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domingo, 15 de fevereiro de 2009

O APARTAMENTO DO 7º E 1/2 ANDAR...



Bairro da Aclimação. A manhã de sábado ensolarado proporcionava aos moradores do lugar, momentos de lazer e muita descontração, no mais belo parque da região. O lago estava iluminado pelo sol e os cisnes brancos que flutuavam em sua superfície, mal pareciam estar se movendo. A brisa suave movimentava levemente as folhas das árvores, que exalavam um aroma delicioso de Eucalipto, envolvendo as pessoas e trazendo com ele, uma paz tão rara na movimentada capital paulista. Ana Laura passeava com seu cãozinho pelas alamedas, que latia para os patos selvagens pousados nas margens do lago, fazendo com que alguns deles levantassem vôo, atravessando para o outro lado em revoada. Absorta em seus pensamentos, ela se lembrava de algumas historias contadas por seus avós, quando era ainda uma criança. Quando se sentavam nos bancos espalhados pelo parque nas tardes de primavera, entre flores de todas as cores e sentindo o perfume da grama verde, que cobria cada centímetro dos espaços que havia entre as arvores, as alamedas e o lago, eles contavam seus "causos" e ela, quase sem piscar, não perdia um só detalhe. À noite, quando ia dormir, Ana Laura se lembrava das histórias mal assombradas que ela ouvia e não era raro ela acordar assustada, como se ouvisse barulhos estranhos em sua casa. Tudo aquilo de que ela se lembrava, eram para ela como se fossem contos de fadas, vividos quando criança e guardados com carinho em suas memórias.

A beleza e inocência que havia naqueles "causos" que ela ouvia deles, era algo mágico. De alguma forma ,ela vivia as sensações de cada personagem. Foi um tempo muito bom, que se passou tão rápido, mas que deixou muitas saudades em seu coração. Aos vinte e dois anos de idade, casada e esperando seu primeiro filho, vendo e ouvindo as coisas que aconteciam na vida moderna, ela quase não acreditava que pudesse ter ouvido coisas tão lindas, como as historias contadas por seus avós. Enquanto seu cãozinho descansava ao lado dela, Ana Laura apreciava as crianças brincando e correndo pelos jardins. Por um momento, ela pareceu ver a ela mesma, correndo com outras crianças e segurando nos braços a sua boneca de pano. Um sorriso surgiu em seus lábios. Do fundo de sua alma, ela sabia que foi uma criança feliz. Foi uma infância abençoada por Deus e vivida com toda a intensidade e segurança, característica da época e do bairro tranqüilo onde moravam. Em dado momento, ela se lembrou de uma das historias contadas por eles, da qual ela nunca teve certeza de que não foi real. Era uma historia de assombração e todos os fatos narrados por eles, teriam ocorrido num casarão que existiu nas proximidades da casa dela, há décadas atrás. Sua avó contava que naquele casarão em especial, que foi construído há mais de duzentos anos, havia morado um casal que se amava muito e que depois de muitos anos de casados, a esposa veio a falecer deixando seu marido inconsolável pela perda de seu grande amor.

Passados poucos meses após a morte dela, ele vendeu a propriedade e mudou-se para outra cidade. A dor da ausência de sua amada era maior quando ele se recordava dos momentos felizes que viveram lá. Sua avó disse que depois que se mudou, ele veio a falecer também e daí por diante, o casarão foi comprado e vendido varias vezes ao longo das décadas e ninguém mais conseguiu viver nele. A qualquer hora da noite, qualquer pessoa que estivesse dentro dele ouvia portas que se abriam e se fechavam. Era como se alguém estivesse andando pelos cômodos à procura de alguma coisa, e não encontrando, refazia o caminho percorrido, abrindo e fechando as portas atrás de si. Quando alguém mais corajoso se levantava para ver o que estava acontecendo, não encontrava, nem via nada demais. Havia apenas o silêncio da noite e o som do vento que soprava lá fora. Depois de ter pertencido a muitas famílias, ele finalmente foi comprado por uma construtora e foi demolido. Em seu lugar foi erguido um prédio residencial de doze andares, com um apartamento por andar, e em pouco tempo, todos haviam sido vendidos aos felizes compradores, que não viam a hora de se mudar para lá. O ultimo andar era o salão de festas. Um projeto arrojado que ao contrário dos outros que fazem a área de eventos no piso térreo, o arquiteto o imaginou na cobertura, o lugar de onde se poderia ter a mais bela vista dos arredores durante as festas, comemorações e reuniões que fossem realizadas.

À noite, era possível ver as luzes do centro da cidade na região da Avenida Paulista com suas antenas iluminadas por luzes coloridas, o que dava a elas um encanto especial. Bastava dirigir o olhar para o outro lado, para ver as luzes ao redor do Parque da Aclimação e sua silhueta noturna inconfundível. Os moradores do condomínio adoravam o majestoso edifício e se sentiam felizes pelo grande negócio que haviam feito ao adquirir seus apartamentos. Um ano depois, certa noite o casal que morava no 7º andar acordou durante a madrugada ouvindo passos pelo apartamento. O marido levantou-se e foi averiguar o que estava acontecendo, mas não viu, nem ouviu mais nada. Achando aquilo tudo muito estranho, ele retornou para o seu quarto e deitou-se ao lado de sua esposa para dormir. Pouco tempo depois, quando eles já haviam adormecido, novamente os barulhos recomeçaram. Mas desta vez, eles ouviram vozes falando baixinho. Parecia um casal conversando. O homem dizia à mulher que era lá que eles haviam deixado alguma coisa. Ela pedia que ele falasse mais baixo e dizia que não só haviam deixado algo no quarto de onde pareciam vir o som de suas vozes, mas também na sala de jantar, na sala de estar, na varanda e na cozinha.

A impressão de que realmente havia duas pessoas no cômodo ao lado foi tão grande, que os donos do apartamento se levantaram ao mesmo tempo, e foram juntos ver o que estava acontecendo. Quando saíram de seu quarto e começaram a caminhar pelo corredor, as vozes desapareceram. Eles se olharam com olhar de interrogação e ele fez um sinal à sua esposa para que não fizesse barulho. Ela balançou a cabeça afirmativamente, e juntos, eles abriram a porta do cômodo de onde vinham os barulhos de supetão. Nada. Não havia absolutamente nada naquele lugar. Eles procuraram atrás das cortinas, do imenso biombo decorativo que tinham colocado lá, mas foi em vão. Assustados, sem saber o que pensar, eles não conseguiram dormir pelo resto da noite. O dia de trabalho que se seguiu foi cansativo, e os deixou ainda mais exaustos pelo fato de não terem dormido quase nada na noite anterior. A partir daquela estranha noite, os barulhos e vozes foram uma constante e o casal não conseguia mais dormir. Após seis meses, depois de muitas discussões e desentendimentos entre eles, exaustos e com receio de ficar em seu próprio apartamento, eles resolveram coloca-lo à venda e se mudar para outro lugar. Outro jovem casal que adquiriu deles o imóvel sem saber do que acontecia à noite, ficou radiante com o preço que pagaram pelo investimento, bem abaixo do mercado e após efetuarem algumas mudanças, se mudaram para lá.

A principio, não houve nenhuma ocorrência que pudesse lhes causar alguma estranheza, mas depois de duas semanas, numa noite quente de verão, algo aconteceu logo que foram se deitar. O rapaz estava lendo um livro com a luz de um abajur e a moça já havia adormecido quando uma porta se abriu, e se fechou logo em seguida. O jovem ao ouvir o barulho, levantou-se da cama e foi até a sala para averiguar. Ao chegar lá não viu nada de incomum e resolveu verificar nos outros cômodos, mas também não achou nada com que se preocupar. Cansado como estava depois de um dia duro de trabalho, ele retornou para a cama pensando que havia ouvido coisas em virtude do stress que passou durante o dia. A jovem até então ainda estava dormindo e quando ele se deitou e se cobriu, o mesmo barulho de porta sendo aberta e fechada se fez ouvir. Desta feita, o som foi mais alto e sua esposa também acordou assustada, perguntando a ele o que estava acontecendo. Ele balançou a cabeça negativamente, querendo dizer que não sabia e foi então, que duas vozes se fizeram ouvir. Uma voz feminina dizia que foi onde estavam, que haviam deixado alguma coisa, mas os donos do apartamento não conseguiram compreender o que era. A outra voz, era de um homem que disse em resposta, que não haviam deixado só ali, mas também na sala de jantar, na sala de estar, na varanda, na cozinha e em todos os lugares do apartamento.

Eles estavam dizendo que tinham deixado alguma coisa naquele apartamento e da maneira como falavam sobre isto, deveria ser algo de muito valor. Assustados, os dois foram juntos tentar descobrir quem estava no cômodo ao lado conversando, mas ao chegar lá, nada encontraram. Tudo estava em perfeita ordem e em seu devido lugar. Não havia sinais de que alguém estivesse estado em nenhum dos cômodos. Não havia ninguém além deles em seu apartamento. Assim começou novamente uma série de barulhos e vozes, que se repetiam todas as noites. Muito preocupados e extremamente assustados, o casal depois de muitas brigas pelo mau negócio que fizeram, resolveu vender o apartamento e se mudar de lá imediatamente. Todos os próximos compradores, num período de quatro anos após o primeiro incidente, fizeram a mesma coisa entre brigas e desavenças entre eles. Foi chegado um momento, em que o condomínio preocupado com a imagem e o conceito geral do prédio, resolveu tomar uma atitude drástica. Ficou decidido em assembléia geral, que o sétimo andar seria lacrado e seu acesso proibido. Todos os outros condôminos concordaram em adquirir a unidade em nome do condomínio e isola-la de uma vez por todas, já que estava mais do que provado, que era impossível de se viver lá. Ninguém no prédio, em qualquer outro andar, jamais viu nem ouviu nada demais em seus lares. Todos achavam que aqueles acontecimentos estavam mesmo relacionados a fenômenos paranormais.

Adquirido o imóvel, foram providenciadas as mudanças para o isolamento do 7º andar e entre elas, estava o bloqueio de acesso das pessoas até lá. Os elevadores modernos com seus painéis digitais, foram programados para não parar naquele andar. No painel de numeração dos andares, foi incluído um novo numero entre o 7º e o 8º andar. Entre eles, foi colocado um novo botão indicativo onde se podia ler o numero 7 & 1/2. Ao lado do botão, estava um aviso gravado em uma placa de alumínio onde se podia ler "Acesso proibido". Foi assim que aquele prédio moderno de apartamentos, ganhou um andar intermediário entre o 7º e o 8º andar. Foi feita a alteração dos números dos apartamentos e assim, o 9º se tornou o 8º e assim por diante, até chegar na cobertura. Tudo que restou daqueles acontecimentos estranhos, foi um boato divulgado de boca em boca, que naquele lugar deveria haver algum tesouro escondido e que era protegido pelos fantasmas que expulsavam quem quer que tentasse viver lá. Ana Laura era amiga de uma aeromoça que residia no condomínio e sempre que ia visitá-la, de uma forma misteriosa, ela se recordava com carinho e com muita saudade das estórias de seus avós.

Sua amiga Márcia morava no 4º andar e mesmo usando quase sempre o elevador para chegar até lá, ela nunca tinha percebido o detalhe da numeração dos andares no painel digital. Por uma daquelas coisas que acontecem e não tem explicação, quando foi levar umas encomendas para sua amiga, ao entrar no elevador a energia acabou. Um tanto assustada aguardou uns poucos minutos e quando a energia foi restabelecida, ao ter que acionar o botão do quarto andar, ela percebeu a existência de um botão com uma numeração fora do comum. Sem acreditar no que estava lendo, ela fixou seu olhar no botão redondo que indicava o 7 & 1/2 andar. Ela ficou curiosa. Achou muito estranho, mas como já estava um tanto atrasada, resolveu deixar para perguntar à amiga numa outra hora o porque daquela peculiaridade impar, no painel do elevador. Rapidamente ela apertou a campainha do apartamento de sua amiga e sem querer ao menos entrar, ela lhe entregou uma sacola com as encomendas e pedindo desculpas pela pressa, se despediu e foi para o elevador. Ela acionou o botão de chamada do equipamento, mas ele demorou a subir. Quando a porta se abriu, ela entrou apressada e sem querer apertou o botão errado, pois enquanto o fazia, ela olhava as horas em seu relógio. Sem olhar para o painel numérico, nem sentir que estava subindo, ela só percebeu o que havia acontecido quando apesar de estar programada para não se abrir naquele andar, quando ele parou; a porta se abriu.

Na parede em frente à porta do elevador, havia uma placa indicativa e nela estava escrito 7& 1/2 andar. Ela estremeceu sem querer acreditar no que leu. Nervosa e apressada como estava, levou alguns segundos para ela perceber que realmente havia ido parar no andar errado. Quando a "ficha" dela finalmente caiu, ela levou um susto, pois o corredor daquele andar parecia não ser usado por ninguém há décadas atrás e sem receber nenhuma manutenção desde então. Por todos os cantos haviam teias de aranhas penduradas no teto. O chão que era feito de tacos, não tinha brilho e sua aparência era de degradação total. O ar estava pesado e havia também muita poeira por todo o lugar. Ligando coisa com coisa, lembrando do que tinham lhe contado a respeito do que havia acontecido num dos andares do prédio, ela compreendeu que naquele exato momento, estava no tão falado andar. Tremula, ela percorreu o longo corredor que dava acesso à entrada principal do imóvel, e quando chegou até lá, Ana Laura viu que a porta estava destrancada e entreaberta. Um calafrio percorreu a sua espinha. Mais uma vez ela estremeceu. Seu coração batia rapidamente quando ela tocou a porta com a ponta de seus dedos, e a empurrou para dentro. Olhando para o interior do recinto, estando ainda do lado de fora dele, ela pode ver que seu aspecto era desolador.

Não havia moveis dentro daquele lugar. As janelas que estavam totalmente desprovidas de cortinas, eram enormes e deixavam a penumbra do entardecer penetrar por elas, contribuindo para fazer do lugar, um abiente assustador. Ela criou coragem e deu alguns passos em direção ao centro da sala. Sua curiosidade era maior do que seu medo. Estranhamente ela se sentia impulsionada para frente, sem poder resistir. Já no meio da enorme sala, ela pode ter uma visão geral do lugar e conhecendo outros imóveis do prédio, ela não acreditou no que estava vendo. Parecia que ela não se encontrava em um apartamento, mas sim em um enorme casarão. As molduras das enormes janelas eram feitas de madeira trabalhada e com detalhes artísticos, que lembravam a ela os tempos de outrora. Coisas que tinha visto apenas em livros, revistas de decoração e em filmes épicos no cinema. Num determinado momento, ela fechou os olhos e balançou a cabeça, pensando consigo mesma, se não estaria imaginando coisas. Ao abri-los, o susto foi maior. O ambiente inteiro havia se transformado como num passe de mágica. Agora ela estava numa sala ricamente decorada. Nas janelas havia as mais belas cortinas que ela tinha visto em sua vida. A brisa da tarde que entrava por elas, balançava levemente uma por uma e o cheiro de flores que vinha lá de fora, era sem dúvida nenhuma, o perfume de rosas. Sem palavras, toda arrepiada, ela admirava a beleza e o cuidado com que a casa era mantida.

Cada objeto minuciosamente colocado em seu devido lugar, conspirava para a harmonização do ambiente. Com certeza, a dona daquela casa era uma pessoa sensível. Uma alma iluminada que sabia como aplicar a filosofia do Feng Shui em seu lar, para ter uma vida melhor. Ainda abalada, sem saber exatamente o que pensar, ela começou a se movimentar admirando as estatuetas chinesas, colocadas de forma estratégica em lugares de destaque. Ao passar por uma cristaleira que havia num dos cantos da sala, ela pode ver peças maravilhosas de cristal alemão e um inacreditável serviço de chá feito de porcelana chinesa, que tinha pintado em cada peça, um pequeno e colorido Rouxinol. Tudo aquilo era maravilhoso. De uma delicadeza sem igual. Ana Laura estava amedrontada. Assustada mesmo, mas, mais do que tudo, ela estava encantada com a beleza e harmonia que via naquele lugar. Sem compreender o porque, de repente ela começou a sentir uma paz imensa. Era como se dentro daquele lugar que certamente era, ou foi o lar de alguém muito especial, ela estivesse em sua própria casa. Era um sentimento estranho, mas ao mesmo tempo muito gratificante e familiar. Era exatamente assim que ela se sentia quando estava ao lado de seu amor. Uma relação que começou ao acaso, mas que os uniu de forma muito especial. Foi uma aceitação mútua, sem limites e com um respeito enorme pela individualidade de cada um.

Ela não sentia ciúmes dele e nem ele sentia dela. Havia entre eles uma confiança imensa que os deixava completamente à vontade um com o outro. Eles se amavam de verdade. Do outro lado da enorme sala, havia uma parede onde estavam pendurados quadros com retratos de família, e encostado a ela, estava um belíssimo aparador. Em cima do móvel de tirar o fôlego de qualquer um que aprecia os móveis antigos, havia um vaso de cristal bico de jaca, e dentro dele, um bouquet de rosas vermelhas num arranjo, que no mínimo, era espetacular. Sem perceber o que estava fazendo, ela caminhou em direção a uma das paredes onde havia um enorme espelho emoldurado. Nos quatro cantos da moldura, haviam pequenos cupidos dourados empunhando seus arcos, prontos para disparar as flechas do amor. Ao parar em frente a ele, ela pode ver que atrás dela havia um lindo casal. Assustada, ela se virou rápidamente, mas não havia ninguém lá. Ao olhar de novo no espelho, ela quase soltou um gritou. Lá estavam eles. No mesmo lugar onde ela os havia visto, há segundos atrás. O vento agora soprava lá fora com mais intensidade indicando que iria chover. Petrificada e emocionada, ela se pôs a observar os dois. Eles se olhavam de uma maneira tão apaixonada, que apesar de assustada ela não pode deixar de se emocionar. Um olhando nos olhos do outro, eles trocavam juras de amor. Ela pode ouvir claramente suas vozes que mais pareciam sussurros em seus ouvidos.

A bela dama usava um vestido branco, longo até os pés, com um decote em “V” que mostrava as belas formas de seus seios, disse ao rapaz que finalmente, depois de muitos tentarem sem conseguir, alguém havia descoberto seu grande tesouro. Ele usava um terno de linho branco, camisa branca com gravata borboleta e uma cartola de mesma cor. Aos olhos de Ana Laura, ele era o homem mais elegante que ela já tinha visto em sua vida. Ainda olhando nos olhos de sua companheira, ele disse que sim. Que era mesmo verdade. Que a moça em frente ao espelho, só foi capaz de descobri-lo, porque ela também carregava dentro de si, a chave mestra para abrir qualquer baú que guardasse em seu interior, um tesouro igual ao deles. Emocionada, com os olhos cheios de lágrimas, ouvindo o casal falar dela sem que ela mesma pudesse vê-los se virasse para trás, Ana Laura compreendeu exatamente sobre o que eles estavam falando. O grande tesouro que eles haviam deixado naquele casarão, tão comentado de boca em boca ao longo dos anos, era o grande amor que eles viveram lá. Ainda observando o casal pelo espelho, sem a menor vontade de olhar para trás e perder um segundo sequer daquele encontro mágico e único do qual ela estava fazendo parte, ela viu quando os dois olharam para ela diretamente nos olhos através de seu reflexo no espelho, e sorriram. Foi uma emoção única. Ela sorriu para os dois e eles acenaram, como se estivessem dizendo adeus.

Com uma voz doce e suave, bela mulher agradeceu a Ana Laura por tê-los libertado para seguir seu rumo e viver um para o outro por toda a eternidade. Disse que estava escrito nas linhas do destino, que a partir do momento em que seu ninho de amor fosse pisado por uma outra pessoa, que carregasse também em seu coração a tão desejada chave para abrir o baú em que guardavam o grande tesouro, finalmente eles estariam livres da obrigação de guarda-lo como sempre o fizeram, desde que se reencontraram quando seu marido morreu. O homem elegante abraçado à sua amada completou, que depois de tanto tempo em que estiveram naquele lugar, eles poderiam finalmente subir aos céus, juntos como sempre sonharam, e lá, entre um coro de anjos e querubins cantando músicas celestiais, viver eternamente e em plena liberdade, o seu grande amor. Aos poucos, como magia pura, uma luz brilhante foi envolvendo os dois, e lentamente, eles também foram se transformando em luz. Enquanto aquilo estava acontecendo, as paredes do casarão pareciam estar pulsando como pulsa um coração apaixonado. Ele estava vivo. O lugar inteiro pulsava ao ritmo do amor. Todo o ambiente estava repleto de paz, de felicidade, de muito amor. A luz branca e suave em que eles se transformaram, aos poucos foi se unindo à luz que os envolvia, até que num único e delicado fio de luz, subiu lentamente em direção ao teto, e desapareceu ao atravessar por ele. Com lágrimas ainda escorrendo em seu rosto, Ana Laura viu através do espelho, quando do teto caiu uma flor. Enquanto seus olhos acompanhavam a trajetória dela caindo até o chão, ela pode ver que era um botão de rosa vermelha, e em seu talo, totalmente sem espinhos, estava preso um pequeno cartão feito de papel vegetal cor de rosa, com as bordas rendadas. Ela virou-se para ve-la achando que não fosse mais ver a flor como aconteceu com o casal, quando ela quis vê-los olhando para trás. Mas não.

Ela estava no mesmo lugar onde ela a viu cair através do espelho. Com passos firmes, ela foi até onde ela estava e se abaixou para pegá-la. Antes de se levantar, ela olhou à sua volta e todo o ambiente havia voltado a ser o que ela tinha visto quando chegou. A sujeira e a desolação tinham voltado a reinar naquele lugar. Foi como se nada tivesse acontecido ali há décadas atrás. Uma das janelas do apartamento se abriu com o vento e as teias de aranha balançaram de lá para cá. Ela levantou-se segurando a rosa e ao abrir o cartão delicado de papel vegetal, ela pode ler o que estava escrito nele em letras artísticas e delicadas.

"Para Ana Laura, com nosso eterno agradecimento, Conde Rodolfo Augusto de Piratininga e Condessa Esmeralda Maria Cocais de Piratininga. Guarde bem o nosso tesouro, pois assim como ele é nosso, ele é seu também. Nos encontraremos novamente no tempo certo, na hora certa, do outro lado da vida. Muitas felicidades a você, ao seu marido e ao bebê que vai chegar.”

Naquele momento, ela sentiu quando seu bebe chutou em sua barriga. Ela sorriu. O seu filhinho parecia estar agradecendo. Enquanto isto, mais uma lágrima de emoção rolava lentamente em seu rosto. Devagar, ela saiu do apartamento e foi até o elevador. Ao entrar nele, quando foi apertar o botão para descer, não havia mais o botão do 7 & 1/2 andar. A seqüência agora no painel era do térreo ao 11º andar. Após apertar o botão para descer para o térreo, ela não resistiu em beijar a rosa e olhando para o teto do elevador, como se estivesse vendo através dele rumo ao infinito, ela disse em voz baixa e suave: "Sejam muito felizes meus queridos e não se preocupem, porque o nosso tesouro irá comigo por onde quer que eu vá. A chave para abrir o baú onde ele esta escondido, ficará guardada onde sempre esteve, dentro do meu coração. Quando eu partir para me encontrar com vocês, eu a deixarei com meu filho, e junto com ela, o mapa para que ele possa chegar até o baú que o esconde."

A porta se abriu, ela saiu do elevador, atravessou a recepção, passou pela porta de vidro automática e saiu para a rua. O ar lá fora estava agradável. Não mais chovia. Já era noite quando ela saiu. Ao chegar em casa, Ana Laura encontrou seu marido esperando com algo especial. Quando ela entrou ele foi ao seu encontro e a beijou. Pediu que ela fechasse os olhos porque ele tinha uma surpresa. Sorrindo e feliz com o carinho e atenção com que ele sempre a tratou desde que se conheceram, ela obedeceu. Quando ele disse que podia a abrir os olhos, ela quase desmaiou de emoção. Era um bouquet de rosas vermelhas. Tão vermelhas, quanto a bela rosa que ela ganhou daquele casal...

No dia seguinte, logo pela manhã, na portaria do condomínio havia uma grande agitação. O zelador ao fazer suas averiguações nos andares e nos elevadores percebeu que já não mais existia o 7 & 1/2 andar. Quando ele subiu pela escada de incêndio para chegar até ele, tudo que conseguiu foi chegar até o 8º andar. Ele havia desaparecido. O prédio que originalmente tinha doze andares, com um apartamento por andar, agora só tinha onze pisos. Até mesmo nas plantas de construção, nos projetos e nos registros da prefeitura, havia somente o registro de onze andares. O caso foi abafado para evitar o alarde dos repórteres e de toda a mídia nacional. Tempos depois, Carlos Alberto, o filho do zelador, fez amizade com o neto de um dos homens que haviam trabalhado na construção do edifício.

Numa bate papo à beira da piscina do condomínio, sentados nas cadeiras, tomando um pouco de sol e uma cervejinha, o rapaz lhe disse que seu avô costumava contar historias incríveis sobre o tempo em que ele trabalhou lá. Uma das coisas de que ele se lembrava, era que seu avozinho um dia antes de morrer, contou a ele que numa noite de verão quando já era de madrugada e ele não havia conseguido dormir, no sétimo andar, ainda inacabado, ele viu um casal abraçado admirando a paisagem da cidade à distancia. Disse também que quando o viram, sorriram para ele e o rapaz pedindo para que ele não tivesse medo, estendeu a mão aberta ,e na palma dela, havia uma pequena pedra. A moça se aproximou dele devagar e passando sua mão delicada em seu rosto, pediu-lhe que fizesse a eles um grande favor. Que ele pegasse a pedra que o rapaz tinha na palma de sua mão, que foi tudo que sobrou do casarão onde eles viveram felizes por tantos anos, e a colocasse na massa de cimento que iriam usar para terminar de fazer o piso daquele andar na manhã do dia seguinte. Quando ele a pegou, misteriosamente o casal desparaceu. Sem compreender exatamente o porque, ele atendeu ao pedido. Os anos se passaram e ouvindo as histórias contadas por outras pessoas sobre o que acontecia naquele andar até ele ser interditado, ele já sabia qual era a razão. Enquanto o neto do velho pedreiro terminava de contar a historia que ouviu de seu avô, o filho do zelador, estudante de parapsicologia, analisava os fatos e ligava os acontecimentos para tentar chegar a uma conclusão lógica e racional.

Contudo, naquele momento, seu coração começou a bater como bate um coração quando esta amando. Do mais fundo de sua alma, ele soube que não precisava pesquisar, nem analisar mais nada. Seu espirito iluminado e seu coração lhe deram a resposta que tanto procurava encontrar, tentando usar somente a ciência e a razão.

Quando ele se virou para pegar o copo de cerveja que estava na mesinha ao lado de sua cadeira, junto a ele havia uma rosa vermelha. Era apenas um botão, mas era o mais lindo que ele já tinha visto. Em seu talo não tinha espinhos. Ao lado dele, estava um envelope branco contendo uma carta feita em papel vegetal azul claro, com bordas rendadas, e nela, haviam algumas frases escritas com letras delicadas e artísticas que diziam:

Jovem rapaz,

"Obrigado por acreditar em nós, em nosso amor e na existência do maior de todos os tesouros deste mundo. Sabemos disto porque lemos o que está escrito em seu coração. Você vai ser muito feliz jovem rapaz, porque você também carrega em seu peito, a chave para abrir o baú que o esconde. Mas lembre-se de uma coisa Carlos Alberto; ele só deve ser procurado num único lugar, ou seja, dentro dos corações dos homens, o baú mais perfeito que existe e que foi criado por Deus para a abrigá-lo. Quem possuir a chave para abri-lo, será eternamente feliz. Esteja certo de que muitos já tentaram e não conseguiram, mas aqueles que acreditaram em sua existência, exatamente como nós, nunca desistiram de sua procura até encontrá-lo. O caminho pode ser árduo e difícil, mas é melhor viver tentando encontra-lo e ter a chance de um dia conseguir, do que nunca ter tentado, e partir deste plano, sem saber o que significa viver de verdade. Para alguns, pode até demorar um pouco, para outros, a demora pode parecer uma eternidade. Para outros, pode até ser mais rápido do que se imagina, mas quando o baú que o esconde finalmente é encontrado e aberto, é a partir deste instante, que a vida realmente se inicia para todos nós. Amar é a melhor definição do que é viver, na expressão da palavra. O importante, é não esquecer de concentrar as buscas dentro dos corações das outras pessoas. É lá que ele está escondido. Se resolver procurar em outro lugar, jamais irá encontrar. Encontra-lo ou não, só depende de cada um de nós. Nós, eu e minha amada esposa, encontramos este tesouro ha séculos atrás, e isto nos tornou imortais. Se não o tivéssemos encontrado, você não estaria recebendo esta carta, nem este botão de rosa. Adeus jovem amigo! No tempo certo, na hora certa, um dia nos encontraremos para trocar um grande abraço. Estaremos esperando por você num lugar maravilhoso, do outro lado da vida, onde agora é o nosso lar.

Com carinho, dos amigos eternos, Conde Rodolfo Augusto de Piratininga e Condessa Esmeralda Maria Cocais de Piratininga."



Autor: José Araújo

Fotografia: O casarão Fotografo: José Araújo


5 comentários:

Nara disse...

Querido José! Literalmente viajei nesse conto! Estou emocionada até às lágrimas por ter participado dessa história. Sim, me senti a própria Ana Laura! Quanta emoção! Quanto amor relatados em palavras doces, carregadas do mais nobre sentimento, o amor!
Você é fantástico e por isso seu valor é reconhecido a cada dia nos meios litrários.
Continue assim, meu bom amigo, utilizando esse dom com o qual Deus lhe presenteou, para fazer desse um mundo melhor.
Parabéns, meu escritor preferido!
Beijos.

ton disse...

JOSÉ MEU AMIGO!ACHEI LINDO,NA PARTE QUE ANA LAURA,FALA DOS AVÓS,LEMBREI DE MINHA MÃEZINHA,POIS ELA CONTAVA HISTORIAS IGUAIS A ESSA,MEU AMIGO,ME DESCULPA SE Ñ TENHO ACOMPANHADO,SEU TRABALHO,MAS PROMETO QUE AGORA EM DIANTE,IREI ACOMPANHAR.MUITO OBRIGADO!AMIGO!FICA NA PAZ!

LU MATHIAS disse...

Que belissima narração sobre a magia do amor, alias o amor é realmente a chave que nos abre todas as portas na vida espiritual e ajuda-nos a obter o merecimento na vida terrena.
Meu querido amigo lhe parabenizo pelo lindo conto, lendo-o com tantos detalhes pude me reportar a este mundo e cheguei a visualizar o lugar os objetos vc realmente tem o dom de narrar,escrever, é um lindo dom.
Que seu self esteja sempre alimentando suas inspirações...
Muito me orgulha sua carinhosa amizade... E me repetindo...
Meus mais sinceros parabens...
Bjus... LUiza...

ISAULINA disse...

José Araujo:
Eu achei muito linda a historia mais ao mesmo tempo é asustador rsrs eu é que não queria esta no lugar de Laura eu acho que eu saia correndo e não olhava nem para tras kkkkkk
A historia é linda terminou um final feliz mais eu não queria esta no lugar dela, eu dormiria só uma noite e não queria mais dormi la rsrs
José Araujo eu fico maravilhada com tamanha inspiração, com um dom maravilhoso que só você e mais ninguém poderia ter, eu digo de coração para você pode até aparecer outro escritor na minha vida mais igual a você nunca vai existir.
Continue assim meu amigo que você é realmente iluminado por Deus para levar a este mundo um pouco de amor , e isto você sabe fazer muito bem, com o seu carisma e dedicação, e você me encantou porque você é um grande homem, uma pessoa importante, mais com tamanha simplicidade e humildade, eu te amo querido amigo, você é muito especial para mim!!! beijo

Ana Laura Cavalcante disse...

Encantador! Quem mais senão você para criar um conto tão lindo e romantico como este???

Chorei de emoção!

Um beijo no seu coração de ouro meu querido e meu parabéns por ser tão especial assim!