto agora sabia que ser desativado, significava literalmente, ser desintegrado por raios laser e ele se lembrou das imagens aterrorizantes do Holocausto, um dos maiores crimes da humanidade. A que ponto chegou a raça humana! Ele pensou. Não havia mais contato físico. Ninguém mais se apegava a ninguém. Não havia mais amor, os sentimentos desapareceram da face da terra. A frieza e insensibilidade gradativamente se instalaram nas mentes e nos corações dos homens, desde a época de onde ele havia vindo, até chegar àquelas aberrações, imitações de seres humanos. Chamadas de unidades, como se fossem simples objetos, sem alma e sem coração. Em determinado momento ele sentiu que o que quer que fosse aquilo em que ele estava viajando estava parando. O vagão do futuro parou como uma pluma. Aquilo em que ele estava sentado, simplesmente se deslocou em direção a um dos cantos que se abriu de uma forma espetacular para Edivaldo. A parede desapareceu em frente aos seus olhos e o assento flutuante o levou para fora, rumo a uma plataforma toda feita de vidros espelhados. Ele não conseguia enxergar nada do outro lado deles, muito menos, uma saída daquele lugar. O assento onde ele estava, ao chegar em frente a uma coluna arredondada, apenas estacionou ao lado dela e começou a subir, levando-o numa velocidade alucinante rumo ao alto.
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Quando ele pensou que ia ser esmagado contra o teto de vidro que ele via lá em cima, ele abriu-se como uma escotilha, e Edivaldo, se viu em meio a uma imensa avenida. Um cartaz digital dizia "Estação Consolação". Petrificado, ele compreendeu que ele estava na Avenida Paulista, 1000 anos à frente de seu tempo. Nada a não ser o nome no cartaz o lembrava das estações do Metro que ele conhecia. Sem tocar o chão, o assento se inclinou à frente e o despejou num objeto arredondado que lembrou a Edivaldo do escudo do Capitão América, o super herói de quem ele tanto gostava quando pequeno. Ele ao descer em cima daquilo, ele procurou se equilibrar para não cair para fora dele, pois lá embaixo, não havia calçadas, não havia asfalto. Aquela imensa avenida tinha o chão feito de um material brilhante e pelo que podia perceber, nele passava uma corrente de energia imensa que circulava em ambas as direções. Atônito, ele viu varias "unidades" indo de um lado para o outro, em cima de objetos iguais ao que ele estava cima. Eles seguiam seu rumo em filas tão perfeitas e em tão perfeita ordem, que ele sem querer, lembrou-se da velha pata que tinha no quintal de sua casa, que quando saia para passear, levava uma fila indiana de patinhos atrás dela. Olhando para cima, ele viu veículos enormes que sobrevoavam aquela avenida nas duas direções e o incrível, era que eles não emitiam o menor barulho. Eles podiam se deslocar em qualquer direção, para o lado, para cima ou para baixo, sem o perigo de se chocarem como acontecia com os ônibus, carros e caminhões de seu tempo.
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O objeto em cima do qual ele estava não se moveu do lugar. Ele pode apreciar tudo à sua volta e não havia edifícios como os que ele conhecia. Eram torres imensas e pontiagudas que em alguns casos, quase tocavam o teto de uma gigantesca cúpula que protegia aquele lugar. Não havia plantas, nem flores, muito menos animais. A natureza já não mais existia em todo o seu esplendor. Não havia nem mesmo vento. Ele não sentia sequer uma brisa. Em nenhum momento ele viu qualquer uma daquelas coisas chamadas de unidades se olharem ou se tocarem. Cada um parecia estar programado para ir e vir, para executar isto ou aquilo, e nada mais. Num piscar de olhos, o objeto projetou-se para frente subindo vertiginosamente rumo ao alto de uma das torres de vidro espelhado. Edivaldo imaginou que ele iria morrer, pois tudo levava a crer que ele iria cair de cima daquele "escudo" do Capitão América e a altura agora, já era aterrorizante. Eles estavam subindo em direção à mais alta torre daquele lugar. Contudo por algum outro mistério tecnológico, ele se manteve em pé e em cima daquilo, e quando ele percebeu, estava pousando numa plataforma de aço inoxidável, tão polida que parecia de uma liga feita com algum material extraterrestre. Lá naquele lugar, bem na entrada de um enorme compartimento mal iluminado, havia uma inscrição feita com letras muito parecidas com as que eram usadas pelos romanos, onde ele pode ler: MASP. Edivaldo quase desmaiou. Seu corpo tremia de uma forma que ele não pode controlar.
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Ele estava no mais famoso museu da Avenida Paulista, há centenas de metros acima do solo, no ultimo andar, quase tocando o teto da imensa cúpula que envolvia o lugar. Pelas paredes de vidro totalmente transparentes, ele pode ver uma série de urnas também de vidro e dentro delas, havia corpos de seres humanos mortos há séculos atrás. Escrito em numa placa de identificação, ao lado de cada urna havia a descrição da raça, da época e da cultura a que eles haviam pertencido. Mas uma coisa o chocou mais do que tudo que já tinha visto. Pairando sobre a exposição de urnas, havia um painel digital que dizia:
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Raças extintas pelas primeiras unidades construídas.
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Causa da extinção: Seres contaminados pelos vírus incuráveis da rebeldia e sentimentalismo.
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A arte assim como os sentimentos também havia desaparecido. Naquele museu que em sua época era repleto de objetos de arte, dos maiores gênios das artes plásticas, agora era um local que servia apenas para expor a decadência e a extinção do ser humano.
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As lágrimas rolaram livremente pela face de Edivaldo. Ele, naquele momento, se lembrava mais do que nunca, de sua mulher e de seu pequeno filho de apenas 3 anos de idade. O amor que ele sentia pela sua família era imenso. Era algo tão maravilhoso que ele nunca encontrou as palavras certas para descrever o quanto a presença deles em sua vida lhe fazia bem. Um desespero incontrolável tomou conta de seu ser. Num movimento rápido e brusco, ele pulou para fora do "escudo" do Capitão América e saiu correndo na direção à beira da plataforma onde haviam pousado. Ele não sabia como voltar no tempo. Não podia voltar para sua época, para o seu lar, para sua família. Sua vida não tinha mais valor.
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Ele teria que ficar naquele lugar, onde ele e seu povo eram considerados seres inferiores e por causa de uns poucos que ainda existiam, por insistirem em ser sentimentais, tornando-se rebeldes contra o sistema, foram exterminados pelas primeiras "unidades", que por uma ironia, eles mesmos construíram. Se ele não podia mais ver, tocar, abraçar e beijar sua esposa e seu filho, só lhe restava uma saída. Procurar a morte, acabar com aquele sofrimento de uma vez por todas, saltando de centenas de metros de altura, na direção daquela imensa avenida energizada, onde quando caísse, seria desintegrado tão rápida e instantaneamente, que nem mesmo iria sentir dor. Viver sem amor, sem o contato humano, sem sentimentos, sem poder dar continuidade à raça humana através do ato de fazer amor para perpetuar a espécie humana, era uma ideia inconcebível para ele. Determinado a acabar com tudo aquilo, como uma flecha ele se atirou no ar. Durante sua queda livre naquele lugar, ele olhou para cima. Ele ainda estava tão alto, que pode ver que apesar de estar envolvido por uma estranha luz parecida coma do Sol, do lado de fora da imensa redoma de vidro, era noite. Não havia a luz da lua. Não havia estrelas brilhando no firmamento. Apenas uma imensa escuridão, quebrada vez ou outra, por meteoros que entravam na atmosfera. Caindo, caindo, Edivaldo só pensava que logo tudo estaria acabado, que de alguma forma, depois de morrer, mais cedo ou mais tarde, ele iria se reencontrar com as pessoas que ele mais amava na vida. Ele fechou os olhos e se deixou afundar no imenso vazio. Parecia que a queda nunca iria acabar.
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Durante sua queda longa, que parecia sem fim, ele foi sentindo seus olhos pesados. Edivaldo tentou mantê-los abertos, mas foi em vão. Cansado, com medo, arrasado com tudo que ele viu naquele mundo do futuro ele adormeceu.
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Em 2014, eram 23h00mins.
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Um ônibus sai do terminal do metro de Vila Madalena, rumo a um bairro de periferia. Quase todos os lugares estão tomados por pessoas que estão indo para casa. Apenas um estava vazio ao sair do terminal. O ultimo banco permaneceu vazio pela maior parte da viagem. Quando o ônibus se aproximava do ponto final, o cobrador olhou para o banco que até então estava vazio, e achou estranho ver um homem sentado nele. Ele estava adormecido com a cabeça encostada no vidro e só acordou, quando o ônibus parou e o motorista gritou que era o ponto final. Lá fora, do outro lado da rua, uma mulher estava no portão de sua casa, segurando um menininho nos braços. Quando o homem ainda meio zonzo de sono levantou-se do banco onde estava para descer do ônibus, ele olhou pela janela e um sorriso imenso tomou conta de sua expressão cansada. Ele desceu as escadas do coletivo, meio cambaleando e quando o menino o viu, ele gritou:
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Papai!
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A jovem sorrindo e com lágrimas nos olhos, disse a ele com voz emocionada:
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Edivaldo! É você mesmo querido? Eu nem acredito que você chegou meu amor! Vai ser a primeira vez em muitos anos que vamos poder comemorar o Ano Novo juntos! Como uma verdadeira família! Era tudo que eu mais queria na vida! Nunca se esqueça meu amor, você é mais importante para nós do que o seu trabalho, do que tudo que você possa comprar com o dinheiro que você ganhar com ele. Sua presença ao nosso lado alimenta nossa alma, nosso coração. Enche-nos de alegria e satisfação! De que nos valeria ter de tudo, ter luxo e conforto, sem você ao nosso lado para nos dar amor, carinho e atenção?
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Sem conseguir dizer uma única palavra, tomado por uma emoção intensa, Edivaldo os abraçou e beijou muito por um longo tempo. Aquela foi a travessia de ano mais feliz de sua vida, porque ele voltou no tempo e no espaço, uma hora antes do que quando partiu rumo ao futuro. Ele foi trazido de volta por um poder que para ele só poderia ser divino.
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A mensagem que ele recebeu naquela noite, passando por tudo o que passou, só veio confirmar seus pensamentos de muitos anos atrás, sobre nós, sobre nosso comportamento para com os nossos semelhantes. Ali, ajoelhado em frente à sua esposa e seu pequeno filho, ele agradeceu àquele que tudo pode e tudo vê, por mais uma vez ter mostrado a ele que ele nunca esteve só nos momentos mais desesperadores de sua vida.
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De cabeça baixa, humildemente, ele rogou ao todo poderoso que fizesse com que a humanidade compreendesse que a vida não pode existir sem sentimentos, muito menos, sem o amor, pois caso contrário, corre o risco de um dia, num futuro talvez até não muito distante, se transformar em seres vazios, sem a menor razão de existir.
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Faltava agora apenas um minuto para a chegada do ano novo. Os fogos de artifício começaram a iluminar os céus da cidade. As pessoas saiam de suas casas para abraçar e cumprimentar os vizinhos e amigos.
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Edivaldo, sua esposa e seu filhinho observavam emocionados o espetáculo, quando o garotinho com sorriso alegre e um brilho de felicidade em seus olhos, passou os braços em volta do pescoço dos dois, deu um beijo no rosto de cada um e disse com a voz mais doce deste mundo:
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Feliz Ano Novo papai!
Feliz Ano Novo mamãe!
Eu amo vocês dois!
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E os três juntos e abraçados, unidos mais do que nunca o foram, em uni sono, disseram uns aos outros, sorrindo e mais felizes do que nunca:
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FELIZ 2015!
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Autor: José Araújo
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Fotografia:
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Clique noturno de uma Composição do Metro de São Paulo-
Estação Paraíso – Janeiro de 2009.

12 comentários:

Isaulina disse...

Que linda história!!
Eu não sei nem como comentar rsrsr
Só o que eu posso dizer é que você tem uma capacidade fora do comum
Misturou ai revolução industrial, da humanidade segundo o lugar, a época, o ponto de vista escolhido!!
Ainda bem que o Edivaldo voltou para o futuro, porque aonde ele estava, não era bom não rsrs ja pensou viver num mundo assim!! aonde só tem pessoas que não se comunica, como robos, sem sentimentos, sem afeição, eu acho que eu no lugar dele também não queria viver não rsrs ainda bem que terminou um final feliz!!
José Araujo meu amado amigo eu admiro muito a sua pessoa porque tem muito talento,você tem uma habilidade de muito valor!!
Você tem um potencial para lidar com (sentimentos, experiências e etc) parabéns pelo seu imenso e valoroso trabalho beijão neste coração de ouro ♥
Eu sou uma pessoa muito feliz por ter uma amizade igual a sua obrigada por ser meu amigo.

mdb disse...

José, esse lindo texto é uma lição de vida para nós.
O importante que senti, é que vem de uma pessoa comum, mas com todas as qualidades que devemos ter.Principalmente o amor.
Que já anda escasso, pois já tem muitos que pensam só em si mesmo, não enxerga o próximo como irmão.
Edivaldo era uma pessoa simples, humilde e cumpridor de seus deveres e muito trabalhador, por isso as vezes a família tinha que aceitar o seu jeito de ser, porque tudo que fazia era em prol do conforto e bem estar da família.
Ele teve a chance de sonhar com um futuro muito distante e ver a falência da humanidade por falta dos sentimentos mais puros e essenciais para o ser humano.
Com esse pesadelo ele sofreu muito, pois sentiu-se só completamente isolado de tudo e de todos. A indiferença era o principal sentimento. E isso o fez sofrer muito infeliz. Deve ser horrível viver um pesadelo desse principalmente, um ser privilegiado de tanta grandeza e de tantos valores sentimentais ao ponto de ainda ajudar aos pais velhinhos lá no nordeste, onde teve que deixá-los para tentar a vida em uma cidade grande.
Com esforço e muita garra conseguiu vencer, pois na sua humildade não queria a riqueza e sim o que lhe bastasse para viver com dignidade.
Os sentimentos são valores que nunca podemos tirar do nosso coração e sim sempre enche-lo mais ainda para nunca sermos apenas unidade e sim um ser humano, valioso para Aquele que nos criou a Sua Imagem e Semelhança.
E teremos sempre Deus como Senhor de nossa vida, pois sem Ele nada somos.
José o seu alerta valeu até para mim meu querido amigo. De vez em quando devemos ser sacudidos, para sentirmos onde estamos adormecidos.
Valeu muito amigo amado.
Mais uma vez Feliz 2009!
Beijos de gratidão, sua amiga para sempre.
Marilene Dias

Nóení disse...

Bem como resumir em poucas palavras o que eu senti quando li o conto "EXTRAORDNÁRIO"como todas que você escreve,te disse uma vez e vou repetir, você não pode ficar no anonimato o mundo tem que saber quem é José Araújo e torço muito por ti e sei que um dia estarei aqui sentada assistindo algum programa seja ele qual for e vou ter o prazer de vê-lo falando de sua obra vc simplismente é sensacional "Parabéns"

Alvaro Garcia disse...

Caro José,
Mais uma vez você nos surpreende com sua criatividade e imaginação!
"Uma viagem ao futuro" é uma obra de ficção cientifica espetacularmente criada por você utlizando como cenário nossa São Paulo!
Em todo o seu texto, há muitas reflexões inseridas de forma que só você mesmo poderia fazer.
Não é sem motivo que você foi um dos selecionados para participar do livro que vai homenagear nossa cidade em seu aniversário!
É gratificante ver como a cada dia seu trabalho impar é reconhecido pelo mundo literário e participar deste livro em homenagem a São Paulo vai leva-lo aos anais da história paulsitana na comemoração dos seus 455 anos!
Parabéns mais uma vez pelo seu talento, pela sua criatividade e por manter sempre a mesma linha, escrevendo desta forma simples e fácil de compreender que tanto me cativou desde a primeira vez que li um conto seu!
Sucesso sempre, são os votos deste seu leitor e fã ardoroso de sempre!

Eduardo Santos disse...

Que imaginação cara! Como você sabe eu te amo muito e nunca escondi sito de ninguem e a cada dia, mais e mais eu fico admirado com sua capacidade de falar sobre os sentimentos humanos de uma forma tão especial!
Pode reservar o meu lugar no lançamento do livro que vai homenagear São Paulo!
Desta vez voc~e não me escapa!
Vou querer autografo, dedicatória e uma foto com você para que eu possa olhar sempre e poder dizer a todos os meus amigos que conheci você pessoalmente!
Este conto em especial, me fez lembrar das noites de Natal e Ano Novo, onde só agora, lendo seu texto, eu compreendi o que senti em relação a algumas pessoas que quando fui cuprimentar pareciam blocos de gelo, temerosas de receber um abraço!
Você é demais!
Te amo cara e tenho dito!

Celso Barro Novo disse...

Nossa! Eu simplesmente viajei neste conto! Adoro ficção e me vi no lugar de Edivaldo! Parabéns! Você me deixou no suspense o tempo todo e quando cheguei no final, foi demais!

Adorei!

Denis Baldassari disse...

Que dizer senão soberbo!
Uma alegoria entre presente e futuro absolutamente contagiante!
Abração e sucesso!

Clovis Tobias disse...

Bárbaro!
É demais a sua imaginação!
Parabéns pelo conto que me prendeu do começo ao fim!

Bjs!

Decio Biaggio disse...

Sem duvida nenhuma as pessoas estão se distanciando umas das outras e seu conto é um alerta em potencial para o perigo que corremos se continuarmos agindo ddesta forma.
Sua trama vai além da ficção, ela se mistura com a dura realidade em que vivemos e não precisamos ir muito longe para perceber que você tem toda a razão.
No dia a dia, até mesmo num aperto de mão a gente sente que as pessoas não se entregam ao cumprimento como deveriam.
Parabéns pela mente brilhante e pelo talento indiscutivel que você tem!

Paulinha disse...

Meu amigo querido do coração!
Estive viajando e não tive como acessar a net para ler seus contos, mas vim assim que pude pois sabia que iria encontrar mais uma vez algo de um conteudo profundo e humanitário.
Edivaldo representa o trabalhador simples, sem muitos estudos, que vive do seu trabalho, dando duro para ganhar a vida.
Um exemplo para muitos que mesmo tendo posses, sempre reclamam de tudo e não pensam no próximo.
É nosso dever reverter o quadro de distanciamento do ser humano, porque se isto não acontecer, certamente nosso fim não será muito bom!

Adorei querido!

Beijocas de sua amiga que te ama muito!

Gabriel Malta Muniz disse...

Seu talento é algo de extraordinário!
Para passar ao leitor as suas reflexões você não mede os recursos que usa e esta ficção é mais uma prova disto a exemplo de outro conto seu entitulado O Alienigena!
Ler o que voce escreve é prazeiroso, é algo que faz bem ao coração!
Sucesso, sempre meu caro!

Rodrigo Garcia disse...

Mais uma vez você conseguiu me tocar fundo José Araújo!
Relembrando as festividades de final passadas, percebo agora o quanto as pessoas tem se retraido quando o assunto é sentimentos!
Parabéns mais uma vez!

Abração!