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domingo, 9 de maio de 2010

LÁGRIMAS DE DEUS NO CÉU DO SERTÃO...


O sol ardia e o calor era insuportável. Parecia que aquele dia estava sendo o mais quente do ano. A seca no interior do nordeste brasileiro era a pior das ultimas décadas. Severina com o olhar distante, dizia a si mesma que se não chovesse logo, não sobraria uma única alma viva para contar a historia de fome, de sede e de muito sofrimento naquele lugar. Não chovia há muito tempo. As cabras estavam morrendo e as poucas vacas que ainda estavam de pé, não produziam leite. Os animais estavam magros e fracos. As pessoas tentavam sobreviver e salvar seus filhos da morte certa como podiam. Os homens estavam sendo obrigados a caminhar longas distancias para conseguir trazer água, mas aos poucos, os outros vilarejos mais próximos tinham ficado sem um a gota de água se quer. As prefeituras tinham que enviar caminhões pipa com o liquido vital para matar a sede da população.

A coisa estava tão ruim que foi preciso fazer racionamento de água até mesmo dentro de casa. Quando o caminhão da prefeitura trazia água até cidadezinha mais próxima, Severina e seu marido Ericlênio iam buscar a fonte da vida em galões de alumínio que antes eram utilizados para carregar o leite das vacas para vender. Quando retornavam ao seu pequeno lar, o pouco de água que conseguiam trazer, era guardada num latão com tampa e que tinha uma torneira improvisada que seu marido colocou nele e, que eles deixavam debaixo de um cajueiro, o único lugar mais fresco que encontraram para que a água não se evaporasse com o calor. De qualquer forma, o cajueiro não ficava muito próximo à casa deles e era preciso uma boa caminhada para chegar lá. Não que fosse exageradamente longe, mas devido ao terreno irregular, da janela da cozinha só se podia ver os galhos mais altos da arvore. Naquele dia Severina achava que não iria suportar aquele calor.

Ela e sua família já tinham passado por maus bocados, mas aquela seca estava sendo demais para qualquer um. Sem chuva, sem mandiocas para fazer farinha, sem o leite das vacas, já havia quase nada para comer e principalmente, logo não haveria absolutamente nada para alimentar Minguinho, seu filho de apenas seis anos de idade, era o que mais lhe doía no coração. Ericlênio havia saído e ela estava na cozinha raspando um pedaço de rapadura para juntar com um resto de farinha de mandioca e dar ao seu pequeno filho. Olhando para fora ela parecia olhar, sem nada ver. Havia uma tristeza enorme naqueles olhos antes tão alegres e esperançosos. A seca no sertão era sempre implacável, mas agora, depois de tanto ouvir falar pelo rádio sobre o aumento da temperatura do planeta, Severina já estava acreditando que o fim de todos estava próximo.

Em dado momento algo chamou sua atenção e forçando um pouco a vista, ela viu seu pequeno filho caminhando em direção a onde estava o cajueiro. Ela não teria dado muita atenção ao fato dele estar andando pelos arredores, o que era usual, mas foi o jeito como ele estava caminhando que a deixou intrigada. Ela parecia estar indo até onde estava o cajueiro, mas indo com alguma missão a ser cumprida, não zanzando de lá para cá como era seus costume. O menino desapareceu das vistas de sua mãe, demorou um pouco a reaparecer, mas quando o fez, vinha andando com muito cuidado e ele vinha com suas mãos juntas, como se formando uma concha e ele trazia nelas algo que não dava para ver de longe. Severina ao vê-lo dirigir-se para os fundos da casa achou que poderia ter encontrado alguma coisa que o interessou e acabou por não se preocupar mais com o assunto.

Contudo, minutos depois lá ia ele de novo. Ao vê-lo andando desta vez, mais rápido e decidido na direção do cajueiro, ela resolveu averiguar melhor. De novo ele desapareceu de suas vistas, mas minutos depois ele vinha retornando e com suas mãos juntas, em forma de concha, trazia algo e seguia andando cuidadosamente na direção dos fundos da casa. “Este menino está aprontando alguma coisa!” Ela pensou. Com aquele calor miserável, se nem os animais mais fortes como os bois e as vacas estavam aguentando, como poderia um garotinho franzino e subnutrido como seu pequeno Minguinho sobreviver se abusasse muito de sua sorte? O que ela não esperava, era que iria aprender uma grande lição, testemunhando o único milagre que ela iria ver acontecer em sua vida.

Preocupada e curiosa, ela deixou o que estava fazendo e saiu discretamente pela porta dos fundos e sem que ele percebesse, ela o seguiu quando ele se dirigiu mais uma vez em direção ao cajueiro. Ao chegar lá, Severina viu quando ele se ajoelhou em frente ao tambor onde guardavam a pouca água que conseguiam e juntando as duas mãos, ele ficou aguardando a água cair nelas, gota por gota até que enchesse e depois, cuidadosamente ele se levantou, tentando manter o equilíbrio para não perder nem uma gotas e pôs-se a caminhar de volta para casa. Ela se escondeu bem para que ele não a visse e quando ele já estava ha alguma distancia, ela se aproximou do tambor e constatou que havia um pequeno vazamento água na torneira e o liquido precioso e vital se perdia gota por gota, sem parar. Severina virou-se e seguiu pequenino de volta para casa e como adulta, mais rápida do que ele, ela chegou primeiro cortando caminho para não ser vista e o esperou.

Quando ele chegou, foi direto para o quintal dos fundos e se dirigiu para onde havia o cercado onde ficavam as cabras, passou por baixo dele, se equilibrando com o maior cuidado e foi até onde haviam algumas cabras prostradas no chão, quase morrendo de fome e de sede e quando ela viu que ele ia passar junto ao velho bode, o mais bravo e perigoso que tinham e que ainda estava de pé e com forças suficientes para atacar Minguinho, seu coração quase parou. Se gritasse o bode poderia se assustar e ataca-lo, se ficasse quieta, talvez fosse pior, mas o que aconteceu a deixou sem ação. O velho bode olhou para o menino, balançou a cabeça devagar como se faz quando se concorda com alguma coisa, deixando-o passar e o acompanhou até onde estava um pequeno cabritinho. O pequenino era pele e osso e nem mais conseguia se levantar. Minguinho chegou perto dele, abaixou-se e com o maior cuidado aproximou suas mãos com a água que trazia nelas da boca do animalzinho. Sem forças nem para levantar direito a cabeça, com um tremendo esforço ele esticou sua pequena língua para tocar a água e Minguinho se abaixou o mais que podia para facilitar.

Presenciando aquela cena, os olhos de Severina encheram-se de agua. Lágrimas de pura emoção rolaram livremente sem seu rosto cansado e maltratado pela seca. Que ironia. Ela pensou. Não cai uma unica gota de chuva ha tanto tempo, mas bastou presenciar o que meu filho esta fazendo, para que elas aparecessem de dentro de mim. Quando o cabritinho conseguiu lamber toda a agua que havia em suas mãos, Minguinho se levantou e saiu correndo em direção a onde estava o tambor. Severina ainda emocionada o seguiu e aguardou seu retorno no meio do caminho, escondida atrás de uma grande rocha. Quando ele vinha voltando, ela saiu de seu esconderijo e se colocou em sua frente, impedindo sua passagem. Seu pequenino filho parou, levantou os olhos que encontraram os dela e eles se encheram de lágrimas. Com a voz embargada, Minguinho disse a ela que não estava desperdiçando água. Foi tudo que ele disse e começou a caminhar de novo. Ela saiu de seu caminho. Aquela era sua missão e ele a estava cumprindo. Severina não disse nada, apenas afastou-se e deixou passar.

Quando ele passou, ela o seguiu de volta acompanhando-o de perto. Ao vê-lo se ajoelhar ao lado de outro animalzinho caído no chão, tentando fazer com que ele bebesse a pouca água que tinha conseguido trazer na concha que ele fazia com suas pequenas mãos, mais uma vez e a emoção foi maior e as lágrimas caíram de seus olhos. Vendo aquele coração maior do que ele mesmo. Tão lindo e radiante que parecia ofuscar até mesmo a luz daquele sol que estava matando tudo e a todos naquele lugar, elas foram caindo, uma a uma e então, subitamente, ao caírem, outras gotas se juntaram a elas e outras mais se juntaram cada vez mais...

Estava chovendo! Mas como? Não havia sequer uma nuvem nos céus daquele deserto no sertão! Severina atônita olhava para o céu, enquanto seu filho e os poucos animais que ainda estavam de pé pulavam de alegria; recebendo as gotas de chuva como se fosse o maior presente que tivessem recebido em suas vidas. Lentamente, as gotas que vinham do nada foram molhando tudo naquele lugar. Era um milagre o que estava acontecendo. A vida finalmente estava sendo preservada.

A natureza se encarregaria de fazer germinar novamente as sementes das plantas que morreram e tudo voltaria ao normal. Depois daquele dia Severina sempre soube que provavelmente muitos iriam dizer que milagres não acontecem realmente, que tudo foi só coincidência. Afinal tem que chover em algum lugar e que naquele dia, a chuva sem nuvens deveria ter alguma explicação cientifica.

Mas ela decidiu que não iria discutir aquele assunto, nem ia tentar. Tudo que ela sabia, era que a chuva caiu sobre o deserto do sertão salvando o bem maior, a vida, exatamente como fez Minguinho, seu pequeno grande homem. Carregando em suas mãos aquela água que estava para ser desperdiçada, pingando da torneira e caindo na areia escaldante e que estavam sendo usadas por ele, carregando-a como ele podia, fazendo uma concha com as mãos, caminhando um longo percurso, após esperar que ela enchesse suas mãos, gota por gota, sem desistir, para salvar as vidas daqueles pobres animais.

Até hoje, quando ela se lembra daquele momento de suas vidas, em estado de extrema gratidão, Severina se ajoelha no chão e com as mãos levantadas em direção ao céu, com o coração batendo rápido de tanta emoção, sabe que aquela chuva que caiu naquele dia, vinda de lugar algum, sem uma nuvem no céu, só podia ser mesmo as lágrimas de Deus, caindo dos céus do sertão, enquanto ele chorava de emoção, de orgulho e satisfação, vendo cá embaixo, Minguinho, sua pequena grande criação, fazendo o que ele estava fazendo, cumprindo sua missão sem medir esforços, com toda a força de seu coração, em nome do amor.

Autor: José Araújo

Um comentário:

Noeni disse...

Você como sempre arrasando PARABÉNS!!!