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sábado, 21 de fevereiro de 2009

O MISTÉRIO DA CAIXA DE SAPATOS



Finalmente havia chegado o tão esperado período de férias! Ao entrar no ônibus na rodoviária, Eliana se lembrou de ver se não tinha esquecido seu livro de mistérios. Ela adorava ler e sua autora favorita era Agatha Christie. Estudando em Campinas, ela só retornava à casa de seus pais em São Paulo neste período, e quando chegava em casa, só queria estar ao lado de seu querido pai. Seu João, como todos o chamavam, trabalhou duro durante a vida inteira. Ele sempre quis poder dar à sua única filha, a chance de fazer uma faculdade e tornar-se uma profissional da área de comunicação, coisa que ele sabia ser o seu grande sonho. No pouco tempo que duravam as férias, ela o ajudava em sua loja de aviamentos, que era sua única fonte de renda. Como a loja abria de domingo a domingo, raramente ele conseguia descansar, mas desta vez ela resolveu que iria faze-lo viajar pelo menos por uma semana, para relaxar e aproveitar a chance ver novas paisagens e viver novas emoções. Eles tinham parentes em Minas Gerais e foi para lá que Eliana comprou passagens de avião, para que a viagem não fosse cansativa, nem para ele, nem para a mãe dela que depois de muitos argumentos contra o passeio, resolveu ir também. Num sábado à tarde, eles foram para o aeroporto e ela os acompanhou, ficando no saguão até a partida do avião em que eles iriam embarcar. Seu velho pai, aos sessenta e cinco anos, não demonstrava cansaço. Ele parecia que tinha cinqüenta anos de vida. Sua mãe, mais jovem dez anos que seu pai, parecia muito mais velha que ele. Na hora da despedida, entre muitas recomendações a Eliana sobre como tocar o negócio na ausência dele, eles trocaram beijos e abraços quando anunciaram a partida de seu vôo. Com lágrimas nos olhos, sabendo que iria sentir uma saudade enorme de seus pais, ela sabia que a presença que mais iria lhe fazer falta era a de seu pai. Desde pequena ela foi muito apegada a ele e quando vinha para casa nas férias, estar ao lado dele mesmo que fosse na loja o dia todo, era a coisa que ela mais gostava de fazer. Enquanto o avião taxiava pela pista lateral rumo a pista principal para decolar, Eliana o acompanhava com os olhos, mas na verdade, ela estava mesmo era relembrando os bons momentos vividos ao lado de seu pai.

Era comum ela ficar com ele na lojinha até a hora de ir para a escola e ela ficava impressionada pela maneira com que ele se relacionava com todos os clientes, amigos e conhecidos do bairro. Não havia um momento sequer que em seus lábios não houvesse um sorriso. Sempre tinha uma palavra amiga para aqueles que o procuravam com algum problema pessoal. Seu João era amado por todos que o conheciam, sem exceção. Quando finalmente o avião entrou na pista central e começou a rodar por ela, ganhando velocidade para levantar vôo, ela acenou para eles, mesmo sabendo que talvez nem pudessem vê-la a tamanha distancia. Contudo, um aperto em seu coração fez com que ela se sentisse aflita ao ver a aeronave já em pleno vôo e ganhando altitude. Eliana colocou a mão no peito, como se agindo daquela forma ela conseguisse se livrar da angústia que a afligia. Sem conseguir enxergar mais o avião, ela dirigiu-se para o estacionamento onde deixou seu carro e no caminho ela se lembrou de que seu querido velho havia lhe dito para passar num supermercado e levar algumas coisas para ela se alimentar direito. Ele, ao contrário de sua mãe, preocupava-se com ela em todos os detalhes. Seu João tinha por sua filha um amor imenso. Era algo característico dele e mesmo que sua mãe brigasse com ele, dizendo que ele não tinha que "melar" demais Eliana, ele sempre fez ao contrário do que ela lhe dizia. Ela recebeu de sua família uma educação como poucas. Aos vinte e um anos de idade, ela era uma jovem responsável, educada, ativa, inteligente e que havia aprendido com seu pai que o amor é o maior tesouro deste mundo. Valorizar a família, colocando-a em primeiro lugar, sempre foi para ela a sua maior preocupação. Dona. Neide nunca foi de demonstrar sentimentos. Nunca se preocupou em tratar a filha com carinho como seu pai o fazia. Ela gostava de sua filha do jeito dela. O amor que sentia por Eliana também era imenso, mas demonstrar isto a ela, não era de seu feitio. Para ela, haviam outros valores que mereciam estar em primeiro lugar. Uma pessoa extremamente minuciosa, exigente e um tanto materialista, Dona. Neide só falava em economizar.

Desperdício para ela era crime e cada vez que seu pai fazia alguma pequena extravagância, era motivo para discussão. Seu João como sempre, não revidava. Ele permanecia inalterado ao ouvir sua mãe nervosa criticando tudo que ele fazia. No fundo, no fundo, ele se sentia muito mal com a maneira como ela o criticava, mas achava que era melhor se calar para não piorar a relação dos dois. Muitas vezes ela dizia que por não ter muito estudo, ele era uma pessoa sem visão da vida. Que sua falta de instrução fazia dele uma pessoa sem futuro, sem perspectivas de progredir financeiramente. Seu João ouvia sempre critica após critica e sempre guardou para si seus sentimentos a respeito disto, mas desde que Eliana cresceu, ela começou a perceber o que acontecia entre os dois. Certa feita ela quis conversar com sua mãe a respeito da maneira como ela tratava seu pai e ela simplesmente se recusou a falar sobre o assunto, dizendo que já havia dado a ele toda a sua vida em troca de muito trabalho e sacrifício sem esperança de terminar seus dias em uma situação melhor do que a que se encontravam. Após muito argumentar, Eliana acabou compreendendo que aquele era o jeito dela. Que ninguém iria conseguir fazer com que ela mudasse sua personalidade àquelas alturas de sua vida. Ao sair do supermercado, ela encontrou um amigo de seu pai que perguntou por ele e quando soube de sua viagem, abraçou Eliana cumprimentado-a por ser tão boa filha. Disse ainda, que seu pai era um homem como poucos neste mundo. Uma pessoa que tinha uma índole impecável e que merecia ter pelo menos um pouco de paz e descanso, após trabalhar até 15 horas por dia atrás do balcão de sua loja. No caminho ela ainda sentia que alguma coisa a incomodava, mas ao chegar em frente à sua casa, já havia alguns fregueses esperando para ser atendidos e ela nem entrou em casa, abriu a porta da loja que ficava no andar térreo do sobrado onde moravam, e trabalhou sem parar até quase 8 da noite. Cansada, ao fechar a loja ela subiu e foi tomar uma banho. Ao sair do banheiro, dirigindo-se para o quarto pelo corredor, ela parou em frente a uma foto de casamento de seus pais que estava pendurada na parede. Os dois estavam abraçados. Seu pai vestia um terno preto e sua mãe um vestido de noiva muito lindo, simples, mas de um encanto raro hoje em dia. Eles estavam sorrindo. Sua mãe nem de longe parecia a mulher de agora. Seu pai pelo contrário, tinha no olhar o mesmo brilho. Era como se a luz que ela sempre viu em seu velho fosse uma coisa que sempre existiu nele. De alguma, forma ela ficou preocupada em como eles estariam ao desembarcar em Belo Horizonte. Eliana esperou até uma hora depois do horário previsto para a chegada do vôo e ligou pelo celular. Seu pai foi quem atendeu.

Como sempre, a ligação de amor que sempre houve entre eles falou mais alto que tudo. Ele disse que estavam bem e que iriam tomar um taxi até o metrô e através dele, chegariam ao local marcado para encontrar com seus tios. Depois de pedir a ele que tomasse bastante cuidado e desse um beijo em sua mãe, ela desligou e foi providenciar algo para comer. A noite passou rápido. No dia seguinte ela abriu a loja bem cedo. Trabalhou por todo o dia, mas estava sentindo o mesmo aperto no coração. Era uma angustia inexplicável que a atormentou desde que eles partiram. Durante dois dias ela tentou falar com eles pelo celular e pelo telefone fixo de seus parentes, mas não conseguiu. Eliana já estava ficando muito apreensiva. Não era normal ficarem sem dar noticias assim. No terceiro dia, já pensando em largar tudo e ir para Belo Horizonte, de repente um taxi parou em frente à sua casa. Era sua mãe. Quando ela a viu descer só do veículo, seu coração disparou. Ela saiu da loja e foi de encontro à sua mãe e sem mesmo perguntar como ela estava, Eliana perguntou pelo seu pai. Sua mãe, sem ter nos olhos uma lágrima sequer, disse a ela que seu pai estava morto. O chão pareceu desaparecer debaixo de seus pés. Ela quase desmaiou. O desespero tomou conta dela e tudo que conseguiu, fazer foi perguntar como aconteceu. Literalmente sentada na calçada aos pés de sua mãe, ela a ouviu dizer que tudo foi muito rápido. Que estavam numa estação do metro e plataforma estava cheia de gente, pois era horário de pico. Disse que ele estava segurando a mão dela e de repente ele a apertou. Contou que ele não disse nada. Apenas a olhou nos olhos e caiu morto bem aos seus pés. Indignada, ela ainda disse que foi obrigada a ficar quase uma hora a espera da policia local. Que foi uma situação muito desagradável ter sido obrigada e acompanhar o corpo dele até o IML e ainda ter que esperar muito tempo para receber os objetos que tiraram de seus bolsos. Se pelo menos tivessem algum valor! Ela disse. Mas não! Ela completou. Era apenas sua carteira com seus documentos pessoais e nada mais. Não acreditando no que estava ouvindo, Eliana desabou.

Ela chorou copiosamente por muito tempo. Enquanto isto os amigos e vizinhos foram se aproximando para saber o que tinha acontecido. Inabalável, Dona Neide dizia a todos que não era nada demais. Que seu marido havia morrido, afinal, todos se algum dia. As pessoas ficaram indignadas com a maneira como ela falava de seu próprio marido. Um homem que para todos era um santo por agüentar calado todas as críticas e absurdos que ela lhe dizia na frente de sua filha e de qualquer um. Quando Eliana se recuperou um pouco do choque, começaram-se os preparativos para receber o corpo e para os demais tramites para o enterro. Foram momentos muito tristes porque o corpo mal chegou e já teve que ser enterrado. Após o enterro, ela e sua mãe voltaram para casa, e quando chegaram lá, a primeira coisa que ela disse a Eliana, foi que tinham que abrir a loja. Que não estavam em condições de ficar mais nem um minuto com o seu negocio fechado. Anestesiada com os acontecimentos ela disse à sua mãe que tudo bem. Que só iria tomar um banho e desceria para abrir a loja. Quando ela desceu, antes de abrir a porta para os clientes, ela quis ficar um pouco a sós e relembrar os momentos em que viveu junto com seu velho pai. Andando pela loja, ela passava os dedos em tudo aquilo que ela sabia que ele tocava ha todo momento. O talão de notas fiscais, a calculadora, sua caneta entre tantas outras coisas. Olhando para os objetos, ela pensava que nunca mais ele os tocaria. Que de agora em diante seriam utilizados por outra pessoa qualquer. Lagrimas escorriam de seus olhos. Era uma dor imensa que parecia partir seu coração. Em dado momento ela se dirigiu para o deposito que ficava no fundo da loja. Era um cômodo pequeno que guardava o estoque composto de poucas mercadorias. Num canto havia uma velha escrivaninha que ele usava para fazer seus pedidos. Eliana sentou-se na cadeira em frente ao móvel e começou a abrir as gavetas. Uma por uma, olhando tudo que estava dentro delas. Quando abriu a ultima gaveta, bem no fundo dela, por detrás de muitos outros papeis que estavam lá, Eliana viu uma pequena caixa de papelão. Era uma daquelas caixas de sapatos de criança. Não muito grande pois cabia tranqüilamente na gaveta. Mesmo estando passando por maus momentos, sem perceber que o estava fazendo, ela se lembrou das historias que lia nos livros de Agatha Christie. O que poderia haver naquela caixa? Talvez documentos antigos. Quem sabe algum dinheiro. Por outro lado, poderiam muito bem ser dividas a serem pagas que estavam guardadas lá. "O mistério da caixa de sapatos"! Ela pensou.

Como nas historias que ela adorava ler, onde geralmente os personagens principais eram o inspetor Hercule Poirot ou Miss Jane Marple, alí, bem na sua frente, havia um mistério a ser desvendado. Ansiosa, ela cortou os barbantes que amarravam a tampa na caixa. Lentamente ela a abriu. Inconscientemente desapontada com o que viu dentro dela, Eliana suspirou fundo. O que havia lá nada mais eram do que recortes de jornais e revistas. Mas espere um momento! Ela pensou. Por que seu pai guardaria recortes de jornais e revistas? Para que? Curiosa ela começou a ler os recortes um por um. Todos sem exceção, eram sobre lançamentos de livros de um autor do qual ela nunca tinha ouvido falar antes. Nenhum dos jornais ou revistas eram de São Paulo. Todos eram de outros estados e até mesmo de alguns países vizinhos. J.A.A. era o pseudônimo do escritor. Intrigada, ela tentava tirar suas próprias conclusões a respeito daquilo, mas alguma coisa ainda faltava. O que teria seu velho e amado pai a ver com tudo aquilo? A caixa estava cheia de recortes e depois de tirar um por um para ler, ela viu que no fundo havia um envelope amarelado pelo tempo. Uma pista talvez? Quem sabe não seria a chave para desvendar "O mistério da caixa de sapatos"? Tremula, ela pegou o envelope. Ao abri-lo lentamente, seu coração começou a bater mais rápido. Por que ele estaria batendo assim? Era apenas um velho envelope. O que poderia conter que pudesse lhe causar algum mal? Bobagem! Ela falou em voz alta. Dentro dele havia uma carta e logo nas primeiras linhas, ela reconheceu a letra de seu pai. Quando ela começou a ler o texto, ela percebeu logo na primeira frase, que a carta era dirigida a ela mesma. Eliana estremeceu. Um nó que se formou em sua garganta a sufocava, mas assim mesmo, ela continuou.

"Filha, se um dia você encontrar esta carta, depois que eu já não mais estiver por aqui, saiba que sempre quis lhe contar um segredo que guardei por muitos anos. Algo que não pude lhe contar com medo de que sua mãe soubesse. Quando eu era mais jovem filha, gostava muito de escrever. Escrevia contos, crônicas e poemas só pelo prazer de escreve-los. Sua mãe sempre foi contra e dizia que aquilo era perda de tempo. Que uma pessoa como eu, que não tem muita instrução, nem deveria tentar escrever porque só iriam sair besteiras, e pior ainda, cheias de erros de ortografia. Muito triste pelo fato dela não me apoiar no que eu mais gostava de fazer, eu sempre escrevia escondido. Um dia sem perceber, deixei um rascunho de um conto que estava escrevendo em cima do balcão da loja e ela achou. Foi um dos dias mais tristes de minha vida. Na frente dos clientes ela me disse que eu deveria me preocupar em fazer algo que nos trouxesse mais dinheiro. Não com besteiras como escrever. Que mesmo eu sabendo que não tinha condições nem sequer de tentar, eu ainda teimava em faze-lo. O que seguiu nos próximos dias, foram algumas noites sem dormir. Uma dor profunda que invadiu meu coração depois de tudo que ela falou. Eu sempre me dediquei totalmente a ela e a você filha, mas parecia que tudo aquilo que eu fazia não tinha o menor valor. Sempre fui um homem honesto, trabalhador e fiel a ela como poucos são neste mundo. Mas tudo que parecia interessar a ela era que nossa vida financeira se tornasse melhor. O que eu sentia nunca foi importante para ela, tudo que realmente importava, eram os bens materiais. Inconformado, depois de algumas semanas sem escrever eu resolvi recomeçar. Quando eu escrevia parecia que eu me distanciava de todos os males do mundo. Em minhas historias eu criava mundos diferentes. Neles o ser humano era melhor. Dava mais valor ao lado sentimental e espiritual. Depois que terminava de escrever, relendo as histórias, eu mesmo gostava muito do que lia. Era como se o autor não fosse eu mesmo. Chegava a me emocionar com as situações, sentimento e sensações vividas pelos personagens. Assim, tendo na literatura uma válvula de escape para minha tristeza e ressentimento pelas criticas, pela falta de apoio e compreensão de sua mãe, eu nunca mais parei de escrever. Certo dia esteve na loja um rapaz muito jovem que no meio de uma conversa sobre uma mercadoria, ele mencionou que era escritor. Eu disse a ele que também gostava de escrever e ele ficou muito interessado quando eu lhe disse sobre o que eu gostava de escrever. Apenas para satisfazer a curiosidade dele eu lhe mostrei um pequeno conto que escrevi. Com lágrimas nos olhos após ler a minha historia, ele me disse que há muito tempo não tinha lido na igual. Que meus textos eram de ordem reflexiva e que havia muitas pessoas no mundo que iriam adorar poder lê-los. Imagine! Eu disse a ele. Quem iria querer ler o que escrevo, tendo como inspiração os meus próprios sentimentos? Olhando em meus olhos, ele me disse que foi exatamente por isto que ele se emocionou. Naquele instante filha, eu não conseguia acreditar que alguém pudesse falar tão bem sobre o que eu escrevia. Afinal, sua mãe nunca gostou e sempre me criticou por faze-lo. Ficamos amigos e ele passava na loja de vez em quando. Um dia eu lhe disse que não escrevia mais porque tinha medo que sua mãe descobrisse. Que tudo que eu mais queria era viver em paz. O jovem rapaz me disse que eu não deveria agir assim. Que eu não poderia privar o mundo de ler meus pensamentos. Disse também que havia falado sobre mim a um editor amigo e que ele ficou muito interessado em ler algo escrito por mim. Pediu que eu lhe desse um de meus contos para levar e mostrar ao editor. Eu disse a ele que não gostaria de fazer isto, porque na verdade, se ele gostasse, não passaria disto. Que eu nunca iria deixar ninguém publicar um texto meu para correr o risco de sua mãe descobrir. O rapaz sorriu e disse para eu não me preocupar. Que os autores raramente usam seu próprio nome. Que usam pseudônimos para publicar suas obras e que assim ela não iria saber. Pois é filha. Foi assim que seu pai se tornou J.A.A. o autor de dezenas de contos publicados em livros por algumas editoras, assim como também em jornais e revistas. Perdoe-me por ter escondido isto de você também filha, mas eu não queria ter que sofrer mais com as críticas de sua mãe. De seu pai que te ama muito filha, nunca se esqueça disto."

Enquanto Eliana estava lendo a carta, parecendo ouvir a voz de seu velho pai, ela se perguntava o porque dele não ter contado a ela. Eles sempre foram tão amigos. Tão chegados que eram um ao outro. Mas lembrando da forma como ela presenciou sua mãe desmotivando seu velho por varias vezes na vida, ela compreendeu que ele tinha realmente medo que de alguma forma ela soubesse. Relembrando a fisionomia de seu velho, ela pode imaginar como ele deve ter ficado feliz por ter tido seu trabalho lido e reconhecido pelo mundo literário. Mas também imaginou como ele deve ter ficado triste por ter que carregar com ele aquele segredo. Um segredo só agora desvendado e que estava escondido num lugar tão fácil de ser achado, mas que sua mãe nunca encontrou. Talvez tenha sido melhor. Ela nunca demonstrou ter sentimentos. Talvez até fosse uma pessoa capaz de senti-los, mas pela forma como ela agia para com seu pai, para com ela e para com outras pessoas, sua mãe traçava seu próprio destino rumo à solidão.

Depois de beijar aqueles recortes por muito tempo, dizendo mentalmente ao seu pai que ela o amava muito, Eliana falou em voz alta, para quem quisesse ouvir, que ela lhe dava os parabéns. Que ela tinha orgulho de ser a filha do grande escritor que ganhou o coração de milhares de pessoas, sem poder se identificar por medo de complicar sua relação com sua mãe. Eliana colocou os recortes na caixa. Amarrou a tampa com o mesmo barbante e a colocou de volta na gaveta. Como sua mãe queria, ela abriu a loja. Trabalhou até certa hora da noite e depois fechou tudo e subiu. Quando ela entrou na sala, sua mãe estava vendo TV e era hora do telejornal. De alguma forma, mesmo não estando interessada na reportagem que estava passando, ela se sentou um pouco para assistir. De repente, surgiu na tela uma chamada de atenção para uma reportagem especial. Sem acreditar no que estava vendo, ela viu uma foto de seu pai sendo mostrada na tela da TV. O repórter anunciava a morte de seu velho, dizendo que havia falecido o grande escritor J.A.A. que era o pseudônimo de João Alves de Andrade, paulista nascido na capital. Um homem de origem simples, mas devido ao seu infinito conteúdo interior, se tornou um dos maiores escritores do país. O representante da editora que publicava seus contos disse na entrevista ao repórter que iriam publicar um livro inédito escrito por seu pai. Sua mãe estava muda ao seu lado. Não movia um músculo sequer. Assistia a tudo como se aquilo não representasse nada para ela. Eliana chorava e sorria ao mesmo tempo. Seu coração batia emocionado e feliz. O editor falou ao repórter que em primeira mão, ele iria revelar o título do livro e ela não se conteve e chegou mais perto da tela para ouvir melhor. Com um ar solene, ele disse que o título do livro que iria ser publicado na semana seguinte iria ter o título de "O mistério da caixa de sapatos." A emoção foi demais. Eliana sentiu as pernas bambearem. Quando ela percebeu, estava sentada no tapete em frente a televisão. Com as mãos na cabeça ela pensava em como tudo aquilo poderia ter sido tão diferente. Que seu velho poderia ter feito o que gostava abertamente e poderia ter tido o apoio e reconhecimento de sua capacidade intelectual por parte de sua mãe. Ainda atordoada ela virou-se para dizer alguma coisa a ela. Ao olhar em sua direção, pareceu que ela estava dormindo. Que como sempre, ela não tinha dado a menor importância quando o assunto era os sentimentos de seu pai.

Devagar, Eliana quis acorda-la chamando por ela, mas foi em vão. Ela se levantou do lugar onde estava e a tocou com as mãos. Desesperadamente ela precisava falar com ela sobre seu querido pai. Não houve resposta ao toque de suas mãos. Quando tentou levantar o queixo de sua mão com a mão ela deu um grito. Dona. Neide havia partido. Enquanto ela tentava absorver a mais uma dura realidade, em algum lugar lá no céu, ela estava se encontrando com seu pai. De braços abertos, com o mesmo sorriso de sempre, ele a recebeu. Ao caminhar em sua direção, quando chegou bem perto dele, a primeira coisa que ela fez foi lhe pedir perdão. Com um abraço carinhoso e um beijo na testa, ele disse baixinho, que quem ama não precisa pedir perdão. Pela primeira vez em muito tempo, ela sorriu para ele. Juntinhos eles foram subindo uma escadaria infinita rumo a um plano superior, e em determinado ponto, eles sumiram. Eliana, na sala de sua casa e com a cabeça de sua mãe apoiada em seu peito, lhe pediu perdão. Perdão por não tê-la compreendido. Por não ter se esforçado mais para se aproximar dela e viver uma vida melhor. Com amor, com carinho e com compreensão. De olhos fechados, abraçada ao corpo de sua velha mãe, de repente ela ouvi quando sua mãe lhe disse, que quem ama, não precisa pedir perdão. Depois do enterro, Eliana fez as malas. Deixou tudo em ordem. Contas pagas, anúncio feito no jornal vendendo as propriedades e deixando os trâmites da venda, nas mãos de um corretor. Antes de partir, ela foi até a editora de publicava os trabalhos de seu pai e o editor muito feliz por conhece-la pessoalmente, quis leva-la até uma grande livraria no centro da cidade para ver uma exposição dos livros escritos por ele, como uma homenagem especial. Quando chegaram até lá, no centro daquela imensa livraria, havia uma prateleira imensa, completamente cheia com exemplares do seu ultimo livro. Ao ler o título, ela não pode se conter e as lágrimas rolaram livremente em seu rosto. Em volta da prateleira havia uma multidão que queria ter em casa, a qualquer preço, o seu exemplar. Sem saber, ou sem ter consciência disto, quando seu pai colocou os recortes naquela caixa de sapato e a escondeu no fundo da gaveta, talvez ele já estivesse bolando o enredo e a trama do seu ultimo livro, "O mistério da caixa de sapatos."

Autor:José Araújo

Fotografia: Caixa de Sapatos

4 comentários:

ISAULINA disse...

José Araujo eu amei a história da caixa de sapato,
eu viajei neste conto,
Mais a unica coisa que eu não gostei foi o seu João ter se deixado dominar pela mulher, ele tinha que senti esta alegria em vida e não depois de morto, esta cero que a filha ficou feliz mas ele não morreu feliz, porque era oprimido pela mulher, então eu acho que ele não viveu ele vejetou, porque viver dominado por uma pessoa ninguém merece rsrs
Eu acho que ninguém tem o direito de dizer o que você pode fazer e o que não pode, cada um tem que ter a sua liberdade de fazer o que bem quizer,
Coitado do seu João viveu sendo dominado pela mulher e sem contar com as palavras negativas dela,
José araujo é só você mesmo para fazer uma história tão linda!!
Eu amo vim aqui e fazer parte dos seus contos, imagens e reflexões
É como uma terapia para mim
Parabéns meu amigo querido você é o maior e unico escritor que eu conheci em toda a minha vida, eu te desejo toda a felicidade do mundo que você seja bem sucedido em todos os aspctos da sua vida porque você merece beijo querido e amado amigo

mdb disse...

Eliana era para o pai sua válvula de escape, pois era com ela que ele podia demonstrar carinho e amor. Lógico que sentia isso por ela, pois ela representava tudo de bom e de bem em sua vida. Eliana amava aquele pai com todo seu coração de filha educada e amorosa.
Sua mãe era uma senhora que sabia cuidar da casa e tudo que era seu dever de mãe e esposa, mas não era de demonstrar carinho ,afeto e amor pelo marido João e pela filha. Com certeza os amava muito mas, não demonstrava. Era uma mulher que só pensava em trabalho, melhorar de vida e isso era sua cobrança diária ao marido.Eliana quando de férias resolveu dar um presente aos dois, tirando-os da rotina com uma viagem.
Mal sabia que seria a última vez que veria o pai no aeroporto embarcando com a esposa.
O aperto no coração era o sinal de alguma coisa triste, mas jamais poderia pensar que seria a morte do pai, tão amado por ela. Aquela falta de notícias...
A mãe apareceu pessoalmente para dar tão trágica notícia e com uma frieza, que não parecia normal em um ser humano.Dona Neide era assim, prática até na hora da dor. Já Eliana desmoronou e com razão, era a dor mais doída que sentira em sua vida.
A mãe nem luto colocou para a abertura do estabelecimento do marido, fez a filha logo abrir depois de tudo consumado.
Quando foi para abrir Eliana deu um tempo dentro da loja para poder recordar do pai, olhando cada pertence dele, passando à mão como se estivesse acariciando o próprio pai. Foi então que resolveu olhar tudo dele que encontrou sua escrivaninha onde ele anotava os pedidos, guardava os blocos de notas fiscais e muitas outras coisas que Eliana iria descobrir naquele momento de solidão e lembranças do velho e amado pai.
Foi na última gaveta lá no fundo, que ela achou uma caixa de sapato de criança, pois outra na caberia na gaveta.
Quando abriu a caixa achou estranho, porque havia muitos recortes de jornais e revistas inclusive de outros países.Interessante era que nos recortes falava de um escritor anônimo que usava o pseudônimo de J.A.A., quem seria e porque estava ali guardado na caixa e amarrado com barbante?
Continuou a busca e achou um envelope já velho devido ao tempo e abriu-o, achando nele uma carta.
Ficou espantada pois a mesma era endereçada a ela. Abriu e começou a ler.
O pai ali contava seu amor pela literatura e seu dom de escrever e que a esposa um dia achou seu conto leu e disse que aquilo era perda de tempo. Não foi sensível ao conto que o marido escreveu e ainda o achou incapacitado para tal coisa , isto é,para ser um escritor. Achando-o sem estudo para tal. (Não sabia que primeiro nasce o dom que Deus dá e com ele pode-se ir longe.)
Explicou que escondera da filha, pois tinha medo da mãe descobrir e ele não era pessoa de provocar conflitos em família, já que a esposa não acreditava na sua verdadeira profissão que tinha que manter em segredo.
Tinha tudo explicado como conseguiu publicar os livros através de um escritor que, aparecera certo dia na loja e começaram a conversar e ele mostrou um escrito que o visitante chorou de emoção de tão lindo. Um dia o mesmo fez um comentário com um editor e ele pediu que enviasse a ele um trabalho e dali em diante começou a ser lançado os livros de J.A.A.
Eliana ficou alegre e ao mesmo tempo triste por não ter compartilhado com o pai esse lado tão lindo da vida dele, pois encontraria na filha uma fã incondicional. Guardou tudo como antes e foi abrir a loja, trabalhando até a noitinha, quando parou e foi descansar.
E naquele dia ainda teria fortes emoções, quando viu na TV o comentário da morte do escritor mais famoso nada menos que seu amado pai, foi quando a esposa também viu. A filha emocionada foi falar com a mãe e descobriu que com a notícia da TV sua mãe havia partido ao encontro do esposo no céu.
Eliana resolveu vender tudo deixando em uma mobiliária. Foi na Editora e conheceu o editor de seu pai que a levou para conhecer a exposição que fizera a ele e viu o título de seu último livro:O Mistério da Caixa de Sapatos.
Devemos sempre respeitar os dons das pessoas e o que ela gosta, pois não somos obrigados a ter o mesmo gosto, mas também não temos o direito de cortar o rumo que a pessoa quer tomar na vida, pois cada um tem o direito se ser o que quiser e não ser comandado por outra pessoa, ao ponto de decidir por ele o que deve ser na vida. Este conflito acontece muito. É um querer sonhar para o outro. Cada um tem seu sonho e deve lutar por ele livremente.
José li hoje de madrugada e só agora pude fazer o comentário dessa maravilhosa obra sua meu amigo, que não me surpreende mais, pois só espero de vc contos lindos como esse. Eu agradeço a Deus por ter colocado você em minha vida. Jose você é O AUTOR...
Beijos meu querido amigo. Amo você viu?
Marilene Dias

Nara disse...

Parabéns, José! Lindíssimo seu conto, aliás, como tudo o que vc escreve. As palavras saem, ou melhor, jorram de sua alma com uma beleza inexplicável. Amei "O mistério da caixa de sapatos", pois a relação entre pai e filha me fez viajar no tempo e no espaço lembrando da minha relação com meu amado pai, que hoje se encontra em outra dimensão,mas que nem por isso deixa de continuar vivo em meu coração.
Só um coração meigo e repleto de amor consegue escrever algo tão verdadeiro!
Adorei, amigo!
Obrigada por vc existir e por permitir que eu venha aqui sempre me deliciar com seus escritos.
Beijos pra vc, querido amigo e escritor!

SONIA disse...

Lindo conto.
Quando se fala sobre relacionamentos...a gente volta sempre ao tempo.
Amei essa caixinha de sapatos.
Bjsss..milll